Zamiatin imaginou um dispositivo chamado musicômetro73 e nele depositou uma série de possibilidades interpretativas. No dia que o aparato seria apresentado como um grande invento do Estado, D-503 relata que, assim como tantos iguais a ele, fora convocado para uma das recorrentes palestras no auditório 112. Lá, depois de outras exposições e informações, é anunciado o aparelho capaz de realizar a “composição matemática”:
...Bastará rodar este registro para que cada um de nós produza três sonatas por hora. Que dificuldade nossos ancestrais experimentavam para obter o mesmo resultado. Só conseguiam criar mergulhando no estado da “inspiração” - uma forma desconhecida de epilepsia. E vão ouvir agora uma divertida demonstração daquilo que eles conseguiram obter - a música de Skriabin - do século XX. Esta caixa preta (no palco abriram-se as cortinas e lá estava um antigo instrumento deles). Esta caixa preta era chamada de Royal Grand, o que mostra sua natureza régia, mais uma prova de grau atingido pela sua música... (p. 22) A música antiga é, então, executada e D-503 anota seu parecer: “Música bárbara, espasmódica, mesclada com toda a vida de então, - nem uma sombra de
73 O aparelho pode ter sido inspirado pelo teremim, instrumento musical eletrônico criado pelo
mecânica racional” (p. 22). A maioria dos presentes no auditório, de acordo com sua descrição, ri. Outros, como ele, parecem ter sentido algo diferente, mas isso fica soterrado. Logo em seguida, é executada a música contemporânea do Estado. D-503 se sente aliviado e “tudo voltava a ser fácil e simples”:
Que grande prazer o meu ao escutar depois a nossa música contemporânea! (Foi escutada ao final da palestra para mostrar o contraste). Eles eram as escalas cromáticas cristalinas que convergiam em séries intermináveis... os acordes breves das formulas de Taylor, de Mac Lauren, as passagens quadradas e pesadas do teorema de Pitágoras; as melodias tristes de um movimento moribundamente oscilatório, os ritmos vivos que alternavam com as pausas das linhas de Frauenhofer... A análise espectral dos planetas... Quanta grandeza! Que regularidade inflexível! Que limitada era a música dos antigos, sem mais limitações do que uma fantasia bárbara... (p.23)
A imagem do musicômetro sintetiza uma ampla crítica à ideia de cultura industrializada. Há, por um lado, a aplicação da tecnologia disponível para atender a uma demanda específica – substituir o homem num campo que tradicionalmente expressa a criatividade e a imaginação humana74 - e, por outro, o frenesi criado pela execução da “regularidade inflexível”.
Booker (1994b) destaca que a tecnologia no Estado Unificado se apresenta de forma avançada, no entanto, “há sérias deficiências nas realizações científicas dessa sociedade futurística”, já que elas têm finalidades resumidamente operacionais:
os avanços científicos que o Estado produz são puramente instrumentais; parece não haver pesquisa científica pura, mas somente pesquisa para dar suporte a aplicações muito específicas. E essas aplicações são tipicamente devotadas para a conquista militar (como no caso do Integral) ou para manter o controle sobre a própria população do Estado. Por exemplo, a dedicação ao vidro como um material de
74 É interessante lembrar o papel central que a música possui nas utopias como forma desejável
de contemplação, distração e expressão. De More a Bellamy, a música recebe especial atenção como expressão artística privilegiada na construção de suas sociedades imaginadas. Na Utopia, de More, por exemplo, muitos momentos de prazer são dedicados à música, já que o prazer que ela oferece é gerado pelo “efeito de uma força interior e indefinível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da música” (p. 91). Em Daqui a cem anos, de Bellamy, há um sistema especialmente concebido para fazer a música chegar à casa de todos os habitantes.
construção acontece de forma tão intensa porque isso permite que os indivíduos possam ser mantidos sob constante vigilância. E uma das mais sofisticadas “aplicações” tecnológicas do Estado ocorre em áreas como o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas para prevenir pensamentos aberrantes ou para a construção de dispositivos complexos para tortura e execução de criminosos condenados (especialmente aqueles condenados de individualismo, o mais abominável dos crimes no Estado). (p. 28)
Além do musicômetro, há também o “monitor de matemática”75, lembrado
por D-503, a Campânula Pneumática feita para torturar e executar de forma eficiente e as “membranas de rua”76, dedicadas a captarem as conversas durante
os passeios. A tecnologia, como se percebe, tem essa aplicação material com objetivos interessados à manutenção do poder e se revela também nas aplicações que podem ser consideradas como tecnologias de controle social.
Esse princípio utilitarista não se resume às aplicações triviais do cotidiano. Há uma percepção da beleza que só é possível através de uma produção industrializada, repetitiva e racionalizada. Isso fica evidente na maneira como D- 503 manifesta o „seu‟ conceito do que é „belo‟: “Eu, pessoalmente, não vejo nada de bonito nas flores, da mesma forma que não vejo nada de belo em tudo que pertence ao mundo selvagem, expulso há muito tempo para além do Muro Verde. Só é bonito tudo o que é racional e útil: máquinas, botas, fórmulas, alimentos etc.” (p.50).
A representação da perfeição estética se manifesta não apenas na figura da reta, mas também na imagem do céu absolutamente azul: “Nós gostamos somente de um céu assim estéril e irrepreensível” (p.11). Isso fica ainda mais evidente quando há a comparação com o céu ao “gosto dos antigos” que era homenageado pelos poetas por suas nuvens irregulares e desordenadas. Qualquer forma de ruído ou ação imprevisível está em desacordo com o pensamento que norteia o Estado Unificado. D-503 chega a notar que a beleza
75 O protagonista dá a entender que se trata de um dispositivo elétrico equipado com alto-falantes
dedicado a “ensinar” os conteúdos na escola. No relato, ele recorda de um equipamento de “segunda mão” que recebeu o apelido de Pliapa por conta dos ruídos que ele emitia quando “começava a aula” (pp. 41-43).
76 D-503 se refere a essas membranas como “elegantemente camufladas” nos passeios públicos e
que “gravam conversas de rua para o Posto dos Guardiões, ao longo de todas as avenidas” (p. 53).
dos mecanismos que ele observa no estaleiro está na dinâmica cadenciada que eles apresentam, no “balé de máquinas”:
E depois falei para mim mesmo: por que bonito? Por que a dança é bonita? Resposta: porque não é um movimento livre, porque todo o sentido profundo da dança consiste juntamente na absoluta submissão estética, na não-liberdade ideal. E se é verdade que nossos ancestrais entregavam-se a dança nos momentos mais inspirados de suas vidas (mistérios religiosos, paradas militares) então isto significa apenas uma coisa: o instinto de não-liberdade sempre foi organicamente inerente ao homem, e a nós, em nossa vida atual, só que conscientemente... (p.12) O uso das fórmulas, dos números, das reduções matemáticas, das figuras geométricas e das equações é recorrente como síntese da beleza, do agradável e do desejável. A expressão no rosto de uma mulher – I-330 - é avaliada também a partir disso: “ela tinha um estranho e irritante X, que eu não consegui de forma alguma calcular, reduzir a uma fórmula numérica” (p. 13).
A contemplação da cidade e, por conseguinte, a noção do ideal alcançado, se dá pela percepção da ordem. A cidade, como se apresenta, é a própria revelação disso: “as ruas absolutamente retas, o vidro resplandecente das ruas, os divinos paralelepípedos das construções transparentes, a harmonia quadrada das fileiras azul-cinzas” (p. 13). Isso se torna ainda mais relevante na medida em que se contrastam as épocas. D-503 lembra de um quadro do século 20: “uma avenida, uma multidão desordenada, multicolor, confusa de pessoas, rodas, animais, cartazes, árvores, cores, pássaros...” (p. 13).
Algo que escape a esse esquematismo é considerado como uma ameaça ao ideal do Estado Unificado e solução para os distúrbios obedece a um processo lógico. Identifica-se o ruído, o dissonante, o instável. A imaginação (a fantasia, a alma) – o termo que sintetiza o último reduto do ser individual e imprevisível – deve ser extirpada da vida de cada um dos números. A Grande Operação serve para, em última instância, tornar cada indivíduo uma sonata tão matematicamente previsível quanto a que o musicômetro compõe. O Jornal do Estado afirma ao convocar toda a população:
A beleza do mecanismo vem do ritmo exato e imutável como o do pêndulo. Então e vós, que fostes alimentados desde a infância com o sistema Taylor, não vos tornastes tão exatos como os pêndulos?
Há uma pequena diferença:
O mecanismo não tem fantasia. (p.164)
Para tornar os números em peças absolutamente calculáveis, previsíveis, disponíveis e úteis bastará aplicar a “última descoberta da Ciência do Estado Unificado”: a tripla cauterização de um nódulo cerebral na região da Ponte de Varoli. Se o vacilo, a autoconsciência e o descontrole vêm da imaginação, basta removê-la. O texto do jornal finaliza a convocação: “Sois perfeitos, tais e quais máquinas, o caminho para a felicidade a cem por cento está livre” (p. 164). A beleza da regularidade inflexível das composições do musicômetro pode, enfim, ser a concepção final e única da música.