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Ao final da década de 1910, os jornais apresentavam as maiores tiragens por habitante, em países como Inglaterra, França e Estados Unidos, como jamais tiveram e, na verdade, como jamais teriam. Os diários estavam francamente incorporados à vida dos cidadãos, principalmente dos centros urbanos; havia diversos títulos disponíveis e representavam o principal canal de informações sobre os acontecimentos do mundo, dos seus países e de suas cidades67. No Estado Unificado não é diferente e o Jornal do Estado é o meio responsável pelas informações cotidianas. A primeira anotação do diário de D-503 é baseada num texto desse jornal:

Dentro de 120 dias termina a construção do Integral. Está próxima a grande hora histórica, quando o primeiro Integral subirá ao espaço cósmico. (...) Devereis submeter ao jugo benéfico da razão entre desconhecidos que habitam outro planeta - talvez ainda na condição de selvagem da liberdade. Se eles não entenderam que nós lhes levamos a felicidade matematicamente infalível, nosso dever é obrigá-los a serem felizes. Mas antes das armas experimentaremos a palavra.

Em nome do Benfeitor anunciamos a todos os números do Estado Unificado:

Cada um, que se sentir com forças, é obrigado a compor tratados, poemas, manifestos e odes ou outras composições sobre a beleza e grandeza do Estado Unificado.

Está será a primeira carga que o Integral levará.

Viva o Estado Unificado, vivam os números e viva o Benfeitor. (p. 9) Não parece haver outros jornais ou meios de comunicação no Estado. Nenhuma menção é feita nesse sentido. O Jornal é o veículo oficial68 responsável pela informação. Na verdade, é um canal de propaganda numa conformação radical e tem o propósito explícito, como se percebe na passagem acima, de

67 Afirmações baseadas nos dados apresentados no capítulo 2 desta pesquisa.

68 A exemplo, possivelmente, do que aconteceu com o Pravda, na União Soviética, a partir de

inflamar a moral dos leitores e enaltecer a figura do Benfeitor. D-503 crê cegamente em tudo o que lê e se sente tocado pelo texto. Como ele registra: “sinto que me ardem as faces” (p. 10).

É através do Jornal do Estado que são informados os tantos eventos que reúnem multidões nas praças e auditórios, seja para participar de execuções na Praça do Cubo69, do Dia da Unanimidade70 ou para que todos se encaminhem para a Grande Operação. São informes mais ou menos semelhantes à primeira citação. Há, no entanto, uma situação que revela uma aplicação curiosa sobre como a informação oficial é construída quando relata os “acontecimentos”. O distúrbio ocorrido no 48º Dia da Unanimidade é reportado no dia posterior e parte do que aconteceu até é descrito. É claro o viés oficial, mas não há um apagamento completo da realidade como acontecerá na Oceania de 1984. O

Jornal do Estado, mesmo deixando bem claro o que é o “certo” e o que é o

“errado” numa notícia, tende a “divulgar os fatos”:

Ontem celebrou-se o Dia da Unanimidade há muito tempo esperado com paciência por todos. Pela 48ª vez foi eleito por unanimidade o mesmo Benfeitor, que tantas e tantas vezes provou sua inabalável sabedoria. A cerimônia foi marcada por alguns distúrbios provocados pelos inimigos da felicidade, que desse modo privaram-se do direito de ser tijolos dos alicerces do Estado Unificado, ontem renovados. Para todos é evidente que levar em consideração seus votos seria tão absurdo como incluir uma sinfonia magnífica e heróica a tosse de alguns doentes que casualmente se encontraram na sala de concerto... (p.137)

69 A Festa da Justiça acontece na Praça do Cubo e significa, basicamente, que indivíduos serão

vaporizados – ou seja, desintegrados fisicamente, através uma técnica baseada numa grande campânula pneumática que, através da fissão, faz o sujeito virar uma pequena poça d´água e é ativada manualmente pelo Benfeitor – diante de um grande e excitado público. Na síntese de D- 503: “Significa que mais uma vez houve números que perturbaram o funcionamento da Grande Máquina do Estado, que tornou a acontecer o imprevisto, o não calculado” (p. 29).

70Há uma espécie de ritual no qual o Benfeitor é aclamado publicamente através de uma votação

que se realiza de tempos em tempos para renovar seu mandato. É o Dia da Unanimidade. Nesse dia, os números devem se manifestar publicamente através de um “sim” simbólico que servirá, novamente, como forma de ritualizar e expor a aceitação do modo de vida do Estado. D-503 acha estranho imaginar eleições, como nos tempos antigos, nas quais não se sabiam os resultados: “Edificar um Estado sobre acasos absolutamente não calculados, às cegas - o que pode ser mais absurdo? E ainda assim foram necessários séculos para se compreender isto” (p. 128). A eleição deve servir apenas para confirmar a unanimidade, não se espera nada que fuja do planificado. O protagonista anota que as “eleições têm um significado acima de tudo simbólico: lembrar que nós somos um poderoso organismo unificado de milhões de células” (p. 129). Assim, o controle se estabelece de forma mais profunda, emocional até. Em todo caso, guardiões estão espalhados entre os números prontos para garantir um processo imaculado.

Não se faz crer que a cerimônia transcorreu sem percalços. Isso é dito, é tornado público. Houve turbulência e dissenso. De alguma forma há um registro, há um documento sendo escrito sobre a história do Estado Unificado. Toda a notícia é permeada pela opinião e pela posição oficial, mas há espaço para leituras que dependam dos indivíduos. Nesse sentido, o Jornal faz ainda revelações que procuram provocar uma culpa coletiva, ao relatar os horrores que a imaginação e a fantasia de alguns homens podem provocar numa sociedade estável: “Mas, todos os dias e cada vez mais (corai o rosto) os historiadores do Estado Unificado pedem demissão para não registrar acontecimentos vergonhosos” (p. 163). Novamente se percebe o registro de uma história. De uma história que pode nem ser a ideal, que gera desapontamento e vergonha. Zamiatin parece crer ainda que o registro dos fatos é intocável e apenas, quem sabe, seu tom e perspectiva possam ser manipulados.

Os “acontecimentos vergonhosos” aos quais o Jornal se refere são os distúrbios gerados por indivíduos que não compartilham ainda da mesma consciência coletiva. O próprio D-503 relata esse mal, que começa a crescer na sua “mente adoecida”. Durante a avaliação junto ao médico, D-503 fala de suas insônias, sonhos, visões de sombras e de um “universo amarelo”. O diagnóstico: “Pelo visto formou-se uma alma em você” (p. 88).

A última transcrição de um texto do jornal no diário de D-503 radicaliza o tom de proclamação, verticalidade, imposição do temor e autoridade do papel definido para o meio:

OS INIMIGOS DA FELICIDADE NÃO DORMEM. AGARREM A FELICIDADE COM AMBAS AS MÃOS! AMANHÃ SERÃO SUSPENSOS TODOS OS TRABALHOS - TODOS OS NÚMEROS DEVEM COMPARECER PARA A OPERAÇÃO. OS QUE NÃO COMPARECEREM ESTARÃO SUJEITOS À MÁQUINA DO BENFEITOR. (p.177)71

A relação imaginada entre o jornal e os leitores parte da concepção de um receptor passivo, massificado, dócil e crédulo. Os números, como são designados e tratados os habitantes do Estado, são representados como uma máquina

composta de engrenagens. Cada cidadão é um número, é uma parte intercambiável do grande corpo social que compõe o Estado. A vida individual não faz sentido e nada do que é peculiar interessa ao todo. Como afirma D-503: “Até os próprios pensamentos se compreendem ... E é assim porque ninguém é „um‟, somos todos „um entre‟.Somos tão iguais...” (p. 14). Todos são substituíveis, são peças de uma máquina que não deve parar, que não pode mudar o ritmo por conta de humores ou ímpetos isolados. De acordo com Mattelart: “O “Meu” é imposível. Apenas o “Nós” tem direito de ir e vir. Fundidos em um só corpo com milhões de mãos, todos se orientam segundo os “Quadros das Horas”72 (p. 307).

A defesa, a crença e os argumentos que dão suporte ao conceito de que o sujeito individual não representa uma força válida como manifestação de vontades ou direitos, ora recorrem às raízes da sociedade (os “predecessores”) que culminou no Estado Unificado; ora se revestem com os dados mais objetivos e tangíveis possíveis. Num dos testes do Integral, um dos motores de propulsão é acionado acidentalmente e dez pessoas são fulminadas. D-503 relata com orgulho que nada foi alterado no processo industrial, os trabalhos não atrasaram e as operações tampouco sofreram prejuízo qualitativo. No final das contas, a morte de alguns é uma equação: “Dez números representam, quando muito, 1/100.000.000 do Estado Unificado, em termos de cálculo prático é um infinitésimo de terceira ordem” (p. 103). Os números são substituíveis, não têm história, não têm vínculos, são completamente disponíveis, não são outra coisa senão dispositivos. Como Booker (1994a) define: “Estes números perderam toda a verdadeira individualidade; eles são meramente partes intercambiáveis na gigante máquina do Estado” (p. 293). Eles são verdadeiramente administrados como uma sociedade estática.