As críticas ao ensino jurídico bacharelesco têm sido incontáveis ao longo do tempo e da literatura nacional sobre a temática, entretanto, muitas das soluções propostas ignoram o aspecto prático e prudencial do Direito e incentivam, na maior parte, apenas mudanças curriculares através da inserção de novas disciplinas.
Tem sido comum denúncias acerca do caráter tecnicista dos bacharéis, os quais, algumas vezes, buscam a faculdade como meio para lograr aprovação em um concurso público, de modo que privilegiam a memorização de leis e de súmulas, em detrimento de estudos voltados ao compromisso com a realidade social e com a pesquisa. Esse ensino dogmatizante e autoritário tornaram os alunos refém do tecnicismo e do reprodutivismo, de modo que isso precisaria ser modificado, segundo alguns autores, através do incentivo ao estudo da teoria do direito, por exemplo. (GONÇALVES; GOMES JÚNIOR, 2014, p. 44-45).
Como solução a essa problemática, há um incentivo a uma maior carga horária no curso do Direito às disciplinas propedêuticas que enfoquem o caráter zetético. Sua finalidade é a de promover o espírito crítico nos alunos, de modo que eles possam, através do questionamento das atuais teorias, apresentar soluções inovadoras às questões jurídicas e, portanto, possam assumir sua responsabilidade social (FREITAS, 2012, p. 93-94).
A solução sugerida para a transformação do ensino jurídico rejeita o ensino tecnicista que ensina a elaborar petições, parecer e decisões e supervaloriza a leitura, a
redação e a publicação de ensaios científicos, contanto que sejam realizados de “modo crítico”, sem maiores detalhamentos do que isso realmente significa. Não parece ser percebido que esse “espírito crítico” que é exigido dos alunos, por sua vez, é formado através de uma gama de conhecimentos performáticos, e, portanto, saberes práticos que também precisam ser desenvolvidos de uma certa forma específica.
Ser crítico nada mais parece ser do que possuir, dentre outras habilidades, a de saber identificar e selecionar dados, mediante uma leitura atenta da realidade; a de saber argumentar com os instrumentos normativos existentes; a de saber interpretar considerando as condições histórico-sociais e os sujeitos envolvidos, e, também; a de saber tomar decisões prudentes dentro do escopo jurídico.
Como estudado acima, a transmissão desse tipo de habilidades compõe o universo de um saber-fazer que é aprimorado através de uma educação do agir, e não automaticamente com a transmissão de um saber teórico. Essa melhoria da prática se dá através da observação do exemplo daqueles que já dominam tais competências, concomitantemente com a reflexão sobre máximas de comportamento aplicáveis e, acima de tudo, com a realização reiteradas de ações, que precisam ser expostas a contínuas reflexões construtivas, que são melhor obtidas em comunidade.
Tal tipo de conhecimento desejado, assim, não é possível de ser compreendido somente por meio de proposições, mas apenas poderá ser internalizado através de uma postura ativa do sujeito aprendiz, com o auxílio do mestre, orientador e crítico, em um ambiente social que incentive aquela determinada prática que se visa desenvolver (GUERRA, 2016c, p. 92-93).
É necessário tempo para que esse tipo de saber prático possa se tornar sofisticado também no âmbito da formação jurídica. A educação do agir precisa ser treinada através da constante exposição, portanto, à experiência certa que seja necessária para sua prática profissional, como, por exemplo, a capacidade de ouvir, de ser justos e de dar conselhos. Como nos relembra Schwartz e Sharpe (2010, tradução nossa):
Uma pessoa sábia é uma pessoa experiente. Sabedoria prática é uma arte e artistas são treinados através das experiências certas. As pessoas aprendem a ser corajosas, disso Aristóteles, ao fazer coisas de maneira corajosa. Isso também vale para honestidade, justiça, lealdade, cuidado, escuta e aconselhamento.21
21
Citação original: “A wise person is an experienced person. Practical wisdom is a craft and a craftsmen are
trained by having the right experiences. People learn how to be brave, said Aristotle, by doing brave things. So too with honesty, justice, loyalty, caring, listening and counseling.”.
O foco do ensino, consequentemente, precisa deixar de ser apenas no conteúdo, e passar a ser na forma como alunos são direcionados para aprender a fazer, de modo autônomo, seus raciocínios jurídicos, bem como a implementar, defender suas escolhas, resolver problemas jurídicos e comunicar suas soluções. E isso, acredita-se, pode estar associado a qualquer disciplina, das mais flexíveis às mais rígidas em termo de conteúdo, como será explorado ao longo, principalmente, do último capítulo, com a análise da estratégia de ensino utilizada pela FGV Direito SP.
Nussbaum (1993), por exemplo, defende a incorporação do estudo da filosofia no campo do Direito, mas faz a necessária ressalva de que nem mesmo essa disciplina teórica poderia se dissociar da prática. Seu principal objetivo, em sua visão, deveria ser capacitar os alunos a pensar em como resolver seus casos dentro do contexto que os limita, aprimorando lhes uma nova forma de raciocinar, e não oferecendo uma simples sistematização dos pensamentos dos filósofos, que é o mais comum de ser verificado. Em suas palavras:
Os juízes nunca são livres para decidir pelo melhor. Eles são limitados pela história, pelo precedente, pela natureza das instituições jurídicas e políticas. Isso significa que qualquer filosofia que vai ser de ajuda para a lei deve ser flexível e empiricamente atenta, em vez de apegada à detalhes desimportantes e remota. O objetivo não deve ser produzir estudantes que pensem como filósofos; o objetivo deve ser produzir estudantes que possam usar os insights da filosofia de forma flexível para lidar com os problemas práticos que eles enfrentam.22 (NUSSBAUM, 1993, p. 1643, tradução nossa).
Assim, a resposta para a transformação do ensino jurídico não parece estar em assumir uma dicotomia entre a teoria e a prática, mas, antes, em considerar o modo como ambas se autoinfluenciam, com o predomínio dessa última, dado que a teoria bem fundamentada só é possível de ser formulada caso seu autor tenha tacitamente um conhecimento prático sobre como realizar bem tal atividade, segundo visto na primeira parte do trabalho.
Isso não significa, em nenhum momento, a defesa do jurista em moldes técnico- dogmatizantes, voltado para a memorização de técnicas prontas, mas sim o incentivo ao desenvolvimento de habilidades críticas, verdadeiro (saber-fazer), que possibilite não só o próprio ato de pensar nas proposições teóricas mais adequadas, mas, também, auxilie-o na
22
Citação original: “Judges are never free to go for the best. They are constrained by history, by precedent, by
the nature of legal and political institutions. This means that any philosophy that is going to be of help to the law must be flexible and empirically attentive, rather than prissy and remote. The aim should not be to produce students who think like philosophers; the aim should be to produce students who can use the insights of philosophy in a flexible way in grappling with the practical problems they encounter.”.
concretização e na criação do Direito no exato momento em que precisar exercer suas diversas atividades.
Guerra (2016c, p. 89) escreveu acerca da temática identificando a falha do ensino jurídico como aquele que se preocupa demasiadamente com o ensino da teoria, mas se olvida de discutir sobre a forma de conhecimento (capacidade cognitiva) a ser desenvolvido por quem se dedica à atividade de interpretar textos legislativos ou aplicar normas jurídicas, de modo que “do ponto de vista das competências cognitivas envolvidas na participação de seus resultados, (a ciência jurídica) é uma desconhecida da própria ciência jurídica”. Segundo sua explicação:
Ademais, tanto para interpretar textos legais quanto para aplicar normas jurídicas é inegável o papel de competências cognitivas voltas ao raciocínio correto, tanto no sentido de o sujeito saber construir argumentos válidos e fortes e como no sentido de saber identificar falácias em argumentos contrapostos, bem como possíveis refutações. (GUERRA, 2016c, p. 90).
Pereira Júnior e Guerra (2016, p. 1) esclarecem ainda que, para bem exercer sua função, mais do que o conhecimento de teorias e de saber lidar com procedimentos de natureza prático-burocrática, como ir ao Fórum, o jurista necessita antes de tudo de meios que possibilitem o desenvolvimento habilidades mentais e comportamentais de ação prática.
No final, observa-se que, na verdade, o incremento das competências cognitivas dos estudantes é o que realmente tem sido procurado por quem se preocupa com a melhoria da qualidade do ensino jurídico, muito embora algumas vezes isso tenha sido proposto através do ensino ainda mais teórico, o que, como já foi visto, não necessariamente resultará em uma prática mais inteligente.
Assim, apresentou-se que para ter condições de se saber discernir o Direito no caso concreto, e, assim, começar a formar-se um jurista, seria preciso, no mínimo que este tenha desenvolvido um conhecimento prático, dentre outros, de saber encontrar teorias e conceitos jurídicos em abstrato e, também, de saber lidar com dados da realidade de modo mais sólido possível; de saber manejar as ferramentas jurídicas de modo a produzir argumentações jurídicas válidas; de saber desenvolver um julgamento prudente no momento de realizar uma decisão, tudo isso em atenção ao contexto histórico social em que está inserido. Tais saberes práticos agora exemplificados e acima já justificados são descritos de modo sistematizado no Quadro 1, a seguir, para uma melhor observação do conteúdo abordado no capítulo.
Quadro 1 – Sistematização de saberes práticos básicos exigíveis dos juristas
Saber como trabalhar com dados
Saber como argumentar e interpretar
Saber como agir de modo prudente
Saber como utilizar o léxico específico do Direito na forma
escrita e oral.
Saber manejar as ferramentas de modo a produzir argumentações
jurídicas válidas.
Saber julgar de modo mais acertado no momento de realizar escolhas
dentro do escopo do Direito. Saber como acessar, selecionar,
e utilizar com inteligência e eficiência alguns dados de três ordens: jurídicos, fáticos, e dados pertencentes a outras áreas do saber
para a solução de questões legais.
Saber interpretar considerando as condições histórico-sociais
e os sujeitos envolvidos.
Saber como agir após considerar múltiplas visões relevantes em uma
situação particular, inclusive quanto à dimensão ética e moral,
tudo na fronteira dos propósitos das profissões legais. Fonte: Elaborado pela autora.
Acredita-se que sem essas habilidades práticas somadas ao enriquecimento do caráter moral de querer proceder de modo reto, muito pouco a transmissão de informações teóricas parece contribuir para a formação do jurista, quando se observa que este é aquele que deverá saber como discernir o Direito no caso concreto.
A proposta aqui adotada, por isso, foi a de eleger justificadamente algumas habilidades práticas que parecem essenciais para o bom cumprimento do papel do jurista, a partir de uma visão específica do conhecimento jurídico enquanto saber prático. No próximo capítulo, estudar-se-á um pouco da legislação brasileira relativa ao ensino jurídico, e, ao final, se mapeará os métodos de ensino sugeridos como aptos a desenvolver as competências cognitivas ora apresentadas e outras que também cumpram os requisitos da regulamentação vigente. Ao final, pretende-se analisar de modo crítico a possibilidade e a pertinência da implementação de transformações metodológicas no ensino jurídico brasileiro, a partir da experiência da FGV Direito SP com o uso e a aplicação dos métodos participativos.
3 FORMAÇÃO JURÍDICA NO BRASIL E SEUS MÉTODOS DE ENSINO
O intuito deste capítulo é, em um primeiro momento, abordar o atual contexto do ensino jurídico brasileiro, a partir de uma análise do ponto de vista do próprio Direito que o regula, especialmente após a promulgação da Constituição de 1988, a fim de verificar se estes se coadunam com o modelo de jurista traçado no capítulo anterior. Isso será feito por meio do estudo dos atuais instrumentos normativos vigentes em conjunto com os dados fáticos recentes que evidenciam o quadro do ensino jurídico no país. A partir da identificação dos problemas do panorama contemporâneo, conjuntamente com a necessidade de se atender à legislação vigente serão abordados alguns dos métodos de ensino sugeridos pela literatura como possíveis alternativas para a formação prática do jurista, com enfoque na utilização de metodologias participativas (ativas) de ensino.
Por fim, no próximo capítulo, verificar-se-á a proposta metodológica de ensino participativo da FGV Direito SP, a fim de observar as contribuições, limites e desafios da aplicação de alguns desses métodos mediante análise documental e de entrevistas.
3.1 O ensino jurídico brasileiro e sua regulamentação no atual contexto constitucional