O Monumento às Bandeiras, de autoria de Victor Brecheret135, foi implantado no que
hoje é conhecido como o complexo do Ibirapuera na década de 1940, antes, portanto, das comemorações do IV Centenário. Atualmente o monumento integra-se ao “complexo Ibirapuera” e dificilmente pode-se imaginar o Parque sem ele, e vice versa.
O projeto do Monumento foi iniciado ainda na década de 1920, com vistas às comemorações do Centenário da Independência, mas aprovado somente em 1936, já durante a gestão de Getúlio Vargas, às vésperas da centralização do Estado Novo. A efetiva construção do Monumento teve início no mesmo ano, mas com o advento da Segunda Guerra Mundial, os recursos que seriam aplicados na obra foram reduzidos, diminuindo o ritmo da construção que foi, posteriormente, totalmente paralisada. Em 1944, o Governo do Estado transferiu suas obrigações em relação à construção do Monumento para a Prefeitura, que firmou um contrato com Brecheret em 1946. A intenção era “completar o parque do Ibirapuera e proporcionar ambiente paisagístico e arquitetônico ao Monumento às Bandeiras, assim como estabelecer ligação do Parque com a avenida Brasil.”136 No dia 25 de janeiro de
1953, antes do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo e depois de trinta anos de sua concepção, a obra foi inaugurada, ainda que uma nova cerimônia tenha sido realizada também em janeiro de 1954.
Naquele momento, Brecheret visava desvincular o Monumento de conteúdos meramente regionais para alcançar aspectos mais abrangentes da nação – “Como você sabe, pretendi transformar isto num Altar da Pátria. Aqui estão as raças que formaram o Brasil. Aqui
135 O italiano Brecheret, na época, era considerado brasileiro. Ver MARINS, Paulo César Garcez. O Parque
Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do Museu Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.13.
136 BARONE, Ana Cláudia Castilho. Ibirapuera: parque metropolitano (1926-1954). Tese apresentada à FAU-
se encontram o índio, o negro e o branco”137. Na face lateral esquerda do pedestal da obra, foi
colocada uma placa em granito polido com a inscrição: “Glória aos heróis que traçaram o nosso destino na geografia do mundo livre, sem eles o Brasil não seria grande como é.”138 Apesar da
generalização e da tentativa de abarcar todos os brasileiros dentro da obra, havia valorização (seletiva) de certas características, desbravadoras, dos bandeirantes paulistas.
Artigo publicado no jornal Folha da Manhã em 1953, por ocasião da inauguração do Monumento às Bandeiras, traz fotografias de autoria de Antonio Pirozzelli, fotógrafo que atuou em São Paulo nas décadas de 1950 e de 1960.
Folha da Manhã, 25 de janeiro de 1953, fotografias de Antonio Pirozzelli 139
137 BATISTA, Marta Rossetti (Org.). BANDEIRAS de Brecheret – história de um monumento (1920-1953). São
Paulo: PMSP/SMC/DPH, 1985. p.123. In: MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do Museu Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.18.
138Ver<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/patrimonio_historico/adote_obra/index.php?p=
4526>. Acesso em: 09/04/2014.
Além de uma fotografia revelando o Monumento em si, o artigo também traz detalhes dos rostos das figuras esculpidas. Ainda que não se possa identificá-las especificamente, é possível perceber nelas os diferentes tipos que formaram o homem brasileiro, “numa síntese de três raças.”140
O branco, o negro e o índio
A construção mítica do bandeirante não era algo novo. Desde o final do século XIX, buscava-se representá-lo de maneira heroica, como espécie de causa e efeito da ascensão dos paulistas republicanos de maneira a legitimar, historicamente
a pujança das elites paulistas ligadas aos negócios da cafeicultura e ao governo da própria República, e que estivera unida de alguma forma aos momentos-chave da nação como o início da colonização ou a própria aclamação ao grito do Ipiranga.
140 Artigo de Leonardo Arroyo publicado na Folha da Manhã, em 25 de janeiro de 1953, p.16. Disponível em:
<http://acervo.folha.uol.com.br/fdm/1953/01/25/1/>. Acesso em: 20/05/2014.
Ligavam-se assim as elites triunfantes da República ao patriciado da São Paulo colonial e, mediante esses laços de sangue, uniam-se as gentes à própria História.141
Essa história do movimento das bandeiras foi, contudo, idealizada, deixando de comentar outros aspectos menos louváveis da atividade dos bandeirantes, como, por exemplo, a caça de índios. A narrativa que interessava ressaltar era somente aquela que naturalizasse o crescimento da nação ao explicá-lo enquanto espécie de predestinação, devido à força e à bravura dos paulistas.
“Na praça Armando de Salles Oliveira inaugura-se hoje o Monumento das Bandeiras”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 25 de janeiro de 1953, p. 13142
A fotografia reproduzida acima foi publicada por ocasião da inauguração do Monumento às Bandeiras no jornal O Estado de S. Paulo. Com um enquadramento de plano geral, revela o Monumento como um todo. Na legenda da imagem lê-se: “despojado e cheio de força, o Monumento das Bandeiras exprime, pela linha ascensional que vai da última à primeira figura, a todos unindo num mesmo movimento, o ímpeto que fazia os desbravadores avançarem sempre.” Atentar para o componente de movimento presente na composição dessa imagem é de um interesse maior do que é sugerido pela legenda, que já conduz o observador pelas fotografias.
141 MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In : Anais do
Museu Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.12.
142 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530125-23837-nac-0013-999-13-
Apesar das figuras humanas estáticas, o monumento como um todo, assim como as nuvens que aparecem ao fundo da imagem fotográfica, no segundo plano, parecem apontar para o mesmo sentido: para frente. Essa indicação de movimento – o texto jornalístico usa a expressão “tudo, ali, é força, movimento e ação” – propicia uma interpretação da imagem como sendo representativa de uma visão de paulistaneidade propagadora de grandeza para o Brasil. O próprio texto do jornal, que acompanhou as imagens, diz:
Cabe a São Paulo fazer uma afirmação, que fixe o seu propósito de lutar para que, no naufrágio em que os outros se afogarão, se salve esta bela e nobre Nação, que é o Brasil, e com ela os puros ideais do homem cristão (...). A nossa atitude não pode ser de defesa, mas de ação enérgica, que desperte por todo o país simpatias e emulações. (...)143.
O Estado de S. Paulo, 25 de janeiro de 1953, autoria não creditada144
143 Discurso de Armando de Salles Oliveira, Governador do Estado, proferida ao Legislativo em 9 de junho de
1936, publicado no Estado de S. Paulo em 25 de janeiro de 1953, p.13. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530125-23837-nac-0013-999-13-
not/busca/MONUMENTO+BANDEIRAS>. Acesso em: 20/05/2014.
144 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530125-23837-nac-0013-999-13-
Já as últimas imagens aqui reproduzidas, publicadas na mesma página de jornal, revelam alguns dos pormenores do Monumento. Para representá-los, o fotógrafo fez uso do ângulo visto “de baixo”, bastante característico de algumas vertentes da fotografia moderna145. Essa perspectiva
valoriza o aspecto monumental da obra ao agigantá-la. Os bandeirantes aparecem como figuras ainda mais heroicizadas, com corpos fortes e determinados. As mãos, principalmente, parecem se beneficiar desse processo, remetendo à tradição modernista de retratação de trabalhadores brasileiros, como na obra de Candido Portinari, por exemplo, em que as deformações dos pés e das mãos transmitem sensação de desgaste físico simultâneo à imponência e à monumentalidade dos indivíduos, que obtêm êxitos por meio de trabalho árduo. Ainda que geralmente se associe a pintura de Portinari à valorização do trabalhador dentro do contexto social brasileiro, é possível relacionar a interpretação do agigantamento das mãos dos bandeirantes, na obra inaugurada em 1953, não à valorização do indivíduo, mas à valorização do trabalho em si, que, em sentido diferente, era tido como responsável pelo próprio agigantamento da cidade de São Paulo na história, desde a pequena vila de Piratininga à grande metrópole que estava surgindo em meados do século XX. Às vésperas de seu IV Centenário, a cidade era vista por muitos como
Milagre do trabalho, surgindo e crescendo impulsionada exclusivamente pela força da inteligência, adquirindo corpo e se expandindo graças a um determinismo decretado pelo homem, São Paulo é o espelho fiel da grandeza de seu povo. Esta cidade que está completando 400 anos de existência e que se projetou como o centro urbano mais trepidante, dinâmico do mundo, parece trazer no peito a vitalidade inesgotável daqueles seus filhos mamelucos, os bandeirantes heroicos que empurraram, na boca de seus bacamartes, o Tratado de Tordesilhas até quase os primeiros contrafortes da Cordilheira dos Andes146.
Ainda segundo o artigo de O Estado de S. Paulo, que publicou as imagens do Monumento às Bandeiras reproduzidas nessa pesquisa:
145 A pesquisadora Heloisa Espada cita Aleksander Ródtchenko como exemplo de fotógrafo moderno que fazia
uso dessa prática. A rotação da câmera do fotógrafo previa a desestabilização do eixo de visão tido como natural e, assim, pretendia estimular formas diferentes de ver. Para Ródtchenko: “Os pontos mais interessantes hoje são os “de cima para baixo” e os “de baixo para cima”, e devemos trabalhá-los. (...) Novos assuntos têm de ser fotografados de vários pontos, de modo a representar o assunto completamente.” Ver ESPADA, Heloisa.
Monumentalidade e Sombra: a representação do centro cívico de Brasília por Marcel Gautherot. Tese de
doutorado apresentada à ECA-USP em 2011, p.24.
146 O Cruzeiro, 23 de janeiro de 1954 In: BREFE, Ana C. Fonseca. As cidades brasileiras no pós-guerra. São
(...) Dois bandeirantes, os chefes, vão na frente, a cavalo: é o princípio da autoridade, o mais forte esteio da civilização, que o comunismo tenta destruir. (...) E como de tudo isso, de autoridade, de disciplina, de hierarquia, de solidariedade, de ação inteligente e construtora, de um largo, generoso e fecundo idealismo – de tudo isto é que o Brasil precisa, propõe-se que esse monumento seja levantado numa praça de São Paulo, atestando o desejo dos paulistas de renovar os princípios e os feitos que constituíram os fundamentos da nacionalidade147.
Autoridade, trabalho, força e luta contra o comunismo nutrem os ideais expressos num discurso recorrente sobre São Paulo e que se pretendia comum.
O que importava a Brecheret, ao poder público que encomendou a obra e possivelmente ao fotógrafo das imagens publicadas no jornal O Estado de S. Paulo, era mostrar a importância do paulista para o desbravamento de novos territórios para “desvendar e integralizar o arcabouço geográfico da Pátria”148, algo compartilhado pelos imigrantes chegados ao Brasil a
partir do século XIX e aos industriais do século XX. A despersonalização dos bandeirantes, conforme aponta Paulo César Garcez Marins, contribuiu para essa leitura mais generalizante, capaz de promover a identificação com vários grupos, associando bandeirantes com paulistas e até mesmo com brasileiros de maneira geral.
O artigo chega a comentar o conteúdo simbólico da obra, que une, “num mesmo espírito de brasilidade empreendedora e heroica”149, a conquista da terra no passado e a conquista do
progresso que se inicia no presente e ruma ao futuro. Em ambas essas etapas da história do país, São Paulo aparece desempenhando fundamental papel.
No sentido dessa intersecção, cabe notar a simbologia presente no local de implantação do Monumento e nas vias que o circundam. A praça em que ele foi erguido levou o nome, em 1953, do Governador do Estado de São Paulo entre 1935 e 1936, e então sócio do jornal O
Estado de S. Paulo, Armando de Salles Oliveira. A praça constitui-se de uma grande área livre
que possibilita uma perspectiva avantajada, já que a massa verde do Parque, que é duplicada pelo espelhamento que ocorre no lago à frente, aparece como pano de fundo. A praça é localizada entre o início de duas avenidas, a Pedro Álvares Cabral e a Brasil. A implantação do
147 Discurso de Armando de Salles Oliveira, Governador do Estado, proferida ao Legislativo em 9 de junho de 1936, publicado
no Estado de S. Paulo em 25 de janeiro de 1953, p.13. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530125- 23837-nac-0013-999-13-not/busca/MONUMENTO+BANDEIRAS>. Acesso em: 20/05/2014.
148 MARINS, Paulo César Garcez. O Parque Ibirapuera e a construção da identidade paulista. In: Anais do Museu
Paulista, História e Cultura Material, vol. 6/7, São Paulo: USP/Museu Paulista, 1998-1999, p.14.
149 LOFEGO, Silvio Luiz. IV Centenário da cidade de São Paulo – a construção do passado e do futuro nas
comemorações de 1954. 2002. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2002, p.125.
Monumento entre avenidas com esses nomes é indicativa de determinada narrativa histórica que estava sendo criada na época: a invenção do Brasil por sua descoberta e a formação das fronteiras e do território nacional com a ação dos bandeirantes.