• Sonuç bulunamadı

3. SİMÜLASYONLARIN HAZIRLANMASI ve ÇALIŞTIRILMASI ÇALIŞTIRILMASI

3.2. Simülasyonun Hazırlanması

Apesar das benesses que um parque pode oferecer à região metropolitana, a decisão de implantá-lo na várzea do Ibirapuera encontrou resistências. O projeto de 1926, durante a gestão de Pires do Rio, ia, a princípio, de encontro com a iniciativa anterior da Prefeitura Municipal, durante a gestão de Washington Luís (1914 – 1919), de lotear a gleba e transformar a área em um bairro-jardim, de elite, criando o “Jardim Lusitânia”. Por isso, o parque de Pires do Rio teve que ser idealizado de maneira a não interferir diretamente nos lotes já comercializados do novo bairro, situando-se em terrenos localizados acima do prolongamento da Rua Conselheiro Rodrigues Alves, ainda não ocupados.

116 COSTA E SILVA, Carolina da. Benedito J. Duarte e o Departamento de Cultura de São Paulo: Construindo Imagens de uma Pauliceia Cultural (1935-38). Disponível em: <http://www2.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos/356CarolinaCostaSilva.pdf>.

Acesso em: 04/03/2015.

117 Ver LOFEGO, Silvio Luiz. São Paulo das Águas. Tese de Livre-Docência apresentada ao departamento de

Os bairros-jardins são uma expressão típica da primeira modernidade, pois surgiram na Inglaterra no século XIX como reação ao modelo de cidades industriais, vistas como foco de problemas como a insalubridade e a violência. Dentro desse contexto, começa a surgir o urbanismo enquanto área do saber e seus pensadores propõem soluções, muitas vezes utópicas, aos problemas urbanos, como a de Ebenezer Howard. Esse (pré) urbanista ficou conhecido por sua publicação Cidades-jardins de Amanhã (1898), onde descreveu uma cidade utópica em que pessoas viviam em contato com a natureza, numa espécie de simbiose do campo com a cidade. A publicação resultou na fundação do movimento das cidades-jardins. No Brasil, o conceito foi inaugurado pela Companhia City, que se instalou em São Paulo em 1912, apenas um ano após sua fundação em Londres.

Esses bairros-jardins de São Paulo demonstram como o urbanismo da época estava se apropriando das ideias de Howard. Se as primeiras soluções urbanísticas ao crescimento excessivo das cidades, dentre outras consequências advindas do processo de industrialização, vislumbravam propostas urbanas de inspiração socialista que pudessem propiciar maior qualidade de vida aos seus habitantes no espaço concreto urbano (nesse sentido, os bairros- jardins podem ser considerados como heterotopias), a maneira como essas ideias são incorporadas posteriormente ao traçado urbano das cidades pressupõe diferenciação entre os habitantes de um mesmo espaço.

Anúncio imobiliário publicado em O Estado de S. Paulo, 17 de janeiro de 1943, p. 5118

118 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19430117-22504-nac-0005-999-5-not/busca/ibirapuera>.

Os bairros-jardins, como a proposta do “Jardim Lusitânia” ou do “Jardim Ibirapuera”, eram destinados para a elite.

O processo de modernização que ocorria em São Paulo no período, apesar de estimulante em vários sentidos, precisa ser relativizado, pois não foi desprovido de contradições119. Houve conflitos uma vez que os idealizados crescimento e embelezamento

urbanos, apregoados por urbanistas e por intelectuais, ia de encontro com uma outra realidade, diversa, configurada por habitantes marginalizados, desprovidos de condições sociais adequadas de vida120. Isso aconteceu, também, na região do Ibirapuera.

Para a construção do Parque Ibirapuera e dos novos bairros circundantes, em 1952, a prefeitura de São Paulo teve que remover uma favela situada na altura da rua França Pinto e entre as ruas Padre Manoel da Nóbrega e Abílio Soares. O terreno estava sendo ocupado por duzentas e quatro famílias em cento e oitenta e seis barraco121. Praticamente todos eram de

madeira, com exceção de três, que eram de alvenaria. Todos, também, eram ocupados por servidores da Secretaria de Obras do Estado122. Cento e oitenta dessas famílias foram

deslocadas para terrenos próprios e seis para a favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, uma das primeiras a se aproximarem do centro da cidade123. A remoção dos barracos do

Ibirapuera foi feita pelo Departamento de Obras e pela Divisão de Parques e Jardins e constituiu tentativa de deslocar aspectos desagradáveis da cidade para a periferia, sem meios adequados de se atender às necessidades e às demandas da população desalojada.

119 Sobre o processo contraditório da modernização em São Paulo, ver MORSE, Richard. De Comunidade à

Metrópole. Biografia de São Paulo. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, Serviço de

Comemorações Culturais, 1954.

120 À questão da construção de habitações populares, um dos pilares do tripé do modernismo, não foi conferida a

devida atenção. Segundo Henrique Mindlin, “falta-nos a visão concreta, realizada na prática, dos grandes problemas sociais de coletividade. Faltam-nos habitações populares, faltam-nos escolas, hospitais, locais decentes de trabalho. Faltam-nos, sobretudo, um urbanismo de sentido social, um urbanismo voltado para a necessidade do povo (...)” MINDLIN, Henrique. A Nova Arquitetura e o Mundo de Hoje – Conferência Pronunciada pelo Arquiteto Henrique E. Mindlin na Escola de Engenharia Mackenzie em 30-8-45. In: SEGAWA, Hugo.

Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo: Edusp, 1999, p.113.

121 O termo “barraco” era utilizado amplamente no período para designar as habitações improvisadas geralmente

agrupadas no que se convencionou chamar “favelas”. Ver BONDUKI, Nabil. Origens da Habitação Social no

Brasil. São Paulo: Estação Liberdade, 1998, p.271.

122 Informações obtidas no Arquivo Histórico Municipal. Pastas do IV Centenário da cidade de São Paulo, caixa

62, processo 1267.

123 Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora e moradora da favela do Canindé escreveu: “Eu denomino que

a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-03/brasil-lembra-centenario-de-escritora-que-definiu-favela- como-quarto-de>. Acesso em 22/05/2015.

Marshal Berman defende que nas intervenções realizadas em cidades de países periféricos, “sonhos de modernidade” impulsionaram novas construções124. Já para T. J. Clark,

o processo destrutivo que permite a realização de bulevares e espaços abertos data da Paris de Haussmann125, onde a cidade foi construída, segundo o autor, “como uma imagem”, como algo

a ser consumido em espaços concebidos para este fim: passeios, programas de final de semana, grandes exposições, desfiles oficiais. O autor denomina essas realizações de espetáculo126,

“observamos em retrospecto a haussmanização e vemos as várias maneiras pelas quais ela fazia a cidade ser consumida em abstrato, como uma ficção conveniente.”127

A retirada de pessoas da área do Ibirapuera também visou à criação de uma narrativa diversa para a cidade, que não deixa de poder ser pensada igualmente como espetáculo, passível de ser registrado, inclusive, em imagens fotográficas. Nesse sentido, fotografias que contradissessem a “ficção conveniente” da modernidade e do progresso não seriam bem vindas; daí, inclusive, a atitude de deslocar essas visões para a periferia. Segundo carta do Prefeito Armando Arruda Pereira para o Secretário de Estado dos Negócios da Viação e Obras Públicas, Nilo Andrade Amaral, havia “necessidade inadiável de ser efetuada a demolição dos casebres construídos em terrenos de propriedade do Estado.”128 Esse processo afastou as favelas do centro de atenções da cidade

espetacularizada, longe dos olhos da população e das lentes dos fotógrafos. Também nesse sentido, a existência da favela e o processo de liberação da área do Ibirapuera quase nunca eram mencionados nos históricos do Parque ou das comemorações do IV Centenário, até recentemente. Não é de se estranhar, pois buscava-se divulgar uma imagem positiva da cidade, de sua pujança e de seu desenvolvimento. Havia uma discrepância entre o discurso, que se pretendia moderno, e uma realidade muito distinta para outra parte da população, ocultada. Segundo Regina Meyer:

esta sucessão de ocupações da área do Ibirapuera não aponta apenas para a substituição da penúria pelo equipamento moderno, da favela pela Feira Internacional [que seria planejada para as comemorações do aniversário da cidade] destinada a

124 Ver BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.219. 125 Segundo estimativas do próprio Haussmann, suas ações urbanísticas desalojaram 350 mil pessoas. Ver CLARK,

T. J. A Pintura da Vida Moderna. Paris na arte de Manet e de seus seguidores. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.77.

126 T. J. Clark adverte que “o espetáculo nunca é uma imagem estabelecida segura e definitivamente; é sempre uma

representação do mundo que compete com outras e encontra resistência de formas diferentes, às vezes tenazes, de prática social.” Ver CLARK, T. J. A Pintura da Vida Moderna. Paris na arte de Manet e de seus seguidores. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.76.

127 Ver CLARK, T. J. A Pintura da Vida Moderna. Paris na arte de Manet e de seus seguidores. São Paulo:

Companhia das Letras, 2004, p.76.

128 Carta do Prefeito Armando Arruda Pereira para o Secretário de Estado dos Negócios da Viação e Obras Pública,

Nilo Andrade Amaral, em 21 de janeiro de 1952. Arquivo Histórico Municipal. Pastas do IV Centenário da cidade de São Paulo, caixa 42, processo 224.

exibir nossa incipiente mas promissora indústria. Esta remoção, que o relatório [para a Comissão do IV Centenário sobre as providências tomadas para reaver o espaço destinado à construção do parque] empenha-se em afirmar que foi ‘executada sem incidentes de violência’, aponta sobretudo para o agudizamento dos problemas de uso do solo urbano na metrópole paulistana que cumpria seu caminho inexorável de modernização129.

Maria Arminda Arruda ainda comenta: “Assim, o projeto modernista do Ibirapuera desenvolveu-se no solo vivo da cidade industrial periférica ocupada por vastas zonas de moradia dos marginalizados, infensos a planejamentos dessa natureza.”130 Na origem do Ibirapuera e de sua

região circundante, portanto, há a memória (apagada pelo Parque) de exclusão social.

Ainda que se possa argumentar que a escala dos desalojamentos no Ibirapuera tenha sido pequena, ela é, contudo, simbólica. Desde os anos de 1940, o processo de urbanização com a abertura de largas avenidas na região mais central da cidade expulsou os moradores de cortiços para bairros mais afastados, que surgiam acompanhando o traçado das ferrovias, autoestradas e as novas áreas industriais131. A década de 1950 em São Paulo foi marcada por

outras ações do gênero, como o despejamento de prostitutas na região da Luz, denominada de “Boca do Lixo”132.

Fotografia da favela onde fica hoje o Parque Ibirapuera, 1950, Sebastião Assis Ferreira / Acervo Iconográfico da Prefeitura de São Paulo / Folha de S. Paulo

129 MEYER, Regina Maria Prosperi. Metrópole e Urbanismo. São Paulo Anos 50. 1991, pp.60-61.

130 ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e Cultura. São Paulo no Meio Século XX. Bauru:

EDUSC, 2001, p.90.

131 Ver BREFE, Ana C. Fonseca. As cidades brasileiras no pós-guerra. São Paulo: Atual, 1995, p.13.

132 Ver ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. São

Fotografia das favelas construídas com madeiras e cobertas com folhas de latas no Ibirapuera, 1951, Sebastião Assis Ferreira / Acervo Fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo, classificação DC/0000251/F

As imagens da favela do Ibirapuera, de autoria de Sebastião Assis Ferreira, fotógrafo funcionário da Prefeitura, que atuou entre as décadas de 1940 e 1970 na Seção de Iconografia do Departamento de Cultura e que também prestou serviços junto à Assessoria de Imprensa do Gabinete do Prefeito, demonstram interesse prioritariamente documental. Há aproximações com o fotojornalismo nesse sentido e preocupação em registrar aspectos de cunho social. A própria existência da favela, registrada nas imagens, e, principalmente, o modo com o qual se lidou com ela para que o Parque pudesse ser implantado, revelam outra face, o avesso ou o “negativo”, do progresso. O que aparece aqui é a lógica excludente do capital; a faceta da modernidade que é excludente e heterogênea.

As favelas desvalorizavam os locais onde eram instaladas (numa época em que havia grande processo de especulação imobiliária, conforme atesta a criação do bairro Jardim Lusitânia) e apresentavam uma imagem distinta do imperativo do desenvolvimento econômico que se buscava definir como uma nova e moderna identidade municipal e nacional. Assim, percebe-se a convivência entre o privilégio e a miséria que ocorria na região do Ibirapuera, em São Paulo e, por extensão, também no Brasil durante a década de 1950. Essa simultaneidade possuía natureza excludente, pois ao definir áreas de privilégio, muitas vezes as populações pobres e marginalizadas foram excluídas, realocadas para as periferias distantes. As áreas para onde iam essas populações possuem, nesse sentido, característica de

“invisibilidade”, segundo termo utilizado por Nicolau Sevcenko133.

As intenções de representação de São Paulo propostas para as comemorações do IV Centenário da cidade eram evidentemente diversas das imagens da precariedade de condições de vida de parcela significativa da população. A demolição das favelas na região do Ibirapuera permitiu, assim, ressemantização do espaço por meio da criação do Parque e dos bairros de elite que começaram a surgir ao seu redor. A incorporação dos bairros arborizados para áreas residenciais provocou valorização do preço dos terrenos e começou a transformar a imagem que a população fazia a respeito da área circundante do Ibirapuera. A inauguração do Parque Ibirapuera e do Jardim Lusitânia aconteceu por ocasião das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954, e não tardou para que as consequências da especulação imobiliária começassem a mostrar resultados.

Anúncio imobiliário publicado em O Estado de S. Paulo, 28 de janeiro de 1960

Anúncio imobiliário publicado em O Estado de S. Paulo, 2 de outubro de 1966

A comissão planejadora dos festejos do IV Centenário, que era composta por membros representativos da força econômica de São Paulo, além daqueles ligados à classe intelectual, como jornalistas, escritores e professores universitários, buscava mostrar o dinamismo e o desenvolvimento da metrópole. O fato da mobilização do poder público ter acontecido cinco anos antes do evento programado não deixa de indicar, conforme aponta Silvio Luiz Lofego, “o propósito em orquestrar um grande movimento para a cidade que possuísse o sentido de uma grande ‘cruzada’”134, uma que exaltasse os feitos de São Paulo e suas contribuições para a

133 Ver SEVCENKO, Nicolau. São Paulo: não temos a menor ideia. Revista Carta Capital, 29/09/1999.

134 LOFEGO, Silvio Luiz. IV Centenário da cidade de São Paulo – a construção do passado e do futuro nas

comemorações de 1954. 2002. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2002, p. 40.

nação. Nesse sentido, não havia espaço para a publicação de fotografias que mostrassem o impacto de determinados sistemas nas vidas dos menos privilegiados; não havia espaço para fotografias que contradissessem a imagem idealizada e espetacularizada do Ibirapuera, parque- monumento sendo construído dentro do contexto das comemorações do IV Centenário de São Paulo, “a cidade que mais cresce no mundo.”

Benzer Belgeler