BMT- BMT-SDS3
9- SONUÇLAR VE TARTIŞMA
Foucault (2001) compreende que a psiquiatria é uma vertente das práticas médicas que pode ser analisada a partir das antigas ―Medicina da alienação‖ ou da medicina do tipo ―espirol‖. O objeto de intervenção da psiquiatria são os diferentes casos que faziam até o século XVIII parte da ―paisagem natural‖ das regiões ―aldeãs‖ e que paulatinamente vai ser tomada pela medicina, que irá produzir o sujeito ―anormal‖ (2001, p. 375).
O ―anormal‖ poderia ser decifrado, compreendido, ou produzido, a partir de três figuras típicas: o grande monstro, o pequeno masturbador e a criança indócil. A gênese desse indivíduo anormal pode ser compreendida a partir da maneira como o mesmo se relaciona com a sexualidade e com a masturbação. A criança indócil e masturbadora de hoje pode vir a ser o grande monstro de amanhã. É nessa direção que se instala todo um mecanismo de vigia e controle da sexualidade das crianças.
A partir dessa evidência, Foucault (2001) irá problematizar como é que a criança passa a ser o núcleo do saber psiquiátrico. Compreende-se primeiramente, nesse saber, que a infância pode ser considerada a fase inicial do comportamento humano, uma fase pueril e em desenvolvimento. A questão posta por Foucault é que, a partir do momento que se define a infância como ―fase‖ de desenvolvimento e do comportamento inseridas nas descrições
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acima, entende-se que, o indivíduo adulto doente ou posteriormente anormal é aquele que possui comportamentos e atitudes similares ao de uma criança. Assim destaca Foucault:
É na medida mesma em que um adulto se parecerá com o que era quando era criança, é na medida em que se poderá estabelecer continuidade infância-adulta, isto é, na medida em que se poderá encontrar no ato de hoje a maldade de outrora, é nessa medida que será efetivamente possível detectar esse estado, com seus estigmas, que é a condição da psiquiatrização (FOUCAULT, 2001, p. 385).
Há diferentes contextos que vão promover a produção da psiquiatria. Na medicina da alienação mental do início do século XIX, por exemplo, o ―mau‖ comportamento de um adulto era comparado com o seu comportamento quando era criança. Nesse caso, se houvesse indícios desse mau comportamento também em sua infância então se considerava que este adulto tinha uma má índole, algo inerente a ele, uma ―natureza‖ má, de caráter duvidoso, talvez mesmo um criminoso. Já na psiquiatria moderna, nessa mesma situação, o adulto seria considerado doente, anormal, alguém que deveria ser tratado. A psiquiatria moderna, portanto, produz o sujeito anormal. O fato é que, tanto na medicina antiga quanto na psiquiatria moderna ocorre que, a criança, ou melhor, o comportamento inerente à infância é objeto de comparação e que possibilita decifrar se o sujeito adulto é maldoso ou doente. Nesse sentido, Foucault compreende que a infância é a ―condição histórica de desenvolvimento‖ da criança, bem como sua ―forma geral de comportamento‖ (2001, p. 386). Mais do que isso, Foucault ressalta que:
(...) é pela infância que a psiquiatria veio a se apropriar do adulto, e da totalidade. A infância foi o princípio da generalização da psiquiatria; a infância foi na psiquiatria como em outros domínios, a armadilha de pegar adultos (FOUCAULT, 2001, p. 387).
Esta discussão permite compreender que a criança não foi simplesmente incluída em um tipo de saber que já existia, mas que foi, por assim dizer, a condição de existência deste saber, médico e psiquiátrico. A infância foi estabelecida como forma geral de comportamento e de desenvolvimento de forma a permitir, a partir daí, uma série de comparações
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de produções sobre o comportamento e desenvolvimento humano. Foucault diz o seguinte:
(...) longe, por conseguinte, de considerar que a infância é um território novo que foi, a partir de certo momento, anexado à psiquiatria – parece-me que foi tomando a infância como ponto de mira da sua ação, ao mesmo tempo do seu saber e do seu poder, que a psiquiatria conseguiu se generalizar. Ou seja, a infância parece- ser uma das condições históricas da generalização do saber e do poder psiquiátrico. (FOUCAULT, 2001, p. 387).
É esta generalização, por sua vez, que dá a psiquiatria à condição para que fosse ascendida ao estatuto de ciência.
Vejamos alguns elementos que possibilitam essa ascensão: Primeiro, estabelece-se que a infância, ou a infantilidade, como afirma Foucault, é uma espécie de ―filtro‖ para analisar os comportamentos. Para que este seja psiquiatrizável, basta ser comparável a um comportamento infantil, ou como confirma Foucault, ―(...) bastará que seja portadora de um vestígio qualquer de infantilidade‖ (2001, p. 388).
É por esta razão que todas as condutas da criança passam a ser sistematicamente prescritas pela psiquiatria. Os comportamentos dos adultos passam a ser prescritos dentro de certa ―normalidade‖ para um sujeito adulto, a partir dessa comparação com a infância, de modo que, a psiquiatria vai abandonando a doença para envolver-se em uma ciência do comportamento, isto é, mais precisamente o que irá definir os comportamentos normais e anormais para um adulto.
A criança é prescrita a partir da junção de três elementos bastante problematizados ao longo da medicina da alienação mental e posteriormente da psiquiatria: o prazer, o instinto e a imbecilidade, ou, dito de outra forma, o pequeno masturbador, o monstro e aquele que resiste a todas as disciplinas.
A psiquiatria associa-se à biologia e à neurologia, o que irá dar mais crédulo a psiquiatria enquanto de saber científico. Por fim, a psiquiatria vai passar a enfatizar cada vez mais os comportamentos, de modo que sua gerência vai saindo do campo da doença para inserir-se cada vez mais no campo do normal e do anormal, no que diz respeito ao comportamento. Toda esta ascensão da psiquiatria à ciência só é possível a partir da caracterização
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detalhada da criança e da infância, que são, em suma, condição de existência dessa vertente.