• Sonuç bulunamadı

Em um mundo cada vez mais globalizado, deter o conhecimento é

essencial. A preocupação com o ensino da língua no Brasil tem sido constante ao

longo das últimas décadas, conferindo ao aprendizado da linguagem uma competência valiosa de acesso ao saber.

O termo competência foi utilizado pela primeira vez nos anos 50 do século XX, por Noam Chomsky. O conceito adotado pelo filósofo norte-americano transfere essa competência ao conhecimento que o indivíduo possui em produzir e compreender frases. Para Chomsky (1998), a gramática de uma determinada língua adquire eficácia na medida em que explica de forma completa e exata aquilo que o falante da língua sabe. É possível, pois, admitir esse saber como o produto

da bagagem adquirida pelo indivíduo ao longo de sua vida, reproduzindo em sua forma de se expressar, seus valores sociais, culturais e históricos. Callou (2008) reforça esse entendimento, ao enfatizar que no uso de uma língua é imprescindível considerar a variação dos fenômenos sociais envolvidos.

A existência de usos comuns, de uma base linguística internalizada, mesmo em indivíduos de origem social e geográfica distintas, não pode ser deixada de lado, embora língua falada e língua escrita possuam, em princípio, características e regras próprias. A primeira seria mais flexível, relaxada, não-controlada e, a segunda, mais rígida, mais formal, impessoal e controlada. Em todas as línguas, é inequívoca uma tendência à unicidade no escrito e à multiplicidade no oral, modalidade que se caracteriza por ser menos homogênea e apresentar variações de uso de todo tipo: estruturais, de redes sociais /geográficas, de gênero, etnia, faixa etária, registro (CALLOU, 2008, p. 58).

Para Moncau (2010), um padrão linguístico muito irreal, muito distante da realidade vivida da língua, é a origem do confronto entre a maneira de falar das pessoas, por vezes, de forma codificada, provocando conflitos linguísticos. Para a autora, o indivíduo, ao comparar seu modo de falar com aquilo que aprende na escola ou com o que é codificado, vê a distância que existe entre essas duas entidades e passa a achar que seu modo de falar é feio, é errado.

É impossível desassociar o saber da atividade intelectual. Afinal, ambos têm estreita ligação com a linguística em geral. Porém, é equivocado confundir a capacidade de compreensão e inteligência de um indivíduo com o conhecimento de outro, forjado nos bancos escolares. Refletindo as razões que levam à formação deste fenômeno de utilizar uma linguagem restrita, é possível considerar a existência de uma forma de superioridade ou de poder, alcançada através de um código que só alguns conseguem decifrar. O mais grave é quando esta intolerância linguística ultrapassa os domínios legais e se instala no domínio do privado, sobretudo nas camadas mais pobres da sociedade.

Ao considerar a multiplicidade sociocultural que forma as regiões de uma cidade, como Porto Alegre, encontra-se uma língua, em suas diversas formas e variantes, e uma entidade viva e dinâmica. Um verdadeiro código empregado pelos indivíduos para trocar informações ou difundir as suas ideias e pensamentos, suplantando barreiras em seu desenvolvimento.

Neves (2005) recorda que a língua utilizada por uma comunidade apresenta um padrão natural, uma norma em si aglutinadora da heterogeneidade, da multiplicidade e da variação linguística naquele estado de língua. A partir daí, e por via do caráter social da língua, a relação com a norma se encaminha para uma constante busca de qualificação e prestígio. Assim, na mesma intensidade com que os indivíduos compreendem sua importância na sociedade, mais eles fortalecem o peso da língua como afirmação.

Nesse complexo cenário, segundo Roncarati (2008), a língua também está associada a mudanças nas relações de avaliação, em dois níveis: no primeiro, a linguística utilizada pelos próprios membros da comunidade de fala (seu significado social) e, no segundo, a avaliação da mudança pelos próprios linguistas – “a evolução da língua, sem reduzir a eficiência em sua função primordial de comunicar” (RONCARATI, 2008, p. 49).

Na verdade, a avaliação social atribuída às formas ou variantes linguísticas pode aparecer tanto no indivíduo como no nível da comunidade. Porém, quando essas ocorrências acontecem em nível estrutural, através do sistema linguístico, sua aplicação ocorrerá em contextos mais amplos com o decorrer do tempo. A autora resume a questão, afirmando que se desdobra uma luta evolutiva entre as formas novas e as antigas, com as novas se espalhando, tanto de um falante para outro, como de um contexto linguístico para outro. Uma análise que reforça o conceito sobre o ato de comunicar como um acordo de compreensão mútua, entre emissor e receptor, e que o início desse processo requer a percepção sobre a importância do uso de uma linguagem adequada. Essa deve traduzir exatamente as ideias e pensamentos, num processo onde os termos usados compõem um sentido comum, de acordo com as necessidades da expressão.

Por outro lado, pode-se compreender que a gramática utilizada na literatura brasileira apresenta muitos estudos quanto ao formalismo de uma linguagem apurada, nos quais os conceitos de norma padrão, norma culta, padrão culto são usados indistintamente, contribuindo para o fortalecimento de preconceitos à variedade linguística.

Mendonça (2001) concorda com esse pensamento, ao definir que, além de tentar unificar a língua, nossas gramáticas normativas homogeneízam a norma culta, higienizando-a, produzindo e difundindo uma imagem do que deveria ser a

norma escrita formal, tendo por base o modelo dos considerados bons escritores do passado. Mas, afinal, existe um padrão normativo linguístico em um país tão grande como o Brasil, composto por uma diversidade de padrões habituais e coletivos, e suas múltiplas formas de manifestação linguísticas, capazes de distinguir os grupos dentro da comunidade de fala?

Nessa perspectiva, Lucchesi (2008) adota o conceito do funcionamento da língua em sua dimensão sócio-histórica, em que o conceito de norma ocupa uma posição crucial, impondo a distinção entre os padrões de comportamento linguístico (a norma objetiva) e os modelos ideais que regulam esse comportamento (norma subjetiva). Vista por esse ângulo, a norma culta, ou linguagem culta, passa a ser uma expressão empregada pelos linguístas para designar o conjunto de variedades de línguas, efetivamente faladas na vida cotidiana pelos sujeitos cultos, sendo assim classificados os cidadãos nascidos e criados em zona urbana e com grau de instrução superior completo.

A norma culta se distingue da linguagem familiar, da convivência informal entre vizinhos, da língua da cultura e das festas populares, que podemos chamar de linguagem coloquial. A norma culta é regida por um modelo do bom uso da língua, fixado pela tradição literária, dos escritores clássicos, uma língua ideal, codificada nos livros de gramática, que constitui o padrão normativo da língua, ou simplesmente norma padrão. Para Lucchesi (2008), a normativização está muito mais presente nos centros urbanos, onde se concentram os espaços institucionais, do que no campo, onde a linguagem é mais conservadora e mais distante do padrão.

Entende-se, pois, que a produção da habitação social necessita de uma ação formal, por meio da qual as comunidades recebem orientações de um interlocutor técnico especializado que, através do diálogo, faz com que o relacionamento seja completo. Tomando como base essa situação, é fácil entender que a clareza deveria ser componente obrigatório, não apenas da linguagem, mas de todos os materiais produzidos e entregues às comunidades de baixa-renda, permitindo o nivelamento de sua compreensão, através da sua decodificação técnica. As condições em que a fala se produz tem viva influência sobre a forma que ela toma para atender às necessidades do momento.

Neves (2005) revela uma possibilidade de coerção social nos grupos humanos organizados, explicando a normatização da língua por um viés político e ideológico, quando o ideal da língua unificada pode ser entendido não apenas como garantia de estabilidade social, como também atestado de identidade, permanentemente alerta, contra atitudes protecionistas ou de superioridade.

Benzer Belgeler