Ao abordar a estreita relação que envolve realidades tão distintas - os técnicos e as comunidades carentes - esta pesquisa enseja a busca de uma alternativa teórica que agregue eficácia no processo de comunicação, através do reconhecimento da importância do verdadeiro diálogo. A troca de informações, através da interatividade, respeitando as peculiaridades de cada grupo, será fundamental na busca de referenciais que auxiliem a compreensão desse complexo modelo de comunicação.
De acordo com o pensamento de Marques de Melo (2007b), convém observar as diferenças existentes entre a comunicação interpessoal e a grupal:
De um lado, os atos de comunicação interpessoal (tradicionalmente objetos de estudos das ciências da linguagem ou das ciências do comportamento) e os atos de comunicação grupal (geralmente privilegiados pelas ciências da educação ou pelas ciências da administração) (MARQUES DE MELO, 2007b, p. 23).
Na busca desse entendimento, é possível compreender que as pessoas de hoje vivem em um mundo de intensas transformações. A sociedade caminha ao encontro de novas ações nos campos sociais e político e, a comunicação, como facilitadora do saber, acompanha essa busca pelo conhecimento, baseada na valorização dos aspectos culturais. Feitosa (1987) afirma que, para uma comunicação eficiente, é necessário que haja empatia por parte do emissor e um envolvimento integral com o receptor.
Ao concordar com esse conceito, Pinto (1978, p. 63) evidencia a importância identitária da língua, ao defender que “qualquer tentativa de descrição da comunicação que exclua o aspecto social é considerada inócua e ineficiente”. Trata-se de um campo onde a linguagem não é, apenas, um meio neutro de transmitir ideias, mas construtivo da realidade social. Para a autora, a realidade
social não é apenas um conceito abstrato, ele compõe o conjunto de atos repetidos dentro de um sistema regulador.
Diversos segmentos adquiriram uma posição destacada no mundo moderno, tanto que foi desenvolvida a ideia de que se está vivendo em plena
sociedade da informação79, individual ou coletivamente. O processo de formação
da identidade social dá sustentação e entendimento para que o indivíduo construa a si mesmo e ao outro como seres sociais. Por outro lado, pode determinar ao indivíduo o sentimento de pertencimento a certos grupos sociais, bem como o reconhecimento do seu significado emocional.
A força da linguagem segue caracterizando e influenciando os processos de comunicação do homem contemporâneo. Porém, com o passar dos anos, segundo Hohlfeldt (2007, p. 01), conceituar comunicação tornou-se uma tarefa difícil, tal a plurissignificação do termo. O autor exemplifica o processo de busca para consolidação para esse conceito, citando o professor norte-americano, Littlejohn80, que refere em uma de suas obras81 a existência de onze diferentes possibilidades de abordagem sobre o termo.
Com tantas variáveis possíveis em sua conceituação, a comunicação pode ser definida, também, pela externalização de múltiplos sentimentos, aplicados às diversas ações do relacionamento social humano, como sugerem Mattelart e Mattelart (2005). Por essa razão, ao contextualizar o processo de comunicação adotado para as famílias que vivem na irregularidade urbana e, portanto, vulneráveis socialmente, percebe-se a obrigatoriedade de fortalecer o
79
Para Stockinger (2001), a sociedade da informação está a tornar-se uma realidade. O seu surgimento ocorre no meio de uma época de mudanças sociais de alta velocidade, a nível mundial, presentes em todos os cantos do globo. Sistemas e redes sociais de comunicação, ligadas a personalidades, organizações e comunidades ativas e interativas, operam em novas estruturas, que geram transformações nas atividades humanas, nos mundos pessoal, público e do trabalho. Esses sistemas estão desde já ligados, inseparavelmente, a um desenvolvimento tecnológico de ambientes de informação e comunicação, até bem pouco tempo inimaginável. Via mídia e multimídia, eles se acoplam a novas formas de convívio social que requerem ainda a sua aprendizagem consciente.
80
Stephen W. Littlejohn (Ph.D., da Universidade de Utah) atualmente é Professor Adjunto de Comunicação e
Jornalismo da Universidade do Novo México. (Fonte: University of New Mexico. Disponível em: <http://www.unm.edu/~cjdept/department/profiles/littlejohn.html> acessado em 18.03.2012).
81
LITTLEJOHN, Stephen W. Fundamentos teóricos da comunicação humana, Rio de Janeiro: Zahar, 1982,
p. 38. apud HOHLFELDT, Antônio. Novas tendências nas pesquisas da Folkcomunicação: pesquisas acadêmicas se aproximam dos estudos culturais. Trabalho apresentado no Núcleo de Pesquisas sobre Folkcomunicação, no âmbito da XXV Intercom, Salvador, 2002. Disponível em: <http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista14/artigos%2014-1.htm> Acessado em: 15.04.2011.
relacionamento humano em cada atividade ali realizada. É preciso conhecer as características das vilas populares para absorver seus conhecimentos de vida.
Ao entender que “a linguagem só existe como linguagem de um povo”,
Habermas (1968, p. 31) reproduz o conceito de Hegel82 sobre a “razão da utilização
e símbolos representativos como primeira determinação ao espírito abstrato”. Para o filósofo germânico (1968) é na dimensão do espírito real que a língua assume seu papel, fazendo parte da tradição cultural. O autor entende que a consciência, uma vez externada, interage com outras, transformando-se automaticamente em uma nova, diferente. Assim, uma língua se torna verdadeira ao expressar a ideia do coletivo, preservando as individualidades formadoras de seu conteúdo.
Essa interação, baseada na convivência, de acordo com Martino (2010), fornecerá informações preciosas para uma comunicação eficaz, em que o código nada mais é que uma organização, um processo que o autor classifica como os “traços materiais dispostos, arranjados, sobre o suporte e, portanto, tornando-se uma informação” (MARTINO, 2010, p. 18).
Trabalhar com a linguagem adequada para as comunidades de baixa- renda significa desenvolver mecanismos de apoio para que elas possam compreendê-la e utilizá-la como uma ferramenta de integração, revertendo a lógica
perversa83 presente nesse formato de relação social estabelecida.
A linguagem passa a ocupar um papel fundamental para o técnico que tem como objetivo abrir espaço no universo fechado da exatidão dos projetos urbanísticos e arquitetônicos. É necessário dedicar uma visão mais humana a esse grupo de pessoas especiais que, devido à sua condição de vida e de exclusão social, tem na incompreensão sua dificuldade maior.
Esta abordagem reside em um processo de troca, agregando à função prática, a necessária interpretação das diversas formas da produção do conhecimento, seja ele técnico ou oriundo do empirismo comunitário. Um processo
82 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo clássico, autor de um esquema dialético no qual o que
existe de lógico, natural, humano e divino oscila perpetuamente de uma tese para uma antítese, e de volta para uma síntese mais rica.
83
Bourdieu foca o combate ao Neoliberalismo, colocando como alternativa a ele a responsabilidade social dos intelectuais e do Estado; a cultura dominada pelo mercado estaria criando uma sociedade mais perversa. Chama a atenção para a necessidade de um papel mais atuante dos intelectuais para a vida pública e, do Estado, na tentativa de garantir os interesses de todos. Aponta para a necessidade de identificação com o espaço e tempo de onde fala, pois mostra um sentido para a realidade que estamos enfrentando e que nos faz refletir. Um certo universalismo é apenas um nacionalismo que invoca o universal (Fonte: BENEDETTI, 2008 p.20).
que necessita o envolvimento do arquiteto com as comunidades de baixa-renda,
construído de forma interativa com os moradores, como preconizou Hassan Fathy84
(1980), ao reforçar o verdadeiro significado de habitação e, ao mesmo tempo, preservando a identidade de seus moradores e, conservando suas histórias de vida.
O reconhecimento desta identidade é uma peça fundamental no relacionamento, segundo o raciocínio de Paiva e Bocco (2000, p. 491), na redução das dificuldades de comunicação, ao compreender e conhecer os “elementos culturais sujeitos à diversidade”, bastando, para tanto, utilizar a linguagem adequada.