Existem muitas versões que podem justificar o surgimento e o desenvolvimento da linguagem, desde o início da humanidade. A ciência nos mostra que, desde a idade da pedra, o homem sentiu necessidade de se comunicar, seja com gestos, sons primários, guturais, ou mesmo através da arte rupestre do homo-sapiens. Provavelmente, naquele período, o homem atingiu um importante grau de desenvolvimento e estabilidade, como ser gregário, com um intenso intercâmbio entre pequenos núcleos dentro de suas comunidades. Com a evolução, a espécie humana desenvolveu seu processo de interação, descobrindo a comunicação através das ideias, possível somente com esta ferramenta abstrata, chamada linguagem.
Ao longo da história, muitos estudos foram realizados sobre os sistemas linguísticos, de acordo com o enfoque teórico do pesquisador ou seu campo de interesse. Esse interesse pelo estudo da língua evoluiu ao longo dos séculos de tal forma a nos permitir, hoje, informações que retroagem à Grécia antiga. Porém,
somente a partir do século XX, com Ferdinand de Saussure88, é que a linguística
adquire seu reconhecimento como ciência. A Linguística entende na língua uma entidade composta de dupla face, ou seja, significado (seu aspecto conceitual) e significante (imagem acústica, o caráter material do signo). Na verdade, os dois termos representam, assim como uma folha de papel, a indissociabilidade desses dois conceitos.
Não há, nas línguas, significado sem significante, e vice-versa. Para Saussure (2006), o valor de uma palavra reside na propriedade que tem de valorizar uma ideia, dando-lhe representação de valor linguístico.
Mas se assim é, em que difere o valor do que se chama significação? Essas duas palavras serão sinônimas? [...] O valor tomado em seu aspecto conceitual, constitui, sem dúvida, um elemento da significação, e é dificílimo saber se distingue dele, apesar de estar sob sua dependência. É necessário, contudo, esclarecer esta questão, sob pena de redizei à língua a uma simples nomenclatura (SAUSSURE, 2006, p. 133).
Na verdade, os desdobramentos pós-saussureanos alçaram a linguística a um posto importante, ao descrever as particularidades presentes em cada língua e ampliando o conhecimento, através de teorização própria, a respeito da estrutura e do funcionamento da linguagem humana, de um modo geral. Esta contribuição em especificar as particularidades e o funcionamento da língua foi fundamental para qualificar a compreensão dos estudos linguísticos presentes neste complexo sistema que integra a sociedade humana. Por essa razão, Saussure refere-se à língua como um tesouro, cuja única regra de uso é receber e memorizar o seu código.
Trata-se de um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou, mais exatamente, nos cérebros dum conjunto de indivíduos, pois a língua não está completa em nenhum, e só na massa ela existe por completo (SAUSSURE, 2006, p. 21).
Corroborando essa ideia, Gnerre (1994) afirma que a linguagem não é usada somente para veicular informações, mas que, na verdade, ocupa uma “posição central de comunicar”, adquirindo valor quando realizada no contexto
88
Ferdinand de Saussure (1857-1913), filósofo suíço, cujas teorias desenvolveram a linguística enquanto ciência autônoma. Seu pensamento exerceu grande influência sobre o campo da teoria da literatura e dos estudos culturais.
social e cultural apropriado. Os estudos sobre a natureza da linguagem de Bakhtin (2006) revelam suas relações com a sociedade ao considerar que a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema abstrato das línguas, nem no psiquismo individual do falante.
É necessário compreender a própria filosofia da língua, como os sistemas de normas sociais, definidos por Bakhtin (2006), relacionando a questão social à “consciência subjetiva dos indivíduos que participam da coletividade regida por essas normas”.
São assim os sistemas de normas morais, jurídicas, estéticas (tais normas realmente existem) etc. Certamente, essas normas variam. Diferem pelo grau de coerção que exercem, pela extensão de sua escala social, pelo grau de significação social, que é função de sua relação mais ou menos próxima com a infraestrutura etc. Mas, enquanto normas, a natureza de sua existência permanece a mesma (BAKHTIN, 2006, p. 92).
Pode-se identificar a significação do social e sua utilização específica e cotidiana por um determinado grupo ou comunidade, que o autor considera como a
língua nativa, percebida de modo totalmente diverso das outras, ou seja, “a palavra
nativa percebida como um irmão, como uma roupa familiar, ou melhor, como a atmosfera na qual habitualmente se vive e se respira. Ela não apresenta nenhum mistério”(BAKHTIN, 2006, p. 102).
Assim sendo, é necessário identificar a comunicação voltada às famílias de baixa-renda como produto dessas relações cotidianas, conferindo um sentido particular à percepção desses indivíduos sobre sua vida na sociedade. Significa, como enfatizam Paiva e Bocco (2000), compreender de que forma as pessoas se comportam, de acordo com suas percepções de mundo, incluindo sua experiência de vida e bagagem cultural.
Uma linguagem, por vezes, forjada nas raízes mais profundas de uma comunidade, segundo o entendimento de Bakhtin (2006, p. 102), “transforma-se exteriormente ou desprende-se de seu uso cotidiano”. Uma linguagem dita popular, presente nas mais diversas situações cotidianas de cada indivíduo, seja nas conversas informais entre amigos, programas de televisão, inclusive nas anedotas, bem compreendidas na interpretação de Paulo Freire (1985, p. 09), “mostra o mundo de carências das populações periféricas, geradas pelas carências impostas e apresentadas como algo natural”.
Assim, esta pesquisa, ao basear-se na experiência profissional do autor, voltada às comunidades de baixa-renda, evidencia as dificuldades em iniciar um processo comunicativo quando existe a imposição do conhecimento da língua culta. Na verdade, o próprio uso de expressões técnicas, em detrimento de outras formas alternativas, seguramente traz fortes consequências, como a exclusão e o sentimento de inferioridade. Muitas são as razões pelas quais o emprego de uma linguagem culta, em nosso país, apresenta um alto grau de diversidade e de
variabilidade. A mais forte talvez resida na carência do ensino fundamental89, em
parte fruto de políticas públicas de educação equivocadas90, mas também devido à
grande extensão territorial do país.
Nesse sentido, Bagno afirma que a questão não é apenas a linguagem utilizada, mas o respeito à própria pessoa na sua “integridade física, individual e social” (BAGNO, 2007, p. 143). É possível compreender que a complexidade no estudo da língua, como parte essencial da linguagem, envolve questionamentos que suscitam a análise de outras ciências, como a Psicologia, a Antropologia etc. Nesse sentido, reconhece-se a língua como um elemento sociocultural, que adquire valor, não apenas como meio de conhecimento, mas também como símbolo do próprio conhecimento.
Ao reconhecer a importância da comunicação através da linguagem, é possível compreender porque, mesmo uma pessoa dita culta, dificilmente se expressa em seu dia a dia usando a forma purista. Ao contrário, por vezes, a fluidez em uma conversação se dá através da liberdade de uso da gíria e do palavreado mais chulo. A marca desses formatos de linguagem é a heterogeneidade. A diversidade transcende os limites geográficos das comunidades, pois está presente no contato cotidiano, nas músicas, nos jornais etc.
89
Segundo a UNESCO, o Brasil está entre os 53 países que ainda não atingiram e nem estão perto de atingir os Objetivos de Educação para Todos até 2015, apesar de ter apresentado importantes avanços no campo da educação ao longo das duas últimas décadas (Fonte: UNESCO – disponível em: <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/education/education-for-all > acessado em: 20.05.2011).
90 A preocupação com a qualidade da educação básica ofertada figura entre os principais focos de atenção dos gestores públicos do Brasil e entre as maiores causas de mobilização da sociedade civil [...] Diversos estudos já investigaram o que é possível fazer dentro das escolas para melhorar os resultados escolares e, posteriormente, o desempenho de mercado de trabalho, seja por meio da melhora da infraestrutura escolar, professores e diretores melhor qualificados e de outras atividades oferecidas em escolas. Não é comum, entretanto, encontrar políticas educacionais que tenham impactos importantes sobre os resultados educacionais (Fonte: Ministério da Educação).
Tem-se, então, que a língua é também um instrumento de representação comportamental, praticado por um grupo específico, permitindo variações em seu interior, mas unida através dos laços de convivência. Por essa proximidade cotidiana, os sujeitos terminam por adotar modos de falar muito semelhantes, distinguindo-se de outros indivíduos. É necessário ter o cuidado de compreender que essa linguagem coloquial ou popular, mesmo associada à simplicidade (decorrente da espontaneidade, da própria informalidade cotidiana), não deve ser confundida com a gíria91.
Esse, na verdade, é um tipo de linguagem especial, em que determinados grupos sociais utilizam palavras não convencionais para designar outras realidades formais da língua com o intuito de codificação ou, mesmo, de distinguir o grupo dos demais, criando um jargão próprio. Como vocabulário de grupo, ela surge entre os mais diversos grupos sociais, constituindo uma marca identificadora desses grupos.
Parece evidente que todas as línguas naturais possuem recursos próprios, necessários para a comunicação entre seus falantes. Se uma língua não possuir um vocabulário extenso num determinado domínio, significa que os seus falantes não necessitam dessas palavras; caso contrário, ao tomar contato com novas realidades ou novas tecnologias, os falantes dessa língua serão fatalmente levados a criar novos termos ou a tomá-los emprestados.
À luz da competência linguística, é possível avaliar esse tipo de comunicação como uma variante do povo, aplicada nas mais diversas microrregiões da cidade, como bares, mercados ou fábricas. Seguramente, não são todos os indivíduos de uma sociedade que têm acesso a conteúdos de referência culta, geralmente considerada a língua padrão, na visão de Gnerre (1994, p. 06), “associada tipicamente a conteúdos de prestígio”.
91
Conforme Preti (1984), quando esses grupos sociais restritos, pelo contato com a sociedade, vulgarizam seu comportamento e sua linguagem, perde-se o signo de grupo. Para o autor, no caso da gíria, ela se incorpora à linguagem popular, tornando-se o que costumamos chamar de gíria comum, segundo alguns estudiosos mais ortodoxos, constituindo-se simplesmente como parte do vocabulário popular. Mesmo a gíria sendo expressão social através da língua, ela se dissemina entre todas as classes.