A qualidade das informações contábeis tem sido investigada ao longo do tempo, desde que veficada quando a empresa em distribui dividendos, verificada a partir do lucro, até a reação do mercado à divulgação das demonstrações contábeis pelas empresas.
Este trabalho analisou a aplicação dos padrões contábeis de três maneiras diferentes, com a finalidade de verificar se a utilização dos padrões internacionais de contabilidade tornam os financial reporting mais informativos e com informações de maior qualidade, quando comparado com a não utilização dos mesmos: primeiramente, de forma global,em que os dados dos sete países (que já adotaram os IFRS) foram analisados em conjunto; em segundo momento, separadamente em dois grupos de países, G7 e BRICS; e por fim,cada país individualmente.
Para isto, e com a utilização de dados em painéis, quatro dimensões foram investigadas, por meio de hipóteses, consideradas como capazes de capturar no mercado de capitais a qualidade das informações contábeis. São elas: (H1A) persistência dos resultados (lucro líquido e fluxo de caixa operacional); (H1B) conservadorismo condicional; (H1C) gerenciamento de resultados (Modelo Pae e Modelo Paulo) e (H1D) a reação do mercado às informações contábeis (value relevance).
Os modelos utilizados são os discutidos na literatura nacional e internacional, mas ainda foram ajustados por variáveis que controlam as diferenças entre determinados países e empresas, como o crescimento, giro, endividamento e o fluxo de caixa.
Na análise global, que responde parcialmente a questão desta pesquisa, todos os países foram analisados no que tange a dimensão da persistência dos resultados (lucro líquido e fluxo de caixa operacional), do conservadorismo condicional, do gerenciamento de resultados e do Value Relevance.
Com isto, os resultados rejeitaram todas as hipóteses, exceto no que tange a última (H1D), pois o poder informativo das variáveis contábeis – patrimônio líquido e lucro líquido – passaram a ter maior relevância depois da utilização dos padrões internacionais de contabilidade.
Vale destacar que, apesar dos resultados se mostrarem persistentes, a primeira hipótese é rejeitada, pois os IFRS não são capazes de influenciar a persistência dos resultados. Quanto ao conservadorismo, os resultados não se mostram conservadores nem antes nem depois da adoção dos padrões internacionais para os dados globais. Para o gerenciamento de resultados, observou-se aumento, ao invés de redução, no gerenciamento de resultados. Tal fato pode ser explicado pelo aumento da subjetividade inerente aos padrões internacionais de contabilidade, com a prevalecência dos princípios ao invés de regras.
Na análise dos dois grupos de países – G7 e BRICS – os resultados nãoforam diferentes, pois apenas a dimensão do Value Relevance, hipótese H1D foi rejeitada. Apesar dos países do BRICS ter apenas uma variável relevante depois da adoção dos padrões internacionais, a literatura defende que o aumento do R2 é quem determina o poder informativo.
Quando analisado por países, os resultados possibilitaram maior detalhamento, mas com resultados similares aos anteriores.
No caso da persistência dos resultados, analisado o lucro contábil e o fluxo de caixa operacional, verificou-se que os lucros são mais persistentes que os fluxos de caixa, o que pressupõe que, no período analisado, os resultados seguem os de Dechow (1994), em que a autora verificou que o lucro é mais persistindo no longo prazo. No grupo de países analisados, o lucro foi persistente, mas não decorrente da aplicação dos padrões internacionais de contabilidade, o que possibilitou a rejeição da hipótese de pesquisa para os países analisados.
Quanto ao conservadorismo, a hipótese de pesquisa também foi rejeitada, apesar dos países se apresentarem conservadores, uma vez que variável de lucros negativos foi relevante para Itália, Reino Unido, África do Sul e China; porém, apenasnos dois últimos, os padrões internacionais foram capazes de influenciar o conservadorismo, quando as informações passaram a ser bem mais conservadoras do que sem a aplicação dos mesmo.
Para o gerenciamento de resultados, com aplicação de dois modelos, um estrangeiro (PAE, 2005) e outro brasileiro (PAULO, 2007), também foi rejeitadaa hipótese de pesquisade redução do gerenciamento des resultados emdois países (Alemanha e África do Sul),não houve dados significativos de aumento do gerenciamento de resultados. Para isto, o teste de Vuong (1968) foi aplicado com a finalidade de verificar qual o modelo seria o mais robusto para rejeitar ou não a hipótese, o que proporcionou maior robustez na análise dos dados. Observou-se que apenas para a África do Sul o modelo Pae (2005) teve melhor desempenho
quanto aos resíduos e não apresentou aumento no gerenciamento de resultados. Entretanto, não foi possível afirmar que a hipótese de pesquisa não seria rejeitada para redução no gerenciamento dos resultados contábeis.
Quanto ao value relevance, percebe-se que esta dimensão foi a mais significativa quanto aos resultados apresentados, pois possibilitou a rejeição da hipótese de pesquisa para apenas três países, Itália, Reino Unido e Brasil. Para os demais, a hipótese não foi rejeitada, ou seja, permite afirmar que os padrões internacionais aumentam o poder informativo das informações contábeis, no que tange ao patrimônio líquido e lucro liquido, para Alemanha, França, África do Sul e China.
Observa-se que a relevância das informações foi importante no que tange a útlima dimensão analisada. Isto possibilita dizer que o value relevance tem grande importância para analisar a aplicação de padrões internacionais no grupo analisado, excetuando-se Itália, Reino Unido e Brasil, que tiveram o poder informativo reduzido, mesmo que discretamente, quando da utilização dos padrões internacionais de contabilidade.
Quanto à sugestão para trabalhos futuros, pode-se investigar outras variáveis de controle que possam ser incluídas nos modelos operacionais, para controlar a heterogeneidade entre as empresas analisadas. Isto tem sido preocupação quando da aplicação de padrões específicos, tais como o de leasing, contabilização de pesquisa e desenvolvimento e teste de impairment.
Além disto, para gerenciamento de resultados ainda não existe um modelo mais adequado que possua capacidade de estimar bem os accruals discricionários, conforme descrito por Dexchow, Ge e Schrand (2010), que possibilita conduzir estudos similares ao aqui desenvolvidos com a utilização de novos modelos para estimar os accruals discricionários.
Outra possibilidade de pesquisa seria investigar a relação entre as variáveis que explicam o gerenciamento dos resultados com o value relevance, persistência e com o conservadorismo condicional, uma vez que o gerenciamento das informações contábeis pode influenciar a reação dos investidores.