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O gerenciamento de resultados é um julgamento arbitrário que os gerentes fazem sobre as demonstrações contábeis e nas estruturas das transações para alterar as informações e alterar a percepção dos usuários sobre o desempenho econômico da companhia (HEALY; WAHLEN, 1999). Os autores afirmam que a definição gerenciamento de resultados é relevante para organismos que emitem padrões contábeis. Assim, tratam que o

Gerenciamento de resultados ocorre quando os gestores usam julgamento sobre relatórios financeiros e na estruturação de operações para alterar os relatórios financeiros, para enganar alguns dos stakeholders sobre o desempenho econômico da empresa ou para influenciar os resultados contratuais que dependem dos números contábeis reportados (HEALY; WAHLEN, 1999, p. 368).

Na literatura sobre gerenciamento de resultados, diversos são os termos utilizados e/ou relacionados e procuram explicar o mesmo significado, dentre eles: gerenciamento de lucros (DECHOW et al., 1995), suavização do lucro, contabilidade criativa, entre outros (CARDOSO, 2005, PAULO, 2007). Todas as nomenclaturas são provenientes do termo earnings management e tem sua equivalência ao termo gerenciamento de resultados contábeis (MATSUMOTO; PARREIRA, 2007).

Martinez (2001) destaca algumas questões sobre o gerenciamento de resultados que envolvem “quem está fazendo o gerenciamento?”, “porque está fazendo?”, “como a administração manipula?” e “quais são os efeitos e consequências?”. Ainda destacou que as duas primeiras perguntas foram amplamente discutidas e ainda pairam dúvidas sobre as demais.

Dechow, Ge e Schrand (2010) confirmam a afirmação de Martinez quando analisam as determinantes e consequências do gerenciamento de resultados, e ainda destacam a ausência de um modelo robusto para estimar os accruals e para detecção do gerenciamento de resultados, uma vez que tal gerenciamento pode ser devido a fatores internos, como reconhecimento e mensuração de determinados ativos ou passivos, ou externos, para atender a expectativas dos usuários das informações contábeis.

O gerenciamento de resultados pode ser classificado em várias modalidades, dentre as quaisestão o target earning (aumentar ou diminuir os resultados), o income smoothing (reduzir a variabilidade dos resultados) e o big bath accounting (redução do lucro corrente para aumentar o lucro futuro) (MARTINEZ, 2001; DECHOW; GE; SCHRAND, 2010). Segundo considerações dos dois trabalhos citados, os autores enfatizam que existem três motivações para o gerenciamento de resultados:

 Incentivos contratuais (compensação): a informação contábil é utilizada para monitorar e regular os contratos entre agente (empresa) e o principal (diversos stakeholders) (HEALY; WAHLEN, 1999),e o gerenciamento pode seguir uma perspectiva ex ante (obtenção de menor variância no lucro para obter menor taxa de financiamento) ou ex post (praticado para evitar violação de cláusulas contratuais) (SCHIPPER, 1989).

 Mercado de capitais (expectativas do mercado): o gerenciamento de resultados é utilizado como finalidade de influenciar o desempenho no curto prazo, tais como a expectativa do mercado, preço das ações em períodos de oferta pública ou recompra de ações (HEALY; WAHLEN, 1999). Enfim, não desapontar o mercado em suas expectativas; e

 Regulação (processos políticos): o ambiente regulatório oferece um potencial significativo para o gerenciamento de resultados (HEALY; WAHLEN, 1999). Além disto, empresas vulneráveis a consequências políticas diversas apresentam incentivo para gerenciar seus lucros para parecerem menos lucrativas (WATTS, ZIMMERMAN, 1990). Além disso, se um conjunto de normas leva ao gerenciamento de resultados, mudanças na regulação podem conduzir as empresas a praticá-lo mais.

Diversos estudos têm se preocupado com o gerenciamento dos resultados contábeis. Rodrigues (2008) destaca que os trabalhos seminais e relevantes, considerados clássicos, são os de Healy (1985), McNichols e Wilson (1988), Jones (1991) e o de Burgstabler e Dichev (1997). De forma geral, estes trabalhos contribuíram com metodologias sobre manipulação das informações contábeis na forma de acumulações discricionárias.

O estudo de Healy (1985) introduziu o primeiro modelo para avaliação de gerenciamento de resultados, no qual o autor demonstrou que os gerentes manipulavam

resultados para aumentar a remuneração na forma de bônus, por meio da associação entre acumulações e incentivos dos gestores.

Já McNichols e Wilson (1988), testaram a manipulação contábil em provisão para devedores duvidosose sua utilização com a finalidade de gerenciar o lucro divulgado. Para Jones (1991) a manipulação acontece por meio da proteção tributária da empresa, em que os gerentes modificam os critérios de reconhecimento de receita e despesa para economizar impostos.

Na mesma linha de pesquisa e seguindo as pesquisas citadas anteriormente, diversos outros estudos focaram o gerenciamento de resultados. Burgstahler e Dichev (1997) verificaram que o gerenciamento de resultados é utilizado para diferir perdas e, com isto, reduzir o impacto delas no resultado; verificaram ainda alterações no fluxo de caixa operacional e alterações no capital de giro das empresas analisadas. Enfim, as empresas gerenciam seus resultados para evitar perdas e sustentar os resultados obtidos.

Após listar diversos estudos sobre a manipulação das informações contábeis, Paulo (2007) testou os mais diversos modelos de estimação de accruals para analisar o gerenciamento de resultados, envolvendo modelos6, e ainda propôs um modelo de estimação de accruals para detecção de gerenciamento de resultados. Ainda destacou que os modelos não apresentam fundamentação teórica adequada e que alguns dos modelos não têm poder preditivo sobre gerenciamento de resultados e apresentam problemas de especificação das variáveis utilizadas e/ou omitidas para estimação dos accruals.

Ainda Richardson et al (2005) decompuseram os lucros entre accruals e fluxo de caixa, a direção natural das pesquisas para examinar os tipos específicos de accruals. Os autores separaram os accruals em longo prazo e curto prazo, sendo os de curto prazo menos persistentes que os de longo prazo, bem como os accruals financeiros menos persistentes que os operacionais.

De outra forma, Defond e Park (2001) segregaram os accruals discricionários dos nãos discricionários e verificaram que os investidores os distinguem, mas não incorporam completamente isto no preço.

6Healy (1985), DeAngelo (1986), Setorial (DECHOW; SLOAN, 1991), Jones (1991), Jones Modificado (DECHOW; SLOAN; SWEENEY, 1995), KS (1995), Marginal (PEASNELL et al, 2000), Jones Forward

Dentre tais problemas, destacam-se a falta de controle sobre: as mudanças nos accruals discricionários; as mudanças normais nas atividades operacionais a variação de preços ao longo do tempo as variáveis contaminadas pelo gerenciamento de resultados e outras mais. O quadro 4, a seguir, é um resumo elaborado por Paulo (2007) contendo o comparativo sobre os principais problemas de especificação para estimação dos accruals discricionários para os modelos de gerenciamento de resultados.

Quadro 4 – Comparação dos problemas de especificação dos modelos de estimação dos accruals discricionários.

N Problemas de Especificação do Modelo A B C D E F G H I J

1 Controla adequadamente as mudanças dos accruals discricinários oriundos das condições econômicas N N N N N N N N N P 2 Considera operacionais decorrentes da sua atuação empresarial mudanças normais nas atividades N N N P P S N P P S 3 Controla a variação dos preços ao longo do tempo N N N N N N N N N N 4 Assume que os accruals não-discricionários são constantes ao longo do tempo S S N N N N N N N N 5 Considera as diferenças de estratégias e a estrutura das operações entre as empresas N N N P P S N P S S 6 A reversão natural dos accruals dos períodos anteriores não é controlada S S S S S S S N N N 7 Controla desempenhos extremos de fluxo de caixa N N N N N N N N S S 8 Não controla desempenhos extremos dos Resultados N N N N N N N N N S 9 Variáveis utilizadas para controlar os fatores econômicos relevantes podem ser contaminadas pelo

gerenciamento de resultados

S S S S S S S S S S 10 Controla os accruals discricionários relacionados aos custos e despesas N N N N N S N N N S 11 Controla o tamanho da empresa N N N S S S P S S S

12 O modelo tem intercepto * * S N N S S S N S

13 Considera que o reconhecimento das receitas é gerenciado * * * N S S S S N S 14 Assume que todas as variações nas vendas a prazo são práticas de gerenciamento de resultados * * * * S * N N N N 15 Avalia basicamente nos accruals que têm efeito de curto prazo S S S S S S S S S S 16 Controla resultados negativos N N N N N N N N N S 17 Assume o pressuposto de que os accruals discricionários são ortogonais aos não discricionários S S S S S S S S S S 18 Controla o conservadorismo contábil no processo de mensuração dos accruals N N N N N N N N N S Legenda:

1) Problema de especificação do modelo: S = sim; N = Não; P = Parcialmente; * = Não se Aplica 2) Modelos analisados:

A) Modelo de Healy (1985) F) Modelo KS (1995)

B) Modelo DeAngelo (1986) G) Modelo Marginal (PEASNELL et al, 2000) C) Modelo Setorial (DECHOW; SLOAN, 1991) H) Modelo Jones Forward Looking (2003)

D) Modelo Jones (1991) I) Modelo Pae (2005)

E) Modelo Jones Modificado (1995) J) Modelo proposto por Paulo (2007) Fonte: Adaptado a partir de Paulo (2007).

Dentre os grandes problemas enfrentados pela especificação dos modelos de gerenciamento de resultados está a especificação dos modelos de estimação dos accruals discricionários, uma vez que o total dos accruals é dado por:

TA = AND + AD (2)

em que:

TA é o total dos accruals;

AND são os accruals não-discricionários (não gerenciados); e AD são os accruals discricionários (gerenciados).

Para verificar o gerenciamento de resultados – por meio da estimação os accruals discricionários – os modelos dispostos no quadro 4 procuram utilizar-se de regressão linear dos parâmetros analisados, ora calculando o gerenciamento, por meio de uma equação, ora utilizando o erro da regressão para dizer se houve ou não accruals discricionários.

Paulo (2008, p. 102) destaca três passos para estimar os accruals discricionários: 1) Estimar os parâmetros da regressão dos accruals totais (TA)7:

∑ (3)

em que:

TAt é o total dos accruals da empresa no tempo “t”; e

δt representa as variáveis que afetam o comportamento dos accruals totais na

empresa no período “t”.

2) Calcular os accruals não-discricionários com base nos coeficientes encontrados no primeiro passo, juntamente com as variáveis explicativas de cada observação:

∑ (4)

em que:

NDAt é o total dos accruals não-discricionários da empresa no tempo “t”; e

δt representa as variáveis que afetam o comportamento dos accruals totais na

empresa no período “t”.

3) Estimar os accruals discricionários com base na equação básica dos accruals totais menos os accruals não-discricionários (ADt = TAt– ANDt).

Observa-se que os accruals discricionários obtidos no passo 3 (três)podem ser obtidos a partir do erro da regressão efetuada no passo 1 (um).

Além disto, Dechow e Dichev (2002) verificaram que o desvio padrão dos resíduos do modelo é a proxy para qualidade do lucro. Empresas com amplo desvio padrão têm menor persistência dos resultados, longos ciclos operacionais, amplos accruals e maior volatilidade do fluxo de caixa.