9. SONUÇLAR VE ÖNERİLER
9.1 Sonuçlar
O segundo volume de Abraão Batista também possui 32 páginas. Sem a necessidade de apresentar novamente o personagem, que já fora contextualizado nos versos do primeiro volume, este folheto se configura como uma continuação e que busca comprovar a veracidade dos causos contados no primeiro através do relato de testemunhos de pessoas que o teriam lido e que, para confirmar a postura de Seu Lunga, apresentariam novas histórias.
O folheto começa com o segundo campo de realidade quando o poeta afirma continuar interpretando as histórias sobre Seu Lunga. Retoma o primeiro folheto, onde teria analisado de forma científica o que ouvia falar sobre o personagem. Nestes versos, então, o poeta tanto intenciona aproximar sua construção de uma objetividade comprovada, quando fala em “maneira científica” de análise, ao mesmo tempo em que declara que essas histórias fazem parte das conversações cotidianas e que circulam informalmente pelo boca-a-boca, inclusive sem nenhuma referência sobre a fonte dessas histórias.
Na terceira estrofe, então, menciona que muitas das histórias teriam sido criadas pelo povo, inventadas a partir de motivos dados por Seu Joaquim. O que configura o terceiro campo de significação, quando o poeta começa a atribuir valores às ações de Seu Lunga, interpretando o comportamento dele no cotidiano e em um programa de televisão.
No momento em que atribui ao povo a invenção, temos um décimo terceiro campo, que não aparece no primeiro folheto. No capítulo 3, fizemos uma discussão sobre realidade e ficção em que compreendemos que o relato da realidade já constitui uma nova realidade, portanto, uma ficção, que seria sinônimo do que os poetas chamam de invenção, ou seja,
criações que partem o imaginário, mas que têm referência em práticas culturais estabelecidas na realidade cotidiana. Neste caso, temos um campo de significação em que o poeta cria um discurso sobre outro campo finito que seria a ficção, a invenção de outrem.
Este décimo terceiro campo engloba toda a produção dos folhetos, em que temos nas entrevistas com os poetas as declarações de que os causos contados são representações poéticas de uma fala popular, mas é apenas aqui que temos isso declarado sob a forma de discurso e como constitutivo do objeto aqui analisado. A simples atribuição dos relatos ao povo constitui terceiro campo. Desta forma, ainda, Abraão Batista tira de si a responsabilidade criadora, afirmando que as histórias não foram produzidas por ele, mas que já fazem parte de um repertório coletivo, que teria surgido do próprio Seu Joaquim.
O primeiro causo relatado por Batista no segundo volume configura-se inicialmente como um quarto campo de significação. Trata-se de um relato sobre um programa de televisão do qual Seu Lunga participou como entrevistado e, segundo o poeta, teria confirmado os causos do primeiro folheto. “Mostrou de fato/ que meus versos têm razão” permanece com uma buscar de relacionar os relatos com a realidade cotidiana, a busca de uma comprovação que o distancie da ideia de ficção. A apreciação do poeta configura o terceiro campo.
O causo de Seu Lunga na televisão pode ser confirmado se houver algum tipo de arquivo na emissora que levou o programa ao ar, configurando uma manifestação de segundo campo, ainda que este não seja o campo de significação mais evidente, mas oferece um caráter de realidade mais próximo do cotidiano, pois este causo pode ser verificado no caso de uma gravação do programa ser encontrada. O que distancia, então, o poeta deste segundo campo é que a própria transmissão pela televisão já é a constituição de uma nova significação, que será mais uma vez ressignificada na compreensão do poeta, que ressignificará novamente ao fazer o relato no folheto. Assim, neste causo, temos um terceiro campo de significação duas vezes, um que é o da transmissão televisiva e outro que é o da interpretação feita pelo poeta. Poderíamos pensar aqui em um novo campo, mas como o poeta se refere à programação, e conta a história sobre a participação de Seu Lunga no programa, permanecemos com a classificação do terceiro campo em que o que mais se destaca é a apreciação que o poeta faz da imagem a qual ele tem acesso.
No decorrer do causo, temos a reprodução da fala de Lunga (“Não, eu não estou aqui/estou em casa sentado” e “É, estou na minha casa/no vídeo da televisão”), que configura o sexto nível, aquele mais presente nos causos e o que mais traz elementos para a constituição do personagem; temos um discurso sobre uma possível interpretação da plateia como personagens indeterminados (“Como pode? O homem aqui/e em casa afastado?”), o que
configura o décimo nível de significação, combinado ao nono, que se refere a personagens aleatórios, sem referentes estabelecidos.
Há também uma estrofe em que Seu Lunga explica o próprio comportamento. Nela, identificamos uma interpretação que o poeta faz em uma interpretação realizada pelo personagem, que é o discurso utilizado por Seu Joaquim no cotidiano, sobre suas respostas que teriam o objetivo de ensinar às pessoas a falarem “corretamente”. Temos, então o sétimo campo, em que o poeta apresenta a fala de Seu Lunga acrescida de suas opiniões.
Seu Lunga olhou Portela - O povo é quem exagera Eu só respondo o exato
Conversa miúda já era Portanto eu conto um fato
Pra agradar a galera.
Ainda neste causo referente à participação de Seu Lunga em um programa de televisão, o poeta faz um relato de uma ação que teria sido contada pelo próprio Seu Joaquim, ainda na tentativa de explicar seu comportamento através da interpretação denotativa de uma solicitação feita em sua loja. Continuamos, então, no sétimo campo, em que temos a construção do discurso do personagem sobre ele mesmo, relatado e interpretado pelo poeta.
Em seguida o poeta manifesta o terceiro campo, interpretando as ações de Seu Lunga, deixando claro que se trata de uma opinião em torno do relato ao qual ele teria assistido.
Com a entrevista, Seu Lunga Fez meu folheto aprovado Tudo o que eu disse antes Foi no vídeo confirmado Seu Lunga tem seu retrato
No verso imortalizado.
O terceiro campo de significação aparece novamente em outros momentos do folheto. A repercussão do primeiro folheto é apreciada pelo poeta, que insere seu ponto de vista, afirmando que teria feito de Seu Lunga um personagem famoso, embora ele não tenha gostado. Inclusive, desculpa-se pela possibilidade de ofensas, mas volta a atribuir a criação ao povo, em uma mesma estrofe transitando ente terceiro e décimo terceiro campos.
Portanto ao grande Lunga Humilde peço perdão Se por isso se zangou Por favor, faço questão Mas Seu Lunga é do povo
Com toda imaginação.
Retorna ao segundo campo relatando um momento, ao qual se fazia presente e se constitui também como personagem, em que levava um folheto e teve contato direto com um
leitor e inicia o relato de mais um causo, configurando ao mesmo tempo um nono campo de significação em que o interlocutor indefinido faz um relato sobre Seu Lunga, que é interpretado e ressignificado por Abraão Batista nos versos do segundo volume.
No decorrer do folheto, os versos seguem as mesmas estruturas das historietas apresentadas no primeiro volume, com pessoas fazendo perguntas ou comentários conotativos para Seu Lunga, que responde com sentidos denotativos, ou com contrários diante de perguntas com respostas óbvias. O poeta interpreta, principalmente, sentimentos de personagens aleatórios que se sentem constrangidos ou decepcionados pelas respostas de Seu Lunga, ou pela falta delas. Estas interpretações constituem o campo 10.
Aquela resposta foi Pra elas, decepção; As estudantes queriam
Fazer dele gozação Ouvir bem umas respostas Que fossem de malcriação.
A ideia de que todo texto parte de algum ponto da realidade cotidiana, do primeiro campo de significação, que oferece referentes à imaginação criativa, pode ser exemplificada mais uma vez neste folheto, como quando se refere à exibição no programa de televisão, ou quando se coloca como personagem. Trata-se do segundo campo de significação, onde há uma referência histórica e comprovável. Parte-se do campo 1, referindo-se a ele sob a forma de campo 2 e que o discurso constitua quaisquer outros campos independentes ou interligados.
Abraão Batista conta, então, causos (campo 2) que partem da candidatura de Seu Lunga a vereador de Juazeiro do Norte em 1990 (campo 1), fazendo uma apreciação da postura do personagem nesse contexto (campo 3).
Seu Lunga foi um candidato E como é bom cidadão Tinha o nome comentado No mais longe quarteirão
No comício era festa Grande alegria do povão.
A candidatura de Seu Lunga continua sendo referência em estrofes seguintes, quando o poeta começa a tratar da construção da imagem cristalizada do personagem, referente ao comportamento grosseiro. Em relatos que agregam campos 4, 5, 6 e 9, tratam de personagens aleatórios que seriam possíveis eleitores de Seu Lunga e que tentam interagir com ele no contexto dos votos. Chegamos, inclusive, ao décimo primeiro campo, em que as ações de Seu Lunga, de tão grosseiras, chegam a atingir a ele mesmo, como nos apresenta Abraão Batista na seguinte estrofe:
Eu rasguei os tais retratos Para poupar os trabalhos Quando eu lhes der as costas
Vão fazer deles retalhos Por isso fiquem sabendo Que não me botam chocalhos.
Temos ainda, em três momentos distintos, o oitavo campo de significação em que o poeta faz referência a personagens definidos, seja por nome, seja por vínculo de parentesco com Seu Joaquim. No segundo volume de Abraão Batista, ele menciona um dos filhos de Seu Lunga, um amigo próximo chamado Cícero Paulo e o candidato a prefeito na mesma época da candidatura de Seu Lunga, Cabral Sales. Nos três causos, temos também campos 4, 5, 6 e 7. Abraão relata os causos, apresenta as interpretações de Seu Lunga e opina sobre seu personagem, construindo a sua imagem, alternando entre as grosserias e as afirmações sobre o bom caráter de Seu Joaquim, o que também se refere ao terceiro campo de realidade.
Neste segundo volume de Abraão Batista, além da tentativa de comprovar os relatos e suas relações diretas com a realidade cotidiana, o poeta busca explicar o comportamento de seu personagem, além de atribuir ao imaginário popular as histórias contadas, o que mostra a transitoriedade dos campos de realidade onde estão situados Seu Joaquim e Seu Lunga.
Talvez um dia se saiba Porque Seu Lunga é assim
Pessoalmente é tratável Não se pode dizer enfim É ser onomatopaico Presunçoso e muito ruim
Ao contrário, eu afirmo É homem trabalhador Nunca conversei com ele
Mas como observador Digo que é inteligente E passa mela em doutor.
Abraão Batista afirma, então, que o conhecimento que tem sobre Seu Lunga é resultado dos discursos aos quais tivera acesso, mas que ele mesmo não é testemunha de nenhuma resposta cômica do personagem, o que nos leva a pensarmos que os campos de realidade construídos nos folhetos são todos campos finitos, que saem da realidade cotidiana e se constituem nos textos. O poeta não teria acesso ao primeiro campo de Seu Lunga, que todos os seus relatos partem, pelo menos, de segundos campos, a partir dos quais ele cria seus próprios discursos e, então, constrói o personagem que adquire reconhecimento nacional.
A atribuição dos relatos a outros indivíduos de uma forma generalizada, em que o poeta se mostra como alguém responsável por registrar e dar visibilidade ao personagem, que constitui o décimo terceiro campo se mostra em outra estrofe:
Quem estava ali perto O fato veio me contar Então para o leitor Com respeito eu vou passar
Contando as de Seu Lunga Que, certamente, vai gostar.
Neste folheto temos, além de causos, muitas apreciações sobre a personalidade de Seu Lunga, que se confunde com Seu Joaquim. Não sabemos se as apreciações são feitas em torno do homem real ou em torno do personagem. Em alguns momentos nem conseguimos identificá-los como distintos. É o que acontece nos campos de realidade que tratamos aqui, exceto o décimo primeiro e décimo segundo, em que as criações se mostram mais evidentes.
Além das apreciações do poeta, há uma interpretação das opiniões de personagens aleatórios que se constituem como interlocutores do protagonista e sobre quem o riso se dirige, pois são os personagens que provocam a comicidade quando recebem as respostas grosseiras de Seu Lunga, e sobre essas respostas lançam comentários que são contados pelo poeta, de forma que não podemos identificar se tratam-se de opiniões baseadas em situações de realidade cotidiana, pois não temos referências sobre esses personagens, ou se são as opiniões do próprio poeta, apresentadas sob a forma do discurso de personagens. O que sabemos com certeza é que essas opiniões constituem um campo de significação específico em que o poeta transforma opiniões de indivíduos sem referência definida em discurso.
A dona saiu pulando Tal qual uma carrapeta Gritou do meio da rua: Esse bruto é um capeta A gente vem comprar E ele vem com mutreta.
E conclui o folheto reforçando seu papel de alguém que tem uma ‘missão’, como menciona em um verso, de imortalizar as histórias do personagem. Neste segundo volume, os campos de realidade se mostram mais interligados e apresentam um personagem que já se tornara conhecido, que sua função não é mais de apresentação, mas de confirmação e validação daquilo que fora dito no primeiro volume e que Abraão Batista volta a exemplificar.