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A oralidade, a comunicação que se utiliza da voz para a transmissão de informações, de tradições, das histórias, das memórias, é também encontrada nas manifestações poéticas. Música, cantoria, repente, pelejas, performances são exemplos de poesias orais, normalmente associadas à cultura popular. Qualquer que seja a cultura, mesmo as que baseiam suas práticas nas letras e na escrita, tem na oralidade uma forma de prolongar sua memória, de difundir conhecimentos, de entreter e de se constituírem enquanto comunidades.

A voz, então, está presente na constituição das identidades das sociedades e a mídia que a veicula costuma ser o próprio corpo humano, que transporta a oralidade dos indivíduos aonde quer que eles vão. Mas não apenas o corpo. A utilização de gravadores de voz ou mesmo câmeras de vídeo são capazes de fixar o conteúdo oral e transmiti-los indefinidamente. A midiatização da voz oferece permanência ao conteúdo que circula pela oralidade. E outra forma de midiatizar a voz é por meio de sua transcrição, mantendo as características que a definem. É o que fazem os folhetos de cordel.

Essas poéticas existiram e continuam ainda existindo dentro de um contexto, no qual o corpo é suporte de uma voz que declama(va) para uma audiência que escuta(va) e participa(va) intensamente como co-participante desse jogo. O local da cultura dessas vozes esteve relacionada a zonas fronteiriças, a espaços que se “fendem” para anunciarem outras vocalidades dissonantes. Durante muito tempo, ficou sustentada somente no corpo como suporte, até fins do século XIX, quando a ars poetica da oralidade conheceria os inícios de uma nova fase, dada com o surgimento de um sistema de editoração que deu à luz ao folheto impresso. (SANTOS, 2010, p.43 )

A poesia da voz, impressa, de fluida torna-se fixa. A partir dela, o verso não é mais

ouvido, ele passa a ser olhado, lido. Através da escrita, cumprem-se todas as fases do poema mencionadas por Zumthor (2010): produção, transmissão, recepção, conservação e repetição. Para o autor, a escritura não significa apenas uma transcrição da oralidade. Trata-se de outro tipo de midiatização que, por vezes, são combinadas, como no caso dos folhetos de cordel. Com a prática da escrita, a poesia

passa a ser uma história que tem começo, meio e fim. Já não é como na cantoria que pode se prolongar e passar semanas a fio tecendo sua existência. No folheto, o tempo da peleja está determinado, o tempo muda, implica em leitura, o que já se refere a uma outra problemática, que tem a ver com um receptor que pode estar em vários locais diferentes para essa leitura. São outros espaços sociais. O que é lido em silêncio não é composto naquele instante, hic et nunc (aqui e agora), como a cantoria; ele esta em uma outra temporalidade. (SANTOS, 2010, p. 47)

Com a escrita, até mesmo a sociabilidade da cantoria toma novos rumos. A oralidade propõe-se a uma prática de recepção coletiva, enquanto que a leitura é individual. Além das diferentes temporalidades que cada uma permite. Durante uma declamação de poesia oral, o momento da emissão é o mesmo da recepção, enquanto que textos escritos podem ser lidos com anos de diferença, podendo servir, inclusive, de registro histórico de uma poesia que fora oral. Mas, a existência da escritura, não necessariamente condiciona o fim da poesia oral, mas oferece à oralidade a possibilidade de ser encarada como literatura diante dos cânones scriptocêntricos. “A poesia oral hoje se exerce em contato com o universo da escrita” (ZUMTHOR, 2010, p. 38).

A principal característica da poesia oral está relacionada à performance, que

é a ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida. Locutor, destinatário, circunstâncias (quer o texto, por outra via, com a ajuda de meios linguísticos, as represente ou não) se encontram concretamente confrontados, indiscutíveis. Na performance se redefinem os dois eixos da comunicação social: o que junta o locutor ao autor; e aquele em que se unem a situação e a tradição. (ZUMTHOR, 2010, p. 31)

O impacto da escrita para a poesia oral está situado, segundo Zumthor (2010), na produção, na conservação e na repetição do poema, pois nos demais momentos a poesia oral se sustenta em si mesma. Para o autor, quando a comunicação poética escrita passa a ser um registro da oralidade, e vice-versa, tem-se uma mutação radical. “Um poema composto por escrito, mas ‘performatizado’ oralmente, muda por isso de natureza e função, como muda inversamente um poema oral coligido por escrito e divulgado desta forma” (ZUMTHOR, 2010, p. 39). Estas alterações coexistem na prática realizada pelos cordelistas, que usam a escrita para comercializarem sua arte.

Folhetos de cordel são um tipo de forma impressa da poesia oral, feito para ser cantado. A poesia oral segue uma série de especificidades linguísticas, as quais encontramos nos cordéis, e que nos permitem assegurar que o folheto é a apropriação dos equipamentos técnicos de impressão pela voz, como forma de tornar os versos um produto comercializável e produtor de lucros, dando aos poetas a possibilidade de se sustentarem através da produção, edição e venda de sua poesia. “Sentimos intensamente que uma voz vibrava originalmente em sua escritura e que eles exigem ser pronunciados” (ZUMTHOR, 2010, p. 39). É o que percebemos ao ler os versos dos folhetos, que têm uma musicalidade tão intensa, que nos desperta a vontade de lê-los em voz alta para poder ouvi-los:

Marmotas que a meia noite Ronda em toda encruzilhada

Lobisomem em lua cheia, Visagem, alma penada Já assombrou até quem Diz não ter medo de nada

(RINARÉ, 2005, p. 1)

O cordel representa uma poesia que tem base na voz, na oralidade, e apresenta-se impressa em folhetos quando, de acordo com Abreu (1999), os poetas se apropriam dos recursos disponíveis, no caso, as tipografias. As marcas da oralidade ficam impressas nos versos. “Neste sentido, o folheto ainda não é um livro escrito e impresso no sentido moderno da palavra, mas um produto da primeira etapa da transição da oralidade para a escrita, uma fase da oralidade mista ou segunda” (LEMAIRE, 2008, p. 6).

A voz humana é colocada por Lemaire (2008) como a base da poética do cordel, as duas noções-chave das produções poéticas orais estariam no ritmo e na declamação. Assim, seria um forte indício que a poesia, mesmo impressa, é feita para ser lida em voz alta. As palavras mais adequadas são escolhidas dentro do ritmo, dentro da métrica e dentro da rima, para que se mantenha a estrutura e a essência dos folhetos, cujo objetivo seria o de imprimir e vender a poesia da voz, mesmo que a combinação das palavras apresente problemas sintáticos, de coerência ou mesmo morfossintáticos.

Depois bateu novamente E tornou a espancar Batia com tanta força

Até o braço cansar Deixou-a ali, estendida E a pobre quenga ferida

Teimava em desacordar.

(VIANA, p. 08)

Os folhetos apresentam em seus versos características de composição que se referem às práticas da oralidade, muito mais do que por questões estéticas, mas fundamentalmente por ser esta sua origem. A métrica do cordel respeita um conjunto de regras, cujo objetivo é

manter a forma da cantoria, para que seja possível a realização de uma performance, que vai atrair os futuros compradores dos folhetos. Na oralidade, a poesia é um tipo específico de linguagem e os folhetos um suporte para o seu registro.

O homem valente e justo Do berço já traz o tino E tendo força e coragem Traça seu próprio destino Como se deu nas andanças

Do herói Pedro Justino (RINARÉ, 2011, p. 1)

É a partir da voz que a ideia fundamental de criação coletiva se dá de forma plena. A transmissão dos conhecimentos, das histórias e das memórias, que integrarão a arte poética dos cordelistas, é feita, muitas vezes, pela voz. E depois, é a voz do poeta que vai atrair e encantar os ouvintes, despertar-lhes curiosidade, e parar no ápice da história, para que os folhetos sejam vendidos.

Alguns poetas consideram que manter essa forma é fundamental para que a poesia dos folhetos seja realmente poesia de cordel. Zé do Jati, por exemplo, se diz poeta que escreve cordel, percebendo que os folhetos devem ter características específicas, e é função dos poetas ficarem atentos a elas. O autor, ao falar de seus versos, declama-os, mostrando a importância de estar atento ao ritmo, e mesmo que as palavras sejam escolhidas não por seu sentido, mas pelo ritmo que elas atribuem à poesia, o poeta considera que o processo criativo é árduo para que nenhum verso fique incoerente.

Sou alegre e otimista Pra mim, tudo faz sentido Não tenho nenhum recurso

Mas não me acho inibido Vivo sem reclamação Tenho cá minha razão: Nasci nu, hoje estou vestido

Fiz até meu testamento Mesmo não tendo um tostão Mas como o mundo tá cheio De promessa e boa intenção

Peço ao pai da natureza Com isso deixo riqueza Em pedido e solução.

(JATI, 2012, p. 47)

Além destas questões formais de métrica e rima, o conteúdo dos versos traz também marcas da oralidade, da fala cotidiana, em que o poeta escreve do modo como costuma falar:

Falava um praça que vinha Com o terrível delegado

Vamo embora otoridade

O sinhô tá enrascado Porque o doutor Alencar

Pode lhe prejudicar Pois é político afamado.

(VIANA, p. 3)

Uso de imperativos:

Se você não sente medo Lendo histórias de terror

E se o sobrenatural Nunca lhe causou pavor

Prossiga então a leitura

Desse meu cordel de horror (RINARÉ, 2005, p. 1)

Vocativos utilizados como função fática no sentido de não deixar que a atenção dos ouvintes se perca:

Leitor, se vê nessa história Ação, bravura e amor Num chão injusto, sem lei

Um jovem atirador Tornou-se herói justiceiro

Destemido e vingador (RINARÉ, 2011, p. 1)

Além de períodos curtos, usos de figuras de linguagem, vocabulário coloquial, um texto que se refere diretamente ao leitor/ouvinte, como no momento da performance.

A poesia escrita do cordel não surge sozinha. Ela não é escrita para ser cantada. Ela é cantada para ser escrita. Para Zumthor (2010), as poesias oral e escrita usam a mesma linguagem, as mesmas regras, mas diferenciam-se principalmente por questões sensoriais. No caso dos folhetos de cordel, nem mesmo o fato de ser explorado pelo uso da visão é suficiente para separá-los da poesia oral. Voz e versos de cordel estão unidos em sua essência. Lemaire (2008) situa os folhetos de cordel como um capítulo da história das tecnologias da informação e da comunicação e afirma que o cordel é “uma produção artística da voz humana, cujo objetivo principal é a transmissão do conhecimento e da verdade” (LEMAIRE, 2008, p. 9).

Mas, mesmo diante de tantas semelhanças, não podemos considerá-los idênticos. Os folhetos oferecem à voz diversas outras possibilidades, bem como retiram da poesia oral muito de sua aura, principalmente no que se refere à reprodutibilidade dos folhetos. Aprofundaremos essa discussão mais adiante, refletindo sobre a relação do conteúdo com a mudança das mídias, que sai do corpo e vai para os folhetos impressos.

Evidentemente que a prática textual do folheto é diferente da prática da cantoria, não há como negar esse fato. Essa voz que se faz letra remete a uma atividade de narração ou contação, o que inclui tempos e espaços diferenciados, apesar de esses também só se diferenciarem progressivamente: o folheto destina-se durante muito tempo ainda à declamação em voz alta, antes de se tornar objeto de uma leitura individual e em silêncio. (SANTOS, 2010, p. 45)

O folheto de cordel atua, então, como um tipo de fixação da voz. Cria-se uma temporalidade diferenciada, pois o texto impresso tem a possibilidade de encontrar um alcance maior do que a voz humana, midiatizada apenas pelo corpo. O texto impresso presente nos folhetos perde a característica fluida da performance quando lido individualmente, fora do tempo e do espaço dos poetas.

Benzer Belgeler