Durante a Primeira República (1889-1930), os fatores inibidores da posta em prática de políticas públicas de saúde — fragilidade do Estado nacional e urbanização incipiente — foram sendo superados (FAUSTO, 2000). Com o crescimento da população urbana e das cidades, foi se problematizando a saúde pública em bases técnicas. Era um processo de construção que, antecipando-se e depois se deixando moldar, absorvia idéias do movimento sanitarista da década de 1910 (a Liga Pró-Saneamento do Brasil), ressaltando- se aí a conscientização acerca da interdependência sanitária, ou seja, da ineficiência de circunscrever espacial ou socialmente enfermidades transmissíveis (HOCHMAN, 1998). Outro elemento de convencimento coletivo, de interesse para a compreensão do comportamento das elites regionais, é apontado por Scliar (1987): as epidemias nas cidades
portuárias inibiam o comércio exterior, que era vital para a acumulação do capital mercantil naquele momento do desenvolvimento nacional. Nesse sentido, o papel de Oswaldo Cruz na chefia da Direção Geral de Saúde Pública (DGSP, repartição do Governo Federal para a Capital do país) foi vital para o período por seu efeito demonstrativo. Encarregado de sanear a Capital do país, Cruz obteve êxitos no combate às epidemias, evidenciados pela expansão de suas medidas a outras sedes portuárias importantes. Mas, a generalização dessas políticas encontrava resistência no modelo federativo então vigente, e seriam necessários esforços substanciais para que as elites locais abrissem mão de suas atribuições em prol de uma atuação centralizada (HOCHMAN, 1998).
Concretamente, uma investida na direção de uma política nacional de saúde pública pôde ser contemplada (PERES, s/d) com a criação da Justiça Sanitária, a obrigatoriedade da vacinação antivaríola e da notificação de certas doenças, o estabelecimento dos serviços de saneamento e profilaxia rural — na década de 1910 —, atingindo-se o clímax com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) em 1920, ainda subordinado à Pasta da Justiça e Negócios Interiores.
O DNSP, inspirado no DGSP de Oswaldo Cruz e dirigido por Carlos Chagas, nascia para coordenar as ações de saúde pública no país (SANGLARD; COSTA, 2004, p. 109), “de forma mais direta no Distrito Federal e, por meio de convênios, nos estados”. Hochman (1998, p. 84) informa que o decreto de criação do DNSP estabelecia “ [...] uma inspetoria específica vinculada diretamente à Diretoria Geral” dedicada ao combate à hanseníase e as doenças venéreas. Para Rocha e Veiga (2004), esse fato – associado à compreensão de que o tratamento e isolamento dos hansenianos era atribuição estatal e não uma questão de caridade pública – revela como o Estado brasileiro de princípios do século XX assumia a implantação de políticas sanitaristas, à revelia das críticas e até de revoltas sociais, como a Revolta da Vacina.
Uma outra inovação importante surgida na Primeira República são as CAPs – Caixas de Aposentadorias e Pensões, instituídas em 1923 com o objetivo de criar, nas empresas ferroviárias, uma entidade previdenciária para os empregados, a ser administrada por estes e pela empresa, sem interveniência estatal direta. Sobre o modelo CAP, que dominaria a cena até 1931, Oliveira e Teixeira (1989) informam que as Caixas asseguravam a prestação de serviços médicos de duas distintas formas: no princípio, as CAPs contratavam a
assistência junto a profissionais médicos; em 1926, foram autorizadas a organizar seus próprios serviços médico-hospitalares.
No campo das edificações hospitalares, cabe mencionar os projetos de Luiz de Morais Júnior para o DGSP e para o Instituto Soroterápico de Manguinhos, ambos dirigidos por Oswaldo Cruz. Nesses projetos, afirma Benchimol (1990), Morais Júnior associava as regras da arquitetura hospitalar pavilhonar de fins do século XVIII com o enfoque científico do edifício oriundo das descobertas de Pasteur. Sanglard e Costa (2004, p. 108) também destacam nos projetos de A. Porto d’Ave na década de 1920 – que fazem desse profissional “uma das maiores referências em arquitetura hospitalar da década de 1920 até meados da década de 1930” – a presença de elementos dos hospitais pavilhonares europeus. Daí poder-se afirmar que ainda na Primeira República foram introduzidos princípios curativos e terapêuticos nos edifícios hospitalares do país.
Vale observar que esses edifícios “terapêuticos” estavam direta ou indiretamente à ação governamental na área de saúde, em bases técnico-científicas. Se os projetos de Morais Júnior se vinculam diretamente à atuação em organismos públicos do cientista Oswaldo Cruz, os de Porto d’Ave se articulam com fundações privadas filantrópicas ligadas à causa do combate a males que afligiam a sociedade: o Hospital da Fundação Gaffré e Guinle, para portadores de doenças venéreas, foi resultado de ação pessoal de Carlos Chagas junto às famílias Gaffré e Guinle (CHAGAS FILHO, 1993); o Hospital do Câncer da Fundação Oswaldo Cruz, financiado pela família Guinle sob os auspícios de uma entidade – a Fundação, instituída por iniciativa de um grupo de médicos – criada para cultivar a memória de Oswaldo Cruz, teve seu projeto analisado e aprovado por uma Comissão Técnica em que figurava o mesmo Carlos Chagas (SANGLARD; COSTA, 2004).
Assim, na Primeira República, ganha corpo no Brasil a idéia de uma ação mais incisiva do Estado, científica e tecnicamente lastreada, com respeito à saúde pública. Tal processo, desenhado e posto em marcha nos grandes centros urbanos do país, especialmente na capital federal, reflete-se parcialmente em Natal.
Nas três primeiras décadas do século XX, a cidade registrava um acentuado crescimento populacional, praticamente dobrando a população entre 1900 e 1920. Nesse período, registra Santos (1998), a cidade teve seu crescimento planejado, com o projeto da Cidade Nova (Plano Polidrelli, de 1904) e o Plano de Sistematização Geral da Cidade, coordenado
por Palumbo em fins dos anos 1920. Oliveira (2000) destaca esses fatos como parte de uma ampla ação das elites dirigentes locais no sentido da modernização da capital, cujo escopo também incluía atuações na área do saneamento ambiental e da saúde pública.
Essa marca do período analisado em Natal pode ser observada na implantação do Hospital da Caridade Juvino Barreto, em 1909. A decisão de criar a instituição foi tomada com posterioridade ao fato de que os primeiros profissionais médicos da cidade houvessem condenado, por sua alta insalubridade, o antigo Hospital da Caridade, fechado em 1906. O local escolhido para o novo Hospital da Caridade foi o Monte Petrópolis, onde se situava a casa de veraneio do Governador Alberto Maranhão, que foi cedida para as devidas reformas. Tratava-se de um sítio, um pouco afastado da mancha urbana, e próximo ao mar: “com melhores condições por conta dos bons ares do mar” (ARAÚJO, 2000, p. 15). A casa doada por Alberto Maranhão foi reformada, com recursos do Tesouro estadual, visando abrigar, principalmente, pacientes sem recursos. Concebido como hospital geral com 18 leitos, o Juvino Barreto funcionou nos anos 1910 com apenas um médico (SARINHO, 1988). Mas, ao redor de 1926, já havia médicos residentes, serviços ambulatoriais, laboratório de análises clínicas, cuidados de enfermagem por irmãs religiosas treinadas, e clínica cirúrgica. Depois, passou a dispor também de apartamentos para eventuais clientes particulares, advindo daí uma receita para a instituição. O custeio, entretanto, dependia em larga escala de verbas do governo do estado e de doações individuais.
Por outro lado, um primeiro movimento de atuação integrada entre governos federal e estadual seria registrada na implantação do Hospital Colônia São Francisco, em 1929, realizada no âmbito do programa federal de construção de hospitais para combater as endemias, especificamente, a hanseníase, em todo o país, através da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas (SANGLARD; COSTA, 2004; ROCHA; VEIGA, 2004). Dedicado ao confinamento e segregação de pacientes pobres com hanseníase, o “Leprosário” se localizava na hoje Avenida Capitão-Mor Gouveia, em sítio bem afastado da área urbanizada de então. No terreno de cerca de 20.000 m2, a área construída totalizava quase 2.000 m2, distribuídos em três blocos (administrativo, internação, tratamento), pequenas casas de dois cômodos para enfermos casados e aptos para cuidar-se, uma sala de cine-teatro, biblioteca, delegacia e uma pequena igreja.
Ressalte-se que, no período da 1ª República, permanece o governo estadual como principal provedor de serviços hospitalares, embora ainda haja dependência tanto de doações quanto do esforço voluntário de membros de ordens religiosas, e surjam os primeiros efeitos de políticas federais no financiamento de ações de saúde pública. No período, inaugura-se em Natal, ainda que precariamente, o edifício hospitalar com preocupações sanitárias. A presença de médicos e do laboratório de análises clínicas no ambiente hospitalar configura uma tendência de introdução de elementos científicos ao espaço do hospital, embora os cuidados de enfermagem ainda sejam feitos por irmãs de ordens religiosas.
4.3. Estado Novo, política nacional de saúde e desenvolvimento hospitalar em Natal