O Projeto Renascença fez parte dos planos de urbanização de Porto Alegre e um dos seus objetivos foi destinado a tratar da Praia de Belas. Assim, inseriu-se no conjunto de diretrizes que visaram explorar a região e proporcionar um espaço de características inovadoras. Parte relevante no âmbito do planejamento urbano dos anos 1970, o Projeto Renascença condicionou o local no qual implementou modificações, tornando-se um dos mais amplos planos de diretrizes urbanas da cidade.
No ano de 1963 a área urbanizada prevista no projeto para a Praia de Belas foi reduzida e, em 1970, através da Lei 3414, todo o terreno situado entre a Avenida Borges de Medeiros e o Guaíba na extensão da Avenida Ipiranga ao estádio do Esporte Clube Internacional, foi destinado ao Parque Marinha do Brasil. Em 1974, o Grupo de Empreendimentos Imobiliários Maguefa respondeu pela posse da área e a pôs à venda através de concorrência pública. Segundo Anita Silva de Souza:
A partir de meados da década de 1960 investimentos públicos realizados através do Banco Nacional de Habitação ativaram o mercado imobiliário brasileiro, iniciando um processo de procura por novos espaços urbanos para a implantação destes recursos. Isto gerou uma pressão pela ocupação e desenvolvimento de áreas urbanas até então desocupadas, assim como a liberação de áreas ocupadas irregularmente ou consideradas sub-utilizadas (por exemplo, residências unifamiliares, localizadas em áreas valorizadas, passam a ser ocupadas por grandes edifícios).198
Inserido nesse contexto, a construção do Parque e das demais inovações no local fizeram parte do Projeto Renascença (1975), o qual objetivou dar conta da renovação pela qual a cidade passou na década de 1970. Através de políticas
198 SOUZA, Anita Silva de. Projeto Renascença: um plano de intervenção urbana em Porto Alegre
na década de 1970. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) – Programa de Pós Graduação em Planejamento Urbano e Regional. Faculdade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008, p. 99.
voltadas para a área situada a 1.500 metros ao sul do centro urbano, esta foi dividida em cinco setores: o bairro Menino Deus, a Azenha, a Cidade Baixa, a Ilhota e a Praia de Belas.199 O primeiro setor, o bairro Menino Deus, caracterizou-se, na avaliação dos técnicos, pela ocupação intensa do solo com residências e edifícios de apartamentos de qualidade adequada. Na Azenha, segundo setor, observou-se a presença majoritária de pequenos lotes e edificações antigas. No caso da Cidade Baixa, o terceiro setor, o projeto salientou-a como uma das zonas mais antigas da cidade, bem como destacou a predominância de velhos casarios e construções. Por fim, o quarto setor, delimitado pela Ilhota, apresentou terreno alagadiço, o qual contribuía para a separação entre o centro e a região da Praia de Belas, e esta constituía o quinto setor.
Figura 26 – Plano CURA Piloto Projeto Renascença.
Fonte: Renascença. Porto Alegre, 1975. sp.
A escolha do terreno para a execução das obras foi pautada, segundo Souza, em função da deterioração e subocupação locais. A intenção era, no entendimento de Souza, a valorização e densificação territorial a partir da elevação dos padrões sócio econômicos, garantindo o retorno dos investimentos públicos e privados aplicados através do Projeto.200 Nas palavras da autora, pretendia-se “tornar a área mais equilibrada, promovendo seu desenvolvimento, liberando-a para novas
199 PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Projeto Renascença. Porto Alegre, 1975. p.6-
7.
construções. Percebe-se, tanto nas intenções expressas pelo Plano Diretor quanto pelo Projeto Renascença, a preocupação com a valorização desta região.”201
O Projeto, desenvolvido a partir de um convênio assinado em agosto de 1975 entre o Banco Nacional de Habitação e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, teve como intermediários o Banco do Estado do Rio Grande do Sul enquanto agente financeiro e o Escritório de Projetos CURA∗, vinculado à Secretaria do Planejamento Municipal da Prefeitura, na qualidade de agente promotor-coordenador e órgão técnico.202
Elaborado pelos arquitetos Fayet e Debiagi, o estudo estabeleceu como prioridade as obras relacionadas à região do Parque Marinha do Brasil e entorno, algumas delas pertencentes ao Projeto Renascença, outras não. Estão entre as obras:
- A construção dos diques de proteção contra as cheias do Guaíba;
- O Parque Marinha do Brasil e a demanda por habitações em seu entorno; - A construção do Centro Administrativo do Estado e a consequente
transferência para o local de algumas secretarias do Estado, além de outras atividades subsidiárias;
- A construção da Câmara de Vereadores e outros prédios para abrigar órgãos federais;
- O saneamento da Ilhota;
- O Projeto Transcol que compreendia as avenidas Borges de Medeiros, Ipiranga, Aureliano de Figueiredo (Av. Cascatinha) e a Rua José de Alencar em um complexo de fluxo para o transporte coletivo;
201 Idem.
∗ O Projeto Comunidade Urbana de Renovação Acelerada (CURA), foi parte integrante dos Sistemas
Financeiros de Habitação e de Saneamento, criado no ano de 1973 pelo Conselho Administrativo do Banco Nacional de Habitação. Tendo como proposta a implantação de equipamentos comunitários e de infraestrutura, o CURA visava a ocupação de áreas consideradas insuficientemente exploradas a fim de atingir níveis considerados satisfatórios pelos relatórios técnicos produzidos previamente pelo BNH. Nesse sentido, o BNH desenvolveu projetos em todas as áreas urbanas de grande porte no Brasil.
202 PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Projeto Renascença. Porto Alegre, 1975, op.
- A execução da Avenida Cascatinha e da II Perimetral que, junto à I Perimetral comporiam a estrutura viária básica do local.203
Segundo o projeto, estas obras seguiram uma tendência prevista nas leis urbanas que visava aliviar a concentração no centro da cidade através de políticas que deslocassem algumas atividades para núcleos de comércio e serviços alternativos nos bairros. Além disso, os problemas com o trânsito já exigiam medidas deste tipo, como afirma o projeto dos arquitetos:
[...] os problemas de trânsito e transporte de massa urbana atingiram tais proporções que órgãos de nível nacional passaram a assumir encargos na sua solução. Já se cogita de decidir sobre o uso do solo urbano não só em termos de densidades adequadas à viabilização de serviços e equipamentos mas também segundo limites estabelecidos pela capacidade da rede viária e, em consequência dos transportes. Os próprios conceitos rígidos de zoneamento de uso começam a levar em conta a necessidade de reduzir as distâncias e o tempo de viagem entre trabalho, habitação, educação e lazer.204
Com o crescimento da malha urbana e a necessidade de criação de centros alternativos que pudessem atender à população, e mesmo com a criação de núcleos administrativos mais centralizados, o deslocamento foi adquirindo crescente relevância e as vias através das quais este foi possível tornaram-se símbolos da metrópole. Assim, paralelamente à descentralização pela qual a cidade passou nos anos de metropolização, presenciou-se a formação de outros centros, os quais foram planejados para atender demandas locais e possibilitar a expansão da cidade, transformando sua estrutura em polinuclear.
Entretanto, o Projeto não foi consenso na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Os questionamentos levantados pela oposição diziam respeito à necessidade da implantação de um projeto de tamanhas dimensões, na medida em
203 FAYET, Carlos Maximiliano e DEBIAGI, Jorge Decken. Projeto Praia de Belas: o nascimento de
uma unidade urbanística. Porto Alegre: Maguefa Empreendimentos Imobiliários Ltda., 1975, p. 6.
que foi possível calcular a quantidade de remoções necessárias para a sua execução, bem como o elevado orçamento.205
A preocupação com as remoções justificou-se pela falta de planos específicos para o reassentamento das famílias deslocadas. Nesse sentido, em 1976, ano subsequente à assinatura do convênio para a execução do Projeto Renascença, o Programa Pró Gente foi anunciado no intuito de beneficiar áreas para as quais se deslocaria a população removida dos locais de implantação do Projeto Renascença – cerca de 75 mil pessoas. Tais áreas eram as vilas Restinga Velha, Restinga Nova, Batista Xavier, Carlos Barbosa, Costa do Cerro, Dona Teodora, Mapa, Nova Gleba, Passo das Pedras, Santa Anita, Santa Rosa, Santo Agostinho, São Borja e São Rafael.206
O Programa Pró Gente, respaldado pelo financiamento do BNH, recebeu a liberação de 100 milhões de cruzeiros, dos quais 80 milhões seriam destinados à construção de vias, sistemas de água, esgoto, áreas verdes e iluminação pública, e os 20 milhões restantes seriam utilizados para construir escolas e centros comerciais em quatro das vilas supracitadas; Costa do Cerro, Nova Brasília, Restinga∗ e São Gabriel.
Abrangendo maiores proporções, o Projeto Renascença visou atingir 100 mil pessoas e, em 1976, dispôs de 321 milhões de cruzeiros para a execução das obras, as quais foram divididas em três partes. A primeira sendo a urbanização e remoções na Ilhota, a seguinte a implantação de projetos culturais, educacionais e paisagísticos (o Parque Marinha do Brasil fez parte desse último) e a terceira parte a abertura das Avenidas Cascatinha, Érico Veríssimo e Aureliano de Figueiredo Pinto.
205 Segundo Souza, somente na Ilhota, cerca de 200 famílias foram removidas. SOUZA, Anita Silva
de. Projeto Renascença: um plano de intervenção urbana em Porto Alegre na década de 1970, op.cit., p.50.
206 Idem.
∗ Problemas relacionados à falta de infraestrutura, bem como a dificuldade de deslocamento das vilas
para as áreas centrais da cidade foram relatados na época. Entre as vilas, a Restinga destacava-se pelas dificuldades que impunha aos recém chegados moradores. Segundo Souza, “A Restinga Velha não foi uma área projetada pela Prefeitura para receber seus moradores. Por ser, em princípio, uma região de ocupação temporária (enquanto se esperava a conclusão das obras da Vila Nova Restinga), a estrutura implantada pelo poder municipal era apenas provisória. O que a Restinga Velha sempre teve de sobra foi espaço para novas ocupações (até pelo menos 1990, a região continuava recebendo habitantes de áreas removidas). [...] O termo “desfavelamento” foi utilizado pela Prefeitura para referir-se à Restinga Velha. É interessante observar que já em 1977, projetava-se um plano para “desfavelizar” a vila, ou seja, a área de ocupação temporária era classificada por favela pela própria Prefeitura.” Ibid., p. 56-57.
Ficou claro que o Projeto e o Programa diferenciaram-se amplamente, embora o segundo possa ter sido consequência do primeiro. Contrastaram-se o público alvo e os equipamentos projetados para cada um: às famílias de classe média e classe média alta, foram destinados centros comerciais e de serviços públicos e privados do Projeto Renascença. As famílias de baixa renda foram supridas pelo Programa Pró Gente, o qual dispôs de orçamento menor, fator que comprometeu a qualidade das implantações.
Da assinatura do convênio até o início das obras passou-se um ano e, ainda assim, o começo se deu somente em relação à retirada das famílias habitantes da Ilhota e ao saneamento da área, no segundo semestre de 1976. Mesmo com o atraso, atribuído à necessidade de obras paralelas, à demora na conclusão dos planos e às desapropriações, o gerente do Projeto, Lázlo Bohm, manteve a previsão do final das obras para o ano de 1978. Um ano depois, em 1979, a inauguração da rótula entre as Avenidas Érico Veríssimo e José de Alencar, pelo então prefeito Socias Vilella, oficializou o término das obras.
De acordo com a pesquisa de Souza, pode-se constatar a valorização dos terrenos transformados pelo Projeto Renascença nos seus quatro setores, se comparados com a forma como eram ocupados anteriormente à implantação. Em relação aos preços dos aluguéis a autora afirma que:
[...] antes do início dos investimentos realizados pelo projeto, os bairros Cidade Baixa (Avenida José do Patrocínio) e Praia de Belas eram os que apresentavam os valores mais altos de aluguéis. Já os aluguéis mais baratos da futura região de abrangência do Projeto Renascença estavam localizados no bairro Azenha. [...] Já em termos absolutos, o bairro que apresentou os valores de aluguel mais
caros após a implantação do Projeto Renascença continuou a ser a
região da Praia de Belas [...].207
No que tange a compra e venda de imóveis, a autora também pôde confirmar uma valorização do local baseada no aumento dos preços nos apartamentos de um e dois dormitórios e loja ou sala comercial. Novamente, a região da Praia de Belas mostrou-se à frente da valorização, entretanto, há que se salientar que todas as regiões abrangidas pelo Projeto apresentaram aumento de preços e, portanto, valorização imobiliária. Assim, “todos os tipos de imóveis observados, localizados
em todas as regiões englobadas pelo projeto foram valorizados. O que torna correta, portanto, a afirmação que esta foi uma região que se tornou mais cara após a implantação do Projeto Renascença.”208