4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA 29
4.1. Hammadde Analiz Sonuçları 29
4.1.2. Hammaddelere ait kimyasal analiz sonuçları 31
No período de desenvolvimento das primeiras propostas, a localidade da Praia de Belas apresentava dificuldades em relação às condições sanitárias, pois vinha sendo utilizada como depósito de lixo. Nesse sentido, Moreira Maciel propôs um cais de saneamento sobre área aterrada que, por sua vez, seria contornada por uma avenida que se estenderia pela orla. Tal avenida seria a continuação da avenida do porto, atual Avenida Mauá e seguiria até a Tristeza. A proposta de 1914 baseou-se na articulação de diferentes pontos da cidade através de um sistema de ruas e avenidas buscando organizar a expansão da malha urbana e estabelecer ligações entre o centro e a periferia.
No estudo, o cais de saneamento localizava-se na Ponta da Cadeia e se consolidava como porta de entrada da cidade seguindo os princípios compositivos
167 PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Plano Diretor de Porto Alegre 1954-1964, op. cit., p. 63. 168 Seguimos a sequência dos planos elaborados estabelecida pela arquiteta Maria Dalila Bohrer nos
da estética barroca, nos quais os pontos focais destacavam-se como símbolos da cidade.
Observou-se no Plano de Melhoramentos uma tendência que seguiu se fortalecendo nos planos subsequentes, qual seja, a vocação estipulada para a orla norte e para a orla sul. Trata-se da consolidação da relação entre o tratamento urbano e as atividades desenvolvidas no local, condicionando a orla norte enquanto estrutura industrial e comercial de caráter viário e portuário, e, a orla sul enquanto proposta de estabelecimento de bairro residencial provido de verde no qual urbanidade e paisagem natural integram-se em um caráter que mescla o pitoresco e a racionalidade urbana.∗ Segundo Bohrer:
Se por um enfoque, podemos interpretar que o desenho da margem sul, enseada, Praia de Belas estava comprometido com o modelo inglês de cidade jardim, idéia de cidade integrada com seu meio natural, sob outra ótica enquadra-se também no discurso higienista
do modelo haussmanniano, saneamento, embelezamento,
valorização do ambiente natural através da criação de áreas verdes públicas, parques, praças, etc...169
Assim, Maciel consagrou a fórmula urbana que aliou saneamento, organização e embelezamento propondo para a Praia de Belas uma renovação que objetivou integrá-la à cidade.
4.2.1.1 As diferentes vocações da orla norte e da orla sul: O caso da localização do
Matadouro e o “Zoning”
Dois anos antes do lançamento dos estudos sobre a urbanização de Porto Alegre, produzido por Ubatuba de Faria e Edvaldo Pereira Paiva, o texto intitulado A
localização do Matadouro e o “Zoning”, assinado pelo engenheiro Clovis Pestana no
ano de 1934, dizia respeito à tentativa de sinalizar para o poder público a
∗ Cabe esclarecer aqui que o eixo da Avenida Sepúlveda proporcionou integração entre o Guaíba e a
cidade, contudo destacou-se por estar inserido em local de intenso fluxo comercial e alfandegário, diferente, portanto, das intenções contemplativas em relação à orla sul, ainda que esta, previsse comércio e serviços.
169 BOHRER, Maria Dalila. Análise morfológica das destinações do aterro da Praia de Belas nas
necessidade de que se determinassem locais apropriados ou não para determinadas obras e atividades. Nesse sentido, Pestana deixou claro sua percepção de que os bairros de caráter mais sofisticado estavam sendo construídos em direção à zona sul, enquanto que os bairros operários já estavam fixados na direção norte, e isso deveria ser mantido. A discussão foi desencadeada pela suposta possibilidade de construção de um matadouro e instalações anexas na zona sul. Para Pestana:
[...] de acordo com a tendência natural do desenvolvimento de Porto Alegre, o seu matadouro e industrias anexas, fábrica de adubos, preparo de couros etc., devem ser localizados para os lados do rio Gravataí, para onde vão se estendendo os bairros industriais e operários, São João e Navegantes. [...] E se dentro do município de Porto Alegre, não existir área alguma em condições de satisfazer todas as exigências de um matadouro modelo, nada impede que seja localizado num município vizinho.170
O engenheiro segue chamando atenção para a importância do zoneamento, o qual deveria ser estabelecido a fim de legitimar o caráter das localidades da cidade, afirmando que:
São incalculáveis os prejuízos que sofrerão com a passagem dos trens de gado essas zonas residenciais, das mais bem edificadas da cidade. A primeira consequência será a desvalorização brusca, vertiginosa da propriedade privada. E todos esses males serão oriundos de um erro inicial, a localização do matadouro e indústrias anexas, numa zona naturalmente reservada para a extensão de uma das partes residenciais chiques da cidade e em situação diametralmente oposta a dos arrabaldes industriais e operários, em contradição, portanto flagrante, com os princípios fundamentais, básicos do “zoning”.171
No texto, o engenheiro indicou que, no seu entender, o “zoning” é a tendência
natural através da qual uma cidade se organiza espacialmente, estabelecendo
zonas industriais, residenciais e comerciais. Contudo, não destacou com tamanha ênfase que a disposição espacial da cidade e seus elementos estava igualmente condicionada pelo planejamento urbano.
170PESTANA, Clovis. A localização do Matadouro e o “Zoning”. In: BOLETIM DA SOCIEDADE DE
ENGENHARIA DO RIO GRANDE DO SUL. n. 9, Jul. 1934, p. 326.
Pestana também sugeriu os usos que poderiam ser dados à região ao invés da construção do matadouro, associando o estabelecimento das elites nas áreas que apresentavam maior quantidade de áreas verdes. Para ele a área deve ser “reservada para um parque, um jardim botânico, um Country Club ou um Jockey Club. [...] para esses lados vai se estendendo uma das zonas residenciais chiques da cidade. Nada mais acertado do que reservar aí, uma área, para, futuramente, ser construído um parque.”172
A “vocação” da zona sul, a partir da Praia de Belas, em se tornar uma região elitizada, provida de verde e próxima ao Guaíba para a contemplação dos moradores caracterizou os projetos desenvolvidos para a região (ainda que muitos não tenham sido executados e os que foram, implementaram-se de maneira incompleta). Por outro lado, a orla norte estava determinada a abrigar o barulho e a poluição das fábricas e os bairros operários. O Guaíba da orla norte foi marcado pela serventia, o Guaíba da orla sul foi destinado ao desfrute da paisagem natural. O engenheiro Pestana explicou esse processo nos seguintes termos:
As residências das classes medias e ricas [...] se afastam sempre desses lugares de tráfego intenso, de barulho permanente, de condições higiênicas precárias e sem atrativo estético algum. [...] [...] a zona residencial média e rica, depois de ter-se desenvolvido, de preferência, pelas partes altas da cidade, vai se estendendo, rapidamente, pelas praias do litoral sul, atraída pelos encantos das suas enseadas caprichosas e pontas pitorescas [...].173
Para ele, a “Avenida Beira-Rio, projetada ao longo desse litoral, será, sem dúvida nenhuma, o passeio mais encantador da nossa capital. Impossibilitar a execução desse projeto com a construção de um desembarcadouro de gado e do matadouro na Serraria será um erro imperdoável.”174 Os projetos para a Praia de Belas, subsequentes ao de Moreira Maciel, mantiveram essa perspectiva na medida em que deram tratamento paisagístico e urbano à orla sul para que o local servisse de cartão de visitas de Porto Alegre, propondo inclusive uma nova entrada oficial da cidade localizada na Ponta da Cadeia.
172 Ibid. 326. 173 Ibid. p. 325-326. 174 Ibid. p. 326.