Diante da realidade de nosso estudo, em que tomamos por base uma comunidade
de baixa renda, onde 58% dos entrevistados são moradores de favelas do entorno da
igreja, analisar a dinâmica de exclusão/inclusão social nesse micro espaço se faz
importante. A religião, mais do que um espaço do sagrado, ocupa também um papel
importante nessa dinâmica social, já que se torna fonte de solidariedade e integração
social, tanto no âmbito familiar quanto no de sociabilidade primária
202. É no espaço da
igreja que os fiéis encontram ajuda espiritual, mas também material. Quando perguntamos
aos nossos colaboradores o que poderiam apontar como positivo na igreja Maranata, eles
200 ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 131. 201 ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 132.
202 LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela. “As benesses desse mundo: associativismo religioso
colocaram em primeiro lugar a união entre os irmãos, o que inclui a ajuda mútua entre os
fiéis, colaboração e cooperação tanto no âmbito emocional quanto material, como vemos
nos três exemplos abaixo:
C.K - Quais os pontos positivos da Maranata?
R.P – (...). De positivo, eu acho que a gente tem um amor demonstrado
ás pessoas que chegam à igreja. Pelo menos, se tenta acolher da melhor
forma possível as pessoas. Tenta ajudar através de alguns trabalhos
sociais que são feitos, que talvez não sejam tão divulgados na igreja,
mas eles são feitos. Através de entrega de cestas básicas, não financeir o,
por que a gente não tem muito esse lado financeiro, mas através de
alimento. Recentemente teve um acidente próximo da casa de um irmão,
explodiu literalmente a casa da pessoa, a igreja foi lá e reconstruiu a
casa daquela pessoa, tentou ajudar da melhor forma possível. Então, eu
acho que aos poucos a gente está tentando se engajar nesse trabalho, não
só de evangelismo, mas também na parte social, por que é importante,
não tínhamos isso na igreja. Eu acho que a nossa igreja começou a
despertar para isso um pouco, acreditar que as pessoas não precisam só
de Jesus, mas antes de Jesus, ou, junto com Jesus, elas precisam de uma
base, de melhorar um pouco a vida delas, não só a religião em si, mas
elas precisam se sentir queridas, amadas, precisam se sentir gente. Eu
acho que na nossa região, muitas vezes, a gente sobrevive, não se sente
gente, se sente qualquer outra coisa, menos gente
203.
C.K – O que você pode apontar de positivo na Maranata?
E.M – Nossa, você me complicou agora (risos). Tem muita coisa de
positivo na Maranata, a estrutura do prédio é boa, é ventilada, tem
muitas pessoas ali em comunhão, não posso generalizar, não é todo
mundo, é um lugar que tem quase duzentas pessoas, mas a comunhão de
uns irmãos principalmente os da minha época, os de hoje não temos
mais tempo de conversar. O apoio também, eles apóiam muito nas
dificuldades financeiras, quando existe alguém que precisa ser ajudado,
eu posso contar com algumas pessoas da Maranata, então esse é um
ponto positivo, eles são unidos mesmo. Não vou generalizar, mas com
certeza esse é um ponto positivo
204.
C.K – Você pode me falar os pontos positivos da Maranata?
M.S – Nossa, é muita coisa boa. Tem tanta coisa! A melhor é lógico que
é Deus. Mas ver os meus filhos no caminho do Senhor e estão até hoje,
eles permanecem firme com Deus, eu acho que foi os irmãos mais
antigos e o pastor Varela que ajudaram muito meus filhos. O pastor
Varela eu respeito muito e gosto muito dele, eu aprendi muita coisa com
ele e meus filhos aprenderam muita coisa com ele. Isso foi uma coisa
muito boa e eu nunca vou esquecer. Às vezes o pastor varela vinha aqui
em casa conversar com meus filhos, ele acompanhou a adolescência
deles. Isso foi muito bom, quando meus filhos estavam meio frios, não
no mundo, mas ele via e puxava a orelha, com a minha ajuda, eu dava
203 Rubens Pereira, 32 anos. 204 Eliane Moura, 33 anos.
um toque para ele e ele vinha rapidinho me atender. Eu tenho um grande
respeito pelo pastor Varela, até hoje. Ele me ajudou muito,
principalmente na adolescência da minha filha porque ela me deu um
pouco mais de trabalho, depois passou, não demorou muito não.
Naquela época que eles ficam assim querendo outra amizade, querer
arrumar namoradinho, começar com aquela paquerinha, então ela me
deu um pouco de trabalho. Com a idade de treze e quatorze anos, com
quinze já tinha passado. Foi uma fase, hoje eu entendo melhor, mas ela
foi a minha primeira filha então foi um pouco difícil, mas a gente vai se
acostumando, vai aprendendo e tendo experiência. Mas acho que isso
foi bom, hoje eu vejo meus filhos conversando um com o outro, dando
apoio, e eu vejo que tenho muito a agradecer a Deus em primeiro lugar e
aos irmãos que me ajudaram muito. A irmã Vera sempre orava pelo
Edgar porque ele era uma criança muito doentinha, ele ficou bom com
as orações. Isso foi uma coisa muito boa que aconteceu comigo na igreja
Maranata . Tem uma irmã, a Beatriz, que a gente era muito amiga, às
vezes eu pegava as crianças na escola e ficava na casa dela até de noite,
ela me acompanhava no médico. Hoje estou em falta com ela por causa
do meu tempo e porque cuido da minha mãe que está doente, mas
guardo ela no meu coração e outros irmãos da Maranata
205.
Os pesquisadores Adrian Lavalle e Graziela Castello trabalham com a teoria do
capital social mostrando que as dinâmicas societárias e a inserção sociofamiliar formam
um repertório de relações interpessoais, em maior ou menor medida, inscritas na esfera da
sociabilidade primária e da família extensa, uma vez que padrões de comportamentos são
regulados por regras de reciprocidade e interações baseadas na confiança. Uma ampla
gama de relações sociais são traçadas em graus diversos de densidade societária, que vão
do público ao privado, do individual ao coletivo, do informal ao formal, e cuja
solidificação representa uma verdadeira estrutura de oportunidades para os indivíduos
nela inseridos. “(...) as igrejas parecem emergir como agentes de intermediação capazes
de propiciar benefícios materiais de caráter público e privado para seus fiéis,
particularmente aqueles engajados nas atividades sociais realizadas fora do culto
206.”
É nesse sentido que percebemos a mobilidade social dentro da igreja Maranata.
Entendemos que para o negro, membro dessa comunidade, sua filiação é vantajosa. Fazer
parte da igreja traz benefícios que vão além do transcendente. Os entrevistados citaram
benefícios concretos que tiveram após se associarem à igreja. A questão da
empregabilidade é destacada nas falas dos entrevistados, por ser um problema que atinge
a igreja, tanto em nível individual para os membros, quanto organizacional para igreja.
205 Maria Souza, 51 anos.
206 LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela. “As benesses desse mundo: associativismo religioso
e inclusão socioeconômica”. In: Novos Estudos CEBRAP n 68, 2004, pp. 73-93.
Pois um membro desempregado não tem um sustento próprio, mas também não pode
abençoar a casa do Senhor. Há um grande empenho da igreja em ajudar as pessoas que se
encontram desempregadas, tanto de forma objetiva quanto subjetiva: por meio de
indicação, informações sobre vagas trazidas pelos membros, reuniões de oração com o
propósito específico de interceder pelos irmãos desempregados, privilégio dado aos
membros por parte de empresários
207ou micro-empresários membros da mesma
comunidade, e assim por diante. Foi isso que constataram Ronaldo Almeida e Andréia
Tiajaru: a igreja se torna uma rede social que beneficia seus fiéis concretamente:
As redes evangélicas trabalham em favor da valorização da pessoa e das
realizações pessoais, gerando aumento de auto-estima e impulso
empreendedor no individuo, mas também fomentam a ajuda mútua por
meio de laços de confiança e fidelidade. Nos templos há circuitos de
trocas que envolvem dinheiro, alimentos, utensílios, informações,
recomendações de trabalho, etc
208.
Veremos isso a seguir, nas palavras de Nice, que veio do estado da Bahia, com a
perspectiva de que, vindo para São Paulo, pudesse ter uma melhoria de vida. Chegando
em São Paulo, ao conhecer a igreja batista Maranata, conseguiu, além do apoio afetivo,
que lhe foi importante na medida em que se encontrava na condição de migrante, um
emprego, suprindo uma de suas necessidades primordiais.
Mesmo não sabendo andar em São Paulo, eu descia para Maranata
sozinha no domingo. Conheci o pessoal de lá, o pastor Varela, eles me
ajudaram bastante, abriram umas portas assim (...) A Paula (membro da
Maranata ) ela trabalhava no Reimberg (supermercado da região) no
departamento de pessoal, ela conseguiu uma vaga para eu trabalhar de
operadora de caixa, fiquei lá três anos. Assim que eu comecei a
trabalhar me tornei independente, eu saía e me virava, fazia compras
sozinha e tudo.
209Como vimos no gráfico da página onze, os entrevistados, majoritariamente,
mudaram de religião. Mais da metade saiu do catolicismo, mostrando que a migração
influi no trânsito religioso.
Os colaboradores deixaram transparecer, com muita força, as contribuições
subjetivas de seu envolvimento com a igreja. Dentre os apontamentos citados, ganhou
grande destaque o fato de perceberem que, com os ensinamentos da igreja, adquiriam
207 Classificamos como empresários todo o ramo de comerciantes e proprietários que propiciam
empregabilidade.
208 ALMEIDA Ronaldo de; D’ANDREIA, Tiajaru. Op. cit., pp. 95-106. 209 Nise Silva, 32 anos, entrevista realizada no dia 11-09.