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5. SAYISAL ÇALI Ş MALAR

5.3. Gerçek Durum Buzdolabı Conta ve Flan ş Bölgesi Analiz Çalı ş maları

5.3.2. Geometri Etkisinin Belirlenmes

O racismo faz parte do cotidiano do brasileiro, e é aceito e confirmado por

diversos segmentos da sociedade. Tendo consciência disto, torna-se urgente pensar e

repensar as práticas e rituais que reproduzem cotidianamente formas sociais de coerção,

interna ou externa, que contribuem para disseminação do racismo e do preconceito racial

em nossa sociedade. Se concordarmos que a sociedade brasileira é marcada não somente

pela exploração socioeconômica, mas também pelo racismo, como desconsiderar que a

igreja, como uma instituição social, não seja marcada por esses elementos? Sendo assim,

como não cobrar desse segmento social um posicionamento diante da realidade de

milhões de fiéis negros e negras, no sentido de garantir-lhes um tratamento igualitário,

eliminando práticas discriminatórias e preconceituosas? É necessário dar uma atenção

especial às práticas religiosas desenvolvidas pela comunidade batista, para perceber seu

posicionamento diante da diversidade étnica e ante a superação do racismo, preconceito e

discriminação racial. Será que as práticas preconceituosas e discriminatórias, em relação à

negritude, não estão tão internalizadas que parecem naturais à comunidade batista? Tanto

na igreja quanto na sociedade brasileira, temos a construção da identidade de classe,

profissão, gênero, idade e também étnico-racial. Nesse sentido, queremos perguntar:

como a igreja lida com essa questão? Quais alternativas ela propõe para superação do

185 ALMEIDA Ronaldo de; D’ANDREIA, Tiajaru. “Pobreza e redes sociais em uma favela paulistana”.

In: Novos Estudos CEPRAP. n 68. São Paulo, 2004, pp. 95-106.

Religião antes da Maranata

61% 11% 11% 17% Católico Batista Assembléia de Deus Umbanda

racismo e da discriminação racial presente na comunidade por ela assistida? A

comunidade batista considera os diferentes referenciais de identidade dos sujeitos que a

compõe? As respostas não virão todas de uma vez, visto que vivemos num processo

histórico de mutações que não nos permite um panorama amplo das questões raciais, por

irem além do que ambiciona essa pesquisa. Tentaremos, no entanto, identificar como

pensam negros e negras no interior da comunidade Maranata; o por que desconsideram a

questão racial dentro de sua comunidade de fé, mesmo quando a considera na sociedade;

porque essa divisão entre o ‘mundo’ interno da igreja e o externo se torna fundamental

para compreensão de questões como a racial.

Para entendermos as posturas e posições tomadas pelo protestantismo no Brasil

ao longo dos séculos, precisamos visualizar seu universo ideológico. Para tanto,

utilizaremos as reflexões expostas pelo teólogo Rubem Alves, que nos faz adentrar este

universo com maior clareza. Segundo ele, por meio da linguagem, este gr upo constrói um

mundo próprio, sua ideologia, que “são mundos, círculos, a um tempo lares e túmulos,

onde vivemos e morremos. Entrar numa ideologia é entrar num destes mundos, único,

com regras próprias e cores especificas

186

.” A vida cotidiana é tecida por meio da

linguagem. É por meio dela que o homem transforma ‘coisas’ materiais ou imateriais em

símbolos sagrados ou profanos, diviniza o branco e demoniza o negro, que se sacrifica e

consegue sorrir perante a dor. Assistimos um renascer da religião, não no sentido de vê-la

se tornando novamente um eixo organizador da sociedade, mas reconhecendo-a como

algo que permanece como uma das forças atuantes no campo da formação humana. Para

uma parte da população, é através do discurso religioso e de seus ritos que o mundo

recupera a unidade perdida nos tempos modernos. A religião pode ser entendida como

uma forma de organizar simbolicamente o mundo, uma força dada ao homem para

encontrar um sentido para viver e morrer. Sendo assim, para compreendermos a ideologia

protestante, teremos que entender os nomes, rótulos e simbolismos que os protestantes

utilizam para si e para seu mundo. “A linguagem religiosa dá nome às coisas, organiza a

experiência, mapeia o caminho, indica as zonas obrigatórias, as permitidas, as proibidas,

diz o que deve ser feito e o que não é permitido

187

.”

186 ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004, p. 30. 187 ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 33.

Se pensarmos o protestantismo enquanto instituição

188

, o fiel responderá

produzindo comportamentos e bens, segundo as receitas monopolizadas por ela. As

instituições são cristalizações de uma sabedoria que não tem consciência de suas origens.

A relação do homem com o mundo não é direta, mas mediada pelas instituições. Quando

ela corresponde a essa expectativa, não é necessário questionamentos ou tentativas de

mudanças. A instituição faz uso de seus mecanismos para impor sua interpretação da

realidade e os comportamentos correspondentes.

Max Weber observou que, para os calvinistas, a prosperidade nos negócios era

sinal de benção divina. Já na América Latina, os protestantes evidenciam seu novo status

espiritual não pelo sucesso financeiro, mas por meio de virtudes morais, o que os tornam

diferentes dos demais. Quando perguntamos o que mudou na vida dos entrevistados após

a conversão, obtemos como resposta, não riqueza material, mas virtudes morais. Veja os

exemplos nas falas abaixo:

Eu bagunçava muito, saía para balada, nossa eu era sacana, mesmo!

Desculpe a expressão (riso). Mudei. Se você visse as roupas que eu

vestia, era um escândalo de roupa. Hoje eu vejo as fotos e não acredito

“onde estava com a cabeça?” Meu modo de vestir, meu vocabulário

mudou bastante, minha postura, ver as outras pessoas (...) apesar de que

mesmo quando eu era católica, eu via as pessoas com bastante amor.

189

Olha, eu era muito nervoso, então isso eu mudei bastante, eu bebia na

época e agora não faço mais, é isso que mudou. Meu casamento mesmo,

mudou. Se eu não estivesse na igreja ele já teria acabado, por minha

causa, eu era muito “zoeiro”, se eu não estivesse na igreja seria fatal.

Coisa material eu não falo que mudou, eu não me apego em bens assim,

certo que é bom a gente ter, mas eu não me apego em bens materiais.

Assim, de ter, ter, a gente sempre trabalha num propósito assim, mas

não com ambição de querer ter e não atingir o objetivo. Eu não sou

acomodado, eu trabalho direto para conseguir as coisas, e se caso chegar

no final do mês e eu não conseguir, tudo bem. Eu estando com saúde e

meus filhos e minha esposa, já está de bom tamanho

190

.

Mudou muita coisa (...) A paz que você sente para resolver as coisas,

antes eu queria resolver as coisas do meu jeitão, de dar o troco, eu agia

muitas vezes desse jeito, lógico, nunca falava para meu filho, se uma

criança bater você vai dar o troco, eu nunca ensinava isso, mas eu era

muito ignorante. Hoje eu não sou. Eu entendo, se a pessoa chegar e

conversar comigo, eu tenho facilidade de entender aquela pessoa, ou

188 Instituição no sentido de um mecanismo social que programa o comportamento humano de forma

especializada, o homem produz então, os objetos predeterminados pela ela.

189 Nice Conceição da Silva, 32 anos. 190 Humberto Moura, 39 anos.

crente ou não crente, mas tenho facilidade, agora tenho paz no meu

coração para tudo que eu vou resolver.

191

A ética para o protestantismo latino-americano é internalizada e individualizada.

O crente não usa de sua disciplina para protestar contra o mundo, mas para reprimir-se e

dominar-se. Os novos hábitos que adquire após a conversão são de cunho moral: não

beber, não fumar, não sair para “noitada”, não usar roupas indecentes, não usar de

grosseria para resolver seus problemas, trabalhar muito, administrar bem o ganho, tratar

bem as pessoas. Ele tem a consciência de ‘ser diferente’, e de que o mundo seria melhor

se todos fossem como ele. O seu estilo de vida, além das mudanças acima menc ionadas,

se caracteriza, então, do ponto de vista ético, por dois outros elementos. Primeiro, uma

tendência de adaptar-se ao mundo tal como ele se apresenta, entendendo as leis, jurídicas

ou funcionais, não de forma crítica, mas como uma expressão da vontade de Deus. De

acordo com a interpretação bíblica de Lutero, as autoridades precedem de Deus, e

portanto, o fiel deve obedecê-las sem resistência. Caso contrário, ele estaria resistindo à

vontade divina. Em segundo lugar, a ética legalista, conjugada com a disciplina pessoal,

faz dos protestantes excelentes ‘funcionários’. Criou-se uma ‘ética do funcionário’ que

canaliza a vitalidade humana, não na direção do novo, mas antes, no sentido de aumentar

a eficiência das estruturas existentes. Ele é ‘o’ bom empregado, ‘o’ bom funcionário, ‘o’

bom cidadão, aquele que obedece às regras do jogo, sem modificar suas estruturas.

A ênfase protestante na reconciliação é muito sugestiva, pois ela indica

que os problemas humanos se situam no nível dos mal-entendidos e

nunca na esfera das relações injustas. E como conseqüência torna-se

difícil compreender a pobreza das massas como um problema estrutural.

O protestante tenderia, ao contrário, a interpretá-la como um problema

de raízes puramente individuais. (...) O protestantismo, como ideologia,

se coloca ao lado das forças que desejam perpetuar as estruturas

dominantes

192

.

O protestantismo nasceu como espírito da liberdade, da democracia, da

modernidade e do progresso. Segundo David Vieira, isso aconteceu porque:

Os liberais, que tinham se apropriado das idéias políticas e econômicas

dos ingleses, também assimilaram a propaganda inglesa e americana de

que todo ‘progresso’ advinha do protestantismo. Esse ponto de vista

parecia ser confirmado não só pelo desenvolvimento britânico e

americano como pelo admirável desenvolvimento das colônias

germânicas no Brasil. Desse modo, pela década de 1860, apareceu uma

191 Maria Aparecida Souza, 51 anos.

nova escola de pensamento no país sob a liderança de Aureliano

Cândido Tavares Bastos, Caetano Furquim de Almeida e outros. Esse

novo grupo ensinava que o ‘progresso’ só poderia ter lugar no Brasil por

meio da imigração germânica e anglo-saxonica (isto é, protestante).

193

Mas, como um grupo que se diz libertário e democrático pode ignorar a realidade

injusta e desumana da estrutura social, econômica e política na qual vivemos? Alves nos

ajuda a responder essa pergunta, explicando que a questão fundamental do protestantismo

está no seu individualismo, que, no nível articulado, parece defender a liberdade, mas na

realidade, contraditoriamente, se conforma com a estrutura dominante. A luta pela

liberdade íntima e individual, preciosa ao protestantismo, cria uma impossibilidade de

protestar contra as estruturas, pois o individualismo funcionaria, no nível social, como um

mascaramento da situação de repressão e como uma justificativa dessa mesma situação.

Embora o protestantismo tenha nascido com o principio de liberdade e

democracia, se posiciona na sociedade de forma fechada e conservadora. A ligação do

protestantismo com o capitalismo, analisado por Max Weber, ilustra um lado dessa

moeda, que é a questão econômica. Para ele, o protestantismo apresenta uma mensagem

de salvação que ajuda a superar as necessidades dos oprimidos pelo sistema

socioeconômico, e também garante conforto por legitimar o modo de viver das camadas

privilegiadas. Mas a questão econômica não pode ser entendida como única e suficiente

para esclarecer esse fenômeno. Não podemos descartar o outro lado dessa moeda: a

questão ideológica.

O protestantismo latino americano deu muita ênfase à experiência religiosa

pessoal, nos conteúdos subjetivos e existenciais provindos do pietismo europeu: “tristeza

pelos pecados cometidos, certeza de salvação, paz e alegria”. Com isso abandonou as

estruturas sociais, políticas e econômicas da sociedade, criando, germinalmente, uma

forma de pensar que ignorava a ordem existente, transferindo para o mundo a esperança

celestial. “A afirmação bíblica de que ‘a amizade ao mundo é inimizade contra Deus’

passou necessariamente a ser interpretada como um julgamento contra todas as estruturas

dominantes

194

.” Por outro lado, o individualismo protestante latino americano cunhou

uma forma de sobreviver diante desse paradoxo: ser contra o mundo estando no mundo,

vendo a história como um jogo onde não se planeja o futuro, pois se crê no futuro como

193 VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília:

Editora Universidade de Brasília, 1980, p. 372.

dádiva de Deus. ‘O futuro a Deus pertence’. O individualismo produzido pelo

protestantismo latino americano dominou suas formas de pensamento, não permitindo

entender os problemas de natureza estrutural, mas os percebendo como um simples

agregado ou soma de problemas individuais. Por isso, a fórmula central de sua ética social

é “converta-se o individuo, e a sociedade se transformará

195

.”

Analisando as falas dos entrevistados, observamos a existência da ética social

acima citada, na forma de pensar do membro batista. Tomamos como exemplo, Maria

Souza, de 51 anos, uma de nossas colaboradoras, que faz parte do grupo de membros

fundadores da Maranata. Antes de conhecer a igreja batista, ela freqüentava a igreja

católica. Embora não tivesse a intenção de mudar de religião, foi influenciada por seu

cunhado, membro da Maranata, e de sua filha

196

, a freqüentar os cultos. Assim, ela

decidiu fazer parte da denominação batista. Sempre foi atuante na comunidade,

participava das programações da igreja com assiduidade e cooperava com os projetos

desenvolvidos pela Maranata desde seu surgimento. Com muito esforço, ainda que com

pouca escolaridade (ensino fundamental incompleto), trabalhou com a liderança de

crianças e da união feminina

197

.

Percebemos a ênfase no individualismo, dada pela colaboradora, quando nos

respondeu sobre a diferença entre membros negros e brancos. Transcrevemos abaixo um

trecho da entrevista para melhor esclarecer a questão mencionada:

C.K - Existe alguma diferença entre um membro branco e um

pardo ou preto na Maranata?

M.S – Para mim não existe não, pode existir para algumas pessoas, mas

para mim, não.

C.K – Porque a senhora acha que não existe?

M.S – Porque somos todos iguais, independente da cor.

C.K – Mas todo mundo pensa assim?

195 ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 127.

196 Na entrevista Maria Souza conta o entusiasmo de sua filha quando era levada pelos tios para igreja, onde

participava da programação com muita alegria. Esse foi um dos fatores decisivos que a fez visitar a Maranata. Nesse tempo, a igreja funcionava sem um espaço próprio. As reuniões eram feitas na casa do membro fundador, conforme explicamos no capítulo anterior.

197 A União Feminina Missionária Batista do Brasil se designa por grupos de mulheres batistas que se

organizam para auxilio e motivação de projetos, com ênfase na educação cristã missionária, envolvendo quatro faixas etárias (criança, adolescente, jovem e adulta), que abrange a igreja local, se estendendo para atividades que englobam as igrejas batistas dos Estados e do país.

M.S – Acho que não, algumas pessoas tem esse lado, não sei. Quando a

pessoa é assim, eu acho que é uma pessoa que não busca a Deus no

coração.

C.K – Quem tem Deus não tem preconceito?

M.S – Não tem, não pode ter, eu entendo que é pecado fazer isso.

C.K – Mas existe racismo na igreja?

M.S – Existe sim, por parte de algumas pessoas, mas não por mim, nem

por meus filhos, eu nunca ensinei isso para eles, de não ficar perto de

alguém porque é negro, e nunca vou fazer isso, mas existe sim. Na

igreja acontece sim, mas com pessoas que não conheceu o amor de Deus

de verdade, e que não tem Deus no coração. Uma pessoa que está assim,

não dá nem para explicar.

Depois de reforçar que ela não é preconceituosa, nem seus filhos, esclarece que,

no seu entender, ser racista é um pecado, e quem comete tal pecado, só pode ser por não

buscar a Deus de coração. Logo, esse é um problema individual, deixando claro que a

conversão é suficiente para mudá-lo. Observe a próxima depoente que comunga da

mesma idéia:

C.K - Você acha que existe diferença entre um membro negro e um

branco?

R.A - Para mim, um membro branco e um membro negro não têm

diferença. Para mim tem outra diferença, de classe social.

C.K - Não a de cor ou raça?

R.A - Não, de cor não, mas de classe social.

C.K - Porque você acha que na igreja não existe preconceito racial

se em todos os lugares existe?

R.A - Pelo menos eu não sinto, para mim não existe. Quando as pessoas

aceitam a Jesus, Jesus modifica o coração das pessoas e todos se tornam

iguais, então o que acontece? Elas não vêem a gente pela cor de pele,

elas vêem a gente pelo que a gente é, vê o coração, o interior e não o

exterior. Por isso que na igreja não tem. Deus transforma os corações

das pessoas e renova

198

.

O racismo só é admitido, neste caso, na hipótese de haver pessoas que se dizem

convertidas, mas que ainda não ‘conheceu o amor de Deus de verdade’. O racismo não é

pensado como um problema estrutural, tão pouco social. Portanto, é individualmente que

o resolveremos.

Em um terceiro exemplo, percebemos essa idéia reforçada. Ou seja, o

entrevistado entende que dentro da igreja todos são iguais, não recebendo tratamento

diferenciado. Com isso, se houver preconceito, ele é interpretado como uma questão

individual. O problema do preconceito exis te, mas somente no ‘mundo’, fora da igreja.

C.K - Existe alguma diferença entre um membro preto e pardo e

um branco na Maranata?

L.A – Eu vejo que não, lá não tem discriminação de cor ou raça, todos

nós estamos ali para louvar e engrandecer o nome do Senhor. Na

Maranata não tem essa diferenciação de cor e raça. Todo mundo é igual

lá dentro.

C.K – E na sociedade existe diferença entre um negro e um branco?

L.A – Na sociedade sim, em alguns contextos sim. Às vezes você vai

procurar uma porta de emprego, quando está desempregado, se você não

está bem vestido e se for de uma certa cor pardo ou moreno, a pessoa

que é mais clara que você, as vezes tem uma desigualdade.Em algumas

empresas acontece isso.

C.K – Agora, na igreja isso não acontece? Os cargos são ocupados

por brancos e negros da mesma forma?

L.A – Não, na Maranata não. Lá é por votação se você quiser se eleger

ao cargo, não vai da igreja, vai do seu comprometimento com a igreja e

com a Palavra, se você tem um testemunho, uma visão evangélica, se

você tem tido crescimento e quiser ser um tesoureiro você vai ser. Na

Maranata tem um tesoureiro negro e um branco, não vejo desigualdade.

C.K – Por que você acha que não existe desigualdade dentro da

igreja?

L.A – Primeiramente, o foco é engrandecer o nome do Senhor e não

engrandecer pessoas ou raças. Estamos lá para louvar e engrandecer

primeiramente o nome de Deus. Todos nós somos falhos, pode

acontecer de alguém ter preconceito, mas eu nunca notei isso, eu nuca

vi. Em todo lugar na face da terra vai acontecer isso de discriminar as

pessoas. Mas a desigualdade racial na igreja, eu nunca notei isso. Eu

tenho vários amigos pardos, morenos, claros, e eu nunca notei isso. Eu

sou pardo, mulato, e não tive problema na igreja com o racismo

199

.

Para entendermos o porquê desse modo de pensar, temos que ter claro a oposição

que o protestante faz entre a esfera pessoal e a estrutural, em termos dualistas, ao invés de

dialéticos. Com essa visão dualista, não entendem que o sujeito se opõe ao mundo para

transformá-lo. Pelo contrário, entendem que o crente se opõe ao mundo e dele deve se

afastar. O dualismo não pretende resolver a oposição, mas perpetuá-la, intensificando-a

ainda mais. A preocupação central fica na salvação da alma, já que o mundo está perdido.

Assim, para o protestante latino-americano, a pessoa não transforma o mundo, mas

rejeita-o. “Daí a formulação típica da eclesiologia dominante: a Igreja, como comunidade,

não participa das transformações socais. Sua tarefa é converter os fiéis e alimentar os

conversos”

200

. Conseqüentemente, o mundo, como tal, e de forma específica o mundo

latino-americano, com seus valores, seu estilo de vida, e sua cultura, passa a ser

considerado mal.

O ato de se converter ao protestantismo pode então implicar um

desenraizamento pelo qual o homem é forçado a negar a cultura que o

formou.(...) O protestante está no mundo, mas não se solidariza com ele.

Os seus olhos estão atentos à sua vida pessoal e à promessa de salvação

individual. Assim, o importante não é que os homens estão sofrendo, ou

seja, as condições objetivas e estruturais dela, mas como eles sofrem, ou

seja, as condições subjetivas com que eles enfrentam a provação.

201

Por isso, devemos entender que o problema do preconceito racial não ultrapassar

as paredes da igreja é um pensamento permitido na lógica do discurso ideológico

protestante. Afinal, o crente, sendo um forasteiro, um viajante, um peregrino, estando de

passagem neste mundo, tem como preocupação primordial a sua caminhada rumo à pátria

celestial e eterna, onde não haverá ma is dor nem choro. Os problemas ‘terrenos’, como a

política, a economia, questões sociais e raciais são jogados para um segundo plano, não

ganhando assim, importância significativa no discurso protestante.

Benzer Belgeler