KAPATILDIĞINDAKİ İYİLEŞME DURUMU
4. SONUÇ VE ÖNERİLER
Muito semelhante às diretivas do portal eletrônico, a Rede Aparecida de Comunicação promove uma programação de evangelização e de formação católica. A referida rede televisiva, juntamente com os demais elementos que compõem o seguimento de comunicação do SNA, ajudam a reforçar um projeto nacional do Catolicismo.
Por projeto nacional, relacionado ao SNA e a Nossa Senhora Aparecida, toma-se uma proposta de reconhecimento da imagem como padroeira, ampliando seu foco de aceitação e de popularização, além de uma convalidação do espaço do Santuário como o espaço religioso por excelência, o mais popular e o mais referendado (pela Igreja Católica, pelos governos
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estadual, federal, municipal, pelas mídias) para falar de fé católica, de Maria e de devoção à mesma no Brasil.
Tornar e reconhecer Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil é atribuir a essa devoção uma força, uma oficialidade, demonstrando que a santa é padroeira por vontade da população e pela memória que a embasa. Um ato foi marcante nesse percurso do reconhecimento como padroeira: em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI declarou e proclamou a Aparecida “Padroeira da Nação Brasileira” (VITOR, 1985, p. 38).
Figura 34 Placa comemorativa da coroação de Nossa Senhora Aparecida, praça da Basílica Velha. Dez. 2010.
Outro fator preponderante que veio a reforçar a fama e a ideia de uma padroeira para o Brasil foi a coroação da Aparecida em 1904. Com a autorização do papa Pio X, este evento no qual participaram personalidades políticas e religiosas, foi seguido da coroação da imagem, com a coroa doada pela princesa Isabel. Após benzida a estátua, “é descoberta e aclamada pelo povo, enquanto a banda Aurora Aparecidense executa o Hino Nacional” (RIBERO, 2004, p. 41).
A solenidade, os elementos nacionais utilizados, como o hino, a atribuição do título de padroeira da nação a Nossa Senhora Aparecida corroboram a formação de uma identidade dita nacional, em tempos em que o Brasil justamente vinha dialogando e buscando definir o que era seu projeto nacional. Fruto de uma concepção romântica, a construção de um projeto de
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nação traz um retorno às raízes indígenas e uma ânsia por descobrir os elementos que caracterizassem o que é o povo brasileiro.
Da mesma maneira, em 2004, comemorou-se no SNA o centenário da coroação da imagem de Aparecida. Houve um concurso para a confecção de uma nova coroa. O evento atraiu inscrições de 167 artistas. Além disso, houve o lançamento de selo comemorativo pela Empresa de Correios e Telégrafos – ECT - novenas mensais transmitidas pelo canal de televisão Rede Vida, exposições, romarias, procissões (RIBEIRO, 2004). Dia 12 de outubro, data da padroeira, reconhecida pelo governo federal, como feriado nacional, em 1980, pelo então presidente da República general Figueiredo44, a cerimônia da coroação é celebrada e relembrada em seu centenário, a fim de reavivar e reforçar a importância de Nossa Senhora Aparecida para a nação brasileira.
Além disso, nacionalizar um santuário mariano implica, de certa forma, promulgar um espírito de reconhecimento da santa como sendo ela aceita e devocionada em todo país, sem distinções. Para melhor esclarecer, vale retomar brevemente a noção de nacional, nação e nacionalismo. Para Martín-Barbero (2006, p. 39-40), há uma mistificação em torno de uma ideia que ele denomina povo-Nação:
Em segundo lugar, a ambiguidade da sua idéia de “cultura popular”. Se os românticos resgatam a atividade do povo na cultura, no mesmo movimento em que esse fazer cultural é reconhecido, se produz seu seqüestro: a originalidade da cultura popular residiria essencialmente em sua autonomia, na ausência de contaminação e de comércio com a cultura oficial, hegemônica. E, ao negar a circulação cultural, o realmente negado é o processo histórico de formação do popular e o sentido social das diferenças culturais: a exclusão, a cumplicidade, a dominação e a impugnação.
44 O governo militar de João Figueiredo representou o final do regime militar e a consolidação da abertura
política. É marcado por atos nacionalistas, assim como pode ser compreendido a promulgação de lei que reconhecia o dia 12 de outubro como feriado de caráter nacional, isto é, reconhecendo na data um evento de associação com religiosidade da nação e não apenas de grupos de católicos.
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Figura 35 Placa em agradecimento pela construção da passarela. Dez. 2010.
Dentro desse propósito, o SNA e a imagem de Aparecida foram, ao longo dos séculos e, em especial, no século XX, pensados, redesenhados para se assemelharem, cada vez mais, a essa relação orgânica com a sociedade brasileira, ou seja, como se o fato de Nossa Senhora da Conceição Aparecida ser reconhecida como padroeira do Brasil fosse consequência natural e necessária, ao mesmo tempo em que sua aceitação aparenta ser comum e unânime para todos. Quanto ao popular, o espaço e toda sua estrutura se propõem popular, como parte integrante de uma identidade nacional. Nesse sentido, identidade é sempre pensada como algo fechado, único, e da qual fazem parte elementos que são aceitos e compartilhados por uma grande maioria de um grupo ou sociedade.
Para Poutignat e Streiff-Fenart (1998 p. 45), nação, muitas vezes, é uma categoria confundida com a etnia. Para diferenciá-las, esclarecem que,
A nação pressupõe, por sua vez, uma consciência subjetiva específica de povo. O engano comum a muitas pesquisas sobre a nação e o nacionalismo seria, então, segundo Connor, acreditar que a nação seja uma “realidade tangível” e de, assim, tê-la associada ao Estado.
E prosseguem:
O nacionalismo como uma das elaborações ideológicas da “idéia de nação” é, desta forma, indiscutivelmente o promotor da etnicidade. [...]. Porque o
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nacionalismo é justamente um programa político e porque a etnicidade, seja ela o que for, não é por sua vez um conceito político e não tem conteúdo programático. Para Hobsbawm ela não faz parte da teoria política, mas da antropologia ou da sociologia. Certamente ela pode ser utilizada politicamente, mas a política de etnicidade não tem ligação necessária com o nacionalismo e pode ser completamente indiferente aos objetivos dos programas nacionalistas (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 54). As definições de nação e de nacionalismo estão sempre ligadas às ideias de projeto político e à organicidade. Pretendem soar naturais, ou seja, um projeto nacional de aceitação de Nossa Senhora Aparecida como naturalmente emanado de uma vontade popular. Tal olhar se pauta na criação de uma proposta, social e politicamente construída, um campo de disputas, na qual se constrói uma narrativa que retrata uma memória que é base sobre a qual se constrói esse projeto, e que é a estrutura também que solidifica uma identidade nacional comum. Essa identidade dita nacional, portanto, é o que conduz ao que se chama de cultura nacional, isto é, a um conjunto de práticas e representações que pretendem ser a configuração do que é um grupo/povo/sociedade, e como se ela sintetizasse tudo que é parte da formação de um ser humano dentro desse grupo.Como define Stuart Hall,
..., as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. [...]. Segue-se que a nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional. Uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu “poder para gerar um sentimento de identidade e lealdade” [...].
Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a nação, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidade. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. Como argumentou Benedict Anderson (1983), a identidade nacional é uma “comunidade imaginada” (HALL, 2006, p. 48-51).
Nação como sistema de representação cultural e cultura nacional como discurso constituem um campo de disputas e embates de forças na construção de uma identidade nacional. Nessa luta de forças e discursos, constroem elementos que compõe o que se chama identidade nacional. Essa identidade, para o autor supracitado, é denominada como sendo imaginada. Isso porque não há como delimitar o que compõe a identidade ou as identidades de uma sociedade ocidental moderna. O que existe é um conjunto de elementos
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constantemente construídos, trocados, atualizados, renovados, que se mantêm como identitários para parcelas de indivíduos, maiores ou menores, dentro de uma sociedade.
Há uma identidade em face do SNA e da imagem de Aparecida. Essa é partilhada e sentida (diferentemente) por cada visitante que chega ao espaço. Ali, no entanto, eles têm a sensação de estarem partilhando de um projeto nacional, de uma comunidade imaginada nacionalmente que comunga da mesma fé. O espaço dá subsídios para isso: todo o discurso, a memória, os lugares, os objetos ali presentes respaldam esse sentimento de pertença a um grupo que se identifica com N. Sra. Aparecida, com o Santuário, com a Igreja Católica e com tantas outras ramificações e representações que possam ser pensadas naquele lugar.
A idéia de produção de um projeto nacional, no qual o Santuário e toda sua estrutura são aceitos como o berço da devoção mariana no Brasil, não podem ser encarados, no entanto, com a síntese da fé em Maria. Ou seja, uma identidade cultural com o SNA e com a estátua da Aparecida é múltipla de possibilidades, variante, jamais unitária. “Nenhuma cultura é jamais unitária em si mesma, nem simplesmente dualista na relação do Eu com o Outro” (BHABHA, 2010, p. 65).
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Há um ato de enunciação cultural – há um lugar do enunciado – o qual é atravessado pela diferença na escrita da cultura. Cultura implica em negociação e tradução, como entende Homi Bhabha (2010). Há um lugar, um “entre-lugar”, no qual é possível vislumbrar histórias nacionais, antinacionais, populares. Nessa análise que o autor faz do lugar da cultura, emerge a compreensão de que a identidade cultural, portanto, é multifacetada, fragmentada, reconstruída dentro de disputas e forças que são travadas por grupos dentro de uma mesma sociedade.
Em suma, o SNA e Nossa Senhora Aparecida são representações de uma cultura religiosa, a qual também é ela mesma múltipla quanto às identidades que reproduz: não há uma identidade definidora desses pilares, mas sim uma possibilidade de utilização dessas representações na construção de elementos que são popularmente conhecidos, percebidos e negociados entre as pessoas e instituições.
Figura 37 SNA com decoração natalina. Fonte SNA/ Michel Oliveira.
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