ETKİLERİ
3.5.1. Piknik Alanlarının Kullanım Yoğunluğunun Ekolojik Etkiler
São centenas de peregrinações e romarias ao SNA, ano a ano; porém, muitas delas visitam não apenas a Basílica Nova e o município de Aparecida, mas a região que circunda tal cidade e que é conhecida como um circuito turístico religioso, pois muito próximas estão duas outras cidades ligadas ao Catolicismo: Guaratinguetá/SP, onde nasceu o primeiro santo brasileiro reconhecido pelo Vaticano, frei Galvão, e Cachoeira Paulista/SP, município que abriga uma emissora de televisão e uma comunidade religiosa, a Canção Nova.
A ideia de um circuito turístico na região já vem sendo estudado e realçado desde, ao menos, 2007. Na tese que versa sobre o processo histórico de canonização de frei Galvão, Souza (2009) sublinha esse dado em sua pesquisa, demonstrando como o circuito religioso é representativo hoje para essas cidades e suas economias, por exemplo24. Tal informação foi mencionada em revista publicada na região, pelas três secretarias de turismo municipais. Em parceria com o SEBRAE, bem como com o governo estadual e federal, houve incentivo financeiro e investimento para promover o turismo local. Em entrevista com dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, esse comentou que:
A arquidiocese teve a iniciativa de animar e estimular este roteiro turístico religioso, porque o romeiro vem a Aparecida, onde atrai o maior número de pessoas. Também vão à Canção Nova que ficou conhecida pela rádio e televisão no Brasil todo. Agora, surgiu um novo fato, a canonização de Frei Galvão. [...]. Com essas possibilidades o turista tende a ficar mais aqui em nossa região. Essa iniciativa partiu de uma parceria da arquidiocese com o SEBRAE e com o Santuário e, hoje tem envolvimento das Prefeituras, somando tudo isso nesse circuito que está se consolidando. (CIDADES DA FÉ, 2007, p. 22).
24 Em fevereiro de 2008, quando realizei a segunda visita a Guaratinguetá, visitei também Cachoeira Paulista,
município que abriga a comunidade Canção Nova, [...]. Na visita, foi possível conversar com funcionários da administração do projeto. Em conversa informal – uma vez que dependeria de autorização para dar entrevista –, um funcionário do departamento de marketing e publicidade comentou que o circuito religioso não era uma mera sugestão; ia além: era um pólo de interesse para investimentos tanto para o governo estadual quanto para o federal. Mencionou a visita da então ministra do turismo, Marta Suplicy, à região.
A ideia, segundo ele, era implementar melhor estrutura, placas indicativas na rodovia Dutra, a fim de fomentar o turismo naquela região. Muito provavelmente, como o funcionário salientou, isso se deve também pelo evento da visita de Bento XVI ao Vale, pois, só em 2007, a Basílica de Aparecida recebeu um público superior a oito milhões de peregrinos (SOUZA, 2009, p.266).
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A Comunidade Canção Nova, de Cachoeira Paulista/SP, é compreendida pela Fundação João Paulo II. Essa fundação contém emissora de televisão, rádio, internet, produtos de evangelização, eventos, educação e projetos de saúde, atendimento social. Como ramos secundários, mantêm ainda uma gráfica, estúdio de gravação, editora, padaria e atividades agrícolas e pecuárias, contando com o trabalho de mais de 2000 colaboradores diretos (FUNDAÇÃO JOÃO PAULO II, s.d.).
Ainda nos anos de 1970, surgiu a Associação Canção Nova, com o padre Jonas Abib. Desde então, o padre esteve à frente dessa proposta católica, cujo intuito era a evangelização, fortemente embasada no Movimento da Renovação Carismática, dentro da Igreja Católica (ABIB, 2006). No sítio eletrônico da Canção Nova (2008), consta que desde 1976, com Dom Afonso de Miranda, surgiram as bases evangelizadores da Canção Nova. Padre Jonas Abib, então com 37 anos, recebeu a tarefa de dar início a essa empreitada. A proposta, em suma, versava sobre levar a Boa Nova para milhões de pessoas, por meio dos meios de comunicação. Nos anos de 1976 e 1977, o padre Jonas oferecera encontros denominados “catecumenatos”, isto é, cursos de catequese para jovens. No entanto, como outras pessoas, vendo o caráter da evangelização, se sentiram também motivados a participar.
Dessa forma, acontecia ao pé da letra o que dizia o documento apresentado por Dom Antônio Afonso de Miranda ao padre Jonas: “(…) Tocados pela graça, descobrem pouco a pouco o rosto de Cristo e experimentaram a necessidade de a Ele se entregar” (EN, n. 44).
Passado um tempo, padre Jonas sentiu a necessidade de lançar um desafio à juventude: iniciar um “Catecumenato” interno, no qual os jovens deixariam a família, a casa e os estudos para se entregarem ao Espírito Santo. Os jovens de Queluz foram os primeiros a ser chamados e doze deles aceitaram a missão. No dia 2 de fevereiro de 1978, dava-se inicio à Comunidade Canção Nova com o seu primeiro compromisso25.
Sendo assim, desde o princípio a missão da Canção Nova previa a formação de um sistema de comunicação para a evangelização, bem como a formação da comunidade, para a qual as pessoas, abrindo mão de suas vidas, bem como de tudo que possuíam, passavam a viver no interior de uma comunidade, localizada espacialmente no município de Cachoeira Paulista.
A chácara de Santa Cruz foi adquirida em 1979 e regularizada em 1987 e conta com uma área de 372mil m², na qual se localiza o centro de evangelização Dom João Hipólito de
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Moraes (para 70 mil pessoas); o Rincão do Meu Senhor (para 4 mil pessoas); e o Auditório São Paulo (para 700 pessoas). Além disso, o espaço abriga capelas, posto médico, escola, restaurante, padaria, postos bancários, lojas de artigos religiosos, pousada, área de camping e, no entorno, prédios administrativos e obras sociais. Anualmente, costuma promover 18 acampamentos e recebe um público de, em média, 550 mil pessoas26.
Merece ressaltar ainda o papel que a Canção Nova ocupa atualmente nos meios de comunicação. É uma emissora de televisão com programação própria, cuja veiculação tem duração de 24 horas por dia. Para além da emissora, há revista, rádios AM e FM, portal, Web TV, e telefonia móvel. Comercializa livros (mais de 1270 títulos), CD e DVD (445 títulos).
Figura 17 Prédio administrativo da Fundação João Paulo II, Canção Nova. Fev. 2008.
Outro importante veículo de comunicação é a Rádio Canção Nova, que está no ar desde 1980. Abrangendo boa parte do território nacional, ela também pode ser captada em outros países latino-americanos, como Paraguai, México, Honduras, El Salvador, Guatemala e Nicarágua.
A emissora de televisão entrou no ar em 1989 e, atualmente, alcança uma audiência de 55 milhões de espectadores. No Brasil o sinal da emissora é retransmitido por 86 operadores de TVs a cabo. Já no exterior, a retransmissão é via satélite para América Latina, Estados Unidos, Europa, incluindo parte do Oriente Médio, Norte da África e Canadá. Os fieis
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também podem acompanhar a programação pelo portal eletrônico (CANÇÃO NOVA, 2008)27.
Figura 18 Rádio Canção Nova e, ao fundo, DAVI - Depto de Audiovisual. Fev. 2008.
Em Guaratinguetá fica a casa de frei Galvão: é a residência onde em 1739 nasceu o primeiro santo brasileiro canonizado pelo Vaticano. Após um longo processo de beatificação, que ainda remonta ao século XIX, a irmã Célia Cadorin, habilidosa e experiente postuladora de causas de santos e beatos, conseguiu fazer desse homem um beato (a beatificação se deu em 25/10/1998) e, em 2007, santo, após já ter feito santa, antes, a madre Paulina, fundadora da ordem à qual a postuladora Célia pertence (SOUZA, 2009).
A casa é modesta, de dois pisos, sendo que somente o térreo é aberto à visitação. A proprietária, dona Thereza Maia, é descendente de irmãos de frei Galvão, que há pelo menos duas décadas organiza a casa e o fluxo de visitação ao local. Não há estrutura, sequer espaço para o recebimento de centenas de milhares de pessoas como os outros dois locais. Aos poucos, desde a década de 1980, Thereza Maia reconstruiu a casa em estilo colonial do século XVIII, redecorou, contratou funcionários, preparou uma estrutura ao redor para melhor receber os visitantes.
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A casa é um espaço totalmente erigido e pensado para receber os devotos do frei. Foi pensado por dona Thereza e sua família para ser um local que expusesse brevemente a história do frei. Para a pessoa que cuida da casa, essa faz parte da sua história; mas para a História, há que se ter em mente que quando alguém reorganiza essa casa, lança mão de estratégias para criar a ideia de que, visitando a mesma, as pessoas se sentirão em contato com o frei ou com seu modo de viver naquele espaço. O que se cria, por conseguinte, é uma ilusão da realidade e essa alimenta um imaginário sobre a vida do frei que a casa e os objetos não são capazes de reproduzir na íntegra (SOUZA, 2009, p. 240).
Ilusão e imaginário que não se limitam à cidade de Guaratinguetá. Frei Galvão foi o construtor do mosteiro da Luz, em São Paulo no século XIX, local onde jazem seus restos mortais. São dois, portanto, os locais de visitação ligados à memória de frei Galvão; todavia cada um desses locais mantém uma relação peculiar com o santo: em Guaratinguetá, ele é um santo doméstico, particular, quase que uma devoção familiar, pois o espaço e tudo que a ele se liga, bem como boa parte das narrativas que são recontadas no local, são articuladas e reproduzidas por dona Thereza e sua família, enquanto que no mosteiro da Luz se enaltece mais o lado religioso e construtor do frei de Guaratinguetá.
Figura 19 Casa de frei Galvão em Guaratinguetá. Set. 2007.
A casa funciona em parte como museu: ali estão expostos relíquias do santo, objetos por ele utilizados, bem como paramentos usados pelos papa que o beatificaram e canonizaram. Em um espaço muito pequeno, as pessoas rapidamente tomam contato com a memória historicizada do santo de devoção. Assim como em Aparecida, contudo, Guaratinguetá vê a casa de frei Galvão, aos poucos, se tornar lugar de romarias, assemelhando-se a um santuário dedicado a Antonio Galvão de França. Já há uma sala das promessas, lojas, pequenos comércios ao redor, uma estrutura muito semelhante a do SNA,
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porém em proporções reduzidas, vêm sendo criada e mantida especialmente por dona Thereza.
Figura 20 Detalhe da estátua de frei Galvão, que traz suas relíquias de osso e tecido das vestes. Set. 2007.
Também merece destaque o fato de a casa se prestar a ser um monumento à figura do frei guaratinguetense. “Ao assumir a incumbência de cuidar e reedificar a casa, dona Thereza o fez porque essa era uma forma também de não deixar morrer a figura do tio santo, nem para ela e sua família” (SOUZA, 2009, P. 244).
Jacques Le Goff (1996) diz que o monumento tem como característica a intencionalidade de perpetuar uma lembrança de um fato, de um acontecimento. E que a produção de um monumento envolve relações de poder, porque envolve disputa sobre qual versão do passado é perpetuada e preservada. Quando o autor faz essa colocação, refere-se ao fato de que falar de monumentos implica em falar de memórias em disputa. Ou seja, quando as pessoas projetam suas memórias, elas o fazem pelo apagamento de outras memórias e versões da história.
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A casa, enfim, assume vários papéis: de monumento e de documento (assim como são esses termos analisados por Le Goff [1996]), de museu28 e de patrimônio (patrimônio especialmente detalhado por Françoise Choay [2001] na tese de Souza [2009]) e, dentro de cada uma dessas perspectivas, é possível apreender a multiplicidade de significados que se desdobram quando esses locais históricos e de memória são estudados com maior profundidade. Trata-se de uma propriedade particular; diversamente dos outros dois pontos de visitação valeparaibanos, sua peculiaridade reside justamente no fato de ser um espaço sagrado e de exercício também de uma religiosidade doméstica, como explica Luiz Mott (2007): vê-se uma apropriação do santo frei Galvão como alguém que não é só um santo para o Catolicismo brasileiro, mas é um membro da família Galvão de França. Dona Thereza Maia, em entrevistas29 à imprensa trata o frei por tio, tio santo. Assim como ela, seu esposo - também descendente do santo e seus filhos - o tratam por tio. A denominação tio atribuída ao frei, faz deles ainda mais próximos, íntimos da figura ali devocionada.
Finalmente, tem-se que a região na qual se localiza o SNA é rica em possibilidades de visitação para o turista/romeiro católico. Além disso, tem-se que a região é famosa pela proximidade ao litoral, não distando muito desse, pelas fazendas coloniais que se distribuem pelo vale, bem como pelos atrativos turístico-ecológicos, originários das serras do Mar e da Mantiqueira que ajudam a compor o cenário regional (MAIA, 2005).
Outrossim, com o advento do mundo moderno houve o consumo de massas, observado especialmente a partir do século XIX. Isto não isentou o turismo de ser apreendido e tratado como indústria, cujo produto de venda é a viagem e o lugar turístico. Iniciado no século XIX, na França, o turismo apropria-se de todo espaço e território que é possível de exploração com foco para o lazer, recreação, descanso, recolhimento. Por esse prisma, uma praia, um hotel- fazenda, uma antiga indústria, inclusive, podem se tornar atrativos turísticos. Intencionalmente, um local de trabalho, desgastado pelo tempo e pela fuligem de suas máquinas, torna-se depois de acumulado o tempo e as trajetórias de vida e narrativas ali vivenciadas, um espaço de lazer e de visitação. A fábrica pode ser feia, mas é como se tivesse por trás de suas paredes, toda uma carga histórica e de memória que faz dela um documento- monumento perante uma sociedade (URRY, 1996).
28 Vários autores são utilizados na tese de Souza (2009) para refletir sobre museu: Pearce (1993, 1998, 2005(a) e
(b); Meneses (1994, 1998); Suano (1986), dentre outros.
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Isso não é diferente do que acontece com o Santuário Nacional de Aparecida e com as duas outras cidades do circuito religioso do vale do rio Paraíba. Conforme entende Emerson Silveira (2004), o fenômeno conhecido como turismo religioso é recente e assim denominado por turismólogos desde os anos de 1960. Implicaria em um tipo de turismo no qual o sagrado migraria, como estrutura de percepção para o cotidiano, isto é, para atividades festivas, para o consumo, lazer, enfim, ele deixa de ser limitado à contemplação para ser adotado como mercadoria de consumo pela indústria turística.
O circuito religioso católico vale-paraibano é um espaço de comércio turístico e, como tal, acaba por abranger outras estruturas que vão além do espaço sagrado. Compreende rede hoteleira, restaurantes, transportes, comércio, toda uma gama de empresas e instituições que contribuem para a formação e manutenção desses espaços de visitação. Não é o foco desse trabalho, contudo, discutir o caráter turístico e mercadológico que abrange o circuito em questão. Entretanto, é mister mencionar essa característica, pois isso revela que o SNA não pode ser percebido fora do contexto no qual está inserido geográfica e economicamente. O espaço é parte de um todo maior, que promove circulação de turistas e de riquezas na região. Esse território religioso é geograficamente marcado, congrega uma crença religiosa é um espaço no qual a comunidade católica, em especial, tem mais do que uma vivência de fé, mas uma oportunidade de vivenciar sua fé em um espaço tido como sagrado, bem como aproveitar desse tempo para exercitar seu lazer.
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