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Esclarecida a importância da reforma sufragista para a conquista dos direitos das mulheres brasileiras, bem como o silêncio em torno de sua atuação, é necessário discutir seus efeitos na forma como ela é percebida na sociedade.

A leitura do movimento feminista está focada em divulgar lutas por mudanças, mas vinculadas a uma orientação política específica que está mais interessada no processo de luta que nos resultados concretos alcançados. E as conquistas efetivas de direitos não são nítidas, posto que não foram devidamente estudadas por juristas e historiadores, nem reconhecidas pelo movimento feminista.

Dentre essas perspectivas, chama a atenção a oposição entre luta por direitos e conquista de direitos. São leituras antagônicas e que geram resultados bastante diferentes.

A narrativa focada em luta, típica do movimento feminista das últimas cinco décadas, é influenciada pela ideia de competição entre grupos, sejam eles as diversas vertentes feministas, sejam a tradicional luta homens x mulheres. Isso estimula debates importantes (como a questão da violência), mas polariza, aumenta os atritos intergrupos e minimiza o passado do movimento (especialmente o sufragismo e lutas jurídicas de caráter técnico), dificultando compreender tanto a história do movimento social quanto qual deve ser o foco atual do movimento social.

ilustrada pela pesquisa de Nancy Whitter (1995) com militantes do movimento feminista radical dos Estados Unidos. Um depoimento em particular, feito por uma antiga militante da WAR (Women Against Rape - Mulheres contra o estupro) é revelador:

Eram muito jovens, muito ingênuas... elas vinham à minha porta e elas não sabiam a história da WAR. Eu as convidava a entrar e dizia “Você entende o que é esta associação à qual você quer se filiar?” Eu mostrava meu livro CASSR [Community Action Strategies to Stop Rape - Estratégias de ação comunitária para impedir o estupro]. Eu perguntava “Você já viu esse livro antes?” e elas respondiam “Não”. Então eu mostrava outras publicações que elas nunca tinham visto antes e elas diziam “Oh, que publicações maravilhosas”. Bem, veja o nome WAR na quarta capa, esta é a sua associação, é sua responsabilidade saber isso” (WHITTER, 1995, p. 240, tradução livre nossa14)

O livro citado no depoimento é derivado das pesquisas de doutorado de Caroline Sparks (1979) e foi publicado como notas de pesquisa no periódico Signs (COMMUNITY, 1980). Trata-se de um dos primeiros estudos sistemáticos para avaliar programas de prevenção de estupro organizados por uma associação feminista, que inovavam ao combinar educação, oficinas de autodefesa e ação comunitária preventiva. O projeto recebeu financiamento de órgão estatal para prevenção do estupro, subordinado ao National Institute of Mental Health. Todos esses dados indicam uma atuação muito próxima entre militância feminista, pesquisa acadêmica e intervenção na comunidade, modificando a situação das mulheres envolvidas no projeto.

Porém, como expõe o depoimento acima, a transição entre gerações feministas dentro da mesma associação indica que as novas integrantes desconheciam esses projetos e publicações que são fundamentais para a instituição. Whitter concluiu que

14

No original: 'very young, very naive .... They come to my door and they don't know the history of WAR. I invite them in and I say, "Do you understand what the organization is that you belong to ?" I pull out my CASSR [Community Action Strategies to Stop Rape} book and I say, "Have you ever seen this before ?" and [they say,} "No." I pull out [other publications} and they have never seen these before, and [they say,} "My, aren't these marvelous publications." Well, see the name WAR on the back, that's your organization, it's your business to know this.'

WAC (Women's Action Collective) e Women Against Rape, vem do fato de que as mulheres que estão assumindo os grupos que restaram parecem não saber a história da organização e acabam por reinventar a roda (WHITTER, 1995, p.240, tradução livre nossa)15

Esta situação não é diferente da do Brasil. Como visto, a história do feminismo brasileiro, bem como a história das mulheres, é bastante fragmentada e ignora as conquistas realizadas pelo movimento. A reforma sufragista é ignorada, o direito ao voto é desvalorizado, e as efetivas conquistas jurídicas das mulheres são invisibilizadas. Não conhecer a história dos próprios direitos conduz a um desvio de objetivos, fazendo com que as gerações mais novas presumam que o mundo sempre foi do jeito que conheceram.

Seguindo essa abordagem, não há conquistas para contar. A história dos direitos para mulheres passa a ser uma história de sucessão de lutas que não contabiliza muitos ganhos para as mulheres. É essa a linha condutora do conteúdo feminista analisado nesta tese, especialmente em relação ao sufragismo e demais marcos jurídicos das mulheres no Brasil. Trata-se de uma perspectiva equivocada, pessimista, que ignora a própria história do movimento social.

Complementando essa perspectiva há a redução do feminismo pós- 1975 a uma orientação política de esquerda. Este é um fator complicador, tanto por adotar um viés político que não contempla nem valoriza todas as militantes em ação nos mais diversos espaços quanto por incentivar um modelo que despreza reformas jurídicas.

A discussão realizada a partir do viés de classe nos partidos de esquerda direciona a discussão para diminuição da pobreza e preservação de um modelo específico de legislação trabalhista calcado no conceito de opressão da trabalhadora pelo empregador.

A premissa de que resolver a pobreza auxilia nas condições das mulheres implica em ignorar questões bastante prementes para as mulheres e que não se referem diretamente a relações de classe. Destacam-se a dificuldade de ascensão a 15 No original: This woman's frustration, like that of many former WAC and Women Against Rape

members, comes from the fact that the women who have taken over the surviving groups seem unaware of the organizations' history and end up, as a result , reinventing the wheel.

há muito a melhorar nessas questões, mas chama a atenção que a legislação protetiva, como a que pune assédio sexual (lei 10.224/2001) ou proíbe discriminação com base em testes de gravidez (lei 9.029/1995) foram patrocinadas e promulgada em governos considerados de direita, e não costumam ser divulgadas ou reconhecidas como conquistas femininas.

O modelo empregador/empregada não é o único atualmente. Cada vez mais mulheres, inclusive de classes baixas, se tornam empreendedoras, gerindo a própria empresa de prestação de serviços. Entre 2003 e 2013 as mulheres empregadoras e trabalhando por conta própria ascenderam de 6,298 milhões para 7,329 milhões de mulheres (SEBRAE, 2015, p.93). Das mulheres que trabalham por conta própria, 51% são negras (SEBRAE, 2015, p.146). Essas mulheres ficam à margem das discussões tradicionais de esquerda sobre raça, classe social e capital e também não se reconhecem no discurso tradicional sobre trabalho, inclusive quando empregam outras mulheres.

Deve-se apontar também o viés de esquerda que se recusa a discutir a condição feminina dentro do modelo legal vigente por considerar que a abordagem jurídica é uma assimilação indesejada de um direito burguês. Uma variante desse pensamento é considerar que o direito é burguês e masculino e portanto, deve ser desprezado (por sua origem) ou combatido (em nome de uma nova ordem social na qual as mulheres conquistarão a igualdade). Uma terceira variante é o discurso de que não se deve aplicar legislação criminal nos casos em que as mulheres são vítimas pois o direito penal é pernicioso e serão as mulheres que sofrerão as consequências (especialmente em relação às mães que visitarão os filhos homens na prisão).

Em todos os casos, não se tem respostas concretas, mas uma recusa a discutir a partir das possibilidades jurídicas, bem como a criação de inimigos a serem combatidos numa luta incessante. Estimula-se, então, um processo de competição criando dois grupos estereotipados: para além do nós x eles, tem-se a vítima x o opressor. As soluções possíveis na seara jurídica (como criminalizar assédio sexual e violência doméstica, ou criar mecanismos antidiscriminação) são menosprezadas por militantes por não serem consideradas eficazes para todas as mulheres.

conflitos. A cooperação intergrupos implica em modificar esses estereótipos e procurar lutar por um objetivo comum. Mas ao fixar identidades femininas múltiplas com necessidades que nem sempre são comuns é difícil ir além, procurando um objetivo de luta em comum. A tendência é opor os grupos e presumir que as necessidades e objetivos são mutuamente excludentes. O discurso de vitimização que afirma que mulheres são oprimidas e não têm perspectivas de melhorar sua situação, e a forma como o movimento feminista lida com essas questões se torna uma profecia autorrealizável, pois a recusa a possíveis soluções e o reforço ao ódio a outros grupos (feministas ou não) reforça a identidade do próprio grupo, mantém os conflitos intergrupais acesos e realmente faz com que seja cada vez mais difícil a colaboração para melhorar a situação das mulheres.

Deve-se destacar ainda que sempre houve muitas pessoas trabalhando em conjunto para conquistar direitos para mulheres. A tendência recente de ler a história das mulheres como um movimento somente de mulheres brancas e ricas defendendo os próprios interesses é generalizante, bastante equivocada e contrária aos fatos históricos. Isso ecoa a observação de Hemmings (2005) de que, para valorizar os grupos atuais, há a tendência a apagar realizações anteriores. Isso ocorre inclusive simplificando relações bastante complexas tanto internas quanto externas aos grupos em conflito.

É certo que há grandes diferenças na situação das mulheres em relação a raça e classe social. As políticas públicas precisam ser adaptadas a essa realidade, identificando as diferenças e patrocinando boas soluções. Porém, não é o caso de tentar ocultar a participação das mulheres negras no movimento feminista, ou menosprezar as conquistas como se não fossem aplicáveis a mulheres pobres ou negras, pois as mudanças legislativas aplicam-se a todas as mulheres, independente de questões raciais ou de classe.

Ao se observar as entrelinhas das reivindicações feministas desde 1920 o que se nota é uma mudança que parece atingir apenas uma minoria, mas que se estende para todas as mulheres. A tática utilizada pelas sufragistas foi incluir a referência expressa ao sexo feminino na legislação da época, ao mesmo tempo que estimulava a escolarização feminina. Os frutos vieram a longo prazo, com a escolarização de cada vez mais mulheres. Atualmente (IBGE, 2014) as mulheres

As mudanças trazidas pelo Estatuto da Mulher Casada parecem ser questões que atingiram apenas mulheres de classe média, mas foram fundamentais em uma época em que o respeito à mulher - de qualquer classe social - ainda era medido pelo casamento. E, independente de se acreditar que mulheres negras ou pobres não se casavam, a regra era que, uma vez casada, não importa se branca, negra, rica ou pobre, a mulher passava a se reportar ao marido. É necessário lembrar que uma mudança na lei fazia diferença, pois alterava os direitos de qualquer mulher.

Perceber o processo de conquista de direitos, e as mudanças efetivas que decorrem deles, é fundamental para ajustar as reivindicações atuais. Restam poucas barreiras legislativas no Brasil, sendo a mais notável a que se refere à interrupção voluntária da gravidez. Neste tema foram propostos diversos projetos de lei pela legalização, envolvendo tanto propositores filiados ao PT como Eduardo Jorge e Sandra Starling (PL 1135/1991) quanto ao PSDB, como Eva Blay (Projeto de Lei do Senado n°78, de 1993). As grandes barreiras atuais envolvem políticas públicas e mudanças culturais que ampliem os cuidados com crianças, estimulem o mercado de trabalho feminino, diminuam os casos de violência e melhorem sua tramitação, além de amparar e promover a igualdade de mulheres de grupos minoritários, como as questões específicas envolvendo orientação sexual, raça, etnia ou identidade de gênero.

Não há atualmente a ausência jurídica, indigência social nem o caos que o movimento focado em lutas afirma que existe. Nem é necessário fazer uma revolução para conquistar os direitos que já existem. Muito ao contrário, o risco de uma revolução (ou de uma nova Constituição) é de obrigar o movimento feminista a começar do zero, quebrando estereótipos, negociando cada direito (inclusive igualdade) e status jurídico novamente, como se nunca tivesse havido alguma conquista.

As mulheres brasileiras de hoje têm direitos em igualdade com os homens, são cidadãs, mudaram seu status jurídico e têm muito mais liberdade e escolhas do que suas antepassadas de qualquer época. As conquistas existem e precisam ser valorizadas. Cabe ao movimento feminista evitar as polarizações que existem dentro do próprio movimento, valorizar o passado e reconhecer essas

pautas. Reconhecendo o que foi conquistado, é mais fácil lutar pela efetivação de direitos.

É importante lembrar que o movimento feminista conta uma história parcial, e deve ser criticado por isso. Se o início da história das mulheres está fortemente ligado ao movimento feminista, como observou Tilly (2007), essa não precisa ser a regra para as próximas pesquisas. A epistemologia feminista tem seus problemas, como demonstraram tanto Hemmings (2005) quanto Torr (2007), só que é possível encontrar soluções, inclusive utilizando outros referenciais teóricos. Questionar e se afastar da interpretação do movimento feminista é uma iniciativa que pode ser bastante saudável para evitar vieses calcados em luta e questões político- ideológicas. Cabe a juristas e historiadores recuperar a história dessas conquistas. Para isso, é necessário ir além do silêncio, curiosidades ou notas de rodapé dos livros jurídicos, e reconhecer que se trata de tornar visível a história dos direitos de 50% da população brasileira. É necessário contrabalançar a história contada por movimentos sociais e entendê-la como história dos direitos.

A história das mulheres não é uma história de lutas incessantes sem resultados: trata-se de uma história de conquistas de direitos que deve ser celebrada pelas vitórias. Em menos de cem anos fez com que pessoas com capacidade civil relativa e obrigatoriamente subordinadas aos maridos conquistassem a capacidade civil plena e igualdade de direitos. As mudanças sociais são nítidas, conduzindo alterações no mercado de trabalho, novas relações sociais e familiares, e outros costumes. Esconder essas mudanças e conquistas, como faz o movimento focado em lutas, é um desserviço ao próprio movimento, pois frustra a militância: se não há resultado, para que prosseguir lutando?

Na realidade, os resultados existem. Juridicamente, são nítidos. Socialmente, há muito ainda a melhorar, especialmente no espaço privado. Cabe ao movimento feminista atualizar seus métodos e direcionar seus esforços a obstáculos mais sólidos do que incentivar a oposição entre homens e mulheres, criminalização mal planejada ou ignorar novas questões sociais e econômicas. Como se pode aprender com o Robbers Cave Experiment, táticas que estimulem oposição entre grupos, gerando competição e frustração, ampliam os conflitos. Para que as mulheres tenham uma vida mais digna, é fundamental reduzir esses conflitos.

seguiram os planos das sufragistas e conquistaram a igualdade jurídica é claro: a diplomacia, a superação de conflitos intergrupos com a união entre homens e mulheres, a ocupação de espaços de poder e aproveitamento de todas as oportunidades e aliados para patrocinar seus objetivos, demonstrando que beneficiam toda a sociedade, conduzem a bons resultados. É um processo lento, ainda inacabado, de muita negociação e pouca catarse, com resultados sólidos que revolucionaram o status jurídico das mulheres e propiciam hoje uma vida melhor para todas as mulheres.

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Benzer Belgeler