Apesar das ponderações recentes, prevalece uma história escrita por feministas que reduz a diversidade do sufragismo brasileiro a um movimento precursor, uniforme e limitado, sem grandes aspirações ou resultados para além do direito de voto. Essa perspectiva desvaloriza a importância do sufragismo para as
mulheres de sua época, tanto na luta por direitos como o sufrágio, educação e trabalho, quanto por oportunidades de atuação na esfera pública.
Destaca-se a importância da atuação de Bertha Lutz, que foi muito além do adequado para mulheres em sua época.
quanto a Bertha, importa ressaltar sua ação num momento decisivo, marcando uma ruptura, em meio aos preconceitos nos mais diversos âmbitos, a começar pelo Congresso, nas páginas da imprensa, nos teatros etc. Afinal, penetrar na esfera pública era um velho anseio por longo tempo vedado às mulheres. Significava uma conquista, possibilitando-lhes, segundo Hannah Arendt, assumir sua plena condição humana através da ação política, da qual, por longo tempo, permaneceram violentamente excluídas (SOIHET, 2000, p.116)
Em outros termos, Lutz não foi bem-comportada ao recusar o papel feminino tradicional e travar embates sociais e jurídicos para que todas as mulheres tivessem a mesma possibilidade, ampliando espaços de participação feminina.
A conclusão da resenha de Claricia Otto (2004) sobre o livro de Céli Pinto (2003) pode ser estendida a outras obras sobre história do movimento feminista brasileiro:
Embora esse trabalho esteja inserido nas discussões contemporâneas acerca da história do feminismo no Brasil, as múltiplas faces desse movimento requerem um relato mais complexo. As discussões atuais em torno das contribuições recíprocas entre a história das mulheres e a do movimento feminista e também das construções sociais acerca do gênero apontam para uma maior complexidade. (OTTO, 2004, p.241)
Nesse sentido, ignorar ou desprezar as oportunidades e conquistas trazidas pelo sufragismo por não se adequarem ao ideal vinculado à esquerda que norteou o feminismo pós-1960 implica em fazer uma interpretação equivocada deste momento histórico. Seus efeitos são o apagamento da complexidade das relações sociais e políticas do período e uma perda na percepção da pluralidade de ideias, experiências e conquista de direitos das mulheres brasileiras do início do século XX.
mulheres. A simplificação encobre o fato de que a Primeira Onda do feminismo brasileiro foi além do sufragismo, criando as bases para as reivindicações de igualdade entre homens e mulheres, bem como melhoria da situação de todas as mulheres. Sufragismo, nesse sentido, foi o rótulo público para a atuação das organizações feministas, criando consenso público em uma causa de grande apoio social.
Enquanto o debate público se focava no sufragismo, outros temas como igualdade entre os sexos e alteração da legislação civil para igualar direitos de homens e mulheres eram discutidos e elaborados, tanto em nível nacional quanto internacional. Eram temas mais restritos, de pouco apelo público, e que foram abordados por organizações feministas através de projetos de lei, anteprojeto de Constituinte, tratados internacionais e convenções.
A riqueza de proposições sobre direitos das mulheres na primeira metade do século XX precisa ser retomada e analisada, sob a perspectiva de direitos humanos das mulheres, como parte da história do movimento feminista. Essa é uma forma de evitar o descaso com a atuação de mulheres importantes para a história, como fica evidente neste comentário de Romy Medeiros da Fonseca explicando por que doou seu acervo de atuação feminista para a Biblioteca do Governo dos Estados Unidos:
Você é a primeira pessoa que me mostrou isso, ou seja, que aquela luta de mais de dez anos significou, na verdade, uma afirmação de direitos humanos. Eu fico feliz de verificar que o meu trabalho merece essa pesquisa científica para o seu mestrado em história social. Como eu já disse,
no Brasil não deram muita importância para os
meus trabalhos, por isso aceitei o convite americano
. (GAZELE, 2005, p.148; grifos nossos)A limitação interpretativa da Segunda Onda invisibilizou essa história, e segue fazendo patrulha ideológica para manter esse período na ignorância por estar associado a um direito considerado burguês e indesejado.
No entanto, ao se analisar os resultados desse "direito indesejado” por estar vinculado a um inimigo ideológico, o que se tem é um avanço efetivo nos direitos das mulheres na sociedade. As mulheres no início do século XX não eram
percebidas como plenamente capazes, o casamento as tornava relativamente incapazes e subordinadas ao marido, sofriam restrições no acesso ao mercado de trabalho e exercício profissional, e nem sempre estavam incluídas na expressão “todos os brasileiros”.
As sufragistas abordaram todos esses temas, e propuseram soluções jurídicas para eles. As propostas foram tornadas realidade, lentamente, ao longo de décadas de mobilização. Os grandes marcos são o direito ao voto (1932), o Estatuto da Mulher Casada (1962), e a igualdade plena, inclusive na família (Constituição de 1988), e seus princípios idealizadores se encontram nas propostas da FBPF elaboradas na década de 1930. Reduzir a luta das sufragistas ao direito de voto e desprezá-las por não serem de esquerda significa adotar um viés ideológico que impede perceber a sua real importância na construção dos direitos das mulheres brasileiras.
A análise do sufragismo é um exemplo de como a história dos direitos das mulheres está sendo contada de forma enviesada, omitindo os processos que foram fundamentais para a conquista da igualdade jurídica entre mulheres e homens. Falar dessa questão, expondo vieses ideológicos, é fundamental para ultrapassar o preconceito (e o desprezo comumente utilizado por militantes atuais para se referir ao sufragismo) e procurar pesquisar a história dos direitos das mulheres, tornando visíveis os processos que levaram a conquistas jurídicas efetivas.
Ao longo desta pesquisa pode-se identificar que o sufragismo, longe de ser apenas um movimento reivindicando direito ao voto, foi fundamental para toda a construção da luta jurídica das mulheres por direitos iguais. Propuseram uma reforma sufragista na qual traçaram as lutas necessárias das mulheres por igualdade de direitos, realizando um verdadeiro planejamento de reformas jurídicas e técnicas de atuação. Os resultados variaram, de acordo com as táticas adotadas e possibilidades de articulação com grupos de apoiadores. E, embora a militância feminista atual ignore a reforma sufragista, continua seguindo as táticas mais equivocadas para trocar a narrativa de conquistas por lutas, desprezando as efetivas conquistas jurídicas referentes à igualdade de direitos.
Fica patente, ao longo da tese, a importância do sufragismo tanto para as mulheres brasileiras do início do século XX quanto para direcionar os esforços de mudanças jurídicas que se efetivaram ao longo do século.
O sufragismo se beneficiou de uma história de conquistas de direitos que é pouco divulgada ou até mesmo reconhecida como conquista. A mobilização das mulheres foi intensa ao longo de décadas. Aproveitaram o estereótipo maternal e uma brecha legal para obter uma profissão melhor remunerada, como foi o caso do magistério. Lutaram por educação e inscreveram-se em cursos superiores. Exerceram profissões e lutaram para serem reconhecidas pelos órgãos profissionais, como foi o caso das advogadas. Lutaram para conquistar o direito ao voto. Lutaram pela ampliação de escolas e oportunidades profissionais para mulheres, inclusive acesso ao serviço público, incentivando autonomia financeira feminina. Utilizaram o conhecimento técnico-jurídico para modificar legislação que discriminava mulheres, alterando lentamente todos os conceitos jurídicos que limitavam suas vidas e as obrigavam a serem tuteladas pelos parentes do sexo masculino.
Desde o início da luta pelo sufrágio feminino nos anos 1920, passando pelo estatuto da mulher casada, da lei do divórcio, da possibilidade de estatuto da mulher, conquistando a igualdade em relação aos homens na Constituição de 1988, até a retirada de termos sexistas da legislação em 2005, evidenciando novos tempos e
foram realizadas unindo grupos distintos para atuarem em prol das mulheres, unidos para implementar leis e políticas igualitárias.
A base dessas reivindicações, como ficou demonstrado, está nos primeiros documentos elaborados pelas sufragistas. Elas foram as responsáveis por uma reforma sufragista, utilizando a discussão pública sobre direito de voto para amparar as linhas da discussão jurídica que possibilitou conquistas efetivas de direitos para mulheres.
O que foi feito a partir de 1920 implicou em aproveitar as oportunidades para estreitar laços com movimentos feministas de outros países, convencer aliados a cooperarem com suas propostas e costurar alianças para propor mudanças legislativas. Contornaram a ausência de mulheres na política convencendo os políticos do sexo masculino de que sua causa era justa, estimulando-os a cooperar com seus objetivos e patrocinar os projetos de lei feministas.
Como ficou evidente no Robbers Cave Experiment (SHERIF et al, 2008), o processo adotado pelas feministas utilizou táticas de cooperação e conciliação, diminuindo estereótipos acerca de homens ou mulheres. Adotaram um estilo de comunicação que reforçava a união de todos os grupos em nome de objetivos em comum, favorecendo toda a sociedade ao abrirem novas oportunidades para mulheres. Estimulavam independência financeira e reforma legislativa ao mesmo tempo que evitavam discursos vitimistas ou oposições aguerridas, tanto em relação a homens quanto em relação a posicionamentos políticos ou partidários.
Essas militantes compreenderam, como foi dito claramente por Bertha Lutz e por Romy Medeiros da Fonseca, que a parceria com os homens e a neutralidade ou envolvimento mínimo em disputas partidárias aumentariam as chances de aprovar leis e políticas favoráveis para mulheres, qualquer que fosse a orientação política do momento.
Mesmo as rupturas no período pós-1978, com a criação de diversos partidos e a pulverização das militantes em cada um deles, ampliaram espaços para a atuação feminina. Havia feministas em todos os partidos, e elas aproveitaram as oportunidades: foram incentivados os Conselhos da Mulher, criadas Delegacias da Mulher, e abriu-se espaço para políticas públicas direcionadas a mulheres.
conselhos e legislação antidiscriminação foram patrocinados por partidos tão diversos quanto PMDB, PTB e PSDB, trazendo modificações importantes. O projeto de lei do Estatuto da Mulher de 1982 foi apresentado inicialmente por uma senadora do PTB-AC (a médica e primeira senadora negra Laelia Alcântara), e reapresentado novamente por diversos outros políticos, inclusive homens como o então senador e posteriormente presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).