• Sonuç bulunamadı

4. UYGULAMANIN AŞAMALARI

4.7 Sonuç

Como vimos, no centro de sua teoria, Charaudeau coloca o ato de linguagem16. Para que haja a validação do ato de linguagem é necessário que os parceiros se reconheçam obrigatoriamente o direito à palavra e que possuam em comum um mínimo de saberes colocados em jogo na troca linguageira. Entretanto, esses parceiros têm uma margem de manobra, devido aos princípios de influência e regulação, que lhes permite lançar mão de estratégias. Charaudeau dirá, pois, que a estruturação de um ato de linguagem comporta dois espaços: o lugar da instância situacional (circuito externo) e o lugar da instância discursiva (circuito interno). O circuito externo, também chamado como espaço das limitações, uma vez que determina certas condições a serem satisfeitas para que o ato de linguagem se efetive, é o lugar do fazer psicossocial dos parceiros envolvidos na comunicação. Nesta perspectiva, o nível situacional é definido pela identidade dos interlocutores (quem se dirige a quem?), pela

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Percebe-se que, dentro das três vertentes por nós assumidas, há uma ou outra diferença quanto à denominação de ato. Quando Charaudeau (2001, p. 28), em pé de página, afirma que seu conceito de ato é mais extenso do que “o sentido que lhe dá a pragmática, uma vez que designa o conjunto da realidade linguageira”, ele não está negando a perspectiva que a TAF dá ao ato, mas está somente ampliando-o ao introduzi-lo no circuito situacional em que os sujeitos da linguagem devem ser considerados para fins de análise. Em contrapartida ele define o ato de fala como categoria exclusiva da encenação do dizer. Já para a Modular, em sua versão atual, a categoria de ato não se confunde mais com a noção de ato de linguagem, como se considerava no início da teoria, e passa a ser definida como unidade textual mínima, demarcada pela passagem pela memória discursiva.

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Ato de linguagem

finalidade (qual o objetivo a ser alcançado?), pelo propósito temático (falar sobre o quê?) e pelo suporte (falar em que quadro físico de interação?). Já o circuito interno, ou, o lugar das estratégias, é o lugar da organização do dizer, pois corresponde às possíveis escolhas que os sujeitos podem fazer na encenação do ato de linguagem. O circuito do dizer corresponde ao conjunto de estratégias possíveis a serem atualizadas em função das restrições/condições da instância situacional. Neste sentido, o ato de linguagem, para a Semiolingüística, constitui a mise em scène da significação da qual participam os parceiros da interação verbal. Esses parceiros envolvidos nessa prática linguageira subordinam-se a certo número de contratos e convenções, resultantes de práticas psicossociais compartilhadas entre membros de uma mesma sociedade. Cada um desses parceiros tem um projeto de fala que determina o ‘enjeu de cette mise em scène’.17 Em outros termos, o ato de linguagem é o produto da ação de sujeitos psicossociais, considerado como o fenômeno que compreende estes dois circuitos indissociáveis, um interno e outro externo, que comporta, por sua vez, uma duplicidade de lugares enunciativos que pode ser assim esquematizado:

EUc EUe TUd TUi

Circuito interno

Circuito externo

FIGURA 1 - Quadro enunciativo de Charaudeau

Este duplo circuito, que constitui a estrutura de um ato de linguagem, compreende, então, numa dimensão mais externa um sujeito comunicante (EUc) e um sujeito interpretante (TUi), seres psicossociais, dotados de intencionalidades e responsáveis pelo processo de produção e interpretação, implicados numa relação contratual específica. Já numa dimensão mais interna, temos o sujeito enunciador (EUe) e o sujeito destinatário (TUd), que são seres de linguagem, desprovidos, pois, de intencionalidades e construídos a partir da enunciação, protagonistas da interação. Sendo estes últimos projeções dos primeiros, cabe

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ressaltar que não há simetria entre eles, pois estes se constituem imagens daqueles, às quais podem se equivaler ou, ao contrário, se distinguirem. Assim o sujeito comunicante, aquele que encena o dizer, projeta um sujeito enunciador e idealiza um sujeito destinatário. Desse modo, na estruturação de um ato de linguagem, o enunciador e o destinatário são desdobramentos do comunicante. Já o sujeito interpretante elabora uma imagem do comunicante tendo em vista o enunciador instaurado. Do ponto de vista da interpretação, como salienta Mari (1998, p. 219) mesmo quando houver uma identidade entre Tui e Tud, este pode não corresponder ao conjunto das intenções de JE (EU), quando o projetou.

Nesta perspectiva os sujeitos de uma interação entram no jogo enunciativo por uma relação contratual baseada nos estatutos sociais que eles adquirem na e pela linguagem. Dessa forma, a existência destes parceiros está condicionada pelo reconhecimento mútuo das competências que lhes são atribuídas no momento da troca.

Esta relação contratual se define, então, por componentes da ordem do situacional, do comunicacional e do discursivo. O primeiro componente como dito anteriormente, refere- se ao quadro das circunstâncias materiais nas quais o ato se realiza, e corresponde aos dados que delimitam a especificidade e a estrutura do contrato. O segundo diz respeito a um espaço de interseção entre as limitações do contrato e as estratégias discursivas efetivadas, trata-se, pois, do lugar onde são determinadas as maneiras de falar tendo em vista os dados da situação, os papéis enunciativos, portanto linguageiros a serem desempenhados pelo sujeito comunicante. E, por fim, o terceiro refere-se ao espaço da intervenção do sujeito comunicante, tornado sujeito enunciador, que deve realizar seu projeto de fala, tendo em vista as restrições do situacional e as possibilidades do comunicacional.

Em síntese, o ato de linguagem se estrutura a partir de um tipo de contrato específico e se organiza em função de um circuito externo, em que se têm definidas as identidades dos interlocutores, a finalidade da situação concreta de comunicação, o propósito temático e o suporte no qual a interação se realiza, e de um circuito interno, onde encontramos o modo de funcionamento desse contrato, ou seja, a efetivação das estratégias discursivas empenhadas por cada interlocutor. Na interdependência destes dois circuitos, o ato revela a sua intencionalidade e a sua significância. Assim a proposta da Semiolingüística, de Charaudeau, de desdobramento das instâncias enunciativas coloca em evidência a necessidade da análise das condições de produção para a caracterização dos atos de fala. Como ele mesmo sublinha (2001, p. 33)

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a condição que determina que o sujeito falante tenha o poder de executar o ato que ele descreve em sua enunciação, depende, para nós, da relação contratual que existe no circuito externo, entre os dois parceiros EUc e TUi. (...) Dito de outra forma, para que haja performatividade, é necessário que os dois parceiros mantenham uma relação contratual na qual eles reconheçam, mutuamente, a existência desse poder fazer.

No caso específico do nosso corpus, a princípio, podemos, então, descrever a estrutura deste contrato comunicacional a partir dos elementos básicos, tematizados no parágrafo anterior, que definem um conjunto de condições psicossociais para a realização deste contrato. Assim, quanto à finalidade deste contrato podemos dizer que o entrevistador tem o papel de fazer-saber, ou seja, espera-se que ele faça perguntas ao entrevistado sobre questões que são importantes para o domínio público. No caso aqui em tela, o que se espera de cada entrevistado é o esclarecimento a respeito de denúncias que apontam a participação de cada um num suposto esquema de corrupção.

Quanto à identidade dos parceiros, vemos que os responsáveis pelas perguntas são jornalistas renomados e especialistas, principalmente, na área de política. Constituem-se, pois, autoridades no assunto. Os entrevistados, de outra parte, são expoentes da cena política em questão. Assim, entrevistadores cumprem o papel de porta-vozes da sociedade, uma vez que têm a responsabilidade de formular perguntas que são de interesse público, e os entrevistados, por sua vez, demarcam seus respectivos lugares político-sociais como também se revestem da imagem de inocente, caluniado ou incriminado que busca se defender, no caso de José Dirceu e José Genoíno, e de caluniador ou denunciante, no caso de Roberto Jefferson, que figura como o paladino da justiça. E, assim, buscam levar a cabo seus projetos de fala.

Em termos do propósito ou do domínio do saber, ou seja, sobre o tema da interação, vemos que os entrevistadores devem buscar fixar condições para que os entrevistados dêem esclarecimentos sobre a sua participação no esquema de corrupção que foi amplamente divulgado pela mídia. E dos entrevistados, espera-se o esclarecimento de pontos obscuros sobre o envolvimento neste esquema.

No tocante ao suporte material, ou seja, o quadro de veiculação em que esta interação se dá, constatamos que uma entrevista televisiva como esta se configura como um enquadramento complexo de trocas, como detalhado no capítulo anterior sobre o quadro interacional. Assim, em síntese, no nível mais englobado, temos uma interação face-a-face que se dá entre o jornalista da casa, ou seja, o representante da emissora que veicula o programa e o entrevistado, como também os convidados e o entrevistado. Num segundo nível,

verificamos a interação entre o telespectador, que aparece pelas suas perguntas repassadas pelo mediador, e o entrevistado. Como podemos verificar no seguinte exemplo:18

11 (1- 254-255) Pergunta de Ronaldo Alves de Belo Horizonte: Porque que o PT

não aceitou a CPI do caso Valdomiro Diniz e não aceita ser investigado?

E ainda podemos identificar um terceiro nível, um nível mais macro, que corresponde à interação entre mediador,entrevistadores, e entrevistado e o público geral, como podemos verificar no seguinte excerto19

12-(1- 187-191) Ministro, eu sei que o senhor nasceu na política e foi criado na

política, a maioria dos jornalistas aqui presentes também é da área, mas eu queria mesmo que o senhor, talvez, tentasse explicar para as pessoas que não são tão familiarizados com a política, com seus meandros, sua dinâmica por que os partidos brigam tanto por cargos, senhor ministro?

Cabe ressaltar aqui que este tipo específico de interação verbal oral/falada permite uma margem mais ampla de subversão e manobra em relação às convenções que regulam uma dada interlocução, pois, como se sabe, o discurso oral está mais sujeito a digressões, reformulações e sobreposições de falas. Neste sentido, o aspecto oral deste tipo de interlocução parece favorecer àquele que domina a arte da retórica, pois ao se estender, por exemplo, em digressões, o entrevistado pode fugir do conteúdo proposicional da pergunta, abordando o tema que lhe interessa e o público em geral pode até não se dar conta desta estratégia. Daí o papel fundamental do entrevistador e mediador na asseguração das condições de sucesso do ato.

Nestes termos, o quadro de restrições apontado pelo nível situacional nos permite delinear o papel do ato de fala pergunta bem como identificar se suas condições de realização, mais especificamente, no diz respeito às condições de sinceridade, foram satisfeitas.

Voltando-nos para o circuito interno, passemos a considerar, então, o conjunto de condições comunicacionais que permitem o funcionamento da entrevista. Para que esta relação contratual se estabeleça é necessário haver um reconhecimento mútuo entre parceiros, que depende de um estatuto de competências atribuído no momento da interação. Assim este contrato se dá por meio da relação de complementaridade dialética entre parceiros da

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Nesse exemplo, o mediador faz ao Ministro José Dirceu a pergunta do telespectador.

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Neste exemplo, a convidada credita seu questionamento ao público e pede ao Ministro José Dirceu para esclarecê-lo. Nesse momento a solicitação é para que o entrevistado se dirija ao telespectador, pois como a própria entrevistadora salientou, esse questionamento interessa ao público, uma vez que os entrevistadores, como são experts da área, têm o conhecimento do que é perguntado.

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comunicação e protagonistas, ou seja, entre a identidade situacional dos sujeitos e os seus respectivos papéis. Neste sentido, a identidade se constitui como uma condição para a existência dos papéis, e ao mesmo tempo, aquela só se efetiva por meio destes. Se os sujeitos se furtarem dos papéis que lhes são atribuídos, estarão se negando enquanto parceiros da interação e, por conseguinte, rompendo o contrato. Em contrapartida, ao se reconhecerem como seres implicados numa relação contratual os sujeitos se dispõem de diversas maneiras para levar a termo os seus papéis enunciativos.

No caso de uma entrevista, podemos detectar diferenças entre as identidades situacionais dos parceiros. De um lado temos o entrevistador e de outro o entrevistado. Assim, no nível comunicacional, encontramos os respectivos papéis enunciativos: o primeiro constitui-se como o enunciador de perguntas e o segundo, como o enunciador de respostas. Tomemos o exemplo20 abaixo:

13 (2-13-23) PM – Quem era o gerente?

RJ – Silvio Pereira. Eu não tenho dúvida que o coordenador disso é o Silvio

Pereira. Com o conhecimento do ex-gerente.

PM – Só pra esclarecer o secretário do PT?

RJ – O secretário Geral do PT. Com o absoluto conhecimento do Deputado José

Dirceu.

TF – Quando o senhor disse que abasteceu a base aliada, o senhor tá dizendo que

abasteceu o [PL o PP...

RJ – E nas eleições o PTB.] TF – E o PTB?

RJ – Sim. Nas eleições nós recebemos...

No exemplo acima, vemos uma fixação dos papéis, uma vez que o mediador e o convidado são os enunciadores das perguntas e o entrevistado, das respostas. Aqui o entrevistado assume o papel de informante que está disposto a esclarecer tudo, a ponto de antecipar a indagação do jornalista, sobrepondo sua voz a do entrevistador e completando-o com a revelação e nas eleições o PTB, o que causa espanto ao jornalista que reforça com a pergunta confirmativa [e o PTB?], a qual o entrevistado sem titubear confirma a informação com a asserção sim, nas eleições nós recebemos..., comprometendo o partido do qual é presidente com a afirmação de que eles também são corruptos, uma vez que também receberam o dinheiro do mensalão.

Entretanto, devido a certa margem de manobra como também ao fato de ser uma interação falada, os sujeitos podem inverter os papéis, seja, por exemplo, por uma relação

20 Neste exemplo, o mediador Paulo Markum pergunta ao deputado Roberto Jefferson quem era o gerente do

polêmica em que o entrevistador provoca o entrevistado e este, no exercício de sua resposta, responde a essa suposta pergunta com outra pergunta, interpelando-o. Ao que, o entrevistador, por seu turno, pode reagir com uma réplica, configurando-se aqui uma estrutura mais próxima do debate. Vejamos então como se dá o contrato comunicativo em uma situação de debate.