Dentre os fonemas considerados pós-alveolares no PB estão os fricativos /ʃ/ e /Ʒ/. Para a produção destes fones, verificou-se, por meio dos palatogramas, que o contato língua-palato se interrompe no eixo longitudinal central, o que fornece as condições para a turbulência do ar, peculiar aos fones fricativos.
Os dados deste estudo mostram que os fones [ʃ] e [Ʒ], tal como produzidos por esse falante, além da constrição na região pós-alveolar, apresentam contatos na região palatal e velar. Esse contato longitudinal lateral nessas regiões posteriores não parece ser simplesmente um apoio para o movimento lingual, mas uma posição decisiva para o direcionamento do ar para a região mais central da língua, por ser um fone fricativo. Observa-se que o período de constrição ocorre por pouco tempo, antes de atingir a fase medial da articulação, com pouco acréscimo de contatos na região pós-alveolar, ocorrendo, a partir daí, contatos na região palatal e velar. Ou seja, para a produção desses fones forma-se um canal central ao longo do eixo longitudinal que se inicia na região velar e termina na região pós-alveolar. Desse modo, o que cabe dizer deste fone é que não é alveolar. A questão que surge é a seguinte: por que um fone, cuja característica pós-alveolar é reconhecida nas descrições fonéticas, apresenta essa característica por tão pouco tempo (aproximadamente 1/3 da duração – 80ms) nos dados aqui examinados? Essa “indefinição” articulatória pode decorrer da estrutura da língua, já que não há fones fricativos palatais no português, idioma em que há alofones fricativos velares ([x] e [Ɣ] e, mesmo, uvulares ([ʁ] e [χ]) (MARCHAL; REIS, 2012), mas que no nosso dialeto não concorrem com o pós-alveolar. Outra explicação possível é que a tensão articulatória necessária à produção deste fone ocorre na primeira metade da sua produção, havendo certa lentidão para que a constrição seja desfeita, tendo em vista a grande extensão do contato lingual. Se levarmos em conta o critério aerodinâmico, pode-se constatar que a constrição relevante ocorre na região pós-alveolar. Outro aspecto que deve ser levado em conta é a cavidade que se forma pela protrusão labial na produção deste fone, configurando-se como mais um fator para tornar este fricativo distinto dos outros. Esse ponto articulatório para [ʃ] e [Ʒ] também foi identificado no estudo de Cagliari (1974) ao estudar fones do PB.
Os fonemas /ɲ/ e /λ/ são classificados como palatais no PB. Entretanto, os dados deste estudo indicam que essa classificação não leva em conta a variação na produção destes fonemas. Os dados palatográficos do falante deste estudo mostram que o [ɲ], além da conhecida alofonia com [n], pode ter articulação pós-alveolar, médio-palatal, pós-palatal e, provavelmente, dupla articulação pós-alveolar e pós-
palatal, considerando a constrição em LP1, LP3 e LV. Dados de diferentes línguas mostram que essas consoantes consonantais não formam uma classe articulatória homogênea; antes, podem ser subdivididas em duas regiões articulatórias, isto é, alveolopalatais e palatais propriamente ditas, sendo que a realização de uma ou outra região depende da língua e do dialeto. As alveolopalatais são produzidas simultaneamente nas zonas alveolar e palatal com a lâmina e o dorso da língua. Já as palatais são consoantes dorsais articuladas exclusivamente na zona palatal (RECASENS; ESPINOSA, 2010). Essa tendência foi corroborada com os dados articulatórios deste estudo. O fone [λ], embora seja considerado palatal nas classificações fonológicas do português, apresentou maior constrição na região pós- alveolar. Estudo com cinco falantes utilizando a palatografia para estudar fones do PB também constatou que este fone /λ/ é, na realidade, como mostram os palatogramas, pós-alveolar (REIS; ESPESSER, 2006). Entretanto, pelo fato de a região palatal ser a mais distante da língua, pode requerer maior esforço dos músculos elevadores para fazer uma oclusão completa nessa região, e essa oclusão pode não ocorrer plenamente, dependendo da profundidade do palato.
Um aspecto importante na análise articulatória destas consoantes palatais é o fato de o fone [λ] ser lateral e de os palatogramas mostrarem que a língua bloqueia a passagem do ar pelas laterais, só restando a região velar, após a última linha do palatograma, na área do dorso da língua, para a passagem da corrente aérea, aspecto também já observado em outros estudos (CAGILIARI, 1974; REIS; ESPESSER, 2006).
Os fones palatais são sujeitos a grande variação articulatória entre falantes da mesma língua (RECASENS; ESPINOSA, 2006). Sobre a consoante nasal palatal do português - /ɲ /, Cagliari (1974) referiu que ela varia de tal modo que até se poderia interpretá-la como uma “velar palatalizada ou uma palatal velarizada”. Essa instabilidade articulatória das palatais pode ser decorrente da dificuldade de se fazer um fechamento completo língua-palato na região do palato duro (RECASENS; ESPINOSA, 2007). Isso pode fazer com que o fechamento dorsopalatal dessas consoantes seja frequentemente interrompido por áreas destituídas de contato ou por um canal sem contato na linha média do palato (CONNELL, 1991; NICOLAIDIS,
2001), sendo tal aspecto observado tanto no fone [λ], como no [ɲ] analisados nesse trabalho.
O fone [ɲ] apresentou uma constrição mais posterior, na região palatal, evidenciando um papel ativo do dorso da língua na formação da oclusão desta consoante. Em estudo utilizando palatografia estática, Cagliari (1974) observou que o fone /ɲ/ realiza-se na região central, como uma palatal verdadeira. Os dados do presente estudo mostram uma articulação menos centralizada e mais posteriorizada. Observa-se, entretanto, que na região palatal há ausência de alguns contatos que podem ter sido observados em uma palatografia estática, uma vez que nessa a imagem obtida corresponde à soma dos contatos da língua no palato. Já no presente trabalho, somente aqueles contatos que ocorreram em 60% a 100% da duração são registrados, conforme mencionado na metodologia. Dessa forma, para este falante a realização nessa região mais central pode ter ocorrido com uma frequência menor que 60%. Por isso, não foi registrada, o que pode se dar considerando as dificuldades de contato da língua com a abóbada do palato, anteriormente mencionadas.
Nos fones /k/ e /g/, o registro feito pelo palatograma mostraram somente os contatos mais anteriores desses fones. Por serem fones velares, não têm seu registro completo por meio da EPG, já que o palato artificial parece não cobrir a zona articulatória deste fone no PB. Assume-se que pode ter havido contato língua-palato no caso, palato mole - após a última linha dos eletrodos da EPG. No inglês, o fone [k] foi estudado por Liker e Gibbon (2008) ao utilizar a EPG em vários contextos vocálicos: /VKV/. Diferente do observado no PB, em 81% das palavras houve constrição total nas últimas linhas do palatograma. Em tal estudo, a quantidade de contatos foi variável de acordo com o contexto vocálico – no contexto com /i/, os contatos foram maiores e mais anteriores e para a vogal /a/, mais retraídos e em menor quantidade. Neste estudo, do PB, o contexto com vogal /a/ pode ter contribuído para o pequeno número de contatos. Estudo, realizado por Fowlers e Brancazio (2000) corrobora que o [k] pode apresentar um número variável de contatos, dependendo das vogais adjacentes. Os autores esclarecem dizendo que este fone velar apresenta pouca resistência à coarticulação vocálica, podendo ser
coproduzida com essas por não competirem quanto ao gesto articulatório lingual. Esses dados acabam por reforçar que a EPG pode ser útil no estudo, também, de fones velares.