Emigrante Esposa Origem Chegada Destino
Londero, Pedro Zanini, Ana Gemona 1878 Linha Três Sul
Londero, José Catarina Gemona 1878 Linha Três Sul
Londero, Antônio Gemona 12/01/1885
Linha Base Sul(6) Arroio Gaspar (4) Londero, Girolamo Capris, Lúcia Gemona 28/01/1885 Linha Três Sul Londero, Leonardo Joana Gemona 2/04/1888 Linha Base Sul
Londero, Moises - Gemona 16/02/1888 Arroio Gaspar
Brondani, José Ana Brondani Gemona 25/01/1878 Linha Quatro Sul
Brondani, Gerolono Maria Gemona 10/12/1879 Linha Base Norte
Brondani, Pedro Londero, Gracioza Gemona 10/12/1879
Linha Três Sul Linha Base Norte
Brondani, Leonardo Furlan, Suzana Gemona 10/12/1879 Linha Três Sul
Brondani, Luis De Simon, Ursula Gemona 10/12/1879 Linha Três Sul
Brondani, Antônio Gemona 10/12/1879 Linha Base Norte
Brondani, João I Blassotti, Maria Gemona 10/12/1879 Linha Três Sul Brondani, João II Rizzi, Colomba Gemona 10/12/1879 Linha Um Sul
Daronco, Domenico Londero, Elisabete Gemona 10/12/1879 Linha Cinco Sul
Daronco, João Rossi, Ana Gemona 10/12/1879 Linha Dois Sul
Fonte: Dados extraídos da relação da distribuição dos lotes de terra aos imigrantes chegados a ex-Colônia
Silveira Martins, Núcleo Norte e Núcleo Soturno. In: RIGHI, 2001, p. 110-225.
Entre as famílias Londero, Brondani e Daronco – todas da comuna de Gemona do Friul, província de Udine – se percebe a existência de uma rede parental estabelecida através do casamento.327 A existência de vínculo de parentesco entre elas propiciou a solicitação de apoio financeiro para favorecer a transferência dos que desejavam abandonar a localidade de origem. Com a sinalização positiva por parte dos parentes, novos grupos familiares se transferiam para a região colonial, juntando-se aos parentes.
Foi uma prática recorrente a ocupação dos núcleos coloniais a partir de frentes de apoio composta por grupos de parentes ou conhecidos. Essa conduta demonstra o quanto as redes de auxílio foram usadas como mecanismo essencial para fornecer acomodação e
326
Na carta aparecem indicados os nomes de Girolamo Brondani, sua esposa, a mãe viúva Cecilia Cucchiaro, os cinco filhos – Pedro, Luiz, Rosa, Leonardo, Daniel – e o irmão Antonio Brondani. Carta do padre Pedro Forgiarini 20 de novembro de 1878, Comuna de Gemona (RIGHI, 2001, p. 464).
327
Os imigrantes Pedro Brondani e Domênico Daronco eram casados com mulheres que pertenciam ao grupo Londero, segundo indicações presente no quadro n. 4. Certamente, ambos receberam auxílio dos parentes e conhecidos que se encontravam na Colônia Silveira Martins.
integração entre grupos de imigrantes nos núcleos coloniais. A assistência parental e aliança entre as famílias conferiam uma função agregativa que ditou as normas de distribuição de terra, reprodução do grupo e organização da comunidade, ocupando papel central na preservação de valores e referencias éticos de comportamento.328 Uma imigração espontânea, financiada pelos parentes e conhecidos já instalados no Brasil, foi percebida pelas próprias autoridades imperiais como um dos pontos decisivos no incremento do número de imigrantes no território nacional. Primeiramente, consideravam ser essa resultante das campanhas realizadas na Europa pelos representantes do governo brasileiro, atribuindo, também, o aumento das expedições de imigrantes como fruto dos convites dos parentes e conterrâneos aqui domiciliados, capazes de mobilizar “centenas de imigrantes ao Brasil.329 Frente a esse tipo de mobilidade, o conceito de cadeias migratórias tem se mostrado útil para compreender os caminhos abertos por alguns indivíduos, suas características e os padrões de assentamento.
Esta perspectiva de análise permite perceber os imigrantes como sujeitos ativos e responsáveis por articular as próprias transferências, principalmente através dos contatos estabelecidos com os conterrâneos que já haviam passado por tal experiência. Seguindo as trajetórias específicas de famílias e grupos, podem-se avaliar os mecanismos acionados que permitiram uma imigração em cadeia. Neste sentido, pretende-se destacar a maneira como ocorreu a acomodação dos imigrantes e a conformação de uma comunidade enquanto unidade agregativa. Os deslocamentos em cadeias indicam a existência de dinâmicas de gerenciamento da terra na Colônia Silveira Martins entre famílias fortemente ligadas por vínculos sociais. Quando da chegada ao local de destino, as redes continuaram a desempenhar funções importantes na vida dos imigrantes como a integração do grupo, preservação de uma identidade coletiva e adaptação à sociedade receptora.330
Planejar se estabelecer próximo de parentes e conhecidos foi um ideal que motivou indivíduos de diferentes lugares da península a partirem para o mesmo núcleo colonial no
328
Ellen Woortmann (1995, 114-117) destaca o parentesco como fator determinante na definição das migrações, das identidades e das estratégias camponesas. No mesmo sentido, Edoardo Grendi aponta a importância de se estudar as mobilidades como escolhas determinadas pelas relações sociais, permitindo, assim, uma série de ações estruturadas e comportamentos esperados entre os indivíduos (GRENDI, 1978, p. 71-72).
329
Relatório da Comissão de internação dos imigrantes apresentado ao ministro e secretariado do estado dos negócios do Império, 31 de agosto de 1880. Diário oficial. Série Interior – Negócios de Províncias, IJJ1 – 779. (Arquivo Nacional do Rio de Janeiro – ANRJ)
330
Paola Corti (1990), ao pesquisar a migração de duas famílias de italianos para a França, também utilizou o conceito de cadeias migratórias. Ela analisa as características diversas de duas comunidades mantidas por meio da experiência migratória de grupos parentais coesos internamente e vinculados aos conterrâneos. As duas cadeias migratórias conservaram a sua ligação com as “organizações políticas e reivindicatórias” da própria comunidade origem, permanecendo também ancorados a esse local os valores identitários dos grupos.
Brasil.331 A análise da distribuição dos lotes coloniais indica que, apesar de haver o interesse por se tornar proprietários, existiam princípios nos quais as famílias de imigrantes buscavam respeitar. Ocupações foram ocorrendo de acordo com as escolhas dos primeiros imigrantes e, a seguir, segundo as demandas dos que continuaram a chegar à Colônia. Desse modo, as linhas coloniais passaram a definir-se como áreas controladas por amplos grupos parentais. A própria possibilidade de aquisição de lotes de terra para os filhos solteiros, aparecendo, em alguns casos, mulheres como beneficiarias, indica que houve a extensão das fronteiras da propriedade que, certamente, eram trabalhadas de forma coletiva.
Como já se ressaltou anteriormente, as primeiras famílias que fundaram a comunidade do Vale Vêneto foram protagonistas de uma longa corrente migratória. Logo, a realização de cerimônias religiosas passou a atrair e a congregar a população que, então, escolheu seus representantes para cuidarem da administração da capela e, principalmente, para buscarem padres que emigrassem da Itália para se fixar entre eles.332 As bases de agregação da nova comunidade foram sendo constituídas, possibilitando que o lugar se tornasse um ponto de atração e identificação entre as famílias. Toda essa organização orientou a fixação de novos imigrantes. Prova disso é a carta de Luiz Rosso, enviada ao irmão na Itália, onde faz propaganda das vantagens que a comunidade havia obtido, como a instalação dos padres e a construção de uma igreja. As explicações eram uma resposta ao pedido de “notícias verdadeiras” dos conhecidos da comuna de Oderzo sobre as condições do núcleo colonial.
Após ressaltar de forma positiva os benefícios em termos de organização religiosa e social da população do Vale Vêneto, Luiz Rosso advertia sobre os cuidados que deviam ser tomados por aqueles que desejavam se transferir para o lugar, uma vez que não mais existiam lotes coloniais a serem distribuídos aos imigrantes. No entanto, aponta a existência de propriedades a serem compradas de particulares, enfatizando que uma colônia de campo, com terras boas e planas, distante da igreja do Vale Vêneto duas horas a pé, custava um conto de
331
Como exemplo disso, apresenta-se o caso do amplo agregado parental da família Dotto que de diferentes comunas da província de Treviso se transferiram conjuntamente para a Colônia Silveira Martins, compondo, assim, através da aquisição de vários lotes vizinhos, a constituição de um amplo espaço controlado pelos indivíduos ligados por laços de parentesco. Esses eram tanto os de sangue quanto os formados a partir do casamento e do compadrio (RIGHI, 2001, p. 131).
332
Os fabriqueiros do Vale Vêneto que aparecem em diversas cartas são: Antonio Dotto (San Giuseppe – Treviso - TV), Luiz Pozzebon (Padernello – TV), Paulo Bortoluzzi (Francenigo – Piavon - TV) e José Marcuzzo (Ordezo – TV). Os dois primeiros fazem parte do grupo pioneiro de imigrantes que chegaram ao local. Os outros vieram três meses depois. Cada um dos imigrantes era representante das famílias que pertenciam a uma das linhas coloniais que passaram a configurar a comunidade do Vale Vêneto, aparecendo os mesmos como as lideranças locais em diversas cartas enviadas ao bispo do Rio Grande do Sul (RIGHI, 2001, p. 329-338).
réis.333 Essas notícias deviam ser divulgadas entre os conhecidos que desejavam migrar para o sul do Brasil.
10. Distribuição dos lotes e formação dos principais núcleos da ex-Colônia Silveira Martins (1890).
Expansão da região colonial iniciada a partir da chegada dos imigrantes a Arroio Grande (1), a sede da ex- Colônia Silveira e para novos núcleos: Vale Vêneto (2), Núcleo Norte (3), Núcleo Soturno (4), Novo Treviso (5), Núcleo Dona Francisca (6).
Enquanto imigrantes continuaram a chegar à região, e, alguns conseguiam se estabelecer próximas aos parentes, outras se hospedavam junto a esses até se fixarem em local contíguo.334 Esse arranjo era resultado das articulações entre as famílias, garantindo assistência inicial aos conhecidos até a obtenção de um lote de terra. Em agosto de 1882, após ter sido a Colônia Silveira Martins emancipada do regime colonial e contar com “todos os elementos necessários a entrar em tal condição”, foram fundados dois novos núcleos, que passaram a se chamar “Norte” e “Soturno”. Tal necessidade se devia à constante chegada de
333
Carta de Luis Rosso ao irmão na Itália, 1886 (In: RIGHI, 2001, p. 458). 334
Em janeiro de 1886, os imigrantes Gaspar José Felice, Lucrecia Pasqualin (esposa) e Carlo Felice (filho) adquirem na Linha Quatro Sul da ex-Colônia Silveira Martins os lotes nº 139 e 140. Na mesma linha, em 1878, Angelo Pasqualin tinha adquirido um lote de terra. Além de serem todos da comuna de Genoma, há indícios de laços de parentesco ao se perceber o mesmo sobrenome.
Sede 2 3 4 5 6 1
“imigrantes espontâneos” que vinham convidados por parentes e amigos já estabelecidos nas linhas rurais da sede e na comunidade do Vale Vêneto. Ao chegarem procuravam se fixar nos locais onde possuíam parentes não aceitando, portanto, “a colocação em pontos muito afastados”. No decorrer de três anos da emancipação da Colônia aumentou consideravelmente o número de habitantes, passando de duas mil, setecentas e dez pessoas (2.710) para quatro mil oitocentos e vinte três italianos (4.823). Para além dos filhos de imigrantes nascidos na região colonial teriam entrado dois mil e cinquenta e cinco estrangeiros (2.055) entre 1882 e 1885 (CARVALHO, 1885, p. 44-45).335
Concomitante à fundação de novos núcleos, algumas famílias beneficiaram parentes com a venda de pequenas extensões de terra ou às retribuíram como forma de pagamento por serviços prestados. Um exemplo disso foi o lote concedido a Antônio Vernier no Vale Vêneto, em janeiro de 1886, como forma de retribuição por ter atuado como procurador na Itália com a tarefa de encontrar padres que emigrassem para o Brasil.336 Os diversos grupos que chegaram à Colônia Silveira Martins, nos anos de 1885 e 1886, ficaram hospedados em casa de parentes, amigos e conhecidos do Vale Vêneto, conforme indicações do imigrante André Antoniazzi (18--, p. 1).337 A instalação provisória tinha como propósito aguardar até que novos lotes coloniais fossem demarcados. Com o aparecimento de novas frentes de expansão, grupos de irmãos e parentes passaram a se deslocar para esses locais, mantendo suas bases de apoio nas famílias que permaneciam nas comunidades antigas. Essa ampliação da área ocupada pelos imigrantes atendia as próprias necessidades de reprodução das unidades familiares já instaladas na região.
3.5 Um imigrante agenciador
Financiado pelos conterrâneos, Antônio Vernier tornou-se procurador a fim de organizar o transporte gratuito de parentes e familiares da Itália para o Brasil. Assim, tendo as despesas pagas por diversas vezes, transitou entre os dois continentes, buscando atender as demandas da população colonial. Procurações e dinheiro lhe foram conferidos para que pudesse realizar as tarefas na Itália, como, por exemplo, vender bens, resgatar heranças,
335
Relatório de Manuel Maria de Carvalho, apresentado ao Império brasileiro sobre as condições dos Núcleos de Colonização do Rio Grande do Sul, de 1885. Caixa Silveira Martins, CPG-NP.
336
Relação de distribuição dos lotes na ex-Colônia Silveira Martins (RIGHI, 2001, p. 221) 337
O imigrante André Antoniazzi chegou à região colonial em setembro de 1883 e participou da fundação de novas comunidades a partir da ponte de apoio que tinha com os primeiros núcleos. O mesmo escreveu uma pequena história onde relata a formação do povoado ocupado na maior parte por famílias da Província de Treviso.
entregar encomendas e adquirir objetos para os imigrantes.338 Entretanto, foi com o comerciante Paulo Bortoluzzi que Vernier manteve relações próximas, de trocas de favores e obrigações, uma vez que, em diversos momentos, Bortoluzzi enviou ajuda para Vernier pagar as próprias dívidas.339
Nos núcleos coloniais, os imigrantes se mobilizaram para reunir recursos financeiros para que as novas comunidades pudessem se tornar locais de agregação, com suas igrejas, padres e festividades autônomas, podendo, assim, representar a população frente aos centros maiores. O sucesso da organização dependia da mobilização dessas redes de contatos que faziam a ligação entre os dois lados do Atlântico. Contudo, por vezes esta ponte tinha falhas, pois em diversas vezes os imigrantes fizeram críticas ao desempenho do agenciador Antônio Vernier pelo não cumprimento das promessas feitas. O fato de ser conhecedor da realidade vivida nos núcleos coloniais, estando ligado por laços de afinidades a algumas famílias e compartilhar determinados valores, foram fatores determinantes para que assumisse o papel de mediador entre os que estavam no Brasil e os que haviam permanecido na Itália. Enquanto trabalhava como representante dos imigrantes, esses, em retribuição, mantinham sua família e zelavam pelos bens que possuía na colônia Silveira Martins.340
O papel assumido pelos procuradores no contexto italiano foi de fundamental importância para que a emigração ganhasse maior dimensão, pois incentivavam diretamente os contadini a abandonar as aldeias. Também podiam se valer de um “exército de intermediários” presentes nas comunas que conheciam o universo rural, e, por isso, atuavam como promotores da emigração (FRANZINA, 1998, p. 230). Trabalhando para as companhias de navegação auxiliavam na aquisição da documentação para passaporte, empréstimos, transporte e alojamentos nos portos. Os que obtiveram maior sucesso nessa atividade foram aqueles que mantiveram proximidade com as aldeias, relacionando-se com os chefes de família, padres e autoridades locais, conforme constatou-se no capítulo anterior. Já possibilidade de recorrer ou financiar um agente procurador foi um dos mecanismos usados pelos imigrantes para garantir a concretização dos projetos na nova realidade. Nesse sentido, a organização das comunidades em termos religiosos também ocorreu através dessa dinâmica, agilizando a transferência de informações, objetos e pessoas.
338
Carta do imigrante Inocente Pedron, 10 abril de 1888 (RIGHI, 2001, 402-403). 339
Carta de Antônio Vernier a Paulo Bortoluzzi, 4 de março de 1885 (RIGHI, 2001, p. 338-339). 340
Carta do imigrante Inocente Pedron a Antônio Vernier, 10 abril de 1888 (RIGHI, 2001, p. 402-403). Conforme se pode constatar a partir das cartas de alguns imigrantes a Antônio Vernier, esse recebeu dos conterrâneos residentes na região central do Rio Grande do Sul dinheiro e assumiu compromissos para organizar a transferência de parentes da Itália para o Brasil.
Instalado com a família na ex-Colônia Silveira Martins, no povoado do Vale Vêneto, Antônio Vernier foi incumbido pelos conterrâneos para encontrar sacerdotes interessados em se transferir para o sul do Brasil. Por ele já estar desempenhando o papel de agente de uma companhia de navegação italiana (CERETTA, 1894, p.25-31), os demais imigrantes acreditaram ser Vernier a pessoa indicada para a tarefa. Conhecido da família Bortoluzzi, ele teve o retorno para a Itália financiado pela população do Vale Vêneto, comprometendo-se em recompensá-los enviando sacerdotes. A viagem de Vernier ocorreu na segunda metade do ano de 1879.
Após um ano da partida, os imigrantes se demonstravam insatisfação devido a falta de notícias do procurador. Somente em 1881 enviou uma carta aos conterrâneos, afirmando ter demorado a se comunicar porque estava refugiado na Áustria por temer ser perseguido como propagandista da emigração da Itália. Uma vez passado o susto – conforme relatou –, Vernier encontrou dois sacerdotes interessados em viajar para a América. Nesta mesma correspondência comunicou que, para financiar a transferência destes dois sacerdotes – que disseram que só emigrariam juntos –, necessitava mais dinheiro. Como resposta, recebeu autorização e uma procuração de Bortoluzzi para vender “uma pequena posse” que havia deixado na Itália, e, com o dinheiro, pagar as despesas dos referidos padres.341 Para não ficar em desvantagens, Bortoluzzi fez com que os outros imigrantes do Vale Vêneto se comprometessem em ressarci-lo no momento em que os padres chegassem.342
Cumprindo com os compromissos firmados com as lideranças do Vale Vêneto, no final de 1881 Vernier organizou a transferência dos dois primeiros sacerdotes para a comunidade. De acordo com o primeiro capítulo deste trabalho, ao chegarem ao Rio Grande do Sul os padres foram colocados, por ordens do bispo, em diferentes comunidades: Antônio Sório ficou no Vale Vêneto, enquanto Vitor Arnoffi na sede da colônia. Passados três anos, Arnoffi morreu e, em seu lugar, foi nomeado Sório. Os italianos do Vale Vêneto ficaram descontentes com esta situação, pois haviam financiado a vinda de ambos e, agora, estavam sem nenhum deles. Em meados de 1884 iniciaram uma nova tentativa de trazer sacerdotes para sua comunidade, incumbindo novamente o agenciador Vernier para tal tarefa.
Porém, diferentemente da primeira incursão, alguns pontos deveriam ser observados pelo agente. Os imigrantes ressaltaram a necessidade de que os padres somente partissem para o Brasil com autorização dos superiores da ordem religiosa ao qual pertenciam, afirmando
341
É possível que Vernier tenha pegado dinheiro com o pároco de Piavon, pois Bortoluzzi, antes de partir da Itália, deixou o referido sacerdote encarregado de receber o dinheiro da venda de suas posses.
342
que muitos que emigravam “não pensavam em outra coisa se não acumular dinheiro”. O agenciador Antônio Vernier teria, portanto, que analisar cuidadosamente o comportamento dos padres para “sentir as intenções” dos mesmos, alertando-os que somente seriam aceitos pela comunidade se andassem “vestidos com suas vestes sacerdotais”. Quando chegavam ao Brasil, alguns padres tiravam os trajes sacerdotais “como se fossem envenenados e, na falta do distintivo, o que esperar nestas regiões?”, argumentava Paulo Bortoluzzi.343 As experiências pretéritas com Vitor Arnoffi e Antônio Sório deixaram as lideranças do Vale Vêneto mais cautelosas quanto ao modelo de sacerdote que deveria se estabelecer na comunidade. Desse modo, propuseram que somente depois dos imigrantes terem aprovado serem os religiosos bem intencionados, e que fossem aptos a assumir as funções religiosas, fariam o pagamento a Antônio Vernier. O agente seguiu as orientações passadas, enquanto isso Bortoluzzi comprometeu-se a saldar as dívidas que aquele possuía tentando reconciliá-lo com a população.344
Ao mesmo tempo em que havia uma mobilização das lideranças do Vale Vêneto no sentido de organizar a vinda de sacerdotes, existia várias famílias tentando agilizar a transferência dos parentes da Itália. Neste caso, os imigrantes procuravam alguém capaz de garantir a vinda dos familiares e pessoas próximas, financiando as despesas e os custos das transferências. O procurador Vernier, apesar das desconfianças, era conhecedor das necessidades das novas comunidades, e, respaldado pelo comerciante Paolo Bortoluzzi, passou a transitar entre o Brasil e a Itália a fim de atender as demandas dos imigrantes, principalmente de conterrâneos da província de Treviso que estavam instalados na região colonial.
Na Itália, Antônio Vernier passou a procurar o tipo ideal de sacerdote almejado pela comunidade do Vale Vêneto, tentando desfazer a má-impressão da tarefa anterior quando encontrou os padres Arnoffi e Sório. Por fim encontrou entre os membros da Pia Sociedade das Missões – padres palotinos – o interesse em se estabelecer no sul do Brasil. Na verdade, esta congregação queria dar início aos trabalhos missionários na América, seguindo, assim, os caminhos abertos pelas famílias que abandonavam a península em busca de melhores condições de vida. Após ouvir a propaganda feita por Vernier a respeito da Colônia Silveira