4. YAKINLAŞMANIN DORUĞU (1930-1938)
4.5 Balkan Antantı
Destaca-se a cidade de Treviso (ponto negro), a capital da província. Da comunidade de Piavon (estrela negra), localizada no distrito de Oderzo, e de algumas comunas limítrofes (pontos claros), partiram várias famílias que se uniram ao grupo de Paulo Bortoluzzi. No início de 1878 chegaram ao Rio Grande do Sul e fundaram Vale Vêneto.133
Na cidade de Treviso existia uma agência de emigração que recebia circulares e notificações da empresa de navegação dirigida por Clodomiro De Bernardes, que era encarregado de conseguir transporte para o território brasileiro. A agência de Treviso foi apresentada nos jornais como um dos “centros de ações para comunicar os contadini dos povoados ao longo do baixo Sile” [rio], especialmente nos dias de mercado e na “osteria de S. Nicoló”.134
Além desse, outros lugares da região do Vêneto eram conhecidos entre a população por possuir agências que recebiam as inscrições das famílias e organizavam as transferências. Tais casas eram tidas pela imprensa como “clandestinas”, e os agentes passaram a ser perseguidos pelas autoridades policiais. A partir de 1878, os agentes procuraram se manter em sigilo para realizar as atividades de incentivo à emigração.
133
http://www.provincia.treviso.it/Engine/RAServePG.php/P/487610010316/T/Pianta-Geografica. Disponível em 13 de outubro de 2012.
134
Os encontros semanais nas feiras e nas osterias aos domingos propiciavam a troca de informações e comunicação entre a população. Enquanto espaço de sociabilidade, os bares e cafés também eram ambientes de divulgação de ideias. Os agenciadores, com apoio dos donos das casas de negócio, podiam recolher os nomes dos que desejassem emigrar, passavam avisos sobre as datas das partidas dos vapores para a América, forneciam instruções e coletavam taxas que deviam cobrir os custos de transporte dos integrantes do grupo. Foi neste contexto que Paulo Bortoluzzi e os irmãos amadureceram a ideia de se transferirem para o Brasil.
Como muitos outros que desejavam obter informações seguras e organizar a viagem dos parentes e conhecidos, Bortoluzzi passou a estabelecer contato direto com a agência marítima de Clodomiro De Bernardes, localizada em Gênova. No distrito de Oderzo, o referido camponês e alguns outros amigos mantinham correspondência com a empresa de navegação.135 Por certo buscavam se munir de garantias para a viagem ao Brasil. Mas não eram os únicos, pois vários outros camponeses, de diversas comunas da província de Treviso, não só trocavam cartas com a referida agência, mas, também, se deslocavam pessoalmente até Gênova para se informar sobre a viagem. As denúncias policiais indicam o quanto esta atividade era recorrente.
Em maio de 1877, Domingos Santi, 29 anos, camponês, residente em Castello di
Godego, província de Treviso, foi acusado como “agente de emigração clandestina”, pois
estava organizando a transferência de vinte famílias residentes na comuna. O grupo era formado por parentes e conhecidos, e todos financiaram o deslocamento de Santi até o porto de Gênova a fim de conseguir embarque para as famílias junto à agência de Clodomiro De Bernardes. A principal denúncia feita contra o Domingos Santi era de obter dinheiro dos “pobres camponeses” para financiar a própria emigração, o que causaria “graves danos e futuras desordens” na comuna.136
Em defesa de Domingos Santi, o sindaco (prefeito) da
comuna de Godego declarou ter ele “boa fama e conduta”, que os “meios econômicos da sua
família eram suficientes” e que ele “não tinha tendências a ganância e ao lucro”.137
Contando com uma rede de proteção local, o camponês não foi condenado pelas infrações apresentadas, continuando, assim, a desempenhar as atividades de agente da emigração.
135
Relação final do Ateneo de Treviso, Luiz Bailo, 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV. 136
Denúncia. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1877, Busta 265, nº 36, Arquivo do Estado de Treviso, AETV.
137
Carta do sindaco de Castello di Godego, 24 de maio de 1877. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1877, Busta 265, nº 36, AETV.
Porém, no ano seguinte, uma nova denúncia foi realizada contra Santi. Outra vez por estar envolvido com a emigração das famílias, incentivando essas a vender os bens e partir para Gênova onde embarcariam para a América. E, novamente, as autoridades municipais o defenderam. O sindaco de Castelfranco comunicou aos policiais que Domingos Santi possuía licença para atuar como agente de Clodomiro De Bernardes, e que não tinha mais a intenção de partir para a América como fizera o irmão e outros conhecidos. O sindaco afirmou, ainda, que Santi não havia recebido compensação financeira das famílias já emigradas, portanto, o suspeito “agente clandestino” não podia ser julgado por crime algum.138
Porém, em outubro de 1888, outra vez Domingo Santi era denunciado por “operações de intermediário” entre os emigrantes e a agência de transporte marítimo. As novas acusações foram consequências da intromissão de Santi nos negócios de outro agente.139
Na mesma época, também numa das comunas do distrito de Castelfranco, o camponês João Reginaldo, 39 anos, havia sido tomado pelo “delírio de imigrar” para o Brasil. Após ter conseguido o passaporte, viajar até Gênova e estabelecer contato com Clodomiro De Bernardes, decidiu organizar a transferência de quarenta famílias, totalizando a quantia de trezentas pessoas pertencentes a diversos locais da província de Treviso e Vicenza. Assim, por meio da sua direção, todos partiriam para a América. A denúncia contra Reginaldo não deve ter impedido a viagem das famílias, uma vez que nenhuma outra informação foi encontrada.140 As acusações contra os agentes apresentadas pelas autoridades policiais tinham por objetivo controlar as mobilizações autônomas das famílias que abandonavam definitivamente a região, tomadas pelo “delírio da imigração” para o Brasil, pensavam as autoridades.
As experiências dos camponeses Domingos Santi e João Reginaldo lançam luz sobre as escolhas e iniciativas tomadas pelo imigrante Paulo Bortoluzzi. De acordo com as indicações dos contemporâneos, tudo leva a crer que ele tenha atuado como agente local, assim como Domingos Santi. A diferença é que Bortoluzzi não desistiu de partir juntamente com o grupo de famílias por ele convidadas. O apoio por parte dos sindacos das comunas era um fator importante para garantir o sucesso das investidas e evitar ser condenado pelas autoridades como “agentes clandestinos” de emigração. A rede de colaboradores e
138
Carta do sindaco de Castelfranco, 18 de outubro de 1878. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1878, Busta 266, nº 48, AETV.
139
Denúncia de contravenção, 29 de outubro de 1888. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1889, Busta 272, nº 6, AETV.
140
Denúncia, 20 de junho de 1877. Processo verbal, Pretura de Castelfranco Vêneto, 1877, Busta 265, nº 193, AETV.
incentivadores locais, apesar de variar em número de um lugar para outro, foi essencial para que as famílias camponesas aderissem à ideia de emigração coletiva.
Na comuna de Piavon, o sacerdote João Solerti também foi acusado de estimular a emigração da paróquia e de trabalhar ativamente a favor da causa.141 Os jornais regionais não se cansavam de divulgar o desempenho de outros padres que, do altar e durante as andanças pela comunidade, expunham as vantagens da imigração para o Brasil.142 Padre João Solerti incentivava os camponeses a tomarem tal caminho como alternativa para melhorarem as condições de vida. Foi ele apontado como a pessoa que mais influência teve na decisão de emigração de Paulo Bortoluzzi, ajudando a organizar a transferência do amplo agregado de famílias aparentadas e conhecidas do distrito de Oderzo. Ao aderir a ideia de emigrar, Bortoluzzi colocou-se em contato com Clodomiro De Bernardes em Gênova, o principal responsável pela imigração para as regiões de colonização do Império brasileiro. Por meio da troca de correspondência, recebeu instruções diretas quanto à partida e quanto à possibilidade de embarque gratuito.143
2. Relação de algumas famílias emigradas do distrito de Oderzo
Imigrante Esposa Local de origem Chegada Destino
Bortoluzzi, Paulo Furlan, Stella Piavon 20/04/1878 Linha Dois Sul
Bortoluzzi, Luiz Piavon 20/04/1878 Linha Dois Sul
Bortoluzzi, Domingo Puppin, Santa Piavon 20/04/1878 Linha Dois Sul Bortoluzzi, Antônio Furlan, Catarina Piavon 20/04/1878 Linha Base Sul Bortoluzzi, José Codolo, Antônia Mareno di Piave 20/04/1878 Linha Base Sul Bortoluzzi, Angelo Bozzeto, Regina Piavon 20/04/1878 Linha Seis Sul Bortoluzzi, João San Polo di Piave 20/04/1878 Linha Cinco Sul Bolzan, Antônio Moras, Angela Mansuè 20/04/1878 Linha Cinco Sul Bolzan, Felipe Nardo, Domênica Mansuè 20/04/1878 Linha Quatro Sul Druzian, Francesco Poli, Antônia Piavon 20/04/1878 Linha Cinco Sul Druzian, Giacomo Maschietto, Augusta Fontanelle 20/04/1878 Linha Quatro Sul Iopp, Atílio Bolzan, Stella Motta di Livenza 20/04/1878 Linha Base Sul Iopp, Giacomo Pozzobon, Margarida San Nicolò 20/04/1878 Linha Base Sul Marcuzzo, José Catelan, Maria Oderzo 20/04/1878 Linha Um Sul
Marcuzzo, Domingo Piavon 20/04/1878 Linha Um Sul
Parzianello, José Batisttela, Angelica Oderzo 20/04/1878 Linha Dois Sul Parzianello, Antônio Stefanello, Angelica Oderzo 20/04/1878 Linha Cinco Sul Parzianello, Davi Marcon, Maria Oderzo 20/04/1878 Linha Dois Sul Parzianello, Francisco Bevilacqua, Augusta Oderzo 20/04/1878 Linha Seis Sul Parzianello, Luiz Moretti, Antônia Oderzo 20/04/1878 Linha Um Sul
141
Depoimento do senador Luiz Revedin. In: Relação final do Ateneo de Treviso, Luiz Bailo, 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV.
142“Emigração”. Jornal Gazzetta di Treviso, 10 maio de 1877. Biblioteca Universitária de Padova, BUPD. 143
Contudo, não parece ter sido Bortoluzzi o autor das cartas, já que ele não tinha habilidade na escrita. Para desempenhar tal atividade ele deve ter contado com a colaboração de outro indivíduo. Na região colonial, onde se estabeleceu com os parentes, Paulo Bortoluzzi em momento algum aparece como autor das cartas enviadas à Itália. Mesmo não as escrevendo, ele aparece como um dos principais articuladores entre as lideranças do Vale Vêneto, principalmente quando procuravam por padres para se instalar na comunidade.
Vizzotto, Giacomo I Parro, Catarina Piavon 20/04/1878 Linha Dois Sul Vizzotto, Giacomo II Buriol, Vicenta Piavon 20/04/1878 Linha Cinco Sul Vizzotto, Pedro Batistella, Mariana Piavon 20/04/1878 Linha Dois Sul Bevilacqua, Davi Caberlotto, Madalena Ponte de Piave 5/05/1878 Linha Base Sul Bevilacqua, Angelo Cela, Giovanna Piavon 5/05/1878 Linha Duas Sul Bevilacqua, Jacó Parro, Luiza Piavon 5/05/1878 Linha Três Sul Bevilacqua, João Buffalo, Angela Piavon 5/05/1878 Linha Três Sul
Menuzzi, José Madalena Oderzo 25/03/1879 Linha Três Sul
Busanello, Domênico Zanutel, Mariana Motta di Livenza 20/12/1883 Soturno Busanello, Pietro Bottasso, Luiza Motta di Livenza 20/12/1883 Soturno
Busanello, Marco Cessalto 20/12/1883 Novo Treviso
Bozzetto, Angelo Pigatto, Luiza Oderzo Soturno
Bozzetto, Antônio Lion, Elisabetta Mansuè Soturno
Dalla Nora, Antônio Mansuè 23/05/1884 Núcleo Soturno
Dalla Nora, João Mansuè 23/05/1884 Núcleo Soturno
Dalla Nora, Luiz Mansuè 23/05/1884 Núcleo Soturno
Vernier, Antônio Chiarano 28/01/1886 Vale Vêneto
Giacomini, Angelo Barbieri, Maria Gorgo 25/12/1887 Vale Vêneto
Giacomini, João B. Chiarano 25/12/1887 Vale Vêneto
Rorato, João Batista Chiarano 3/01/1888 Vale Vêneto
Rorato, Francisco Chiarano 3/01/1888 Vale Vêneto
Fonte: Dados extraídos da relação de distribuição dos lotes de terras aos imigrantes chegados à ex-Colônia
Silveira Martins, Núcleo Norte e Núcleo Soturno. In: RIGHI, 2001, p. 110-225.
A relação acima apresenta as principais famílias que partiram do distrito de Oderzo juntamente com Paulo Bortoluzzi ou depois dele. O maior número chegou ao sul do Brasil em março de 1878, se estabelecendo nas linhas coloniais que formariam a comunidade do Vale Vêneto. Todos eram provenientes da província de Treviso.144 Dentre os indivíduos pode-se visualizar as redes parentais que formavam amplos agregados, pessoas que nem sempre partiam da mesma comuna – a exemplo dos irmãos Druzian. Os vínculos parentais se davam através das uniões matrimoniais – identificação dos sobrenomes das esposas –, também podendo indicar um dos princípios que uniam casais de diferentes lugares para se estabelecer em terras vizinhas na região colonial – ver Bolzan, Bevilacqua e Bozzeto. A força dos vínculos familiares e parentais que orientavam a emigração das famílias camponesas pode ser visualizada através da partida dos italianos de comunas distintas, mas que se estabeleciam em um mesmo local de colonização. Conforme os dados do quadro, percebe-se que, após 1878, de várias comunas de Oderzo, novos grupos de indivíduos abandonaram o lugar, dando origem a uma tradição imigratória para o sul do Brasil.
144
Durante os três primeiros meses de 1878, algumas famílias da província de Treviso se encontraram com o grupo que acompanhava Paulo Bortoluzzi em março daquele ano. Todas elas passaram a ocupar um mes mo núcleo da Colônia Silveira Martins. Dentre os imigrantes que antecederam Bortoluzzi, se encontravam prováveis conhecidos como Luiz Rosso, integrantes da família Zago, Dotto e Pozzobon. Dados extraídos da relação da distribuição dos lotes de terra aos imigrantes chegados à ex-Colônia Silveira Martins, Núcleo Norte e Núcleo Soturno. In: RIGHI, 2001, p. 110-225.
Ao chegar às novas terras foram estabelecidos os símbolos de identificação social dentre aqueles que haviam partido de uma mesma localidade, ou mesmo sendo de comunas diferentes, existiam laços que os aproximavam. O imigrante Paulo Bortoluzzi, ao se instalar em um dos núcleos da Colônia Silveira Martins, empenhou-se em fazer com que a comunidade recém-fundada alcançasse o status de paróquia. Coordenou a construção da igreja e os investimentos dos imigrantes para financiar a busca por padres na Itália. A formação de uma comunidade no além mar de pessoas que partilhavam costumes favoreceu o projeto de Bortoluzzi, homem de fortes sentimentos religiosos e firme na ideia de fundar uma “república de Deus” no sul da América, segundo defende Ulderico Bernardes (2008, p. 84, 128). O autor ressalta o fato de terem sido os princípios morais cristãos que motivaram o camponês a liderar o movimento de transferência de amplo grupo de emigrantes de Piavon para a Colônia Silveira Martins. Desse modo, em busca de um novo modo de vida, teriam abandonado a Itália arrasada pelo anticlericalismo e humilhada pelas intenções irreligiosas de seus governantes.
As opções adotadas por uma família funcionavam como estímulo para outras. Desse modo, por meio de redes de apoio parentais e de solidariedades, os deslocamentos para as novas terras foram sendo articulados. Os vínculos entre os indivíduos que se preparavam para emigrar também propiciaram a formulação de um projeto em relação à fundação de uma nova comunidade. Partiram da Itália com a intenção de instituir devoção aos santos de preferência, fundar capelas e associações religiosas. A esperança de que poderiam vivenciar suas práticas religiosas e devoções comunitárias também foi um dos fatores a influenciar nos deslocamentos. Tanto Paulo Bortoluzzi quanto os outros que o acompanharam eram membros da Ordem Terceira de São Francisco de Assis. O grupo transportou de Piavon para a Colônia Silveira Martins uma estátua de madeira do santo do qual eram devotos.145 Escolhido como protetor do Vale Vêneto, a estátua de São Francisco foi colocada na capela idealizada pelas famílias.146
A presença significativa de membros leigos de uma mesma confraria religiosa reunida em caravana, composta por cerca de duzentas pessoas que se deslocavam ao porto de Gênova, chamou a atenção das autoridades provinciais de Treviso. Essas definiram como uma “espécie de fanatismo e doença contagiosa” a mobilização nas comunas por parte dos camponeses, principalmente porque as famílias procuravam vender rapidamente os bens que possuíam
145
A pequena estátua de madeira de São Francisco de Assis se encontra no Museu de Vale Vêneto. 146
Paulo Bortoluzzi possuía em sua residência em Piavon uma imagem pintada de São Francisco de Assis, um dos indícios das preferências devocionais da família (BERNARDES, 2008, p. 82).
para, assim, emigrarem.147 Paulo Bortoluzzi foi acusado de ser um camponês “ambicioso” e “fanático”, conforme declararam as autoridades públicas, alguns políticos e proprietários do distrito de Oderzo.148 No entanto, diferentemente desse entendimento que apontava serem “fanáticas” e ignorantes as famílias que partiam, geralmente vítimas de indivíduos mais astutos, a identificação de vínculos e afinidades parentais entre elas sugerem o contrário. A dificuldade de compreensão das motivações e lógicas presentes no universo camponês por pessoas que não compartilhavam as dificuldades e inseguranças vividas no cotidiano se encontram expressas nas avaliações das autoridades e da imprensa.
Não se acredita em uma emigração religiosa, mas, sim, num movimento familiar e comunitário, articulado através das redes parentais e amizades que ultrapassavam as fronteiras locais. Este era um caminho para conseguir oportunidades de trabalho, garantir futuro mais seguro para os filhos e uma economia doméstica que permitisse a reprodução do grupo. E, também, enquanto possibilidade de conquistar status social – construção de um poder imaterial – entre os conterrâneos nos lugares de ocupação, garantindo, ao mesmo tempo, o incremento do próprio patrimônio material. Logo, ressalta-se o papel das famílias em estabelecer as redes de ajuda dentro de um contexto de recursos disponíveis, podendo-se utilizar de agregações religiosas, símbolos de identificação e discursos. No entanto, as escolhas respondiam às necessidades específicas de cada uma delas.
As ideias compartilhadas na comuna de origem ajudam a descobrir os planos de Paulo Bortoluzzi antes de emigrar. O camponês foi definido como um homem “fanático e ambicioso” que estava interessado em se “tornar chefe de uma colônia no Brasil”, segundo o mesmo declarava entre os conterrâneos.149 A escolha de abandonar definitivamente as comunas estava ligada a motivações e demandas de cada grupo. Conforme se demonstrará neste capítulo, Bortoluzzi não era um camponês “miserável”, antes um pequeno proprietário de terras. Porém, essas não eram suficientes para garantir a sobrevivência e reprodução futura do grupo. Para melhor compreensão das escolhas tomadas pelas famílias camponesas de Piavon, serão analisados movimentos semelhantes no contexto regional e a existência de uma rede de apoiadores locais à imigração para o sul da América.
147
Resposta do conte Luiz Revedin, Questionário do Ateneo di Treviso, 3 fevereiro 1878; Relação final do Ateneo de Treviso, Luiz Bailo, 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV.
148
Depoimento de José Vianello. In: Relação final do Ateneo de Treviso de Luiz Bailo, 1878; Resposta do senador Luiz Revedin, 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV.
149
2.2 A atuação de um sacerdote “fanático”
Avaliando o fenômeno da emigração no distrito de Oderzo, o proprietário e político Luiz Revedin, em 1878, ressaltou que a ideia de emigrar tinha sido inspirada pelo sacerdote João Solerti, capelão de Piavon. O padre era muito conhecido das autoridades locais. Solerti teria sido o primeiro a divulgar as boas condições oferecidas àqueles que desejavam abandonar a península itálica, auxiliando na logística que envolvia a transferência das famílias camponesas, a partir dezembro de 1877. O referido sacerdote também foi apontado como um dos mais atuantes colaboradores do projeto de Paulo Bortoluzzi. O político Luiz Revedin, além de destacar o desempenho ativo de Solerti em relação à emigração, ressaltou os antecedentes negativos do referido capelão. Esse havia sido transferido para a paróquia de São Bento Abade, em Piavon, porque recebera condenação ao cárcere por truffa150 – fraude, falsificação, embuste, trapaça.
Antes disso, constatou-se que, em 1866, o padre João Solerti foi preso juntamente com outros paroquianos da comuna de Pagnano, província de Treviso, por suspeitas de roubo, fraude e posse ilegal de arma de fogo. Porém, devido à falta de provas, não ficou constatada a participação do padre no furto ocorrido na referida comunidade.151 Apesar da não condenação, a denúncia contra o padre indicava algum envolvimento dele em disputas relacionadas a cobranças de dívidas e vinganças entre indivíduos locais. Em carta ao bispo de Treviso, o pároco de Pagnano comunicou o quanto era “perigoso a permanência do capelão Dom Solerti na paróquia”. Para evitar medidas mais extremas era necessário garantir o afastamento do mesmo, já que mantinha “perversa intimidade” com alguns indivíduos de “má fama” do lugar que constantemente o visitavam.152
Para garantir a segurança e a tranquilidade da comunidade de Pagnano, o pároco Antônio Zamboldi implorou ao bispo para que não só afastasse João Solerti, mas que não permitisse o seu retorno, visto que com sua presença os “perversos amigos se levantariam ameaçadores a sua frente”.Para além das funções ligadas à assistência religiosa, percebe-se
150
Resposta do conde Luiz Revedin, Questionário do Ateneo di Treviso, 3 fevereiro 1878, Pasta 13, fascículo 2, ACTV. Em maio de 1877, num dos jornais de maior circulação da província de Treviso, João Solerti foi