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24 O Congado, apesar de tratar-se inicialmente de estratégia catequética da igreja Católica, por ela aceita e até

estimulada nos primórdios da escravidão no Brasil, sempre travou tensas relações com o catolicismo oficial. Esta tensão encontra-se presente ainda hoje. As missas Congas fazem parte de uma tentativa de aproximar e melhorar as relações entre a religião oficial e os congadeiros. Foram criadas em 1960 por iniciativa da Federação dos Congados de Minas Gerais, mas conflitos diversos persistem (Cf. LUCAS, 2002; SOARES, D., 2009). Algumas paróquias, por exemplo, não permitem que os negros toquem seus instrumentos no interior da igreja, ou mesmo não aceitam a celebração da missa Conga e nem reconhecem o Congado como expressão Católica. Outras estimulam a montagem do altar para celebração da missa nas ruas e, em certos casos, elas são celebradas no interior de capelas construídas pelos próprios negros.

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interior ou em áreas rurais (onde se imagina que tenham nascido), mas também em metrópoles como Belo Horizonte.

Através da aceitação a Nossa Senhora do Rosário, e outros santos negros, possibilitaram a perpetuação de costumes próprios, como o culto aos ancestrais, com a inserção de instrumentos musicais, cantos e danças (típicas dos Bantos, por exemplo) e, além disso, a eleição e coroação de seus reis. A lógica é de complementaridade e de simultaneidade. O Congado não é uma simples aproximação de religiosidades heterogêneas, em que se movimenta do catolicismo aos cultos africanos e vice-versa, mas a junção destas expressões, que acabam por constituir sua composição na íntegra e que acontece ao mesmo tempo. Por isso, complementares e simultâneas.25

Confluências: o Congado não é nem catolicismo europeu ou do Brasil, nem expressão de Bantos, mas confluências de todos eles, criando-se outra expressão religiosa. Semelhante as suas origens, mas diferente delas. Resultado de conformismos e resistências: o possível a se fazer. Feito de conformismos: até porque, não havia muitas outras opções em vida, já que os escravos eram vistos como coisas e sujeitados sempre a prescrições. Seres proibidos de ser. Aceitaram a dominação para se manterem vivos. Feito de resistências: no caso, gestadas nos interstícios deixados pelos escravistas. Nesse sentido, resistências não se tratam de ações deliberadas em resistir à dominação, mas de “[...] práticas dotadas de uma lógica que as transformam em atos de resistência”.26

Se, no interior do modelo escravocrata do Brasil, os Congados podiam ser considerados como práticas de resistência conformada eram, ao mesmo tempo, aceitação da religião hegemônica e transgressão possível da mesma. Uma das formas de se constituir ordenações próprias,27 de certa maneira violando e indo além das ordens, hierarquias e normas hegemônicas impostas àqueles sujeitos escravizados, naquele contexto histórico- geográfico.

Hoje, se não se apresentam como práticas contra-hegemônicas propriamente ditas, que deliberadamente posicionam-se contra dominações diversas, podem ser entendidos, pelo menos, como movimentos ambíguos, que transitam entre hegemonias e não- hegemonias. O conformismo às hegemonias contemporâneas se dá a partir da aceitação e

25 CHAUI, 1989. 26 CHAUI, 1989, p. 63. 27 CHAUI, 1989.

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acomodação de alguns modelos vigentes, ao modo de vida dominante e à sua naturalização. Entretanto, sua resistência atual se encontra em ações que insistem na persistência de suas singularidades e, concomitantemente, de sua coletividade.

A distinção do movimento dos Congados se mostra, por exemplo, a partir de sua estética própria (suas fardas são roupas para além da moda usual ou dos padrões contemporâneos). Ou em seus instrumentos e ritmos peculiares. Mostra-se como resistência persistente: porque sua invenção cultural resistiu às pressões e antagonismos a eles impingidos ao longo do processo de formação do Brasil; e porque, ao mesmo tempo, mantêm práticas distintas do que hoje se apresenta como culturalmente dominante. O fazer dos congadeiros, necessariamente, exige a participação dos seus sujeitos. A coletividade é algo que se faz sempre presente e ativa.

Em suas relações intersubjetivas, congadeiros formam-se como semelhantes, constituem sua identidade pessoal a partir da identidade coletiva. Por mais que os padrões contemporâneos os atinjam, sua pessoalidade não é reduzida somente a eles.28 Assim, além de possuírem resistências persistentes e não-hegemônicas, os Congados têm importância primordial no processo de subjetivação dos seus sujeitos. Por mais que os processos de racionalização atuais se adentrem em suas comunidades e culturas, há uma parcela significativa de resistência coletiva e pessoal, referentes à persistência dos seus valores e de suas histórias e memórias.

Continuam apropriando-se das ruas como lugar ritualístico, de devoção e festa. As ocupam periodicamente não como meros meios de circulação, mas como espaços de manifestação de suas guardas ou de encontros entre elas. Lugares onde explicitam a perpetuação dos rituais de coroação e manutenção do seu poder simbólico através dos reinados e de sua expressão própria. As vozes, há séculos invisibilizadas pelos autoritarismos e pela cultura do silêncio, mantiveram sua pronúncia do mundo a partir de linguagens como o canto, a dança e o toque de tambores e outros instrumentos musicais.

28 Erisvaldo Santos (1997), salientando os processos educativos de adolescentes da Comunidade dos Arturos

(em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte), relata a dificuldade enfrentada hoje pelos congadeiros da comunidade em manterem alguns de seus adolescentes ativos no movimento, visto que acabam se conformando aos padrões válidos à cultura do capital. Entretanto, observa também a confluência de valores na subjetivação dos seus jovens, que transitam entre a cultura contemporânea e a herdada pela comunidade local.

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Saberes de suas histórias e origens de dominação, guardados em suas memórias, continuam sendo pronunciados às novas gerações através das letras das canções e dos ritmos de suas músicas. Dos seus objetos de louvor ou do trabalho de construção artesanal dos seus instrumentos percussivos. Histórias que não são contadas em livros da historiografia oficial. Ou, quando neles citadas, acabam transformadas em meras expressões folclóricas regionais pertencentes à pluralidade de uma cultura nacional tomada como única.29

Congados: Exércitos de Nossa Senhora do Rosário, dos santos negros, de sujeitos subjugados, em movimentos de guerra. Lutas simbólicas contra a sua opressão. Movimentos ambíguos. Sujeitos capazes de se conformar ao resistir, ou de resistir ao se conformar.30 Sujeitos que, como quaisquer outros, sabem algo e ignoram outros, porque seres inconclusos,31 no seu processo histórico de devir e busca. Forjados no interior da formação autoritária do Brasil: sementes germinadas entre dominações explícitas e desejos de libertação.32

Benzer Belgeler