As considerações teóricas discutidas acima permitem a extração dos aspectos centrais da estrutura analítica das peculiaridades concernentes ao processo evolucionário em curso nas UPC localizadas no Subpolo Três. Os princípios dessa estrutura dizem respeito à concepção de evolução em fenômenos demarcados por suas características socioculturais e econômicas. A UPC, ao ser incluída nessa categoria, traz em si peculiaridades que exigem adaptações nas matrizes teóricas evolucionárias, bem como complementos conceituais que se integrem, modificando tais matrizes. Os pressupostos analíticos que seguem resultam deste exercício integrador e têm como base o referencial teórico longo discutido neste capítulo.
2.6.1 A perspectiva evolucionária em questão
O núcleo da estrutura analítica são os pressupostos da teoria econômica da mudança evolucionária proposta por Nelson e Winter (2005). Essas pressuposições são sustentadas pelas conjeturas do Darwinismo Universal (DU) de Hodgson (2003, 2007) e Hodgson e Knudsen (2004, 2007), nas quais as rotinas de trabalho se diversificam, se difundem entre as UPC existentes no SSE, e são selecionadas através das interações entres as organizações e o ambiente institucional e das relações com o ecossistema. Outro suporte
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teórico procede da teoria da auto-organização de Witt (1993) e Foster (1997), que se insere no âmbito da Hipótese de Continuidade (HC), e na qual as organizações econômicas – neste caso, as UPC – são como estruturas dissipativas cuja mudança envolve movimentos de auto- organização através da construção ou assimilação de conhecimentos durante a contínua interação com o ambiente natural e institucional. Conforme Vromen (2008) essas abordagens não se excluem, mas enquanto o DU considera as singularidades entre os processos biológicos e socioculturais, a HC discute a especificidade ontológica dos agentes destes processos, os seres humanos e sua evolução.
Em tal perspectiva, o processo evolucionário em questão ocorre no plano institucional, envolvendo mudanças tanto nas estruturas institucionais e quanto nos aspectos socioculturais, tecnológicos e econômicos dos sistemas produtivos das UPC. Essas unidades produtivas são compreendidas como um tipo especial de organização e, portanto, uma categoria de instituição, na acepção de Hodgson (2006) e North (1990), que seguem uma trajetória evolutiva peculiar. O mesmo paradigma permite tratar os aspectos socioculturais, tais como os hábitos dos produtores camponeses e as rotinas de trabalho das UPC, na qualidade de estruturas institucionais endógenas que regulam, ordenam e estruturam as trajetórias das UPC.
Por outro lado, por conta das limitações e possibilidades de tratamento do objeto de estudo a perspectiva analítica apresentada por Nelson (1995) proporciona uma abordagem das UPC sem, necessariamente, utilizar referências empíricas em séries de dados históricos, mas através da análise de aspectos da sua condição presente17. Neste sentido, o interesse da pesquisa é apresentar aspectos dos mecanismos de mudanças que operam sobre as unidades produtivas em seu estado vigente. Dito de outro modo, trata-se de identificar e sistematizar, através do estudo do ambiente institucional associado à análise dos sistemas produtivos, os aspectos crucias das trajetórias evolucionárias que seguem as UPC existentes no Subpolo Três.
A oposição metodológica que permanece é aquela entre a evolução por seleção natural proposta por Hodgson e Knudsen (2004) quando defendem o DU e a evolução por autotransformação através da auto-organização dos sistemas socioeconômicos tal como sugerem Witt (1997, 2003) e Foster (1997, 1993). Tais propostas possuem aspectos
17 Nelson (1995) apresenta dois enfoques possíveis para uma teoria evolucionária: a) a compreensão do processo
dinâmico que causa mudanças em uma variável ou conjunto de variáveis ao longo do tempo; ou, b) o caso especial da compreensão do estado corrente de uma variável ou de um sistema no sentido de como o estado vigente veio a ocorrer. Nesse sentido, se aceita o consenso proposto por Witt (2007) no qual, concorda-se de modo geral que a evolução pode ser caracterizada como um processo de mudança ao longo do tempo, cujos elementos sistemáticos são a produção endógena da novidade e sua subsequente disseminação. (Grifos meus).
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analógicos que as diferenciam e ênfases que as aproximam: i) enquanto a perspectiva da seleção natural recorre a analogias biológicas; a auto-organização apoia-se em analogias provenientes da Termodinâmica. Assim, ambas abordam os fenômenos econômicos através de categorias provenientes de outros campos das ciências, com suas respectivas limitações e vantagens.
As ênfases que as aproximam são: i) ambas asseveram a importância dos aspectos específicos dos fenômenos a serem estudados e, portanto, exigem abordagens complementares que tratem das especificidades dos objetos e dos contextos; i) o conhecimento em sua dinâmica de criação e disseminação é uma variável essencial para o entendimento do modo como ocorrem as mudanças evolucionárias seja por auto-organização ou por seleção natural. Essas aproximações indicam certo grau de consenso e complementaridade entre o DU e a teoria da auto-organização. Entretanto, as especificidades do objeto de estudo exigem outras categorias complementares.
2.6.2 As perspectivas de abordagem das especificidades do objeto de estudo
Quanto à especificidade ontológica das UPC, a teoria apresentada por Costa (1995, 2000, 2009), na qual tal instituição é regulada por uma lógica reprodutiva que se orienta pelos níveis de eficiência reprodutiva perceptível pela tensão reprodutiva decorrente da sua inserção no ambiente institucional, especialmente o mercado capitalista. Nessa perspectiva a UPC é sempre um sistema produtivo cuja trajetória oscila entre dois extremos: uma situação de acomodação ou um estado de crise. Tal condição é dependente da sua capacidade de recompor os níveis de eficiência reprodutiva com um taxa de investimentos limitada por tensões externas – preços pagos e recebidos, taxa de lucro do capital mercantil, restrições institucionais – e particularidades intrínsecas – produtividade do trabalho, disponibilidade de trabalho, rentabilidade dos investimentos.
Sob tais condições, as UPC existem em dois contextos sobrepostos: i) as condições sócio-históricas quais se dá essa existência e que resulta da trajetória de desenvolvimento do local e das próprias UPC em função dos paradigmas tecnológicos e dos conceitos e práticas de desenvolvimento que permeiam as intervenções institucionais na socioeconomia camponesa; ii) As especificidades territoriais em que estão localizadas as UPC e que dizem respeito ao ecossistema, aos arranjos institucionais e às características
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socioculturais e que impactam a formação dos hábitos e rotinas de trabalho bem como as escolhas e decisões de mudança.
Neste sentido, as UPC são tratadas como instituições socioeconômicas constituídas por indivíduos habituados cujas atividades produtivas são reguladas pelas rotinas de trabalho que estruturam seus sistemas produtivos. Essas rotinas combinam e recombinam matéria e energia na forma de trabalho familiar e recursos naturais e tecnológicos através de saberes tradicionais e técnico-científicos que lhes são apresentados pelas organizações de ATER e pelo mercado. Portanto, pode ser tratada como uma estrutura de governança, no sentido de Williamson (1990), decorrentes do modo como se inserem no ambiente natural e institucional. Do mesmo modo, na medida em que realiza um orçamento de trabalho sobre um portfólio de investimentos envolvendo o uso de águas e terras de trabalho, os direitos de propriedade e concessão real de uso destes recursos, conforme Demsetz e Alchiam (1967) e Demsetz (1973), são pertinentes.
O conceito de desenvolvimento endógeno, através da eleição do território como unidade de análise, sintetiza os aspectos históricos, socioculturais e econômicos inerentes aos fenômenos em estudo. Deste modo, é inserido na estrutura analítica para situar as UPC no seu contexto que, por sua vez, imprime nessas organizações características particulares ao influenciar suas trajetórias. Assim, o território é um aspecto pertinente no sentido causal, pois suas peculiaridades sociopolíticas, históricas e ecossistêmicas condicionam a qualidade das organizações que nele existem, bem como impõe limites e possibilidades que impactam as trajetórias evolutivas dessas organizações.
2.6.3 A síntese da estrutura analítica
Construída conforme os aspectos expostos acima, a estrutura analítica enfoca: i) o contexto territorial em suas nuanças socioeconômicas, ambientais e históricas; ii) as estruturas institucionais que tem como objeto de trabalho as UPC, isto é, a ATER, o crédito, o monitoramento ambiental, a problemática fundiária e, indiretamente, a segurança econômica das famílias camponesas consideradas socialmente vulneráveis; e iii) os sistemas produtivos camponeses tidos com a síntese da interação entre as UPC e o ambiente institucional e que carregam em si os aspectos socioculturais das famílias camponesas. Essa estrutura analítica se propõe produzir sínteses dos aspectos territoriais e institucionais aos quais se associa um
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modelo que tipifica as diferentes possibilidades de trajetórias evolutivas presentes no Subpolo Três.
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