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4. BULGULAR ve TARTIŞMA

4.1. Aşı Tutma Oranı

As interações interculturais dos séculos XX e XXI são de ordem e intensidade diversas daquelas vivenciadas no passado. Appadurai (2002) ressaltou que em tempos pretéritos as “transações culturais” eram restringidas por fatores geográficos, ecológicos e pelas resistências às interações com estrangeiros. Neste período, as forças integradoras eram as guerras expansionistas, o comércio e a conversão religiosa que enfraqueciam quando confrontadas com elementos desagregadores, tais como as grandes distâncias espaciais, o longo tempo dos fluxos de bens e pessoas, e as limitações tecnológicas. Este aspecto sócio- histórico impunha um elevado custo para a sustentação das interações interculturais, reduzindo sua escala.

Esta realidade tem se transformado desde o século XVI. Appadurai (2002, p. 47) reconstrói este processo com propriedade:

Sometime in the past few centuries, the nature of this gravitational field seems to have changed. Partly because of the spirit of the expansion of western maritime interests after 1500, and partly because of the relatively autonomous developments of large and aggressive social formations […], an overlapping set of ecumenes began to emerge, in which congeries of money, commerce, conquest, and migration

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began to create durable cross-societal bonds. This process was accelerated by the technology transfers and innovations of the late eighteenth centuries, which created complex colonial orders centered on European capitals and spread throughout the non-European world. This intricate and overlapping set of Eurocolonial worlds (first Spanish and Portuguese, later principally English, French, and Dutch) set the basis for a permanent traffic in ideas of peoplehood and selfhood, which created the imagined communities of recent nationalisms throughout the world.

A síntese de Appadurai (2002) sugere que, na sua etapa recente, a ampliação das interações culturais ao nível global, foi comandada pela expansão colonial europeia. Este processo cultural difundiu noções e conceitos da Europa moderna em direção à sua periferia a ser conquistada e, por consequência, integrada de imediato e, no longo prazo, desenvolvida. Os progressos tecnológicos no campo da informação e dos transportes ocorridos no século XX, por sua vez, permitiram a consolidação de uma economia cultural global, na qual os diversos imaginários circulam entre os membros dos grupos sociais e alteram as práticas e as mudanças socioeconômicas.

Este processo propagou e impôs uma noção de desenvolvimento construída no contexto sociocultural e político-econômico europeu dos séculos XVIII e XIX. Tal noção tornou-se um parâmetro para classificar os grupos sociais inseridos nos territórios periféricos numa escala móvel entre o desenvolvimento pleno e o primitivismo exacerbado. Neste sentido, ressalta Sardan (1995), os produtores camponeses são estereotipados como grupos tradicionais atrasados, submissos, passivos e rebeldes situados à margem da sociedade. Em tais condições estes grupos tornam-se o foco dos programas de desenvolvimento modernizante que orientam as intervenções institucionais sobre os seus sistemas produtivos. Assim, desenvolver tais grupos sociais em conformidade com os paradigmas e indicadores etnocêntricos da visão moderna de socioeconomia tem prioridade absoluta. Contudo, estes sujeitos estão em uma trajetória cujas relações causais que as produziram, historicamente, são desconhecidas e/ou não despertam o interesse da institucionalidade exógena cuja missão é a promoção do desenvolvimento socioeconômico.

A possibilidade de desenvolvimento para este grupo socioeconômico exige transformações culturais e econômicas pelas quais suas fragilidades econômicas seriam superadas. Este empoderamento elevaria o nível do seu protagonismo político e a sua eficiência econômica, resultando em ampliação dos níveis de bem estar social e melhoras nas relações com o ambiente natural. As estruturas institucionais atuariam como suporte dessas mudanças, facilitando a integração deste grupo e induzindo seu desenvolvimento. O desenvolvimento socioeconômico implicaria na “superação” do atraso camponês pela sua integração à economia de mercado através da mudança dos seus padrões socioculturais e

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socioeconômicos. A interpretação de Appadurai (2002) onde a imaginação assume papel ativo crucial sugere que a crença no sucesso dessa trajetória assume a forma de valores incutidos nos imaginários tanto de camponeses quanto de gestores institucionais.

Uma interpretação deste processo mediada por conceitos da Antropologia do Desenvolvimento considera a cultura e sua dinâmica como elementos analíticos fundamentais. Neste sentido, Appadurai (2002) ressaltou que um problema central nas atuais interações interculturais em amplitude global é a tensão entre a homogeneização e heterogeneização cultural. Essa tensão se sustenta através do esforço de um padrão dominante para obter hegemonia sobre outros padrões que resistem à submissão e modificam o padrão homogeneizante.

A análise desenvolvida nesta tese admite esta tensão e a projeta sobre a realidade da produção camponesa. Nesse segmento, a força homogeneizante do capitalismo avança sobre os sistemas produtivos tradicionais da economia camponesa a fim de integrá-los aos mercados de tecnologias agroindustriais (GOODMAN; SORJ; WILKINSON, 1990). Essa força é um aspecto da tensão reprodutiva que tensiona os padrões de consumo das famílias camponesas, modificando seus hábitos e rotinas de trabalho, inserindo-as em diversos segmentos do mercado de bens industrializados. Conforme constataram Comaroff e Comaroff (1997), este processo altera os aspectos socioculturais dos grupos e sociedades integradas, modificando suas relações com as economias de mercado e suas estratégias reprodutivas de modo irreversível.

A complexidade do fenômeno e a precariedade dos instrumentos de análise não passam despercebidas por Appadurai (2002, p. 50): “The complexity of the current global economy has to do with certain fundamental disjunctures between economy, culture, and politics that we have only begun to theorize”. A este respeito, o autor propõe a seguinte estratégia compreensiva:

I propose that an elementary framework for exploring such disjuncture is to look at the relationship among five dimensions of global cultural flows that can be termed (a) ethnoscapes, (b) mediascapes, (c) technoscapes, (c) financescapes, and (e)

ideoscapes. The suffix –scape allows us to point to the fluid, irregular shapes of

these landscapes, shapes that characterize international capital as deeply as they do international clothing styles. These terms with the common suffix –scape also indicate that these are not objectively given relations that look the same from every angle of vision but, rather, that they are deeply perspectival constructs, inflected by the historical, linguistic, and political situatedness of different sorts of actors: nation- states, multinationals, diasporic communities, as well as subnational groupings and movements (whether religious, political, or economics), and even intimate face-to- face groups, such as villages, neighborhoods, and families. Indeed, the individual actor is the last locus of this perspectival set of landscapes, for these landscapes are eventually navigated by agents who both experience and constitute larger

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formations, in part from their own sense of what these landscapes offer (APPADURAI, 2002, p. 50).

As landscapes de Appadurai (2002) são segmentos que representam os múltiplos mundos imaginados – imagined worlds – que são constituídos no imaginário de pessoas ou grupos historicamente situados e espalhados por todo o mundo. Muitas pessoas vivem em contato com estes mundos imaginados e, portanto, podem contestar e até subverter os mundos imaginados das mentalidades oficial e empresarial que os rodeiam.

O escopo da análise de Appadurai (2002) envolve a economia cultural global, mas suas proposições podem ser aplicadas nos diversos níveis deste sistema econômico e sociocultural. O enfoque da economia camponesa, desde seus aspectos econômicos e socioculturais, pode ser incrementado pela metodologia de Appadurai (2002) quando se reduz ao nível local os processos que este autor identifica no plano global: a tensão homogeneização

versus heterogeneização. Ainda, se o foco da análise concentrar-se em categorias específicas

da estratégia compreensiva proposta pelo autor: a tecnhoscape e a ideoscape.

A categoria imagined worlds aplicada à análise dos aspectos socioculturais pode enriquecer a análise das expectativas e escolhas que precedem as decisões de investimento em inovações. Num cenário de trajetórias concorrentes, este imaginário particular pode revelar-se fator fundamental de diferenciação entre as perspectivas de desenvolvimento das UPC em relação ao mainstream agroindustrial. Então, além de fatores caracterizadores, as categorias escolhidas entre as apresentadas por Appadurai (2002) podem fundamentar hipóteses explicativas sobre as trajetórias camponesas na socioeconomia amazônica.

A “tecnopaisagem” representa a configura do complexo fluxo de tecnologias – altas e baixas, de qualquer natureza – que se espalha pelo planeta através das redes de informação, cruzando as fronteiras políticas em diversos sentidos:

The odd distributions of technologies, and thus the peculiarities of these technoscapes, are increasingly driven not by any obvious economies of scale, of political control, or of market rationality but by increasingly complex relationships among money flows, political possibilities, and the availability of both them – and highly skilled labor (APPADURAI, 2002, p. 52).

A complexa cadeia de fluxos tecnológicos cria uma diversidade de conexões entre os lugares e induz uma variedade de processos econômicos acionados por uma diversidade de agentes, às vezes, concorrentes. Estes processos globais podem ser reduzidos para uma escala local onde os fluxos globais convergem no plano local na forma de intervenções institucionais para o desenvolvimento.

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A “ideopaisagem”, por sua vez, é uma categoria promissora na medida em que concatena imagens e representações e enfoca as ideologias que assumem projetos políticos, inclusive de captura do Estado ou parte da Administração Pública. Conforme Appadurai (2002, p. 53), “These ideoscapes are composed of elements of the Enlightenment worldwide, which consists of a chain of ideas, terms, and images, including freedom, welfare, rights,

sovereignty, representation, and the master democracy”. Incluem-se no escopo dessa

categoria as diversas representações, valores e imagens produzidas sobre as possíveis trajetórias das socioeconomias camponesas.

Estes aspectos são transplantados entre contextos e aplicadas em análises e diagnósticos sobre trajetórias locais, repercutindo sobre o formato das consequentes políticas para o desenvolvimento das UPC. Assim, os programas de desenvolvimento tendem a apresentar divergências ideológicas com as estratégias tradicionais de autopreservação das UPC. Essas divergências provocam uma diversidade de reações contraproducentes entre os agentes institucionais e entre as famílias camponesas, reduzindo a eficácia das políticas de desenvolvimento. Por outro lado, podem ocorrer diversificações na composição interna da institucionalidade, ocasionando o surgimento de ações convergentes e divergentes, assim como conflitos de escopo e interesse. Deste modo, evidencia-se a complexidade das estruturas institucionais e, simultaneamente, das suas ações e respectivos resultados e impactos sobres as trajetórias das UPC.

Benzer Belgeler