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Sistematizando todas estas indicações a respeito de uma educação comunicativo-dialógica, temos o conceito de aprendizagem dialógica, apresentado por Flecha (1997). A principal característica da aprendizagem dialógica é a interação e a comunicação como fatores chave da aprendizagem. Contudo, segundo Aubert et al (2001), nem todas as interações comunicativas conduzem a máximos níveis de aprendizagem e nem todos os diálogos superam desigualdades educativas. Assim, a aprendizagem dialógica se produz em diálogos que sejam igualitários, em interações que se reconhecem a inteligência cultural de todas as pessoas e que estão orientadas à transformação dos níveis prévios de conhecimento e do contexto sociocultural, para que todos e todas tenham êxito. A aprendizagem dialógica se produz, ainda, em interações que aumentam a aprendizagem instrumental, favorecendo a criação de sentido pessoal e social, guiada por princípios de solidariedade em que a igualdade e a diferença são valorizadas de forma respeitosa, sem gerar desigualdades.

Desta forma, destacamos os sete princípios que configuram a aprendizagem dialógica: diálogo igualitário; inteligência cultural; transformação; dimensão instrumental; criação de sentidos; solidariedade e igualdade de diferenças. Princípios estes que pretendem ser um guia para se refletir e praticar a aprendizagem dialógica.

No primeiro princípio, diálogo igualitário, entende-se que nenhuma idéia vale mais que outra, simplesmente pela posição de poder que o falante ocupa, todos são respeitados e, assim, aprendem juntos. Uma das reflexões feitas é sobre o diálogo e o consenso, visualizando as pretensões de validez. Nesta perspectiva, as relações se dão de maneira horizontal, tendo todos(as) as mesmas condições e oportunidades de falar.

A inteligência cultural, segundo princípio apresentado, indica que todas as pessoas possuem as mesmas capacidades para participar do diálogo igualitário e que cada uma aprende reportada a um contexto e na interação com as pessoas que nele estão.

Flecha (1997) elenca algumas das barreiras que muitas vezes prejudicam o diálogo, sendo classificadas como idéias antidialógicas, que devem ser superadas. São elas: barreiras culturais, sociais e pessoais (de cunho subjetivo). Para superar essas barreiras, não basta vencer as discriminações sexistas, racistas, classistas e edistas, mas

também superar timidez, complexos e inseguranças gerados pelas interações sexistas, racistas, classistas e edistas dominantes em nossa sociedade.

Na Aprendizagem Dialógica se entende que as pessoas são seres de transformação, daí o terceiro princípio. As pessoas que participam da aprendizagem dialógica transformam o sentido de sua existência da forma que elas desejam, passando de situações de exclusão a outras de criação cultural, o que modifica profundamente suas relações familiares, trabalhistas e pessoais.

A dimensão instrumental está presente na Aprendizagem Dialógica, pois tudo o que parece interessante aprender, inclusive a aprendizagem instrumental de conhecimentos e habilidades, deve ser estudada e aprendida, visto que isso é uma necessidade do grupo e/ou indivíduo.

Flecha (1997) defende a idéia da criação dos sentidos, sendo que todos podem sonhar e sentir, dar sentido à sua existência. O diálogo igualitário possibilita o ressurgimento de sentido que orienta os novos caminhos sociais para se fazer uma vida melhor. Para tanto, é preciso ter os contextos educativos como lugares para se falar e não para se calar, pois o compartilhar de palavras em um grupo ajuda a criar continuamente o sentido global das vidas ali implicadas.

A solidariedade nos mostra que as concepções solidárias são os fundamentos das práticas educativas igualitárias. Discutem-se aqui as concepções de poder que, muitas vezes, falam mais alto do que qualquer outra coisa e acarretam a exclusão de muitas pessoas, seja em âmbito social, econômico ou cultural. O respeito e o apoio ao outro, na superação de dificuldades, assim como as pequenas ações de solidariedade, possibilitam a criação de grande rede de solidariedade, contribuindo para as transformações sociais.

A igualdade é o valor fundamental que deve orientar toda a educação progressista, porém, a diversidade atualmente é utilizada por algumas pessoas e grupos como forma de justificar as desigualdades educativas, argumentando que a diferença gera, de certa forma, desigualdade. A solução que reclamam as culturas excluídas está, segundo Aubert et al (2008), em consonância com uma perspectiva dialógica orientada para o exercício do direito a uma educação igualitária e que, portanto, deve ter uma consideração de justiça nas nossas diferenças, daí a expressão igualdade de diferenças. A Aprendizagem Dialógica procura demonstrar o direito de todas as pessoas a viver e ser de diferentes formas.

Assim, tendo em mente a afirmação de Freire (2000) de quanto maior a diversidade, maior a possibilidade de construir uma sociedade melhor, é que também nos colocamos a pensar sobre a diversidade cultural dentro do contexto escolar, focalizando as relações em sala de aula.

É neste contexto, que vimos delineando desde o primeiro capítulo, que a presente pesquisa se insere, refletindo, diante do que dizem Moll et al (2005), que a presença de diversidade de estudantes nas escolas é insuficiente para provocar mudanças positivas na educação. Daí a importância de estudarmos a diversidade com vista à construção de vantagens pedagógicas para a potencialização das aprendizagens.

Neste sentido, Moll et al (ibid) destacam a importância de que os(as) professores(as) se dêem conta dos recursos e oportunidades que a diversidade possibilita para a potencialização das aprendizagens ao se estabelecerem diferentes relações sociais. Para que isto se realize, o autor e as autoras tratam do conceito de fundos de conhecimento, baseado na concepção de que todas as pessoas possuem competências e conhecimentos, posto que todos(as) vivem experiências e ganham conhecimentos com estas. Sendo assim, caberia aos(às) profissionais da educação disponibilizar-se a conhecer e reconhecer os diferentes saberes que compõem o fundo de conhecimento dos(as) estudantes e, a partir disto, valorizá-los(as) como seres históricos mais amplos do que o papel de estudantes que ocupam na escola, posto que agem em diferentes contextos e a partir de diferentes princípios.

Para tanto, Moll et al (ibid) complementam que é importante aprendermos a pensar a Cultura como dinâmica e variável e não fixa ou estática, visto que até em grupos de uma mesma sociedade/comunidade há distintas particularidades.

O grande desafio, partindo-se disto, é pensar práticas que beneficiem o trabalho com a diversidade, auxiliando na instrumentalização didática com a finalidade de se conhecer e reconhecer as diversidades e utilizá-las como forma de potencialização das aprendizagens.

Assim o autor e as autoras acreditam que documentando os fundos de conhecimento dos educandos e das educandas, conseguindo conhecê-los(as) e as suas famílias, em diferentes contextos de educação, como parte de um mundo social mais amplo, poder-se-á contextualizar a aprendizagem escolar para os(as) estudantes.

Esta é uma proposta de como iniciar um trabalho que valorize o aspecto cultural vislumbrando a potencialização do processo de ensino e de aprendizagem, mas aqui fica nossa questão de pesquisa:

Diante do exposto, acreditamos que neste momento devamos esclarecer as bases metodológicas de nossa investigação, que também se pautam na perspectiva comunicativo-dialógica.

CAPÍTULO III – O DELINEAMENTO DA PESQUISA: METODOLOGIA

Benzer Belgeler