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Como indicado acima, Ángel Rama considera Gabriel García Márquez como um dos quatro escritores da transculturação. No entanto, no que diz respeito à transculturação em García Márquez, o crítico estuda Cem anos de solidão, não analisando O outono do patriarca à luz desse conceito.

Ángel Rama comenta que os escritores da transculturação dispensam grande atenção aos arquétipos do poder das sociedades regionais, os aristocratas, inserindo o embate entre o passado e o presente: um passado em que esses detinham o poder e um presente no qual a concepção aristocrática do mundo é uma idealização.92 Em Cem anos

de solidão, obra de García Márquez, os coronéis presenciam a decomposição dos

valores da aristocracia regional quando os interesses econômicos da companhia bananeira são impostos à região.

Em O outono do patriarca, verifica-se também essa atenção a um arquétipo do poder, o ditador, que é o “patriarca” do país representado no livro e que age como se tal país fosse sua propriedade particular. Ele é um homem que vem do interior do país e que lutou na guerra federal. A ascensão ao poder ocorre pela imposição dos ingleses que o escolhem para governar de acordo com os seus interesses. Na costa do país, onde se

91 Nos dois níveis, a operação literária é a mesma: se parte de uma língua e de um sistema narrativo

populares, profundamente enraizados na vida sertaneja, o que se intensifica com uma investigação sistemática que explica a retomada de numerosos arcaísmos lexicais e o descobrimento dos variados pontos de vista com que o narrador elabora o texto interpretativo de uma realidade, e se projetam ambos os níveis sobre um receptor-produtor (Guimarães Rosa) que é um mediador entre dois mundos culturais desconectados: o interior-regional e o externo-universal. (Tradução nossa).

encontra a sede do governo, vê das vinte e três janelas da casa presidencial o mar do Caribe. Quando da proposta de venda do mar para a potência estrangeira, o patriarca explica ao embaixador estrangeiro que:

(...) eu que abandonei meus páramos de névoa e me enrolei agonizando de febres no tumulto da guerra federal, e não pense que o fiz pelo patriotismo que está no livro, nem por espírito de aventura, muito menos porque me importassem um pito os princípios federalistas que Deus tenha em seu santo reino, não meu querido Wilson, fiz tudo isso para conhecer o mar (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.190).93

A região, onde se localiza a sede do governo, é uma cidade portuária na qual se encontram pessoas de diferentes origens, como a indígena, a africana e a indiana. A cidade sofre transformações ao longo do livro e, onde eram os bazares dos hindus, surgem os índios ambulantes vendedores de amuletos e antídotos de cobra. Tal como colocado por Édouard Glissant,94 “o mar do Caribe é um mar que difrata e leva à efervescência da diversidade” (GLISSANT, 2005, p.17). A cultura do Caribe é várias vezes lembrada no romance. Assim, quando Manuela Sánchez95 – personagem de origem indígena – desaparece, surgem relatos sobre o seu paradeiro:

(...) diziam-lhe que a viram num baile de gala em Porto Rico, lá onde degelaram Elena meu general, mas não era ela, que a viram na bagunça do velório de Papá Montero, zumba, canalha rumbeiro, mas também não era ela, que a viram no tique-taque de Barlovento sobre a mina, na cumbiamba de Aracataca, nos bons ventos do Panamá (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.82).96

Destacam-se, no trecho, elementos da cultura africana que se desenvolveram no solo do Caribe. Alguns exemplos são a cumbiamba, o mesmo que cumbia, uma dança

93 (...) yo que abandoné mis páramos de niebla y me enrolé agonizando de calenturas en el tumulto de la

guerra federal, y no crea usted que lo hice por el patriotismo que dice el diccionario, ni por espíritu de aventura, ni menos porque me importaran un carajo los principios federalistas que Dios tenga en su santo reino, no mi querido Wilson, todo eso lo hice por conocer el mar (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.223).

94 Na obra Introdução a uma poética da diversidade, Glissant analisa as identidades culturais do espaço

geopolítico do Caribe e das Américas para abordar o imaginário das línguas, as culturas e as identidades em movimento dentro do processo de crioulização. Cf. GLISSANT, 2005.

95 Musa do patriarca que, apesar de todas as tentativas, permanece inalcançável, desaparecendo durante

um eclipse.

96 (...) le de decían que la vieron en un baile de plenas de Puerto Rico, allá donde cortaron Elena mi

general, pero no era ella, que la vieron en la parranda del velorio de Papá Montero, zumba, canalla rumbero, pero tampoco era ella, que la vieron en el tiquiquitaque de Barlovento sobre la mina, en la cumbiamba de Aracataca, en el bonito viento del tamborito de Panamá (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.96).

típica da região caribenha,97 assim como os vocábulos “zumba” e “rumbeiro”, os quais também estão ligados a essa origem. Aracataca é uma cidade da Colômbia, na qual nasceu o escritor García Márquez.

Quando o patriarca chega ao bairro das brigas de cachorros em busca de Manuela Sánchez, rainha dos pobres, se pergunta:

(...) onde é que se perdeu na gafieira interminável do maranguango e da burundanga e a cana e o papel do fumo e o tremendo cacete de um olho só e o cu de lambuja e o delírio perpétuo do paraíso mítico do Negro Adán e Juancito Trucupey (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.72).98

Em nota de rodapé, o tradutor99 explica que maranguango e burundanga são bebidas de poder mágico; cana, no original gordolobo, é o nome popular de um rum da costa atlântica da Colômbia e o papel do fumo, no original manta de bandera, trata-se, na Colômbia, do papel do cigarro de marijuana. Já Negro Adán é um personagem real e muito popular em Barranquilla e Trucupey é personagem de uma canção cubana ou dominicana.

Cada região da Colômbia, lembra Rama, possui suas singularidades culturais. Além disso, o desenvolvimento econômico ocorreu de forma desigual nas diversas partes do país. Desse modo, não deixa de haver um conflito entre a zona costeira – na qual se desenvolveu o complexo fluvial e onde desembarcaram os escravos –, e as zonas altas – as quais se diferenciam pelo comportamento andino e onde os indígenas sofreram com a colonização espanhola. Assim, as regiões antilhana e andina sofreram com a dominação hispânica processos diferenciados de neoculturação e de aculturação, bem como produziram respostas também diferentes a esses fenômenos. E esses conflitos regionais estão presentes na obra de García Márquez, explica Rama.100

Em O outono do patriarca, pode-se observar que tanto os elementos de uma região quanto da outra estão presentes. Por exemplo, quando o padre Demétrio Aldous, responsável pela investigação do passado de Bendición Alvarado para canonizá-la, inicia seus interrogatórios com a população, ele experimenta diferentes elementos da cultura do Caribe e também dos páramos. Assim, ele se encantou com a cumbia e

97 Nota do tradutor Remy Gorga, Filho.

98 (...) dónde te habrás perdido en la parranda sin término del maranguango y la burundanga y el

gordolobo y la manta de bandera y el tremendo salchichón de hoyito y el centavo negro de ñapa en el delirio perpetuo del paraíso mítico del Negro Adán y Juancito Trucupey (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.84-85).

99 Remy Gorga, Filho. 100 RAMA, 2001, p.236.

“aprendeu a tocar acordeom melhor que os vallenatos101” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.140).102 Mas o padre, não satisfeito com os interrogatórios da cidade, resolveu ir em direção ao páramo, e lá bebeu chicha103 nos botecos para ganhar a confiança da população.104 Ainda nessa região, quando se aprofunda em sua investigação sobre as origens de Bendición Alvarado e do próprio ditador, Demétrio Aldous sofre um atentado, despencando, ele e a mula, “nos espinhaços cinzentos e nas canhadas (sic) profundas da cordilheira (...) em uma vertigem sem fundo do cume de neves perpétuas (...) por onde trepavam em lombo de índio com seus herbários secretos os doutores sábios da expedição botânica” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.143).105 Como se pode constatar, o padre passa por diferentes regiões e tem contato com alguns de seus elementos, da costa ao páramo e à cordilheira.

Do ponto de vista da linguagem utilizada, como se constata em várias passagens da obra, há uma grande quantidade de palavras e de expressões populares. Além disso, as palavras do narrador não estão num nível hierárquico diferente das palavras do patriarca, mas no mesmo nível, ambos utilizando expressões populares de origem caribenha e da costa atlântica da Colômbia. Entretanto, tais expressões não foram as únicas a serem inseridas no romance, já que esse apresenta uma variedade de registros de origens diferenciadas. Conforme enumerado por Martha Canfield, observa-se no texto a presença de estratos do espanhol falado, da retórica oficial – reproduzida nos documentos emitidos pelo patriarca –, da língua utilizada nas cartilhas escolares, de citações do Antigo e Novo Testamento e da literatura clássica.106

A respeito da linguagem utilizada nessa obra, García Márquez comenta em

Cheiro de goiaba que “os tradutores às vezes ficam loucos tentando achar o sentido de

frases que entenderiam de imediato, e às gargalhadas, os choferes de táxi de Barranquilla” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2007, p. 95). Esse comentário nos remete a mais

101 Em nota de rodapé, Remy Gorga, Filho explica que vallenatos designa tanto um tema musical do

Caribe colombiano quanto aqueles que executam esse tema.

102 “aprendió a tocar el acordeón mejor que los vallenatos” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.165).

103 Em nota de rodapé, o tradutor Remy Gorga, Filho explica que chicha é uma bebida alcoólica feita de

milho. É preciso recordar que essa também é uma bebida que está presente na tradição indígena no romance Os rios profundos, do peruano José María Arguedas. Ver ARGUEDAS, 2005.

104 Ver GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.142.

105 “en los espinazos grises y las cañadas profundas de la cordillera (…) en un vértigo sin fondo desde la

cumbre de las nieves perpetuas (…) por donde se trepaban a lomo de indio con sus herbarios secretos los doctores sabios de la expedición botánica” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.169-170).

106 Martha Canfield aponta tais elementos pensando na intertextualidade, para ela o romance O outono do

um ponto, também referente à linguagem do romance, que é o uso daquilo que se pode denominar, segundo Bakhtin, de “vocabulário da praça pública”.107

O vocabulário da região do Caribe, usado por García Márquez em O outono do

patriarca, pode ser considerado como um vocabulário de praça pública, assim como

alguns provérbios e canções populares presentes no livro, como a canção da “passarinha pinta paradinha no verde limão” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p. 227),108 cantada pelas meninas da escola. A população do país do ditador também inventa uma canção a respeito do patriarca quando ele persegue a rainha da beleza, Manuela Sánchez. A canção é cantada por multidões, inclusive por papagaios. A multidão cantava: “aí vem o general dos meus amores botando cocô pela boca e botando lei pela popa” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p. 77).109 Assim, verifica-se, em O outono do patriarca, o uso de injúrias e de palavras de tom vulgar, assim como a presença de obscenidades, que são a expressão do “baixo” material e corporal,110 como, por exemplo, a recorrência às palavras “caralho”, “merda” e “bosta”.111 À luz de Bakhtin, pode-se dizer que o emprego desses termos está associado ao “vocabulário da praça pública”. A linguagem utilizada em O outono do patriarca está repleta de expressões e palavras de origem popular. Porém, também aparecem na obra registros da língua oficial – usada em documentos –, além de textos escolares, religiosos e clássicos.

Nesse sentido, a presença de expressões populares na linguagem utilizada em O

outono do patriarca, que são particulares de diferentes regiões da Colômbia, leva a duas

considerações: a identificação de um “vocabulário de praça pública” e a presença da transculturação em O outono do patriarca.