4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.3. Nötral Kırmızının Elektropolimerizasyonunun Karakterizasyonu
4.8.6. AOx temelli biyosensörlerde analitiksel karakterizasyon
O uso da ironia, do humor e da paródia é recorrente em O outono do patriarca, sendo observado por Martha Canfield, Franklin Larrubia Valverde, Mario Benedetti e Márcia Hoppe Navarro.
Martha Canfield detecta, na obra de García Márquez, traços de uma divindade presumida pelo patriarca. Há, desse modo, uma oscilação entre essa presunção de divindade e a natureza animal que surge das metáforas, como já comentado, o que fornece ao patriarca um caráter imponente e autoritário. De acordo com Canfield, García Márquez parodia Jesus Cristo, pois o patriarca possui um séquito de leprosos, cegos e paralíticos que vivem em seu palácio, suplicando o sal da saúde. O ditador assume também características de outros personagens bíblicos, possuindo uma idade inconcebível.
Passando a uma análise da estrutura discursiva do texto, a ensaísta comenta sobre o dialogismo na obra, tomando-o pelo conceito de intertextualidade entre obras. O escritor utiliza descrições de situações ou personagens de outras de suas obras, trazendo-as para O outono do patriarca. Canfield aponta que são incorporados na escrita estratos do espanhol falado e escrito na Colômbia, sobretudo da costa atlântica, extraindo fragmentos ou motivos advindos do patrimônio cultural da região. Martha Canfield enumera alguns desses estratos e comenta que foram parodiados pelo autor humoristicamente. Os estratos foram retirados da retórica oficial, de canções populares, da língua usada em livros escolares, da fala popular (principalmente de Barranquilla), de mitos, de citações do Antigo e Novo Testamento, da literatura clássica, da literatura hispânica e de seu próprio registro lírico.66
65 RIBEYRO, 1977.
Martha Canfield aponta também as paródias que se referem a Rubén Darío e a Cristóvão Colombo. Sob o ponto de vista da ação na trama do romance, os personagens podem ser considerados “decorativos”. Esses foram inseridos no livro para fornecer uma mensagem ao leitor, pondera a ensaísta. Há várias citações e paródias de Darío e Colombo, além desses personagens estarem relacionados ao patriarca do romance. Para García Márquez, Darío representa o ideal da beleza, no caso de sua obra poética, e Colombo os ideais da aventura e do caráter visionário. Segundo a ensaísta, García Márquez recorre a esses personagens com o intuito de dizer que não se deve esquecê- los, pois estão nas origens da América Latina, e esquecê-los seria esquecer a nós mesmos.67
Franklin Larrubia Valverde estuda a paródia e a carnavalização em O outono do
patriarca sob a perspectiva teórica de Mikhail Bakhtin. Em sua pesquisa, Valverde
compara obras da cultura ocidental, como a Bíblia e o Diário de Colombo, com a obra de García Márquez. O autor aponta como o escritor colombiano deixa transparecer suas críticas à cultura, à história e à política latino-americanas pelo uso da paródia e da carnavalização.
Segundo a análise de Valverde, García Márquez parodia, na obra citada, trechos do Diário de Cristóvão Colombo, explora de forma carnavalizada a religiosidade do homem latino-americano pelo ditador no poder e se apropria, parodicamente, de vários fatos históricos da América Latina, como já comentado.
Assim como Canfield, Valverde também encontrou na obra de García Márquez, trechos parodiados do Diário de Colombo, o qual relata as viagens e o descobrimento da América. Ao confrontar trechos desse diário com a obra de García Márquez, ele percebeu que o escritor colombiano parodiou não só as estruturas literárias como também o modo como ocorreu o embate cultural entre os europeus e os nativos. Um trecho interessante, analisado pelo autor, diz respeito à chegada das caravelas. No texto de García Márquez, o tempo histórico é sobrepujado pelo tempo ficcional, pois o patriarca presencia a chegada das caravelas e o encontro entre as duas culturas. Ainda, em O outono do patriarca, há uma inversão da questão da alteridade, sempre vista na História pelo ângulo do europeu. No texto de García Márquez, são os nativos que se surpreendem com os europeus.68
67 CANFIELD, 1984, p.1054. 68 VALVERDE, 1992, p.23.
A religião católica teve papel fundamental na colonização da América Latina, sendo usada como instrumento de dominação, comenta Valverde. García Márquez incorporou a religião católica e fatos bíblicos, de maneira paródica, ao percurso do patriarca. Valverde afirma que muitas cenas bíblicas são retrabalhadas no romance e elevam o patriarca a um ser magnânimo. O patriarca procura elaborar sua imagem oficial como a de um ser messiânico. Nesse caso, a história oficial do nascimento do ditador institui aproximações com a história de Cristo. O autor desse estudo também nota que os nomes de alguns dos personagens estão relacionados à religião católica, sendo atualizados no livro, como o nome da esposa do patriarca, Letícia Nazareno, lembrando Jesus de Nazaré. Segundo Valverde, O outono do patriarca se configura como uma paródia da forma autoritária da efetivação da Igreja Católica no continente. García Márquez sugere no romance que tanto a estrutura política da Igreja quanto a forma autoritária com que o protagonista da obra exerce o seu poder são semelhantes.
Mario Benedetti, ao estudar os romances de García Márquez, Roa Bastos e Alejo Carpentier,69 faz uma comparação entre esses, defendendo que um denominador comum dos romances seria o uso do humor e da ironia. As três obras também apresentam, para o autor, um conteúdo revolucionário.
No livro de Carpentier, há a presença do humor e da ironia, a qual se converte em denúncia. O ensaísta ressalta que o romance de Carpentier é muito mais político que o de García Márquez, que padece do maniqueísmo. O humor de Roa Bastos está na criação verbal, manejando artisticamente o sarcasmo e a blasfêmia. O escritor paraguaio cria neologismos sarcásticos em sua narrativa. Já García Márquez propõe o mito de um patriarca que logo será demolido no decorrer da narrativa pelo uso da ironia.
Márcia Hoppe Navarro, como já comentado, defende que a obra denuncia, pelo riso e humor, uma realidade social. Nesse sentido, o humor foi um recurso usado para diluir a violência dos atos do patriarca e, ao mesmo tempo, tratar da violência cometida por regimes militares.
A forma como as críticas foram trabalhadas neste capítulo, colocadas em diálogo e tendo em vista seus pontos em comum, foi realizada com o objetivo de possibilitar ao leitor um confronto entre tais críticas e de inserir esta dissertação no contexto dos textos já existentes. Nos capítulos seguintes, parte-se para a análise do objeto de pesquisa deste estudo, O outono do patriarca. As críticas revisitadas vão
auxiliar, ao longo deste trabalho, possibilitando um entrecruzamento de análises que ora se completam, ora se confrontam com o estudo que será apresentado.