As origens do que hoje se denomina neoliberalismo aludem à Escola Austríaca, com destaque para Friedrick von Hayek, o ganhador do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 1974, considerado o propositor da base filosófica e econômica da teoria, e para Ludwig von Mises, grande defensor da liberdade econômica como sustentáculo da liberdade individual.
Para Hayek, a complexidade do sistema econômico impossibilitava seu planejamento por uma instituição, devendo, por isso, evoluir de forma espontânea, de acordo com as regras de mercado. Do mesmo modo, no campo jurídico, defendia a construção de um sistema com base nas decisões jurisprudenciais, proferidas em casos específicos, em vez de um sistema legal planejado a priori por um corpo legislativo. Na seara política, propôs a garantia das ideias liberais, enfatizando um governo limitado.166
Torna-se importante assinalar que, na obra ‘O Caminho da Servidão’ (The Road to
Serfdom), publicada em 1944, Hayek procurou demonstrar que a intervenção no livre
mercado, por meio de um sistema central de planejamento conduziria ao uso da força pelo
165 CHACON, Vamireh. Neoliberalismo e globalização. Cultura Brasil. 2011. Disponível em:
<http://www.culturabrasil.org/neoliberalismoeglobalizacao.htm>. Acesso em: 15 jan. 2009.
166 HAYEK, Friedrich August. O caminho da servidão. Tradução e revisão por Anna Maria Capovilla, José
governo, que precisaria impor suas medidas, as quais ensejariam a supressão de quase todas as liberdades civis e implicariam o empobrecimento do homem e sua consequente servidão. Assim, apenas em uma sociedade livre, na qual o mercado estivesse submetido somente às relações entre particulares, seria possível conjugar o progresso econômico com as liberdades civis.167
Acerca da nova ideologia e sobre o economista Hayek, assim disserta Anderson: O neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão, de Friedrich Hayek, escrito já em 1944. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política.168
No que concerne a Hayek, há que se mencionar também que, juntamente com outros economistas e políticos, ele fundou, em 1947, a Sociedade de Mont Pèlerin (em francês,
Société du Mont Pèlerin; em inglês, Mont Pelerin Society), organização internacional
dedicada à promoção do liberalismo, de seus valores e princípios. A Sociedade, que recebeu essa denominação em virtude da ocorrência de seu primeiro encontro na cidade suíça de Mont Pèlerin, formou-se com o objetivo de discutir um novo modelo de Estado, em defesa da liberdade de escolha, sobretudo por meio de um mercado aberto e competitivo.
É preciso observar que, na mesma época em que os fundamentos do Estado do bem- estar do pós-guerra se construíam na Europa, Hayek reuniu todos os estudiosos que compartilhavam de sua orientação ideológica. Entre os participantes, havia nomes como Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi e Salvador de Madariaga.
Os encontros internacionais da Sociedade, promovidos a cada dois anos, tinham o objetivo de preparar as bases de um capitalismo livre de regras, sob o argumento de que o igualitarismo sustentado pelo Estado do bem-estar social aniquilava a liberdade dos cidadãos e a força da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos, consoante os preceitos da ideologia. Dessa forma, indo de encontro ao consenso oficial da época, os neoliberais sustentavam que a desigualdade constituía-se em uma característica positiva.169
De acordo com Souza, as reuniões tinham por objetivo “homogeneizar as ações do empreendimento neoliberal, traçando diretrizes prospectivas de combate ao Estado socialista e
167 HAYEK, Friedrich August. O caminho da servidão. Tradução e revisão por Anna Maria Capovilla, José
Ítalo Stelle e Liane de Morais Ribeiro. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1984.
168 ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (Orgs.). Pós-
neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. p. 9.
seus congêneres, incapazes de suprir as necessidades do corpo social oriundas do colapso provocado pela Segunda Guerra Mundial”. Conclui, pois, que o legado do neoliberalismo se propagou de modo célere e eficiente entre os intelectuais, estabelecendo uma nova perspectiva sobre os projetos socialista e keynesiano, carreando partidários alinhados ao novo paradigma.170
Entretanto, em virtude do período de prosperidade vivenciado nos decênios de cinquenta e sessenta, a preocupação dos teóricos neoliberais não despertou muito interesse naquele momento. Foi apenas no decênio subsequente que a nova teoria liberal ganhou repercussão, quando o mundo capitalista imergiu em uma profunda crise. Para os teóricos neoliberais, as origens do período de baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação (estagflação) estavam na concentração de poder dos sindicatos e, de modo geral, no movimento operário, que aniquilava as bases de acumulação de capital com constantes reivindicações salariais, as quais ocasionavam o aumento dos gastos sociais.171
Quanto ao declínio do Estado do bem-estar social e a evolução da nova doutrina, assim aduzem Coelho, Branco e Mendes:
Fazendo uso, para tal efeito, da communis opinio, diremos, em resumo, que, para seus opositores, a insuficiência maior do Estado Social de Direito residiria em não ter conseguido realizar a desejada e sempre prometida democratização econômica e social, a economia do gênero humano proclamada pelos entusiastas do neocapitalismo172.
Destarte, os neoliberais propunham a reversão da crise com a adoção de medidas como as seguintes: instituição de uma disciplina orçamentária, mediante a contenção dos gastos públicos; restauração da taxa de desemprego, criando-se o que denominavam de “exército de reserva de trabalho”, com o objetivo de enfraquecer os sindicatos; e reformas fiscais. Acreditavam eles que essas diretrizes, após implementadas, incentivariam os agentes econômicos e promoveriam o retorno do crescimento.
Desse modo, pondera Anderson, a proposta dos economistas neoliberais era objetiva e consistia em “manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos
170 SOUZA, Vinicius Menandro Evangelista de. A influência das políticas neoliberais do FMI ao novo regime
de insolvência empresarial brasileiro. 2007. 218 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Programa de Pós- Graduação em Direito, Centro de Ciências Jurídicas. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2007. p. 23-24.
171 ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (Orgs.). Pós-
neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010, p. 10.
172 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de
sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas”.173
Deve-se observar que a adoção do programa dos teóricos foi paulatina, realmente efetivada na Inglaterra, em 1979, no governo da Primeira-Ministra Margareth Thatcher, e, a seguir, em 1980, nos Estados Unidos, por intermédio do governo do Presidente Ronald Reagan. Posteriormente, a doutrina neoliberal consolidou-se no mundo capitalista: na Alemanha, em 1982, Khol venceu o regime social liberal de Helmut Schimidt; no ano seguinte, a Dinamarca foi controlada pela coalizão de direita, no governo de Schuld. Em seguida, a maioria dos países do Norte da Europa ocidental aderiram à ideologia neoliberal, exceto a Suécia e a Áustria. 174
Essa ampla adesão assumiu proporções que foram além da crise econômica mundial. Com efeito, em 1978, a segunda guerra fria eclodiu com a intervenção soviética no Afeganistão e com a decisão dos Estados Unidos de impulsionar uma nova geração de foguetes nucleares na Europa ocidental, evidenciando que o movimento neoliberal incluía o anticomunismo como elemento central de sua pregação e que a variante norte-americana priorizava a competição militar com a União Soviética. 175
É importante observar que tais fatores fortaleceram o poder de atração do neoliberalismo, consolidando a prevalência da direita na Europa e na América do Norte, pois o confronto com o movimento comunista era considerado o combate contra o império do mal, a servidão mais completa de acordo com Hayek.176
Em seguida, acrescenta Anderson que, apesar da resistência inicial, França e Grécia também aderiram à nova ideologia, que alcançou uma verdadeira hegemonia, embora com variações, sendo o modelo inglês o mais puro. Assinale-se que, nas gestões de Thatcher, houve contração da emissão monetária, elevação da taxa de juros, drástica redução dos tributos sobre altos rendimentos, extinção dos controles realizados sobre os fluxos financeiros, criação de níveis de desemprego massivos, repressão de greves, imposição de nova legislação antissindical, contenção de gastos e, principalmente, criação de amplo programa de privatização, pacote este considerado o mais sistemático e ambicioso de todas as experiências neoliberais em países de capitalismo avançado. Nos demais países do continente
173 ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (Orgs.). Pós-
neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. p. 11.
174 Ibid., p. 11. 175 Ibid., p. 12. 176 Ibid., p. 11-12.
europeu, os governos praticaram um neoliberalismo mais moderado, concentrando-se na disciplina orçamentária e nas reformas fiscais. 177
Já na versão norte-americana, a prioridade da doutrina era a concorrência no campo bélico com a União Soviética, planejada como estratégia para aniquilar a economia do bloco e, assim, derrubar o regime comunista. Internamente, o governo do presidente Ronald Reagan também adotou medidas para reduzir os tributos em favor dos ricos e elevar as taxas de juros bem como reprimiu a greve mais séria ocorrida durante sua gestão. Entretanto, não foi capaz de seguir a disciplina imposta para o orçamento, além de que a corrida armamentista provocou enormes gastos, que geraram um défice público sem precedentes.178
A América Latina, por seu turno, também passou pela experiência neoliberal, iniciada no Chile, um decênio antes da Inglaterra, no governo de Pinochet, que implementou medidas bastante severas de desregulação, desemprego, repressão sindical e privatização de bens públicos. Ressalte-se que a inspiração teórica no Chile concentrava-se na corrente norte- americana de Friedman. O neoliberalismo chileno pretendia o fim da democracia, a qual não constituía valor importante para a doutrina neoliberal. Isso porque esta doutrina considerava a propensão de liberdade e democracia tornarem-se valores incompatíveis, caso a maioria dos cidadãos optasse pela interferência em direitos de agentes econômicos de dispor de suas rendas e de suas propriedades.179