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O discipulado é apresentado por Padilla como a outra face que complementa o primeiro aspecto da M.I. O Pacto de Lausanne apresenta essa mesma visão sobre o discipulado como um elemento indispensável que está contido na evangelização. Pode- se constatar esse fato na seguinte afirmação:

Ao fazermos o convite ao evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo a negar-se a si mesmos, tomar a sua cruz e identificar-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo (STOTT, 2003, p.41).

Esta face, o discipulado, tem a sua importância e destaque dentro do primeiro tópico na definição de Padilla, também pelo fato de a M.I. compreender que embora ainda existam desafios no campo da evangelização, após a Segunda Guerra Mundial houve um crescimento considerável do cristianismo, que ocorreu também em outras religiões. Para Padilla o ser humano tem migrado de forma massiva para as religiões, por vivenciar um vazio metafísico que a tecnologia não pode preencher; mesmo com todo avanço tecnológico experimentado nas últimas décadas. (2014, p.158).

Na compreensão do autor (PADILLA, 2014) este aumento considerável que ocorreu no número de cristãos e também em outros movimentos religiosos no terceiro mundo pode ser entendido como um resultado do impacto da civilização ocidental e uma reação a ela. Este aumento, porém, aos olhos de Padilla tem trazido um sincretismo religioso nesse movimento massivo do homem rumo à espiritualidade.Por esta razão ele afirma: “talvez a necessidade mais urgente relacionada com o rápido crescimento da igreja seja uma nova ênfase num discipulado cristão que inclua a submissão de toda a vida ao senhorio de Jesus Cristo” (PADILLA, 2005, p.143).

Embora esse crescimento da igreja tenha um papel importante para o aparecimento do discipulado dentro do primeiro enfoque, pode-se dizer que o principal motivo para o discipulado aparecer como missão da igreja advém do texto bíblico sobre a “Grande Comissão” no qual está escrito: “E, aproximando-se Jesus, falou-lhes: Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinado-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei; e eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt.28.18-20).

Este texto, que é tido como a Grande comissão, tem norteado o agir missionário da igreja ao longo dos anos de sua existência. Uma compreensão vigente deste texto é que ele tem como seu eixo central o “Ide”. Nessa perspectiva a missão é associada exclusivamente ao ato de cruzar fronteiras geográficas; porém, segundo Steuernagel: “a pergunta que se faz é se é possível isolar o “ide” do seu contexto e construir sobre ele, por exemplo, uma teoria de evangelização que tenha uma forte ênfase na locomoção geográfica” (1994, p.81).

A M.I. entende a Grande Comissão como um mandato ao discipulado universal. Ela parte da compreensão de que o centro da Grande Comissão é o “fazei discípulos”.Dentro dessa ótica o “ide”, o “batizando” e o “ensinando” se referem ao “como”; o modo pelo qual se faz discípulos.Deve-se salientar que no original grego os

três verbos citados acima estão no particípio.Sendo assim, uma possível tradução do “ide” seria “indo”, dessa forma o “ide” se configura como um imperativo que está conjugado às outras duas ordenanças, não podendo assumir um sentido central isolado.Dessa forma, a Grande Comissão traz o discipulado como seu centro, e tem como objetivo levar Jesus, o Senhor, para todas as pessoas, em todos os lugares.

Considerando ainda os outros verbos dessa comissão, “batizando” e “ensinando”, deve-se destacar que estes não podem ser entendidos como elementos separados do processo do discipulado, pois eles são, segundo Steuernagel: “parte integral do mesmo e constituem o todo do nosso envio missionário ao mundo” (1994.p.81). Como resultado desta análise, qualquer segmentação entre evangelização, discipulado e serviço perde o sentido, pois a tarefa de “fazer discípulos” engloba a totalidade da fé e da vida, colocando os discípulos em um relacionamento constante e permanente aprendizado, e de confiança e dependência de Jesus. Bonhoeffer define esse processo e discipulado da seguinte forma:

O discipulado é comprometimento com Cristo; por Cristo existir, tem que haver discipulado. Uma concepção de Cristo, um sistema doutrinário, um conhecimento religioso geral da graça ou do perdão não implicam necessariamente o discipulado; na realidade, excluem- no, são hostis a ele. Com a ideia pode-se ter uma relação de conhecimento, de admiração – talvez até mesmo de realização -, mas nunca a relação de discipulado pessoal e obediente. Cristianismo sem Jesus Cristo vivo permanece necessariamente um cristianismo sem discipulado; e cristianismo sem discipulado é sempre cristianismo sem Jesus Cristo; é uma ideia, um mito. (BONHOEFFER, 2011.p.22). Ao analisar o texto de Mt 28.18-20 nota-se que ele inicia afirmando a autoridade de Jesus e é seguido por um “portanto” que constrói uma de ponte entre os versos 18 e 19.Essa estrutura apresenta o fato de que a igreja é comissionada por Jesus a partir da autoridade dEle.Sua missão parte da autoridade de Jesus, e caminha com a promessa de presença constante até o fim; inicia-se em Jesus e termina com Ele.

Esse aspecto de serem a missão e o discipulado frutos da divindade é um elemento fundamental na M.I., que encontra suas bases tanto no texto bíblico citado acima com em toda a teologia bíblica. A partir daí a M.I.entende o início de suas ações missionais. A origem de sua missão está na Missio Dei (Missão de Deus). Timóteo Carriker, em seu livro “Missão Integral: Uma teologia Bíblica” no qual discorre sobre os fundamentos da teologia da M.I., apresenta a missão tendo como fundamento Deus, sendo ela, antes de tudo, fruto da Missio Dei. Carriker faz a seguinte afirmação:

Através de toda a revelação veterotestamentária, se torna patente que o principal ator no drama é Deus. “No princípio criou Deus ...” É Deus quem cria, quem julga, quem age, quem escolhe, e quem se revela. Ele é ativo não só na criação, mas também nos julgamentos, na libertação do seu povo do Egito, nas exortações dos seus profetas e na promessa de restauração vindoura. Ele é o único e verdadeiro Deus que deseja que sua glória seja conhecida nos céus (Salmo 19) e nas extremidades da terra(Isaias 11.9). Portanto, antes de ter uma conotação humana que fala da tarefa da igreja, “missão” é uma categoria que pertence a Deus. A missão, antes de ser da igreja, é missio Dei. Esta perspectiva nos guarda contra toda atitude de auto-suficiência e independência na tarefa missionária. (CARRIKER.1992, p.162e163).

Este conceito de missio Dei teve sua primeira articulação com Karl Barth. Ele se tornou um dos primeiros teólogos a trabalhar o tema missão como uma atividade de Deus. Ele pode ser considerado o primeiro pensador a desenvolver “um novo paradigma teológico que rompeu radicalmente com uma abordagem iluminista da teologia”(BOSCH,2002.p.467). A compreensão da missão como missio Dei, desenvolvida por Barth, foi aderida por quase todas as ramificações cristãs, incluindo também os evangelicais da Missão Integral.

Segundo Bosch, falando sobre a importância de Barth no conceito de missio Dei: “Sua influência no pensamento missionário atingiu o auge na conferência do CoMIn ocorrida em Willingen (1952). Foi lá que a ideia (não o termo) da missio Dei emergiu pela primeira vez de maneira clara. Compreendeu-se a missão como derivada da própria natureza de Deus.” (2002.467).

Missão passou a ser compreendida a partir da Trindade, e não da igreja ou da salvação. Na missio Dei a compreensão do Deus Pai, que enviou o Filho, e o Deus Pai junto com o Filho, que enviou o Espírito, deu continuidade apresentando mais um movimento, que é: o Deus Pai, juntamente com o Filho e o Espírito Santo enviando a igreja ao mundo. Sendo assim a existência e sobrevivência da missão advêm do Deus Triuno.

O elemento distintivo que essa compreensão traz é que a missão é apresentada como um atributo de Deus. Ele é O missionário, e a igreja por sua vez é entendida como um instrumento para realização dessa missão. Bosch corrobora com essa visão dizendo: “Participar da missão é participar do movimento de amor de Deus para com as pessoas, visto que Deus é uma fonte de amor que envia” (2002, p.468).

Nessa visão, o propósito primeiro da igreja deixa de ser exclusivamente a implantação de igrejas e a salvação de almas, e passa a ser fazer discípulos que representam o Deus Trino frente ao caos humano. Essa visão segundo Bosch “Poderá,

pela graça de Deus, resultar em um mundo mais humano, que jamais, contudo, pode ser compreendido como um produto meramente humano – o autor efetivo dessa história humanizada é o Espírito Santo.” (2002, p.469).

A compreensão sobre missio Dei colaborou para que a igreja entendesse que nem ela nem qualquer outro agente humano pode se imaginar como dono da missão. Pois ela (a missão) é, antes de tudo, a ação de Deus Triúno, que é o Criador, mas também aquele que redime e santifica por amor ao mundo, e a cada membro da igreja de Cristo está reservado o privilégio de ser um coparticipante dessa missão ao se colocar como discípulo.

Sobre a implicação da missio Dei nas questões de Desenvolvimento e Justiça, Bosch traz a seguinte afirmação:

Quando se refere à ordem social e ao seu desenvolvimento no sentido de servir o bem comum, que “o Espírito de Deus”, que dirige o curso da história com providência admirável e renova a face da terra, está presente a esta evolução. [...] esse progresso é de grande interesse para o reino de Deus, na medida em que contribui para organizar a sociedade humana. (2002.p.469).

Sendo assim, pode-se dizer que na compreensão da missio Dei as “evoluções” e “desenvolvimentos sociais”, que promovem o bem comum, são do interesse divino, pois entende seu valor por expressar o Reino de Deus ao colocar em ordem o caos instaurado pelo pecado na humanidade, agindo assim para uma reorganização social e individual, pois reconhece que o pecado afetou não apenas esferas individuais e internas dos seres humanos, mas também sociais e externas a ele, criando estruturas injustas e opressoras. Neste ponto vê-se o discipulado assim como a evangelização possuindo implicações de desenvolvimento e justiça.

Voltando o olhar para o texto da “Grande comissão” novamente pode-se ver que ele apresenta uma mensagem de “totalidade” quanto à tarefa evangelizadora. É interessante notar que a palavra “todo” aparece quatro vezes na passagem bíblica: “Toda a autoridade”, “todas as nações”, “todas as coisas que vos ordenei” e “estou convosco todos os dias”. Duas totalidades se referem a Jesus e as outras duas à missão da igreja. Ela recebe a missão de fazer discípulos em todas as nações, batizando em nome da trindade, e de ensinar-lhes a obedecer a todas as coisas, mas tudo isso debaixo de toda autoridade recebida por Jesus e da promessa de sua presença em todos os dias. Segundo Steuenegel: “Não é pouca coisa que se promete, mas também não é pouca coisa que se espera daqueles a quem se diz “Ide, portanto”” (1994.p.81).

A grande comissão reforça a máxima da M.I. de levar o evangelho todo, ao homem todo e a todo o mundo, pois apresenta uma evangelização que busca um discipulado e isto afeta a totalidade da vida humana, indo das esferas individuais e íntimas até as coletivas e comuns. Nessa interpretação da Grande Comissão é apresentada uma evangelização que é pessoal, mas que possui implicações no coletivo; é individual, mas que reflete e toca na vida social; e é uma mensagem que traz um desafio de comprometimento com a justiça e desenvolvimento humano e social. Bonhoeffer afirma que: “A resposta ao discipulado não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência (2011.p.20) .

Nesta compreensão do texto esse discipulado resulta em uma igreja enraizada na comunidade global dos seres humanos que dialoga com sua realidade e trabalha para que os seres humanos possam ter uma vida justa e digna. A relação entre discipulado e a formação de igreja é muito estreita e fundamental. Deve-se reconhecer que muitas vezes a evangelização se tornou uma mensagem muito individual e transcendente, esquecendo-se assim do social/coletivo e imanente, deixando de lado o valor da comunidade dos discípulos, batizados e, consequentemente, o serviço desta comunidade aos propósitos de Deus também foram deixados. Porém, quando a grande comissão é interpretada de forma a conectar todos os imperativos ao discipulado, a evangelização cumpre seu papel tanto pessoal como coletivo, tanto individual quanto social sendo assim um elemento gerador de uma busca por desenvolvimento e justiça. Steuernagel afirma que: “A descoberta de que a evangelização, a comunidade dos batizados e os serviços desta comunidade aos propósitos do Deus Trino estão inter-relacionados tem enriquecido a nossa caminhada evangelizadora nestas últimas décadas. (1994.p.80-82)

Benzer Belgeler