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3.2.1 Objeções gerais especistas à zooética

A primeira objeção especista geral pode ser denominada “analogia de Taylor”. Esse autor escreveu um livro com o intuito de dizer que caso as ideias acerca da emancipação feminina presentes no livro VindicationoftheRightsofWomen [1792] fossem consideradas lógicas e plausíveis, o que para ele era, simplesmente, absurdo, também deveriam ser aceitas as ideias correlatas de emancipação dos cães, gatos e outros animais. Esse filósofo utilizou essa analogia no intuito de afirmar a falta de senso criterioso da reivindicação pela liberdade feminina e não de dizer que poderia ser correta a emancipação também dos animais de outras espécies. O que se pode extrair dessa analogia é o seguinte questionamento: homens e mulheres são semelhantes e podem até dever possuir os mesmos direitos, mas aos animais não-humanos, sendo eles tão diferentes dos seres da espécie humana, não faz sentido garantir reivindicar alguma equiparação moral. Apesar de ser uma elaboração racional, essa objeção não se sustenta por muito tempo, na medida em que já foi declarado que a igualdade é uma ideia moral e não factual, ou seja, a equiparação de um grupo a outro, do ponto de vista moral, não necessita da igualdade factual e não implica em tratá-los, necessariamente, de maneira idêntica.103

Outra objeção especista geral é proposta, principalmente, contra a alegação de Peter Singer de que o principal fator que faz com que seja errado infligir dor e/ou sofrimento a alguém é esse alguém ter a capacidade de sentir variadas sensações, sejam elas positivas [prazer] ou negativas [dor], em outras palavras, a senciência. Essa objeção trabalha no sentido de questionar se é, verdadeiramente, certo que os animais de outras espécies têm tanta capacidade de sentir prazer e/ou dor quanto os seres humanos. Tal questionamento leva em consideração a perspectiva de Aristóteles e René Descartes, em que a questão animal é sempre colocada em termos de pensamento ou linguagem, ou seja, com base em poderes racionais. Por essa visão, os animais de outras espécies são vistos como autômatos inconscientes, desprovidos de pensamentos, de sentimentos ou vida mental.

103

LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos animais: fundamentação e novas perspectivas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Ed., 2008. p. 365.

É verdade que a única coisa que cada indivíduo sabe é que é capaz de sentir dor, não há garantias de que outro ser, seja humano ou não, de relação mais próxima ou mais distante, sinta dor. Apesar disso, o reconhecimento da dor no outro é uma inferência antiga que as sociedades usam para que as pessoas possam conviver. Essa inferência baseia-se em critérios de comportamento, em sinais externos que cada um que sente dor revela, e em conhecimento científico. Em outras palavras, sei que o outro sente dor pela maneira como se comporta e sei que me comporto de um jeito parecido.104 E esses sinais são bem

próximos, senão iguais, entre todos aqueles que sentem dor. Isso inclui, pelas observações já feitas, animais não-humanos. Peter Singer explica:

Quase todos os sinais externos que nos levam a inferir a existência de dor em outros seres humanos podem ser observados em outras espécies, sobretudo nas espécies mais intimamente relacionadas a nós: os mamíferos e as aves. Os sinais comportamentais incluem contorções, contrações do rosto, gemidos, ganidos, ou outras formas de apelos, tentativas de evitar a fonte da dor, demonstrações de medo diante da perspectiva de repetição, e assim por diante.105

Além do argumento da inferência, que serve tanto para os seres humanos, quanto para os outros animais, tem-se o fato científico de que o sistema nervoso de todos os vertebrados é semelhante, o que significa que funciona, muito provavelmente, de maneira equivalente, gerando as mesmas reações quando estimulado de modo parecido. A parte do sistema nervoso responsável pela sensação de prazer e/ou dor é antiga, em termos de evolução, o que indica que não importa o grau de simplicidade ou, ao contrário, de complexidade do ser, a capacidade de experimentar sensações é, provavelmente, similar. Novamente, Peter Singer orienta os leitores:

[...] Sabemos que esses animais possuem sistemas nervosos muito semelhantes aos nossos, que respondem fisiologicamente como os nossos, quando se encontram em circunstâncias em que sentiríamos dor: elevação inicial da pressão sanguínea, pupilas dilatadas, transpiração, aceleração do pulso e, se o estímulo continuar, queda da pressão sanguínea. Embora os seres humanos possuam um córtex cerebral mais desenvolvido que outros animais, essa parte do cérebro está mais relacionada com as funções do pensamento do que propriamente com os impulsos básicos, emoções e sensações.106

Também outra justificativa para o reconhecimento, pelos seres humanos, de que os outros animais sentem prazer e/ou dor, tanto quanto eles próprios, é que a dor, biologicamente, teve e ainda tem uma utilidade evidente. Sentir dor aumenta muito a

104

SINGER, Peter. Ética prática. 3ª ed. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.p.

79. 105

Idem. Libertação animal. Ed. rev. Tradução de Marly Winckler. Porto Alegre, São Paulo: Lugano, 2004.p. 13.

106

chance de sobrevivência da espécie, pois faz com que os seres que a sentem busquem, insistentemente, livrar-se dela, evitando danos físicos em seus corpos. Por tal motivo, fica cada vez mais difícil, para aqueles que propõem esse tipo de objeção, continuarem a pensar que seres com sistemas nervosos virtualmente idênticos, do ponto de vista fisiológico, têm reações tão diferentes no nível das sensações subjetivas.

Mais uma objeção especista geral é a contraposição conhecida como “argumento da cadeia alimentar” ou “argumento Benjamin Franklin”. Em síntese, essa objeção declara que pode não ser considerado, exatamente, um erro matar animais de outras espécies, visto que os próprios animais não-humanos fazem isso entre si, com diferentes interesses e de diferentes formas. O nome de Benjamin Franklin está presente no argumento porque em sua autobiografia ele relatou o seguinte episódio: havia se tornado vegetariano, mas certa vez, quando estava com alguns amigos e esses foram preparar peixes para comer, um dos amigos partiu o peixe e descobriu que dentro dele havia outro peixe. Isso fez com que ele mudasse sua ideia sobre o erro humano de consumir outros animais, pois ele passou a reconhecer que isso é natural, até os próprios animais não-humanos possuem esse hábito.

Muito embora essa objeção também preencha os requisitos da racionalidade e da lógica, ela não é boa o suficiente para não ser respondida e, portanto, deixar o argumento da equiparação moral dos animais humanos com os outros animais sem credibilidade. São três as principais respostas oferecidas pelo autor australiano Peter Singer. Primeiramente, ele alega que, no caso dos outros animaisque não os humanos, se eles não caçam para comer, ou seja, se eles não matam outros animais para o benefício próprio, eles perecem. Já no caso humano, isso não é o caso, os seres humanos, principalmente hoje, nas sociedades industriais, não necessitam, em nenhum sentido, de consumir outros animais sencientes, sua alimentação é satisfatória sem eles. Em segundo lugar, o autor considera um tanto quanto oportunista o uso desse argumento, sendo que, na maioria das vezes, a maneira do homem referir-se aos outros animais é condenatória da sua natureza selvagem e não os utilizando como exemplo para nada, especialmente para as decisões morais. Finalmente, o filósofo alega que os animais de outras espécies não são racionais o suficiente para ponderarem sobre alternativas viáveis para sua vida, por meio das quais não seja necessário

matar seres vivos animais, e para agir eticamente.107 Portanto, não são modelos para

tomadas de decisões morais.

Na tentativa de diferenciar indivíduos humanos de indivíduos não-humanos, outra alegação é que os seres humanos devem ter direitos diferenciados [mais fortes] em virtude do fato simples de serem pessoas. No entanto, se se considerar que pessoa é, como utilizado por Peter Singer na sua teorização sobre o valor da vida, todo ser racional e autoconsciente, exige-se que se reconheça que existem muitos seres humanos que não são pessoas, a exemplo do bebê recém-nascido e do ser humano adulto com intensas debilidades mentais, e, na mesma medida, que muitos animais de outras espécies são capazes de expressar tais características. Isso significa que atribuir o valor especial do ser humano à sua pessoalidade não é, a princípio, aceitável, mesmo do ponto de vista empírico.108 A resposta a essa

argumentação pode ser chamada, ainda que não totalmente certa, de “argumento dos casos marginais”.

Esse debate une-se a outro similar, e tão importante quanto, qual seja a outra resposta dada ao argumento, a resposta de que os humanos são especialmenteimportantes, quando comparados às outras espécies, porque são capazes de retribuírem aos comportamentos morais, em outras palavras, são capazes de invocar e compreender a ideia de direitos morais. Da mesma maneira como alegado, anteriormente, é possível usar os casos marginais humanos para refutar essa afirmação, pois um expressivo número de seres humanos não é capaz de compreender, tampouco retribuir, qualquer ação moral, devido às suas limitações mentais, nem por isso são considerados inferiores ou são destituídos de garantias individuais. As palavras de Peter Singer sobre esse tema são as seguintes:

Ao nos voltarmos para a questão da justificação, podemos ver que as considerações contratuais da ética têm muitos problemas. Claramente, tais considerações excluem da esfera ética muito mais do que os animais. Uma vez que os seres humanos com deficiências graves são igualmente incapazes de um comportamento recíproco, devem ser também excluídos. O mesmo se aplica aos bebês ou às crianças muito novas; mas os problemas da concepção contratual não se limitam a esses casos especiais. De acordo com essa concepção, a principal razão para se celebrar o contrato ético é o interesse pessoal. A menos que um novo elemento universal seja

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Uma curiosidade, mas que diz muito sobre a capacidade do ser humano de se convencer e convencer os demais em relação a tudo o que queira eleger como ação, foi o comentário adicional de Benjamin Franklin a essa nova tomada de decisão. Ele disse, em sua autobiografia, que só pensou dessa maneira após o peixe já estar na frigideira e com um cheiro delicioso. Além disso, disse que uma das vantagens de ser uma “criatura racional” é poder encontrar razão para tudo o que se queira fazer. SINGER, Peter. Ética prática. 3ª ed. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.p. 81.

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REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais.Tradução de Regina Rheda. Porto Alegre: Lugano, 2006.p. 55.

introduzido, um grupo de pessoas não tem motivos para lidar eticamente com outro, desde que não seja de seu interesse fazê-lo. Se levarmos isto a sério, teremos de rever drasticamente os nossos juízos éticos.109

No caso do filósofo Tom Regan, ele afirma que existem várias maneiras possíveis para se refutar essa objeção feita, mas, para mencionar, basicamente, duas, ele escreve o seguinte:

Nós observamos, primeiro, que não exigimos que as pessoas respeitem nossos direitos antes de reconhecermos os direitos delas. Por exemplo, nós não exigimos isso no caso das crianças pequenas. Segundo, mesmo que uma criança faça algo que fira alguém (por exemplo, acione uma arma causando a morte de uma pessoa), nós não dizemos “Pronto, agora está estabelecido: esta criança não tem direito algum!” Claro que ninguém diz isso. Nem deveríamos nós, quando o mal for causado por leões – ou por qualquer outro animal, aliás.110