• Sonuç bulunamadı

Cabe ressaltar que a proposta sobre a apropriação forte do conhecimento incorpora uma série de princípios, que de acordo com os autores, deveriam ser úteis na formulação das políticas em ciência e tecnologia e na busca pelo empoderamento dos cidadãos.

Por outro lado, verifica-se que os princípios propostos estão profundamente relacionados com a ética da pesquisa envolvendo seres humanos e com seu controle social. A seguir será realizado o diálogo entre os cinco princípios da apropriação forte do conhecimento e as atividades de monitoramento crítico da sociedade sobre as pesquisas.

O princípio da complexidade é o primeiro a ser considerado. Denota a geração de políticas públicas que priorizem a produção do conhecimento como uma “empresa social e coletiva” (128) (p.31), apontando para a atuação recíproca entre especialistas e não especialistas. Note-se que neste primeiro princípio, a apropriação social revela-se como elemento essencial dos processos científico-tecnológicos, portanto, a incorporação da sociedade deverá dar-se desde a origem dos projetos investigativos.

Neste sentido, é plausível uma análise prévia do entorno social da comunidade a quem será dirigida a política ou o projeto científico-técnico, fundamentada na reflexão sobre a realidade vivenciada pelos cidadãos. Em outras palavras, consciência sobre a situação de vulnerabilidade social e à presença de múltiplos fatores nos países em desenvolvimento que catalisam a tal situação.

O segundo princípio assinalado é o princípio dos limites, alicerçado na explanação, não somente dos benefícios e vantagens dos projetos, mas também dos riscos e possíveis danos que este implica. Verifica-se a interconexão deste princípio com a relevância do consentimento informado e o papel dos comitês de ética em pesquisa na avaliação, tanto da redação deste documento quanto do processo de obtenção do consentimento informado, aperfeiçoando a proteção aos sujeitos participantes.

Tendo a proteção dos sujeitos de pesquisa como eixo fundamental, é preciso atentar para o entendimento sobre a presença de diversos grupos de interesse na sociedade. Tal como assentado por Callon, “a ciência é um bem público (...) fonte da diversidade e da flexibilidade” (130) (p. 424) (tradução livre). Deste modo, torna-se relevante a identificação de grupos de interesse, visando a compreensão de sua cultura e permitindo uma adoção da linguagem adequada para atingir uma participação cidadã qualificada e para que sejam realizadas as adequações pertinentes nos consentimentos informados.

Um exemplo consiste na formulação de estratégias dirigidas à população usuária de hospitais públicos e clínicas privadas, que são envolvidas em pesquisas, favorecendo o reconhecimento dos benefícios, riscos e custos associados a um determinado projeto.

O princípio da transparência é o terceiro princípio apontado, que implica evidenciar o caráter polémico dos processos científicos e tecnológicos, revelando a presença inerente de interesses de tipo político, econômico e social nos processos de geração de novo conhecimento. Esse raciocínio materializa- se na abertura de espaços de deliberação e polémica em torno das pesquisas envolvendo seres humanos.

Neste contexto, é necessário refletir que existe uma linha tênue entre uma infração ética e uma violação aos direitos humanos, portanto, para perceber a diferença entre elas, o cidadão deverá estar informado sobre a operacionalização das práticas científicas, sua repercussão no âmbito social e o inerente respeito dos princípios éticos. Assim, um método para fortalecer a transparência, fundamenta-se no fornecimento de espaços para o acolhimento de denúncias que tem lugar no desenvolvimento das pesquisas e a divulgação dos eventos adversos decorrentes das intervenções testadas.

Já no que diz respeito ao quarto princípio sobre o intercâmbio democrático, destaca-se a abertura de espaços de participação durante o planejamento e desenvolvimento das pesquisas; esses espaços implicam ir além da divulgação de fatos ou de uma comunicação unidirecional, estabelecendo uma comunicação simétrica com a sociedade.

Para tal fim, é necessário dirigir esforços ao fortalecimento da participação cidadã qualificada. Exemplo disto é a representação dos usuários nas deliberações dos comitês de ética. Entende-se que a incorporação de incentivos, seja de tipo econômico ou educativo, evitaria o exercício de um controle social fragilizado.

É necessário esclarecer que estes mecanismos não se devem considerar como coerção, toda vez que a participação nestes debates precisa algum tipo de reconhecimento social, considerado como o último princípio da apropriação forte do conhecimento. Ressalta-se que este tipo de reconhecimento promove a inovação inclusiva, ou seja, a incorporação da sociedade desde a concepção do projeto até seu desenvolvimento e conclusão.

A relevância das contribuições da sociedade revela-se, particularmente, em evitar a realização de pesquisas fúteis para os cidadãos; um leigo poderá orientar um pesquisador a partir de seus conhecimentos prévios contribuindo para que as atividades científicas sejam propensas à solução das necessidades reais da sociedade.

No entanto, estas assertivas diferem muito da realidade. Em relação à participação de membros leigos nos comitês de ética na Colômbia, foi publicado em 2014 um estudo que avaliou desde a perspectiva destes membros sua experiência, significado de sua participação, relação com outros membros do comitê e relacionamento com a comunidade em cinco instituições de saúde da cidade de Bogotá (131).

Realça que as pessoas entrevistadas informaram um tempo de permanência nos comitês entre dois e seis anos, fato que denota sua experiência. No entanto, também informaram que foram indicados pelos coordenadores das instituições, prescindindo de processos seletivos (131).

Um dado que chama a atenção é que todos os membros entrevistados coincidiram em afirmar que seu trabalho no comitê é “abstrato e afastado da comunidade” (131) (p.134). Ao se perguntar sobre o conceito de comunidade, os

leigos mencionaram os pacientes, os usuários e os estudantes, porém, nenhum membro identificou os sujeitos de pesquisa.

Por outro lado, qualificaram suas próprias intervenções como tímidas e precárias, neste sentido, os membros são tidos como simples observadores e destacaram a grande admiração que expressam pelos membros médicos do comitê, portanto, existe tendência a acolher-se ao consenso maioritário sem necessidade de estabelecer deliberações (131).

Diante esses resultados, a autora defende a premissa que a participação de membros leigos nos comitês de ética está marcada pelo paternalismo e a falta de autonomia (131). É possível afirmar que o controle social exercido desde os comitês de ética em pesquisa colombianos, é totalmente fragilizado e devem-se fornecer estratégias para sua capacitação, tal como proposto nos princípios da apropriação forte do conhecimento.

Em suma, é possível defender que as deliberações sobre os conflitos éticos decorrentes das pesquisas envolvendo seres humanos devem-se incorporar nas linhas de ação das políticas sobre apropriação social do conhecimento. Tal como explanado, a consideração de elementos como a vulnerabilidade social, a relevância da vigilância do processo de obtenção do consentimento informado, a abertura de espaços de denúncia sobre desvios éticos e/ou eventos adversos decorrentes das pesquisas, e a promoção para a participação cidadã no controle social das pesquisas são elementos ligados à inclusão social afastando-se da simples publicação dos conhecimentos.

Uma vez demarcada a interconexão do controle social e ético das pesquisas com a apropriação social do conhecimento, discorrer-se-á brevemente sobre as perspectivas adotas por Colciencias sobre apropriação social, tanto nos seus instrumentos de medição e avaliação, quanto nas suas políticas.

2.3.6 PERSPECTIVAS SOBRE A APROPRIAÇÃO SOCIAL DO

CONHECIMENTO NOS INSTRUMENTOS DE MEDIÇÃO E AVALIAÇÃO DE COLCIENCIAS

De Greiff e Maldonado preconizaram a ambiguidade do conceito de apropriação social do conhecimento nos instrumentos de medição e avaliação

das atividades científicas e tecnológicas (128). Visando o desenvolvimento da política em ciência e tecnologia, Colciencias criou dois instrumentos principais para materializar suas ações: a medição dos grupos de pesquisa e as convocações públicas para o financiamento dos projetos de pesquisa. Entende- se que o reconhecimento dos grupos de pesquisa pelo órgão, constitui-se em um dos requisitos prévios para a participação nestas convocações públicas.

Para ter um exemplo claro da persistência da dissociação entre sociedade-ciência e demonstrar a que a utilização ambígua do conceito de apropriação social do conhecimento ainda constitui-se em um desafio a ser defrontado por Colciencias, a seguir serão descritos esses instrumentos.

Benzer Belgeler