Afinal, por que as críticas dos literatos, em especial, as de Humberto de Campos, teriam incomodado tanto? Para compreendermos a questão, necessário se faz abrirmos um parêntese e conhecermos pouco deste autor e sua obra literária. Breve contato com esta promoverá inteligibilidade, fornecendo uma chave de leitura, dando sentido às inquietações
197 que tomaram conta dos febianos e, dentre eles, do Neófito mineiro que começava a se aventurar nos mares da literatura espírita nacional. Nosso ponto de partida será então procurar desvendar quem era Humberto de Campos, esse ilustre desconhecido do campo literário na atualidade. Escolhemos, desta forma, iniciar por pequena nota biográfica.
Humberto de Campos Veras nasceu no Maranhão. Ele adquiriu como literato uma das maiores popularidades da sua geração. Sua trajetória de ascensão social foi marcada pelo perambular em várias ocupações. Ele foi aprendiz de alfaiate, balconista em São Luiz, aprendiz de tipógrafo na Parnaíba, administrador de seringais em Mapuá, cidade localizada na divisa entre os Estados do Pará e o Amazonas. Neste percurso, descobriu a sua paixão literária. Em 1903, foi contratado como redator pela Folha do Norte, jornal que funcionava em Belém. Estando nesta função, escreveu uma série de artigos denunciando as condições de vida e trabalho dos seringueiros, o que lhe rendeu certa visibilidade local, contribuindo para sua contratação em 1907, então como redator-chefe no jornal Província do Pará. Campos entrou definitivamente na cena literária com a publicação de Poeira, seu primeiro livro de poesias, lançado no ano de 1910. Transferiu-se em 1913 para o Rio de Janeiro. Trabalhou inicialmente na Gazeta de Notícias e no jornal O Imparcial. Neste período iniciou a produção de contos humorísticos, escritos sob o pseudônimo de Conselheiro XX. A recepção desses textos alavancaram sua popularidade na Capital da República, tornando sua imagem autoral bastante conhecida do público leitor deste tipo de impresso. Em 1918 lançou seus primeiros livros em gêneros diferentes da poesia. Primeiramente foi publicada a obra de crônicas intitulada da Seara de Booz (1918). Meses depois, publicou Vale de Josaphat(1918), uma coletânea dos textos assinados como o Conselheiro XX. Aos 33 anos, em de 1920, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Ainda hoje é o escritor mais novo a ocupar um assento na ABL. Sua popularidade e prestígio estavam no auge guando surgiu Parnaso de
Além-Túmulo, nos primeiros anos da década de 1930. Ele escreveu neste período uma série de
crônicas, assinadas com seu nome, nas quais era também o personagem principal. Assim, fizera-se autor-ator e personagem de seus escritos. Já em 1933 escreveu um relato autobiográfico que denominou de Memórias, sendo este livro o ápice de sua produção literária em termos de aceitação de público e crítica (ROCHA, 2008, p. 21- 23).
A chegada à Capital da República foi marcada por um período de estabelecimento de articulações com atores do meio literário. A invenção do Conselheiro XX, personagem autoral transformado por Campos em uma das personalidades mais comentadas na cena carioca, representou sua carta de apresentação. Foi na roupagem dessa figura autoral de natureza
198 ficcional que Campos se tornou o escritor de uma popularidade sem precedentes (ROCHA, 2008, P. 28-30).
O Conselheiro XX foi seu pseudônimo mais conhecido, porém não foi o único. Apesar da centralidade, existiram outros, tais como: Luís Phoca, João Kaetano, Micrômegas, Hélios. A parte humorística de seus escritos foi publicada principalmente nos periódicos, Gazeta de
Notícias, O Imparcial e A Maçã119. Dentre as obras dadas à luz no suporte livro, poderíamos citar, além da já referida Vale de Josaphat, Tonel de Diógenes (1920), O Brasil Anedótico
(1927), Alcova e Salão (1927) (SALIBA, 2008, p.78).
Cabe registrar a dupla figura autoral criada por Campos, que conseguiu descolar-se, mesmo sem perder por completo a conexão, da criatura literária criada a partir do uso de um pseudônimo. Esse distanciamento é ainda maior entre os textos assinados com seu nome e o seu pseudônimo se avaliarmos que parte das crônicas publicadas sob a alcunha de Humberto de Campos tratava de temas ligados ao ideário cristão, trazendo referências a passagens evangélicas. Desta forma, Campos foi um escritor que no espectro de sua produção literária foi “do sensualismo ao espiritualismo” (ROCHA, 2008, P. 40). Conseguiu esse feito fracionando sua imagem autoral para escrever em impressos de grande circulação, voltados a públicos amplos, mas com leituras de vocações e finalidades determinadas. Seus textos eram matizados com estilos e propostas distintas para atender públicos amplos, mas segmentos específicos.
Apesar de poeta e cronista, Campos dedicou-se também à crítica literária. Ele escreveu artigos neste gênero em um período especifico de sua carreira, produzindo análises sobre obras da sua contemporaneidade de 1928 a 1930. Os textos foram escritos para jornais da grande imprensa, posteriormente sendo publicados em coletânea no formato de livro. Aliás, como a maioria dos seus escritos, constituindo-se em experiência comum a escritores de sua geração (SALIBA, 2008, p.76). Essa parte de sua produção literária revela o leitor especializado, cuja voracidade era declarada no quantitativo de obras lidas semanalmente.
Além dos gêneros literários citados, Humberto de Campos dedicou-se a textos de caráter autobiográfico. Sua obra Memórias materializa sua escrita de si. Publicada em 1933, engendrou para Campos seu apogeu como escritor. Sucesso de crítica e de público, sua recepção teve uma repercussão muito positiva. Desta forma, de 1933 a 1934, Humberto de Campos estava no auge da fama. Críticos contemporâneos seus, como João Dantas,
119Humberto de Campos, utilizando-se do pseudônimo do Conselheiro XX, foi, de 1922 a 1929, também editor da revista A Maçã, além de ser um de seus articulistas (HALLEWELL, 2005, p.438).
199 apontavam como fator de êxito do seu memorialismo o pacto de leitura estabelecido, no qual a literatura se apresentaria como realidade e não como invenção criativa (ROCHA, 2008, p. 35-37).
Os últimos cinco anos de Humberto de Campos marcaram o auge de sua popularidade. (...) Também neste período, muitas vezes Humberto de Campos expôs em suas crônicas as agruras pelas quais estava passando. Focou-se de tal modo que o discurso sobre si o transformou no personagem principal de seus escritos, traço que ganhou maior densidade com suas páginas memorialísticas. Essa literatura relacionada com o padecimento pessoal do escritor tinha grande apelo popular. (ROCHA, 2008, p. 40-41).
Campos em sua escrita de si difundiu sobre ele mesmo uma imagem multifacetada (ROCHA, 2008, p. 47). Assim, Humberto de Campos irradiou sua imagem autoral, passando da condição de ator-ator à personagem de sua obra literária. Se o movimento de Xavier foi o de transbordamento, levando determinados autores espirituais para fora do texto, permitindo a eles uma existência além da esfera literária, Campos realiza o inverso. Transformando-se em personagem vivo, ele desenvolve uma intratextualidade. Para vencer a morte, ele adentra o mundo criado pela sua narrativa. Vemos, desta forma, que ao seu modo o Cronista maranhense também inventa um regime de autoralidade compartilhada, menos pelo uso do pseudônimo Conselheiro XX e mais por conseguir ser um homem duplo, sendo ele (autor) e ele mesmo (personagem da trama).
Em 1933, um editor iniciante resolveu apostar na popularidade da literatura de massa escrita por Campos. Por aproximadamente dez anos, as publicações de suas obras representaram o maior sucesso editorial da empresa, contribuindo para alavancar a imagem da livraria no mercado editorial brasileiro. O nome do editor? José Olympio. Humberto de Campos foi assim o autor da quarta obra publicada pela recém-criada editora paulista, mas a ordem cronológica dos lançamentos não correspondeu à repercussão dos textos diante de seus leitores120. Os Párias, livro assinado pelo Escritor maranhense, foi de fato o primeiro sucesso editorial de vulto da editora Livraria José Olympio. Desta forma, Campos teria representado para Olympio “aquele autor best-seller de que qualquer novo editor precisa desesperadamente para sobreviver nos primeiros anos”. (HALLEWELL, 2005, p.438).
Ainda em 1933, o editor teria contratado a segunda edição da obra Memórias, imprimindo uma tiragem cinco vezes maior do que praticada comumente no mercado editorial
120Anteriormente, a editora José Olympio havia publicado os seguintes títulos: Conhece-te pela Psicanálise, de Joseph Ralph; Itararé, Itararé: Notas de Champanha, relato escrito por Honório de Sylos; A Ronda dos Séculos, assinado por Gustavo Barroso (HALLEWELL, 2005, 436- 438).
200 no período – 5.000, quando o esperado seria de 1000 exemplares. No início de 1934, José Olympio apresentaria um ousado projeto editorial a Campos. Fora prevista a impressão de mais de 63.000 cópias de livros do Cronista, dentre novos títulos ou reimpressões (HALLEWELL, 2005, p.438).
Não obstante, Humberto de Campos, no final de 1934, durante uma intervenção cirúrgica, morreu na sala de operações. Essa fatalidade ceifou-lhe a vida no momento de maior notoriedade. Sua morte precoce e anunciada – Campos estava gravemente enfermo e relatava por meio das crônicas seus sofrimentos – engendrou uma comoção nacional justamente porque ele naquele momento era “um dos autores mais lidos do Brasil.”(ROCHA, 2008, p. 23).
Vale salientar que, após a morte do Cronista maranhense, a editora José Olympio seguiu com seu projeto editorial voltado a publicações de seus livros. Desta forma, em 1934, ano da morte de Campos, foram publicados seis títulos e reimpressos mais 15. Na sequência, foram dados à luz sete títulos em 1937, três em 1938, 13 em 1939 e quatro em 1940. A editora paulista, no conjunto, publicou nestes anos aproximadamente meio milhão de exemplares de obras de Humberto de Campos (HALLEWELL, 2005, p.439).
Diante do cenário apresentado, dos elementos biográficos com dados sobre Humberto de Campos, o autor e sua obra, precisamos recompor algumas informações para articular nossas análises. Chico Xavier, no texto prefacial de Parnaso de Além-Túmulo, com o título de
Palavras Minhas, afirma-se poeta e amante das letras, portanto um “leitor”, apesar de sua
escolarização formal restringir-se ao nível primário. Partindo deste dado concreto emitido pelo próprio Xavier, poderíamos realizar algumas conjecturas. Humberto de Campos era no período, nas décadas de 1920 e 1930, o escritor mais famoso de sua geração. Parte significativa da obra literária escrita pelo popular cronista representava em realidade coletâneas dos artigos publicados em jornais de grande circulação nacional, replicados na impressa local por todo o País. Sua produção estava, desta forma, acessível a um público bastante amplo.
É possível estabelecer entre Campos e Xavier algumas aproximações. Existem características literárias das produções de Campos que podem ter sido apropriadas nos escritos psicográficos do Medium. A própria questão da imagem autoral multifacetada representa um elemento comungado por ambos, pois cada qual, ao seu modo, possuía múltiplas representações autorais. O propósito de fazer-se personagem pode ser identificado como mais uma convergência, apesar de existirem aqui especificidades que os distanciam.