3. ÇOK KRİTERLİ KARAR VERME YÖNTEMLERİ AHP VE VIKOR
3.1. Analitik Hiyerarşi Prosesi (AHP)
Restam-nos ainda as análises de romances que cruzaram definitivamente a fronteira, radicalizando a negação da autoria ao ponto do estabelecimento de um regime de autoralidade compartilhada e de um pacto de leitura capaz de sustentar esta posição. Escolhemos para tal três ocorrências de romancistas cujas obras trazem uma configuração com dupla autoria. Dentre eles, é possível dizer que apenas uma pessoa atuou na cena literária espiritista no Brasil como um autor-ator, desempenhando um papel próximo dos que representarão os médiuns psicógrafos nas décadas posteriores, autores empíricos de textos cuja autoria
78 No texto prefacial da obra, assinado por Soler, afirma-se que as mensagens de Padre Germano começaram a ser publicadas no dito jornal em 29 de abril de1880 (SOLER, 1923, p. 06).
126 intelectual não lhes pertence. Estamos nos referindo a Zilda Gama, médium mineira e romancista espírita famosa.
Nascida em Juiz de Fora, Zilda Gama tornou-se professora e intelectual de certo destaque. Escreveu poesias e contos publicados em vários jornais, como o Jornal do Brasil e a Gazeta de Notícias. Chegou inclusive, a publicar diversas obras de Didática, intituladas O
livro Para Crianças, Os Garrotilhos, o Manual das Professoras e O pensamento. Vemos
assim que Gama tinha uma aproximação com o universo das letras, alcançando algum sucesso com produções voltadas ao seu campo profissional.
Segundo informações biográficas disponibilizadas no site da FEB editora, em 1912, sem nenhum contato com o movimento espírita organizado, ela teria recebido por meio de uma manifestação espontânea de psicografia uma mensagem do próprio Allan Kardec comunicando-lhe a respeito de sua missão79. Integrando-se nas fronteiras do Espiritismo, já em 1916, ela teria sido comunicada de que iria escrever uma Novela. O espírito-autor da obra seria Victor Hugo. O texto, produzido em alguns meses, foi encaminhado à FEB e rapidamente publicado pela instituição em 1917. De fato, a obra se tratava de um romance. Como poderemos ver em Abreu (2008, p. 11) e Soares (2008, p. 71), dos séculos XVII a XIX, a nomenclatura “romance” trilhou um percurso de consolidação, dividindo a cena muitas vezes com outras denominações, dentre elas, a de novela. Ao que tudo indica, esse representaria um elemento de permanência, explicando por que Na Sombra e na Luz (1917) teria recebido originalmente essa categorização. Os “Anais” da literatura mediúnica espírita no Brasil registram esse livro como o primeiro romance psicografado no País a ser publicano. Essa é uma problemática que não nos colocamos, porém, podemos afirmar que Na Sombra e
na Luz representou certo sucesso editorial, chamando a atenção no meio espiritista. Ao que
tudo indica, a fórmula editorial utilizada por Zilda Gama foi acolhida e considerada bem- sucedida. Ela publicou de 1917 a 1946 outros quatro romances mediúnicos, assinados, segundo a crença de sua comunidade de leitores, por Victor Hugo. Foram eles, na sequência:
Do Calvário ao Infinito (1922); Redenção (1929); Dor Suprema (1939) e Almas Crucificadas
(1946). As análises das propagandas de livros publicadas no Reformador de 1932 a 1935 revelaram a divulgação, tanto do conjunto das obras psicografadas pela Medium, quanto certa ênfase da publicidade de seu livro mais recente à época, Redenção. Vejamos o que elas têm a nos dizer (ANEXO G).
79 Essa e outras mensagens que a médium passou a psicografar foram publicadas em 1929 pela FEB sob o título de Diário dos Invisíveis.
127 Antes de qualquer coisa, percebe-se um dado relevante ao observar-se a página com a propaganda, publicada na parte posterior da revista, na edição de 16/09/1934. Possivelmente, a produção literária ainda não havia alcançado o patamar capaz de tornar-se quase que a fonte exclusiva de sustentação financeira do movimento, como ocorrerá durante a era Xavier. Os remédios ao lado dos livros indicam que havia a necessidade de se adquirir recursos por outros meios e instrumentos. A divulgação de estabelecimentos comerciais diversos, sem nenhum vínculo convencional ou compromissos doutrinários, aparece na Revista constantemente durante os anos de nosso recorte cronológico. Quanto à questão que toca diretamente nosso objeto de estudo, a propaganda em análise representa uma peça paradigmática e eloquente. Abaixo dos títulos e ao lado da capa de Do Calvário ao Infinito, foi inserido o seguinte texto de apresentação: “Constituem três novelas de sabido valor literário, temperadas no cadinho mediúnico pelo gênio imortal de VICTOR HUGO mercê das faculdades da senhorita ZILDA GAMA”. (REFORMADOR, 1934).
Há no trecho um destaque ao valor literário dos romances. As narrativas são descritas como produto do gênio, da imaginação criativa do espírito de Victor Hugo. Ele seria então o autor intelectual das novelas, materializadas por meio das faculdades mediúnicas de Gama. Apenas neste sentido restrito estaria situada sua contribuição. Sem deixar marcas no texto, seu papel é o de um instrumento de transmissão. Essa é a configuração de um regime de autoralidade compartilhada propriamente dito, com um autor espiritual, no qual é atribuído o trabalho intelectual, e um autor empírico, autor-ator com circulação no mundo das letras, tendo como palco a cena literária espírita.
Será esta a configuração da interautoria nos moldes em que se constituirá a produção literária de Chico Xavier. Dentre as várias perspectivas de autoralidade identificadas, esta foi à escolhida por Xavier. Apesar das convergências, entretanto, existe um distanciamento significativo entre as produções de Gama e de Xavier. Observemos a continuidade do texto propagandístico dos romances assinados por Victor Hugo:
São Páginas de grande emotividade e maior ensinamento, decalcadas na lei da reencarnação.
Há, em toda esta obra, um signo de eternidade, um balsamo e um perfume de esperança, que transcendem das misérias terrenas para os planos eterais, onde se conjugam e completam os fados humanos.
Fatalidade de nascimento, preconceitos de raça, ódios inatos, catástrofes políticas, tudo isso que faz o tormento e a ilusória felicidade do mundo, perpassa nesta obra, cujos personagens vivem, na trama da ficção, como padrões (...) inconfundíveis. (REFORMADOR, 1934).
128 Emoção e ensino, deleite e aprendizagem se fundiriam pelo princípio doutrinário da reencarnação, o que demonstra a vinculação da produção psicográfica de Gama ao esquema narrativo dominante entre os romances espíritas do período. Como é destacado, todo o enredo, seus personagens, suas tramas são da ordem da ficção. E esta se constituirá em uma diferença significativa quando comparamos com os romances psicografados por Chico Xavier. A produção do texto de Gama é realizada em um regime de autoralidade compartilhada, mas a narrativa não é considerada um relato verídico de experiência. Ela produz peças literárias no sentido convencional do termo apesar da interautoria. A especificidade do seu caso está no fato de sua escrita psicográfica ser considerada uma continuidade da obra de um autor consagrado da literatura universal. Para tanto, sua produção precisa estabelecer interlocuções com os romances assinados por Victor Hugo em vida. A credibilidade da obra de Zilda Gama está em grande medida ancorada na possibilidade de esta ser identificada em um continuo com a literatura do Autor francês, seguindo os mesmos padrões inconfundíveis. Um breve olhar sobre os livros indica que sua legitimidade literária foi constituída pela convergências miméticas com as obras originais, inclusive no que tange à estrutura de edição. Assim, de forma semelhante a Os Miseráveis (HUGO, 2002), as obras psicográficas de Gama foram divididas em livros e estes segmentados em capítulos. Possivelmente, com este procedimento, se buscava aumentar o seu potencial de verossimilhança. Veremos adiante que este será um exercício que Chico Xavier sofisticará em alto grau, estabelecendo interlocuções de sua escrita mediúnica com a obra de escritores. Xavier, no entanto, lançará mão deste recurso apenas na escrita de gêneros como contos, crônicas e poesias, mas não romances. A seguir trataremos de ocorrências que se aproximam das escolhas literárias do Medium mineiro para mais uma vez demonstrar que sua produção tinha precedentes. Voltemos, porém, às análises sobre Zilda Gama para fecharmos o leque. Analisemos a propaganda de sua novela mais recente naquela época, publicada na parte pós-textual do Reformador em 16/07/1935 (ANEXO H).
Entre o nome próprio e o título da obra está a representação imagética personificando a figura do autor. Abaixo vem um resumo, com uma síntese dos acontecimentos que aguardam o leitor80. Na imagem vemos a materialização da interautoria, com o sacrifício
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Encontramos no Reformador muitos resumos inseridos em propagandas ou artigos sobre os livros. Nossas análises revelaram que esta constitui prática de divulgação bastante recorrente no período em foco. Ao olhar da atualidade elas causam certo estranhamento, pois adiantam informações e trazem elementos do desfecho da trama. Segue o texto do resumo de Redenção na integra: Heloisa consorciando-se ao rico castelão Gastão Dusmevil, dele se separa devido a perseguição de um hindu de nome Ariel, servo de absoluta confiança de seu esposo. Ariel, não podendo conter seu amor por Heloísa e sendo pressentido na intenção de matar seu amo, fala-
129 ritual do nome da Medium. Não há esquecimento. A ausência de seu nome é um procedimento necessário para a conclusão da teatralidade da cena, para a configuração da autoria espiritual. Sob a óptica do funcionamento literário, há uma presença-ausente, ocorre um apagamento de sua personalidade, incluindo-se os seus atributos intelectuais. Há um apagamento da própria imagem da escritora. As habilidades literárias do psicógrafo, se existem comprovadamente, são desconsideradas. Redenção foi um sucesso literário sem precedentes para o período, como as outras duas psicografadas por Zilda Gama e assinada pelo “espírito” do Autor francês. Em 1949, na sua quarta edição, o número de exemplares publicados chegaria a 20 mil. O desempenho de Gama apenas será superado com a chegada de seu jovem conterrâneo. Chico Xavier, sem dúvida, teve nela, mais do que uma referência, uma meta a ser alcançada81.
Os outros dois romancistas que operavam dentro de um regime de interautoria possuem perfis convergentes e formas de inserção semelhantes dentro do Espiritismo brasileiro. Suas obras compunham o arsenal da avalanche literária proporcionada pelo trabalho editorial liderado por Manuel Quintão e Guillon Ribeiro. Eles eram autores estrangeiros e tiveram romances seus traduzidos pela dupla no período estudado. O primeiro selecionado para análise foi José Surinach, médium autor de obras diversas publicadas ao longo do século XX82. Encontramos publicada na parte pós-textual do Reformador, na edição
lhe de um dogma do oriente sobre as transmigrações das almas ou da metempsicose que ainda será conhecida por toda a humanidade terrena e que só ele explica lucidamente; pois que, o amor e o ódio se radicam nas almas, por muitos séculos, às vezes até que este seja por aquele suplantado. O hindu confessa que jamais se tendo extinguido as recordações da eternidade transcorrida, reconhece em Heloisa, sua esposa Flávia, quando em vida anterior fora monarca de Persepolis. Após a morte trágica de Ariel, Gastão procura reconciliar-se com sua esposa, esclarecendo-se então serem vítimas de acerba provação.
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Em vários trechos das cartas particulares trocadas por mais de duas décadas entre Chico Xavier e Wantuil de Freitas, então presidente da Federação Espírita Brasileira, existem referências diretas de Xavier sobre Zilda Gama. Vejamos alguns fragmentos: “Aguardo teus informes sobre o novo livro de Zilda Gama. Que possamos ter a alegria de vê-la cooperando ativamente nos serviços da causa.” (SCHUBERT, 2010, p. 59); “Muito me reconforta a notícia referente ao novo livro psicografado por Zilda Gama. O título Almas Culpadas é muito sugestivo. Aguardarei a saída com muito interesse.” (SCHUBERT, 2010, p. 96). Como eram cartas particulares, possivelmente não existiam motivações políticas ou a necessidade de convencionalismos sociais para escamotear as suas opiniões. Neste trecho, pode ser identificado também um elemento importante quanto à dinâmica da produção editorial do livro espírita. Atualmente, nas representações reinantes no círculo cultural de consumidores dessas obras, a escrita psicográfica é concebida como desenraizada e sem a interferência dos aspectos humanos inerentes à criação de um livro convencional. O dado referente ao suposto título a que Chico Xavier teve acesso antes da publicação indica que houve uma modificação, mesmo em se tratando de uma psicografia. Como sabemos, o romance de Zilda com a assinatura de Victor Hugo veio à luz com a denominação de Almas Crucificadas e não Culpadas.
82 As editoras espíritas FEB e LAKE continuam publicando seus livros. Em 2014 , títulos seus integram o catálogo virtual das referidas empresas editoriais confessionais.
130 de 01/07/1935, uma propaganda de seu livro Lídia83. Este romance psicografado integrava o
catálogo geral das obras publicadas pela editora da FEB, apesar de não compor a listagem do catálogo resumido. Observemos sua configuração (ANEXO I).
A representação imagética busca sintetizar o enredo, ambientando a personagem principal no Coliseu romano, seu local de martírio. Ao lado da fera, ela está prostrada, com o olhar fixo, no que se infere ser a divindade cristã. Quando se compara a cronologia das publicações de romances, percebe-se que Lídia foi uma das narrativas introduzidas no circuito da literatura espírita brasileira, seguindo a formatação temática de romances históricos com motivos cristãos. Não afirmamos que ela introduziu esse modelo temático, mas que integrou um conjunto de obras nesta perspectiva. Na continuidade, o texto propagandístico traz elementos significativos.
Extraordinária novela mediúnica, que atesta não apenas a maravilha do fenômeno espiritista, como as suas possibilidades latitudinárias de expressão e beleza. Lídia é o depoimento atualizado de um espírito que viveu nos tempos heroicos do cristianismo cristão, ou apostolar. A História dos seus amores, a caminhar intrepidamente para o circo romano, cheia de lances emocionais, é o que forma a tela artística, bem delineada na técnica e ao mesmo tempo pródiga de ensinamentos doutrinários. No fim do volume, o leitor encontra o sumário das sessões que prolongaram e ambientaram a captação da obra, de sorte que se habilitam a formar juízo seguro da sua origem, transcendentalmente edificante e consoladora. (REFORMADOR, 1935).
O primeiro trecho em destaque indica uma característica que não era dominante na literatura espírita, inclusive a de base mediúnica. O romance é apresentado como sendo uma narrativa verídica das experiências de Lídia. Há, em tese, uma convergência entre o autor espiritual, o narrador e a personagem principal da trama. Engendra-se no texto, para a comunidade de leitores consumidora deste segmento literário, uma marca autobiográfica. Vale salientar que este procedimento apenas se faz possível pelo funcionamento da obra em um regime de autoralidade compartilhada. O segundo trecho em destaque, no entanto, salienta um elemento de permanência. Como foi recorrente nos textos de divulgação, o princípio horaciano foi evocado em defesa do livro. Sua qualidade literária estaria ancorada na fusão de técnica com ensino doutrinário. Vemos assim que Lídia não seria para seus leitores apenas um romance histórico com temática cristã, e sim um romance autobiográfico. A marca
83 Esta é a sinopse atual fornecida pela editora: “A antiga Roma do Imperador Nero é o cenário deste romance que conta a história de Lídia, uma jovem cristã que renuncia sua própria felicidade por aqueles a quem tanto ama. Alma iluminada, a protagonista desta obra exemplifica o verdadeiro amor que transpõe séculos no contexto da imortalidade do Espírito. Um romance emocionante, rico de ensinamentos doutrinários que destaca os sentimentos de amor e de renúncia incondicionais”. Disponível em: http://www.febeditora.com.br/departamentos/lidia/#.U9mV9uNdXQg. Acesso em 30/07/2014.
131 autobiográfica representou o uso de um dispositivo não usual no circuito da literatura espírita do período, representando provavelmente uma apropriação das técnicas literárias em busca de maior verossimilhança para a trama narrada.
Em 1939 Chico Xavier vai publicar seu primeiro romance. Este se tornou célebre no segmento do livro espírita. Representará a primeira de suas obras a fazer um grande sucesso de vendagem. Intitulado Há Dois Mil Anos, o romance trará um modelo narrativo e temático semelhante ao do romance de Surinach. Emmanuel, considerado o guia espiritual do Medium, assina o texto, sendo também seu narrador e personagem principal. Na trama, a sua esposa, uma romana convertida ao cristianismo, chama-se Lívia. Como Lídia, ela também enfrenta o martirológio, sendo devorada no coliseu pelos leões. Este é um dado importante, porque explicita que também a literatura psicográfica comporta apropriações e migrações. A produção de Xavier não caminha em um regime de exceção. Com todas as características literárias, miméticas ou não, Há Dois Mil Anos se posta como um romance autobiográfico. Quando o comparamos com Lídia, temos uma inversão na proposição. Em Surinach, o texto é uma narrativa autobiográfica, contudo permanece uma obra de ficção. Em Xavier, é um romance autobiográfico, todavia sua estrutura ficcional traz elementos lidos em seu circuito cultural específico como totalmente verídicos, sem a interferência da imaginação criativa do autor espiritual. Esta mudança sutil engendra uma posição diferenciada para a obra de Xavier dentro da epistemologia dos conhecimentos espíritas. Seu peso doutrinário será outro.
Neste momento, no entanto, trazemos à baila outro livro, publicado em 1935, cujas características literárias trazem evidências de ter representado mais uma fonte de apropriações e migrações na composição de Há Dois Mil Anos. Vejamos a propaganda voltada à divulgação de Herculanum, publicada na parte pós-textual do Reformador também em 03/10/1935 (ANEXO J).
O título da obra cobre como uma faixa a representação imagética do seu personagem principal, pairando acima, em plano superior, o nome do autor. Este, porém, é o nome do autor espiritual. A ausência de referências a um dos polos da autoralidade compartilhada não constitui novidade. Em Lídia, aparece apenas o nome de Surinach, seu autor empírico. No caso de Redenção, foi inserida a insígnia de Victor Hugo sem a explicitação do nome de Zilda Gama na imagem de divulgação. Até aqui, nada de novo sob o sol. Há, entretanto, especificidades no funcionamento da produção psicográfica assinada com o nome próprio de J. W. Rochester. Observemos o texto propagandístico associado ao cartaz da divulgação em análise.
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Os Livros do Conde de Rochester, todos de fonte mediúnica, constituem um caso único na literatura espírita, assás copiosa. Vasados nos moldes clássicos da escola romântica do último quartel do século XIX, eles tiveram sucessivamente uma consagração de repetidas edições, que se espalharam, traduzidas em várias línguas. Entre nós, quem não conhece a “Vingança do Judeu”? E, contudo, este não é mais que um anel da luminosa cadeia que liga um grupo de almas, através de vários estágios na terra. De sorte que além do ensino doutrinário, tem o leitor o panorâmico histórico social de uma época. Em “Faraó de Mernephtah”, por exemplo, é o velho Egito que nos fala de suas múmias, dos seus mistérios, das suas pirâmides. Na “Vingança do Judeu”, surge-nos o quadro da sociedade europeia com a chaga da sua civilização de preconceitos de raça, de classe ou de fortuna. E assim em “Herculanum” vamos encontrar o cenário da Roma dos Césares na plenitude de sua hegemonia política, mas, também já minada pelo evangelismo cristão. Ocaso de JUPITER, aurora de CRSTO! Embate fragoroso de duas civilizações – túmulo e berço. Uma que se precipita do Capitólio, outra que sobe das catacumbas. Há páginas de colorido vivo e de emotividade extraordinária, quais sejam as que retraçam a vesuviana catástrofe que soterrou as duas lindas cidades para um sono de vinte séculos. Na catequese Cristã, o leitor de “Herculano” encontra um sabor especial – aproximando e comparando analogias de tempo, meio, processos e finalidades, concernentes a um idealismo substancial e único. E esse sabor se retina, quando encontra nessas páginas as mesmas passagens das outras obras, para lhes fazer a psicologia e ver quanto é difícil e lenta a ressureição do espírito na trama das vidas sucessivas. (REFORMADOR, 1935).
O romance Herculanum é apresentado dentro da sequência de obras publicadas. Estas