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A vontade como intencionalidade ocorre no homem sob a condição polar liberdade-destino, Esta relação polar entre liberdade e destino é de grande importância para a compreensão da condição humana. Não apenas Tillich a aponta como essencial, mas também Ricoeur, que a expressa como liberdade encarnada – “o homem”, afirma Ricoeur, “é uma liberdade encarnada”.66 Paul Sartre também enfatizou que não se pode entender a liberdade sem a concretude da qual e à qual ela é liberdade. Sartre a chamou de “liberdade em situação”.67 A polaridade liberdade-destino é o elemento estrutural que torna possível a existência porque transcende a necessidade essencial do ser, sem destruí-la. Teologicamente, a palavra revelação, por exemplo, não pode ser entendida sem o conceito de liberdade. O homem é homem porque tem liberdade. Enquanto a natureza torna a liberdade atual, a liberdade torna a natureza com sentido, e uma não pode ser separada da outra. Assim, o homem tem liberdade só em interdependência polar com o destino. Destino aqui no sentido de necessidade. Mas necessidade não é um bom termo pois é uma categoria e não um elemento. O contraste da necessidade é a possibilidade, e não a liberdade.68

Se colocarmos liberdade e necessidade uma contra a outra, a necessidade passa a ser entendida em termos de determinismo mecanicista e a liberdade é pensada em termos de

65 TILLICH, Paul. Teologia sistemática. Op. cit., p. 276

66 RICOEUR, Paul. Philosophie de la volonté – le volontaire et l´involontaire. Op. cit., p. 36 67 SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. Petrópolis, Vozes, 1997, pp. 593 a 677

contingência indeterminista. Contudo, nenhuma destas interpretações consegue captar a estrutura do ser tal qual é experimentado imediatamente naquele ser que tem a possibilidade de experimentá-la porque é livre, isto é, o homem; ou seja, elas não são interpretações de como a liberdade é vivida pelo homem.

O homem experimenta a estrutura do indivíduo como portador de liberdade dentro das estruturas mais amplas às quais a estrutura individual pertence. O destino diz respeito à situação na qual o homem se encontra, confrontando o mundo ao qual pertence.Minha liberdade é real porque está encarnada na estrutura que é minha vida e é realizada no processo de crescimento ao qual ela dá unidade e sentido. Com respeito à vontade, nosso destino é aquilo a partir do qual surgem nossas decisões. A relação básica entre a vontade como intencionalidade e o destino é a base indefinidamente concreta de nossa individualidade centrada. Esta relação é a concreticidade de nosso ser, que torna todas as nossas decisões nossas decisões. O destino se refere à totalidade concreta de tudo o que constitui meu ser. Refere-se à estrutura corporal, aos impulsos psíquicos e ao caráter espiritual. Inclui também as comunidades às quais pertenço, o passado não recordado ou recordado, o ambiente que me moldou, o mundo que causou um impacto sobre mim bem como todas as minhas decisões anteriores.69 Assim, o destino não é um poder estranho que determina aquilo que irá acontecer a mim. É minha própria pessoa, tal qual dada, formada pela natureza, pela história e por mim mesmo.

No entender de Sartre, entre os principais elementos que constituem nosso destino ou situação estão nosso habitat (país, solo, cidade, vilarejo, etc.), nosso passado, nossa língua, nossa cultura, nossos arredores, nosso próximo e nossa morte.70 O destino é a base de minha liberdade; minha liberdade participa da estruturação de meu destino. Há muitos que argumentam contra a liberdade alegando que o que somos, na verdade, não é liberdade mas impotência. Impotência para modificar minha classe social, minha nação, minha família, meus próprios apetites mais insignificantes ou meus hábitos. Para estes, a história de uma vida é a história de um fracasso. Na maioria dos casos, anos e paciência são necessários para obter o mais ínfimo resultado. O homem parece muito mais “ser feito” do que “fazer-se”. Ele é , na verdade, mais vítima do clima, da terra, das doenças, da raça, da classe, da língua, da história e suas forças, da hereditariedade, das circunstâncias coletivas e individuais, da infância e dos hábitos adquiridos, do que liberdade. Talvez a melhor forma de visualizarmos a questão da relação liberdade-destino seja uma imagem ilustrativa oferecida por Sartre ao tentar responder àqueles que levantam tais argumentos contra a liberdade:

69 IDEM. Ibid., p. 158

“Estes argumentos nunca perturbaram profundamente os adeptos da liberdade humana. Mesmo Descartes reconhecia ao mesmo tempo que a vontade é infinita e que é preciso ‘dominar mais a nós mesmos do que a sorte’. Muitos dos fatos enunciados pelos deterministas não podem ser levados em consideração. O coeficiente de adversidade das coisas, em particular não pode constituir um argumento contra nossa liberdade, porque é

por nós, ou seja, pelo posicionamento prévio de um fim, que surge o coeficiente de

adversidade. Determinado rochedo, que demonstra profunda resistência se pretendo removê-lo, será, ao contrário, preciosa ajuda se quero escalá -lo para contemplar a paisagem. Em si mesmo, o rochedo só pode manifestar-se dessa ou daquela maneira a partir de um complexo já estabelecido. Assim, ainda que as coisas em bruto possam desde a origem limitar nossa liberdade de ação, é nossa liberdade mesmo que deve constituir previamente a moldura, a técnica e os fins em relação aos quais as coisas irão manifestar-se como limites, ou seja, é nossa liberdade que constitui os limites que irá encontrar depois. (...) Se abolirmos a distinção entre o simples desejo (a representação que posso escolher) e a escolha, a liberdade desapareceria com ela.”71

Assim, não somos livres quando supomos que a liberdade é uma instância destinada a ser satisfação de nossos desejos, como querem os deterministas. Somos livres ao entender que a liberdade ocorre quando “o termo último pelo qual fazemos anunciar a nós mesmos o que somos constitui um fim, ou seja, as resistências que a liberdade desvela no existente, longe de constituir um perigo para ela, nada mais fazem do que lhe permitir surgir como liberdade. Só pode haver um Para-si livre quanto comprometido em um mundo resistente. Fora deste comprometimento, as noções de liberdade, determinismo e necessidade perdem seu sentido.”72 Só quem tem liberdade tem um destino. As coisas não têm destino porque não têm liberdade. A palavra destino não aponta para o oposto de liberdade, mas para suas condições e limites.

Dessa forma, os modelos determinismo e indeterminismo não são apropriados quando falamos em liberdade. Tanto as considerações deterministas sobre a vontade, quer adquiram a forma de positivismo radical, de realismo, racionalismo naturalista, estruturalismo, autoritarismo ou heteronomias, por um lado, quanto as considerações indeterministas na forma de cinismo, ceticismo, relativismo ou pós-estruturalismo, por outro lado, não conseguem chegar a uma conclusão porque estão num nível secundário em relação ao nível em que se encontra a polaridade liberdade-destino. Ambos pressupõem que existe uma coisa entre outras coisas chamada vontade, que pode ter ou não a qualidade de liberdade.73 Ocorre que a vontade não pode ser uma coisa ou uma função.

No determinismo, se a vontade é uma coisa, um objeto ou uma função determinada, então ela não carece de liberdade, ou seja, se vontade é coisa ou função, ela não pode ser livre. E falar da

71 IDEM. Ibid., pp. 593 a 594 72 IDEM. Ibid., p. 595

liberdade de uma coisa é uma contradição em termos. Neste caso, o determinismo, que aponta a vontade como não-livre, estaria correto somente na medida em que faz uma tautologia dizendo que uma coisa é uma coisa.74 O determinismo não percebe que a própria afirmação do determinismo como verdadeiro pressupõe a liberdade de decisão entre verdadeiro e falso.

Talvez a forma mais contumaz de determinismo seja o naturalismo. Sua tendência é buscar os motivos da vontade no corpo em termos de necessidades e desejos biologicamente pulsionais. Quando o naturalismo torna-se radical, esquece que a necessidade como tal não é auto-explicativa, mas é antes, como vimos, uma falta ou um desejo que adquire direção definida somente quando apropriado por uma vontade. Além do mais, também vimos que o corpo é apenas uma fonte de motivos entre outras. Mas mesmo os valores orgânicos não devem ser entendidos como naturalismo assim como uma verdadeira questão de experiência existencial não é um debate acadêmico. Quando uma pessoa se debruça existencialmente em integra busca de justiça, ela passa a arriscar-se como corpo-existência, a sacrificar seu corpo e tudo o que é a partir desse valor.75 Isto mais uma vez confirma o apontamento ricoeuriano de que o involuntário está para a vontade e a vontade existe pelas razões do involuntário. E esta constatação enfraquece consideravelmente o preconceito do naturalismo e sua explicação irreversível do mais alto pelo mais baixo.

Já no indeterminismo, por outro lado, há o protesto dizendo que a consciência moral e a cognitiva pressupõem os poderes de decisão que remetem as situações para toda sorte de direções. Contudo, quando tira as conseqüências (pois um ato livre terá conseqüências deterministas) querendo voltar a atribuir mais liberdade a um objeto ou função chamada vontade, o indeterminismo cai numa contradição em termos e sucumbe inevitavelmente à tautologia determinista. Ele se esquece, como vimos, que a vontade é vontade como intencionalidade, isto é, a vontade nos leva a estarmos relacionados com estruturas significantes, compreender e estruturar a realidade. Liberdade indeterminista é a negação da necessidade determinista. Mas a negação da necessidade nunca constitui liberdade experimentada. Ela afirma algo absolutamente contingente e mecanicamente contingente de uma vez por todas. No caso da vontade, se transforma numa decisão sem motivação, um acidente ininteligível, totalmente incapaz de fazer justiça à consciência moral e cognitiva por cuja causa é inventada.76 O indeterminismo não vê que a própria potencialidade de tomar decisões pressupõe uma estrutura de personalidade que inclui o destino.

74 IDEM. Ibid., p. 171

75 RICOEUR, Paul. Philosophie de la volonté – le volontaire et l´involontaire. Op. cit., p. 82 76 TILLICH, Paul. Teologia sistemática. Op. cit., p. 157

As razões que motivam minha decisão, o corpo que sou, mesmo as condições pessoais e históricas do meu ser, não são simplesmente limitações externas impostas a mim, mas sim o órgão no e pelo qual eu sou real. Não sou idêntico a elas, contudo, sou somente através delas e nelas. Enquanto minha liberdade é atual apenas em e pela minha natureza, este involuntário, torna-se significativo somente em relação com a consciência encarnada, em e através da liberdade. A relação da liberdade com a vontade se dá no momento em que, na decisão, no esforço e no consentimento, a liberdade une os pólos separados pelo entendimento, tornando-se atual ao abraçar a particularidade e o que é vivido concretamente. Se for isto, tal liberdade torna-se uma liberdade encarnada. Esta é sua limitação e sua grandeza.

Benzer Belgeler