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6. ANKET ÇALIŞMASI

6.3 Anket Sonuçlarının Genel Değerlendirmesi

Paul Ricoeur reconhece que o corpo fornece a base para os motivos mais primordiais da vontade,49 apesar do fato de que o corpo é apenas uma fonte de motivos entre outras, sendo que o homem pode avaliar e medir sua vida em termos de outros fatores também.50 Mas não há como

49 IDEM. Ibid., p. 37 e 82 50 IDEM. Ibid., p. 82 e 85

negar que o corpo é a fonte mais básica dos motivos, revelando um estrato primordial de valores: os valores orgânicos. O corpo é a base dos motivos no sentido de ser um material cru, bruto, confuso, contraditório e não bem delineado. Estes “motivos brutos”, como prazer, dor, alívio, impulso, só assumem formas definidas quando são recebidos pela voluntariedade.

É o corpo que introduz a nota existencial. Nas palavras de Ricoeur, “ele é o involuntário existente inicial inderivável.”.51 No corpo, o “eu penso” perde seu distanciamento e é

solapadamente inundado pelo “eu sou, eu existo”. Dessa forma, o involuntário corpóreo é mais que mera ilustração de relações puras descritas por análises eidéticas. O involuntário transcende os discursos. Os motivos são feitos de necessidades, mas ocorre que as necessidades estão sempre cobertas por uma opacidade que dificulta a penetração da luz da reflexão, além do fato de que experimentar é sempre mais que entender. Isto não significa dizer que a fome ou a sede não se prestam ao entendimento ou à representação. Ao contrário, é através do entendimento que a necessidade consegue se tornar real e significante para nós. É através do entendimento que a necessidade adquire maior circularidade nas esferas da vontade. Contudo, alé m de toda representação, a afetividade permanece intocável e realmente incompreensível, permanecendo como o “aspecto não transparente da consciência”. A palavra consciência aqui ainda é pertinente porque a afetividade é ainda um modo de pensamento em seu sentido mais amplo. Como indica Ricoeur, “sentir é ainda pensar, embora o sentimento não mais representa objetividade, mas sim revela a existência”.52

Na afetividade, minha existência corpórea é descoberta como o outro pólo de toda existência densa e pesada do mundo e, por meio dela, nos fazemos como subjetividade. Mas admitir esta dimensão nebulosa e opaca do corpo, da afetividade e da necessidade, nos autoriza a decretar seu caráter extrínseco, independente, ou mesmo uma certa pureza própria? Há uma risco enganoso que aparece toda vez que tentamos estender a auto-transcendência à região sombria da necessidade. A introspecção para dentro do corpo é sempre uma aposta. E para podermos fazê-la, deveríamos ser capaz de ir além de todo julgamento, seja indicativo ou condicional – ir além do eu que se orienta a si mesmo na existência e assume posições – ou ir além até mesmo da representação que encobre a necessidade com sua intenção objetiva. O risco desta tentativa introspectiva está em que ela pode ser afinal apenas um fingimento, uma auto-contorção em nome de uma auto-negação.

51 IDEM. Ibid., p. 82 52 IDEM. Ibid., p. 83

Ocorre que, em nome das ocorrências de fingimento, caímos em um outro extremo – o de nos sentirmos daí convidados a tratar a vida orgânica involuntária como um objeto, como se fosse pedras, plantas, ou mesmo um animal. A alegação freqüente que procura justificar este extremo é a de que a própria vontade se sente sitiada pela necessidade e, às vezes, até mesmo se opõe à ela violentamente como se a arrancasse da consciência, colocando assim a necessidade muito próxima dos objetos estranhos. Este foi o caminho seguido pelo estoicismo. Esta atitude pode oferecer a seguinte alegação ilustrativa: “ao me alimentar, coloco-me no nível da realidade dos objetos dos quais dependo. E enquanto os transformo a mim mesmo pelo comer, eles me arrastam ao nível dos objetos e me tornam uma parte dos grandes ciclos naturais – os ciclos da água, do carbono, nitrogênio, etc”53 Ao se levar esta alegação a sério, somos obrigados a aceitar que as técnicas que utilizamos para cuidar do corpo o iguala a uma máquina a ser sempre monitorada e consertada. Esta é a tentação do naturalismo que nos leva a privar a experiência do corpo, cortando-a das características pessoais e tratando-a como qualquer outro objeto. O pressuposto é o de que o corpo é melhor conhecido pelo tratamento objetivo e não tanto na privacidade da auto-consciência. Dessa forma, este processo de objetivação inevitável do corpo acaba infectando toda a experiência do eu.

A existência destes dois extremos de atitudes são resultados da ambigüidade essencial do corpo. Ora, se a opacidade da afetividade nos impele a tratar o involuntário como objeto, esta própria objetivação nos trará de volta para o interior da consciência na necessidade que o corpo pessoal tem não apenas de compreender, mas especialmente, de compreender para si. Esta necessidade, nas palavras de Ricoeur, é a necessidade da “relação diagnóstica entre o conhecimento objetivo do corpo e a experiência da consciência encarnada.”54 Isto porque não conhecemos a necessidade a partir de fora, como evento natural, mas a partir de dentro, como uma necessidade vivida e, quando necessitada, torna-se empaticamente nossa. É fato que ela é sintoma a mim na forma objetiva – deteriorização do sangue, dos órgãos, da pele, e reações corporais a esta deteriorização, etc. Por outro lado, tal relação diagnóstica de compreensão objetiva acarreta no que Ricoeur chama de uma revolução copernicana, como já nos referimos anteriormente: “não mais a consciência é um sintoma do corpo-objeto, mas antes, o corpo-objeto é uma indicação de um corpo pessoal no qual a consciência partilha como sua própria existência.”55

Neste sentido, é preciso perceber que o problema nunca é o de relacionar a consciência (um sujeito) com o corpo (um objeto). A ligação entre a consciência e o corpo já está operando e é experimentada no próprio centro da subjetividade. É a aderência da afetividade ao próprio

53 IDEM. Ibid., p. 83 54 IDEM. Ibid., p. 84 55 IDEM. Ibid., p. 84

pensamento. Dessa forma, todas as relações do involuntário com a vontade, na forma de motivos, órgãos de ação ou necessidade experimentada, são aspectos desta ligação, desta inerência de um corpo pessoal na consciência. O que precisamos é clarificar mais ainda esta relação, ou esta tensão, entre a motivação e o tratamento objetivo-empírico do corpo. Isto será tratado posteriormente nos próximos itens adiante.

Por agora, deve ficar claro que o involuntário corporal é apenas uma fonte de motivos entre outras; e a necessidade é, em sentido estrito, só uma parte do involuntário corpóreo. Temos então o seguinte:

É aceito que necessidade seja apetite. Mas há duas formas categóricas de necessidade:

a) A necessidade em que o ser vivente tende a se apropriar e assimilar coisas e seres que completem sua existência e como tais estão ligados a ele (alimento, bebida, o outro sexo). Poderíamos dizer que são necessidades primárias;

b) A necessidade na forma de funções defensivas que tendem a repelir aquilo que ameaça sua existência e que portanto é estranho a si. (Preservação, defesa ao que vai contra a si mesmo)

Nossa linguagem se refere à necessidade quase sempre no sentido amplo – necessidade de luz, de música, de amizade, etc. Esta tendência a ampliar o quadro de sentido da necessidade parece se dar por duas razões:

MOTIVOS

(inclui toda sorte de valores motivantes)

DOMÍNIO DO INVOLUNTÁRIO CORPÓREO

(valores ilustrados pelo corpo)

NECESSIDADE

(No sentido estrito. A necessidade é só uma parte do involuntário corpóreo).

a) A necessidade no sentido mais amplo contém uma semelhança material com os apetites em termos da característica da ausência que elas acarretam e da revelação afetiva generalizada de uma lacuna no coração da existência;

b) A palavra necessidade tende a cobrir a mesma área que a motivação e a designar uma forma comum a todos os motivos, ou seja, a inclinação sem a necessidade no sentido estrito.

Mas afinal, de que modo a necessidade no sentido estrito se presta à motivação? Isto é o que procuraremos investigar a seguir.

Benzer Belgeler