Não é intuito aqui discutir as desigualdades que existem entre os homens e as mulheres, nem tampouco discorrer sobre o lugar da maternidade nas lutas feministas. Se ela é vista
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como um símbolo de realização, de opressão ou de poder das mulheres, não faz parte dessa pesquisa. Cabe aqui buscar a compreensão de como e em qual medida esse aspecto interfere, ou não, na mobilização para as aprendizagens daquelas que são mães e estudantes da EJA.
Ainda sem ser o determinismo biológico uma de suas características, a maternidade faz parte da vida das mulheres, mesmo quando não ocorre. Como nos disse Perrot (2008, p.68-69), ela é um estado e um momento e sua duração é por toda a vida. Segundo ela, a maternidade é o grande caso das mulheres e, ao apresentar uma realidade multiforme, torna-se a própria fonte de sua identidade, aquilo que fundamenta uma diferença reconhecida socialmente. A função de ser mãe é um verdadeiro pilar da sociedade e um fato social.
Mas como é ser mulher, mãe, trabalhadora e estudante? Os caminhos percorridos e os que virão pela frente, para aquelas que resolveram voltar para os estudos, apresentam inúmeros fatores que intervêm nessa situação múltipla. Estar na escola e cuidar dos filhos, fossem eles crianças ou não, foi um obstáculo para que as educandas se mobilizassem para a aprendizagem?
Como já relatado na trajetória escolar das educandas, a maternidade foi a maior causa do afastamento da escola por todas elas. Em períodos e lugares diferentes, em situações diferenciadas, em número de vezes distintas, o abandono da escola foi consequência de terem se tornado mães. Só isso já nos coloca no cerne da nossa busca, pois relaciona intimamente a maternidade com a escolarização.
Assim, perguntei para as educandas de que maneira os filhos interferiam no movimento inverso, ou seja, no retorno delas para a escola. Letícia respondeu:
Com a escola eu não tenho problema, eu tenho problema... to tendo muito problema em casa. Sabe? Muito problema mesmo em casa e muitas vezes problema até sério. E eu já chego do serviço muito cansada, eu esforço pra vim, mas devido a situação que às vezes meus filho tá nela eu não to conseguindo vim assim, assiduamente, sabe? [...]se eu viesse eu não ia conseguir me concentrar na sala de aula, né! De repente se meu celular toca dentro da sala, eu vejo que é de um filho meu, de um parente, perigoso até dar um infarto de susto dentro da sala, sabe? A situação lá em casa anda muito pesada, tendeu? E eu to fazendo o que eu posso, né!
A preocupação de ser mãe, de saber o que os filhos estavam fazendo enquanto ela estava fora de casa, do que estava acontecendo com eles, se eles se envolveram em alguma situação-problema faziam parte da vida da estudante, quando vinha para a escola. Ela não se desligava do mundo dos filhos e ficava conectada a eles pelo telefone, esperando, a todo o momento, uma notícia, antevendo algo desagradável, ou ruim.
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Retomando a ideia de Merleau-Ponty de experiência incorporada, o que Letícia nos mostra é que ela trazia consigo aprendizagens anteriores, as quais, mesmo distante dos filhos, estavam marcadas no seu corpo e deixava-a preocupada. Isso refletia no seu comportamento dentro da sala, tirando-lhe a concentração e sem condições ideais para estar na escola e aprender.
Mais especificamente, perguntei para elas qual o papel dos filhos no processo de aprendizagem, como eles interferiam, influenciavam, ou contribuíam para que isso ocorresse. Ester mencionou acreditar que eles eram importantes agentes no processo de motivação para que ela viesse para a escola. Explicou que
no meu caso assim, os meus filhos num atrapalha não. Eu estudo também pra mim tentar dar um futuro melhor pro meus filho e também assim, para eles ter em que se espelhar depois. Entendeu? Pra tipo assim, não ser desmotivado. Tem aquele ditado que filho de peixe, peixinho é. Não existe nada disso. Todo mundo é aquilo que quer. Que às vezes tem muitos aí que os pais são isso ou aquilo e os filhos são totalmente o contrário. Mas assim, o que eu procuro fazer é passar uma imagem diferente pra eles, pra tipo assim, o amanhã que eu não sei, cabe a ele, o futuro depende deles, né, e à vontade de Deus, pra, como se diz, depois se não for ninguém na vida, não falar assim, mas também não tive perspectiva nenhuma de vida porque meu pai e minha mãe não foi ninguém. Que aí, não tem como eles mim falar, porque eles é vão sentir envergonhado, eu sou isso, mas meu pai e minha mãe é totalmente ao contrário disso que eu sou, entendeu? Porque muita das vezes os filhos da gente trilha caminhos que a gente, que não é o que os pais gostaria que os filhos trilhasse. Entendeu?
Chamo a atenção para a fala de Ester, pois ela explicitou que os filhos eram um fator mobilizador. Afirmou, claramente, qual era o aspecto que a mobilizava para a aprendizagem: o fato de se tornar um “exemplo” para seus filhos. Por outro lado, reafirma a escolha por um futuro melhor para a família.
Letícia, pensando como a colega, disse ter razões pessoais para pensar que os filhos não agiam como motivadores. Em sua cabeça, eles não eram motivadores, pois
meus meninos me dá tanta dor de cabeça, que é eles que me desmotivam de vim pra escola. [...] Eles me dão muito trabalho, sabe. Eles não têm consciência de falar, nó, minha mãe já fez tanto pela gente, né, vou dar um tempo pra cabeça dela. Sabe, chega lá e vê que já fiz a janta, já lavei roupa, já fiz, já fiz aquilo, tô arrumada pra subir pra escola. Ah mãe, vou ali assim, assim, cê olha esse menino aqui, cê faz isso, cê faz isso, num sei o que, num sei o que e sai. Entendeu? Não quer saber se eu também tenho meus compromissos, ou tenho minhas coisas pra fazer não, sabe. Isso me deixa chateada, ué. Porque eles deixam com uma menina de um ano e pouco chorando na minha cabeça, né. Minha neta tem um aninho, que a mãe foi embora e abandonou ela no bairro aí, ela tava mamando de um de outro. E tem um outro, pequeno, que é filho da mulher do meu menino. Eles não me dá tempo de respirar não.
Ou seja, Letícia estava mobilizada para a aprendizagem, mesmo depois de dar conta dos afazeres domésticos, se preparava para ir para a escola. Neste momento, os filhos atuavam como elementos que contribuíam para que isso não ocorresse, visto que lhe
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incumbiam de responsabilidades que seriam deles próprios. Surgia aí, em minha opinião, um conflito entra a pessoa mobilizada para a relação com o saber e com aquela que se sentia obrigada a cumprir o papel de chefe de família, zelando pelo bem estar de seus netos.
Miriam mencionou que não podia participar de algumas atividades da escola, principalmente as atividades externas, mesmo quando as mesmas ocorressem em lugar próximo ao da escola. Explicou que o fato de ser “mãe e pai” aumentava sua responsabilidade com as crianças.
Lá fora eu tenho dificuldade por causa das criança, porque eu sou mãe e pai ao mesmo tempo, né! Então meus filhos dependem muito de mim. Então algumas coisas, né! Sair, assim e tal, eu não posso, né! Mas o que tá relacionado aqui dentro, na sala e tal, o que eu puder fazer eu...
Mencionou que se ausentava muito da aula, e uma das razões se dava pela necessidade do cuidado com os filhos.
Por causa do meu trabalho, porque, por exemplo, o salão é o sustento dos meus filhos, né! Aí se eu deixar de trabalhar e vim pra escola, pode faltar algo pros meus filhos lá, né! Material, por exemplo. Aí eu fico entre a cruz e a espada. Entre eu aprender, né, vim pra escola, e entre eu trabalhar lá e ganhar dinheiro pra sustentar os filhos, entendeu? Então é muito difícil.
Miriam apresenta situação semelhante à de Letícia, onde o papel de chefe da família trazia dificuldades para que o aprender se concretizasse. Digo, então, que, a partir dos relatos apresentados, é possível perceber que a maternidade, em menor ou maior grau interferiu na dinâmica escolar das mães estudantes. Em alguns casos, por exemplo, causava afastamento das atividades escolares, pois o cuidado com os filhos e as condições para a manutenção da casa eram questões prioritárias para algumas delas.