O início do século XX, no Brasil, foi marcado pelo aumento da urbanização. As duas principais cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, passaram por processos de renovação e modernização, sob a influência da reforma de Paris, comandada pelo Barão Haussmann. O principal argumento às mudanças se referia à necessidade de se melhorar as condições de salubridade das cidades. A higienização foi um dos mais fortes argumentos para que se procedesse a ampla remodelação das cidades. Exemplos, como o poder adquirido pela Inspetoria Geral de Higiene no Rio de Janeiro, foram fundamentais ao processo, conforme descreveu Chaulhoub (1996)146.
Estes projetos de reforma urbana, a exemplo do que ocorrera em Paris, têm um caráter altamente gentrificador e de expulsão das populações moradoras dos cortiços. Este processo ocorreu, por exemplo, na remoção do Morro do Castelo no Rio de Janeiro, em
146 Um dos recursos utilizados era a demolição de cortiços e casebres considerados insalubres. A fiscalização de
saúde em geral atuando em parceria ou sob ordens da chefia de Policia dispunha de vários instrumentos legais, como o regulamento Sanitário de 1890, que, em seu artigo 83 dispunha: ―quando a juízo do Inspetor Geral de Higiene, os cortiços não puderem, por suas más condições sanitárias, continuar a servir sem perigo para a saúde pública, a autoridade sanitária, além da imposição das multas que no caso couberem, intimará logo os proprietários ou sublocadores para que os fechem dentro de 48 horas, só podendo ser reabertos depois de feitos os melhoramentos necessários‖ (CHAULHOUB, 1996, p.46)
1922147 (FIG 219 e 220). Geralmente, as populações removidas eram enviadas para regiões
mais distantes nas franjas da cidade, os subúrbios. Quando as populações não podiam ou não desejavam mudar-se para os subúrbios, mudavam-se para outros morros, criando novas favelas. Cumpre-se observar que, ao criar favelas próximas à região central, reforçam a importância da centralidade e, simultaneamente, aumentam a estigmatização do subúrbio.
FIGURA 219 – Morro do Castelo, Rio de Janeiro, Ca.
1920, antes de sua remoção.
Fonte: NONATO; SANTOS, 2000, p. 334.
FIGURA 220- Morro do Castelo, Rio de Janeiro, Ca. 1922,
no final das obras de sua remoção. Fonte: NONATO; SANTOS, 2000, p. 295.
Em São Paulo, as reformas urbanas foram conseqüência do enriquecimento do Estado, em função da produção cafeeira e pelo incipiente processo de industrialização da cidade, aliados à chegada de imigrantes europeus, que aceleraramo processo de sua expansão e crescimento.
Segawa (2000, p.55) destaca que a primeira década do século XX, para a capital paulista foi marcada pela consciência de que a realidade urbana de São Paulo pressupunha a necessidade de realizar um conjunto de obras para modernizar e ajustar a crescente cidade. Assim como ocorria no Rio de Janeiro, iniciou-se um processo de reorganização. Em 14 de novembro de 1910, relata Segawa, um grupo de capitalistas propôs ao Estado um monumental projeto de remodelação da cidade sob inspiração da remodelação parisiense. Esse projeto tornou-se conhecido como projeto Alexandre de Albuquerque.
Ao plano de Albuquerque, seguiram-se outros projetos de remodelação urbana da capital paulista, como o projeto Freire-Guilhem (FIG. 221), para a região do vale do Anhangabaú e o de Samuel das Neves para mesma região. Em 1911, o arquiteto francês Bouvard, que prestava serviços à prefeitura de Buenos Aires, apresentou um plano geral reurbanização da
147 A demolição do Morro do Castelo, em 1922 exigiu a remoção de 470 edificações, entre elas a Igreja dos
Capuchinhos e o Hospital infantil São Zacarias. Inicialmente a obra ocorria em ritmo lento, ganhou velocidade com a adoção de equipamentos hidráulicos e a construção de uma linha férrea para a remoção dos entulhos que contribuíram para o aterro na região da Glória, gerando uma área de 385.000 m², além de contribuir para o que viria a ser a área da praça Paris. Contribuiu ainda para a criação de aterros na Urca, Centro, Lagoa e Gávea (Cardeman, p.247).
cidade de São Paulo. Este plano inspirava-se, em alguns pontos, especialmente quando trata do diagramas de viação, no plano da Ringstrasse de Viena.
FIGURA 221 – Perspectiva do vale do Anhangabaú, São Paulo segundo a proposta elaborada por Freire-Guilhem.
Fonte: SEGAWA, 2000, p.75.
Enquanto isto, a emergente classe média paulista, começou a demandar bairros exclusivos com a "vizinhança adequada". A abertura da Avenida Paulista em 1891 (FIG. 222) e o loteamento do bairro de Higienópolis (FIG. 223), em 1898, podem ser considerados como indicadores do princípio que viria orientar a expansão urbana da cidade de São Paulo.
FIGURA 222 – Av. Paulista, São Paulo, 1902. À
esquerda, a terceira residência pertencia a Adam von Bülow.
Fonte: GAENSLY, 2009
FIGURA 223 – Avenida Higienópolis, Ca. 1910. Em primeiro
plano a Villa Uchoa (foto de Guilherme Gaensly). Fonte: TOLEDO, 2077, p.117.
Dentro deste espírito, foi criada a companhia City148, que seria de grande importância para
a urbanização, não só paulista como do Brasil de uma maneira geral.
As propostas de expansão para São Paulo, feitas em 1911, pelo arquiteto francês Buvard, levaram o belga E. Fontaine de Laveleye a adquirir mais de 12 milhões de metros quadrados de terrenos na zona leste da cidade, os quais ele vendeu em 1912, por 930.000 libras a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Co. Ltd., organizada em Londres, com um corpo de 14 diretores, onde se incluíam o próprio Bouvard, Cincinato Braga, Campos Salles e Lord Bafour (SEGAWA, 2000, p. 111).
148A companhia foi criada pelo banqueiro belga, Edouard Fontaine de Laveleye, e pelo arquiteto Frances Joseph
Bouvard, ex-diretor dos travaux publiques de Paris. Laveleye adquiriu os terrenos em São Paulo e, utilizando-os como garantia, emitiu no mercado londrino debêntures no valor de 2 milhões de libras. Dessa forma a City capitalizou-se para realizar os loteamentos, adquirindo mais áreas — em 1911 era proprietária de 37% das terras em São Paulo, ou seja, mais de um terço da mancha urbana (FIX, 2007, p.29).
Seu primeiro projeto foi a construção do Jardim América, iniciando o processo de loteamento a partir de 1913. Seu estudo inicial previa um traçado em vias ortogonais, em forma de tabuleiro de xadrez (FIG. 224). Este projeto, de autoria desconhecida, desenvolvido a pedido da Companhia City, foi rejeitado pelos parceiros ingleses. Foram então contratados os arquitetos Barry Parker e Raymond Unwin149. Parker veio ao Brasil em 1917
para estudar e fazer as modificações solicitadas pelos empreendedores. O projeto final, desenvolvido por Parker, foi apresentado em 1919 (FIG. 225).
FIGURA 224 – Projeto inicial para o Jardim América,
de autoria desconhecida. Fonte: SEGAWA, 2000, p. 112.
FIGURA 225 – Projeto para o Jardim América em 1919,
elaborado por Parker e Unwin. Fonte: WOLFF, 2001, p.131.
O projeto previa um loteamento-jardim e, em sua concepção, se aproximava da idéia de um subúrbio com alguma infra-estrutura, como o projeto desenvolvido pela dupla para o Hampstead Garden Suburb (1907) em Londres. O projeto inicial previa lotes com aproximadamente 1.450 m², dispostos em ruas sinuosas, com jardins internos às quadras, para uso coletivo dos moradores. Era estritamente residencial, complementado por dois clubes recreativos e uma igreja católica — Igreja de Nossa Senhora do Brasil. Os jardins permeariam todo o bairro, com residências que não poderiam exceder a uma área de projeção correspondente a um quinto do terreno. Embora, inicialmente, houvesse a proposta de ausência de muros fronteiriços — não concretizada — conseguiu-se a troca de muros por cercas vivas, mantendo-se a idéia de continuidade da cobertura vegetal. Os jardins internos às quadras foram excluídos do projeto. Ao final, Parker projetou um loteamento que lembra Wolff (2001, p.134) ―integrou-se melhor ao tecido urbano tradicional do que os inúmeros bairros de desenho regular que se justapunham dentro da malha paulistana, através de costuras tortuosas‖ (FIG. 226).
149Foram os arquitetos responsáveis pelo projeto da primeira cidade-jardim inglesa, Letchwoth, conforme visto no
FIGURA 226 – Vista aérea do bairro Jardim América,
década de 1930, em primeiro plano o eixo da Av. Brasil. Fonte: WOLFF, 2001, p. 145.
FIGURA 227 – Foto de residência no bairro do
Pacaembú, São Paulo, década de 1940. Fonte: WOLFF, 2001, p.97.
A Companhia City lançou outros loteamentos: Pacaembu (FIG. 227), Alto da Lapa, Alto de Pinheiros, Butantã. Surgiram vários outros loteamentos vizinhos ao Jardim América, desenvolvidos por diversos empreendedores, seguindo os parâmetros estabelecidos pela Companhia City, que se estenderiam, de um lado, até o bairro de Cidade-Jardim e Morumbi e, do outro, até o lbirapuera.
A importância do loteamento é destacada por Ottoni (1996, p. 71), pelo fato elaborar um empreendimento imobiliário planejado, com extremo rigor em sua confecção e estratégias de venda, que resultou em um sucesso comercial e, principalmente, ao conferir, a seus moradores, um inegável símbolo de status e de ascensão social (FIG. 228 e 229).
FIGURA 228 – Propaganda da Cia. City, publicada
na Revista Architectura e Construcções, publicada no início da década de 1930. Note-se que a ―boa vizinhança‖ era a garantia de um bairro exclusivamente residencial, sem a possibilidade de abertura de uma serraria (galpão à esquerda) ou de uma loja de secos e molhados (à direita). Fonte: SEGAWA, 2000, p. 114
FIGURA 229 – Além do Arquiteto comum à cidade jardim
de Letchworth, observa-se, nesta propaganda o mesmo ―apelo‖ comercial: o aspecto saudável do campo com todo o conforto proporcionado pela cidade (vide FiG.
279, Capítulo 5), complementado pelo slogan: ―Jardim
América – o bairro nobre da capital‖. Fonte: SEGAWA, 2000, p. 115.
Nas propagandas dos loteamentos lançados na região, percebe-se uma recorrência de sua associação a uma idéia de exclusividade e distinção, que conferiria a seu proprietário / morador um imediato reconhecimento social e lhe garantiria a posse de um símbolo de status(FIG. 230).
Pode-se observar uma evolução dos símbolos aristocráticos. Nas fazendas e chácaras do século XIX, a casa urbana era ―transportada‖ para o meio rural mantendo-se a importância da centralidade urbana na opção de construção da residência urbana na área central, Desta forma, para a aristocracia e os mais ricos, a construção de duas casas explicitavam, de forma inequívoca, a riqueza e distinção de seu proprietário.
Quando estes loteamentos eram lançados muito próximos à cidade, abria-se a possibilidade para uma burguesia em ascensão poder adquirir estes símbolos de status, sem a necessidade de construir duas casas. Por outro lado, ao se estar entre pares, conseguia-se igualmente a ―boa vizinhança‖ (FIG. 228) apregoada nas propagandas.
FIGURA 230 – Propaganda de lançamento do
bairro do Pacaembú, pela Cia. City. Assim como nas demais propagandas, procura associar o bairro à idéia de exclusividade, afinal era ―O bairro aristocrático por excellencia‖.
Fonte: SEGAWA, 2000, p. 116.
FIGURA 231 – Nesta propaganda do bairro Jardim
Europa, próximo ao Jardim América — porém não lançado pela Cia. City — utiliza-se dos mesmos recursos de venda, especialmente na associação à idéia de ascensão social proporcionada por um ―bairro de elite‖. Fonte: SEGAWA, 2000, p. 118.
Observa-se, na Figura 231, uma abordagem inédita ao fato do loteamento estar situado fora da área central. A distância do centro, ao contrário de ser um transtorno, é
apresentada como uma vantagem pela possibilidade de se fazer ―um passeio agradável pelo bosque‖ numa região de ―palacetes‖.
A palavra jardim, associada a nomes de loteamentos, passou a conferir um caráter de distinção e exclusividade a loteamentos. Ao longo do século XX, proliferaram em São Paulo os loteamentos jardim, surgindo bairros como Jardim Miriam, Jardim Campo Limpo, Jardim Ideal, Jardim Fraternidade, Jardim Felicidade, etc. Comentando esta situação, concluiu Ottoni (1996, p. 71): ―Um incauto, ao ver o guia da cidade com seus 1.200 bairros-jardins, se deslumbraria com a sua possível e enorme área verde. Chegou-se ao máximo da corruptela de uma idéia‖.
As idéias de Howard para as cidades jardim serviram, no Brasil, como modelo de urbanização de loteamentos de padrão diferenciado para as elites. Segundo Segawa (2000, p. 118), na década de 1920, iniciou-se um vigoroso processo de urbanização das áreas periféricas ao centro urbano, quando a publicidade de dois produtos: o lote urbano e o automóvel norte-americano chegavam a ocupar toda a primeira página de um jornal, como O Estado de S. Paulo.
O sucesso do empreendimento paulista serviu de base para a proposição de outros empreendimentos no Brasil. No Rio de Janeiro, o urbanista francês Alfred Agache, em seu plano "A cidade do Rio de Janeiro: extensão, remodelação, embelezamento" de 1930, propôs a criação de duas cidades jardins — Ilhas do Governador e de Paquetá.
Surgiram loteamentos jardim em várias cidades brasileiras. No Rio de Janeiro foi construído o Jardim Laranjeiras em 1939150, que, em sua propaganda, destacava a facilidade de acesso,
a paz e a tranquilidade e, principalmente, o fato de ser um ―bairro aristocrático‖ (FIG. 232). Ottoni e Szmrecsányi (1997) citam também como exemplo de influência o bairro da Urca, construído sob o aterro criado pela remoção do Morro do Castelo. Neste caso, a influência se atém mais a aspectos da ênfase na arborização e na tipologia residencial que à forma urbana do bairro (FIG. 233).
150O loteamento foi construído no local onde se situava a Cia Têxtil Aliança. Projetado com arruamento de formas
orgânicas, intensa arborização e amplas jardineiras nas calçadas. Foi projetado com edifícios de 12 pavimentos (OTTONI; SZMRECSÁNYI, 1997, p. 31).
FIGURA 232 – Propaganda da cidade-Jardim Laranjeiras. Além de enfatizar a sua localização ao mesmo tempo isolada da
região central, encontra-se
convenientemente perto e, principalmente a associação a aspectos ―enobrecedores‖ de se morar no bairro.
Fonte: OTTONI; SZMRECSÁNYI, 1997, p. 30.
FIGURA 233 – Vista panorâmica do bairro da Urca, no Rio de
Janeiro em foto da década de 1950. Fonte: BAIRRO DA URCA, 2009
Ottoni e Szmrecsányi (1997) citam influência dos conceitos de cidade-jardim no plano urbanístico, realizados para a cidade de Salvador na década de 1940 (FIG. 234) pelo EPUCS — Escritório do Plano de Urbanismo de Salvador — e também nas concepções das vilas populares da Liga Social contra o Mocambo, propostas para Recife na década de 1930.
FIGURA 234 – Plano Urbanístico para a Cidade de
Salvador.
Fonte: OTTONI; SZMRECSÁNYI, 1997, p. 32.
FIGURA 235 – Projeto do bairro jardim José Procópio
Ferreira em Juiz de Fora, MG. Fonte: OLIVEIRA, 1938, p.45.
Em Juiz de Fora, Minas Gerais, construiu-se o bairro-jardim Dr. José Procópio Ferreira (FIG.
235), que previa ser uma área residencial, muito arborizada, entretanto com a permissão de