A Review of Motivation in Children Followed With Cancer Diagnosis
SONUÇ VE ÖNERİLER
Retomamos a relação entre loucura, literatura e estética da existência em Foucault, apresentando algumas personagens literárias que exemplificam o sujeito que se reinventa no pensamento do último Foucault. Para ele, a literatura tem uma relação com a escrita de si, um dos componentes da cultura de si no imperialismo romano. Por isso, recorreremos a alguns personagens literários que se apresentam como sujeito estilizado na proposta de Foucault, e que podem ser considerados uma tentativa dos seus próprios autores de falar de si mesmo e expor seus modos de subjetividade a partir das personagens literárias.
Uma personagem literária que representa esse sujeito sem território é Alice de Lewis Carrol. O autor, no período vitoriano, descreve na menina que sonha, a louca que segue seu próprio caminho a procura de um coelho de coletes. Encontramos em Alice o sujeito diluído, em transformação, como um elogio à loucura, pois o País das Maravilhas é descrito como o lugar dos loucos42. Nesse lugar dos sonhos de Alice, nos deparamos com o sujeito que não é sempre igual, que não se enquadra em modelos ou definições, morre a cada dia cedendo lugar a um novo sujeito que emerge na certeza, que é fugidio, como tudo que constitui a vida. “Eu mal sei quem sou nesse exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei essa manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então”(CARROL, 2009, p. 55). Por isso, esse sujeito deve viver e heroificar o seu presente, como uma dádiva única. É fazer no minuto único de sua existência uma obra de arte digna de ser apreciada. A resposta da menina que não sabe de fato quem é assemelha-se ao pensamento do próprio Foucault43
, quando afirma em A Arqueologia do Saber: “Não, não estou onde você me espreita, mas daqui onde eu observo
rindo. Não me pergunte que sou e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil: ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres, pelo menos, quando se trata de escrever”. (FOUCAULT, 2010d, p. 19 -20 grifo nosso).
42 O gato explica a Alice que só os tidos como loucos conseguem estar no País das Maravilhas: “Somos todos
loucos aqui. Eu sou louco, você é louca. - Como sabe que sou louca, replicou Alice. Só pode ser, respondeu o gato, ou não teria vindo para aqui” (CARROL, 2009, p.77).
Ainda na literatura, esse sujeito em reinvenção, que não sabe quem é, pois é mutante, também é apresentado por Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. O romancista apresenta uma noção de sujeito bem próxima daquela teorizada pelo filósofo francês em seus últimos escritos. Desde o início da obra, o romancista brasileiro apresenta um sujeito que narra sua história, não se colocando como uma existência objetiva, mas expõe sua subjetividade se imbricando com a objetividade/subjetividade no mundo em que ele está inserido, a partir de experiências inesquecíveis e heroificadas.
O sujeito desnudado por Guimarães Rosa, que começa a se conhecer no decorrer da narrativa, é um sujeito que ainda não sabe quem é. Isso se aproxima do sujeito que, segundo Foucault, deve buscar o conhecimento de si mesmo para se construir. "Eu em toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa. (...) para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte uma idéia ligeira, e eu rastreio por fundo de todos o matos" (ROSA, 2006, p. 15). Esse mesmo ser é encontrado em Rosa como produção constante de si mesmo sem a necessidade de dizer quem é, e se colocar às claras, de ter uma etiqueta, é o sujeito autônomo, senhor de si, com idéias nascidas dentro de suas dúvidas e agonias próprias. Ademais, percebemos desde Riobaldo, o narrador-personagem, à Diadorim, a neblina obscura, o sujeito que se reinventa, se reconstrói contestando as normatividades e padronizações que lhes são impostas.
As personagens que compõem esse romance parecem ser representações do sujeito teorizado por Foucault, um sujeito que sofre a agonia de ser o que deseja ser. A agonia que busca a liberdade de protagonizar a história que quiser, sem a presença de um autor que manipule sua vida. Desenhar sua própria representação, romper com as normatividades que lhes constrange, é construir um estilo de vida próprio. Fazer da vida uma obra de arte é, para o filósofo francês, romper com o óbvio e viver multiplicidades de sensações.
Tanto Rosa quanto Foucault refletem sobre as identidade, e os governos exteriores e alheios que fazem do sujeito o que ele é. O sujeito no decorrer da história tem deixado que o construam, em vez de construir a si mesmo. Desse modo, diz Guimarães Rosa, na voz de Riobaldo: “A gente nunca deve declarar que aceita inteiro o alheio” (ROSA, 2006, p.23). É necessário subverter o que é imposto, o normal, a etiqueta; é preciso ser e viver como uma metamorfose ambulante, é saber que não somos sempre iguais, não precisamos aceitar sempre as imposições sociais. Retomando a idéia foucaultiana, trata-se da construção de nós mesmos no presente e no momento em que vivemos. Isso nos faz conscientes da nossa responsabilidade com a nossa própria vida, enquanto ser-no-mundo. O momento presente é tudo o que o sujeito tem para construir sua história e heroificar sua vida, é o lugar de crise e de agonia.
O sujeito em Guimarães Rosa seria a exemplificação do sujeito em estado constante de reconstrução, teorizado nos últimos escritos de Foucault, nos levando à concepção de um sujeito artista de si, sujeito como autor de sua vida enquanto obra de arte. É o sujeito mutante, que não precisa nem deve ser sempre igual. Eis aqui a diferença e das multiplicidades do sujeito. “Sou diferente de todo mundo. Meu pai disse que eu careço de ser diferente, muito diferente...” (ROSA, 2006, p. 109). Esse sujeito é consciente da sua vida fugidia, portanto deve heroificar seu presente. A característica do sujeito teorizado por Foucault e por Guimarães Rosa é a capacidade que esse tem de construí-se, desconstruí-se e reconstruí-se, é o sujeito que a cada momento se reinventa, sem temer o erro. “O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não são sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (ROSA, 2006, p.23).
A ética foucaultiana é um convite às práticas de si, possibilitando um autogoverno. É a possibilidade de novos modos de subjetivação. É a resistência permanente. É o combate não apenas contra o externo a si, mas o combate e resistência contra si mesmo, contra o imutável, o fixo. A voz de Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, acolhe a teorização foucaultiana do sujeito em dissipação que recolhe seus cacos e se reinventa: “Tinha mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de caco sobre um capacho a sacudir” (PESSOA, apud KHALIL, 2004, p.227). A principal característica do sujeito em estado de reinvenção é sua capacidade de mutação, é a fragmentação, que deve ser entendida pelo viés positivo, pois é o poder do sujeito em resistir à ditadura da posição de um único eu. Esse sujeito que se reinventa, se descobre na multiplicidade de sensações. Assim como Carrol, Guimarães Rosa e Pessoa, Foucault defende a existência de um sujeito que nega a dependência do outro e recusa a identidade fixa que emerge na modernidade com o conhecimento de si reativado por Descartes. O sujeito defendido por Foucault e exemplificado nas obras literárias citadas “troca a obediência pela irreverência e a afirmação pela interrogação” (KHALIL, 2004, p. 229).