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Na busca de exemplificar os estilos de vida, Foucault retoma a imagem do dândi38

, como

aquele que, na modernidade, teve a preocupação de se tornar artista de si. Por isso, sua insistência em sempre enfatizar as teorizações de Baudelaire sobre o dandismo. Por essa razão, iremos descrever abaixo o dândi, pois, segundo Foucault, esse é o exemplo do artista de si.

O dândi é o homem singular, um artista que se basta, ainda que busque a aprovação dos outros; é um artista que se caracteriza como homem do mundo. Para Baudelaire, “a palavra

dândi implica uma quintessência de caráter e uma compreensão sutil de todo mecanismo moral

desse mundo; mas por outro lado, o dândi aspira à sensibilidade” (BAUDELAIRE, 2007, p.20). Dessa forma, ele é representado pelo flâneur, um observador apaixonado baseado no movimento, no fugidio. Esse homem é um solitário com um imaginário inigualável, tem prazer no efêmero e vê na modernidade o momento exato para a busca da heroificação de seu presente.“Ele busca esse algo, ao qual se permitirá chamar de modernidade; pois não me ocorre melhor palavra para exprimir a idéia em questão. Trata-se para ele, de tirar da moda o que esta pode conter de poético no histórico, de extrair o eterno no transitório”( BAUDELAIRE, 2007, p.25).

Sendo assim, a modernidade é o momento presente para a construção de si mesmo, para uma subjetivação autônoma. Dela podemos extrair beleza e construir a própria arte, fazendo da própria vida um estilo único. Trata-se aqui do desejo de heroificar o presente, de sermos heróis

de nós mesmos. Esse estilo é caracterizado como subversão, mas nele é identificado a nobreza

dos sentimentos misturando-se com princípios estéticos livres, audaciosos e de caráter

37 Textos disponíveis em português no site da UNB

38 Em O dândi Baudelaire afirma que o dandismo é um estilo de vida muito antigo, que já estava presente em

Alcibídes e também no estoicismo. Isso nos remete, ainda, à estética da existência proposta por Foucault, pois ele retoma Alcibíades e o Estoicismo para exemplificar a cultura de si na Grécia clássica e no imperialismo romano. Segundo Baudelaire, o dandismo é retomado na modernidade como atualização desses estilos de vida da antiguidade.

inigualável. Assim afirma Baudelaire: “O dandismo, instituição à margem das leis, tem leis rigorosas a que são estritamente submetidos todos os seus adeptos, quaisquer que forem, alias a audácia e a independência de seu caráter” ( BAUDELAIRE, 2007, p.51). Esse sujeito independente visa o amor e a beleza como fim em si, não tendo nenhuma outra ocupação senão cultivar a idéia do belo, satisfazer suas paixões, pensar, sentir e alimentar suas emoções. “O dandismo é um sol poente; como o astro que declina, é magnifico, sem calor e cheio de melancolia” ( BAUDELAIRE, 2007, p.55).

Esse sol poente representa o estado de vida e de morte tão presente na vida melancólica do dândi, estando mesma imbricada com a arte, a fim de expressar a grandeza humana. O dândi é o poeta de si mesmo que reconhece sua superioridade de alma e recusa sempre a predileção, isso o leva a tentar vencer a vida a partir da morte. É inconcebível ao dândi ser rechaçado ou passar desapercebido por ser diferente, por não se enquadrar em parâmetros de normalidade. Ademais, é perceptível nesses sujeitos exibicionismo histérico, sua morte teatral com pretensões heróicas representa a luta por ser imortalizado. “Sobre esse arcabouço de insatisfação estética e metafísica, inscrever-se-ia o somatório de características pessoais do indivíduo” ( BUENO, 1995, p.20).

A subjetividade no pensamento de Baudelaire representa o artista que inventa sua própria história numa biografia fundamentada no gozo de sua própria presença e de sua própria existência. Por isso, é comum encontrar no poeta ou artista moderno a presença constante do eu se diluindo, pois sua lírica é expressão de sua subjetividade ultra-sensível, porém autônoma e subversiva.

Decerto, a imagem do dândi com alma aristocrática, intelectual de sucesso, que tem o governo de si mesmo é, na visão de Foucault e de Baudelaire, o herói de si mesmo, o inventor de si, protagonista e autor da própria história que deve ser perpetuada a partir da obra de arte. Sendo assim, no dândi não há como separar o que é vida e o que é arte. Ele está mergulhado em seu mundo de sensibilidade, ama suas máscaras reais, ama, contraditoriamente, sua ilusão real, uma ilusão que representava ele mesmo. Como afirma Comte-Sponville: “A ilusão também possui sua verdade, que é ser ela real e necessária. Os astrônomos também sabem. O filósofo é o astrônomo dos seus sonhos” (COMTE-SPONVILLE, 2006, p. 57). O dândi representa a dispersão do artista de si que faz da vida fantasia e da fantasia realidade. “O artista brinca, sonha e fantasia... mas pra valer”(COMTE-SPONVILLE, 2006, p. 275).

Para Foucault, o dândi, que é apresentado por Baudelaire como o artista que se basta, que heroifica seu presente colecionando lembranças, é o homem que se cria, que se transfigura todo tempo: “Aparentemente, ele é um homem que flana, um colecionador de curiosidades: ele é

sempre o último em todos os lugares, onde pode resplandecer a luz, ressoar a poesia, fervilhar a vida, vibrar a música, pousar a paixão...” (FOUCAULT, 2005, p. 343).

Esse dândi dispõe ao seu bel prazer o devaneio e a fantasia. Isso pela necessidade de distinção, de ser diferente, de se contrapor às conveniências. Esse é dotado de ardor, paixão, de coragem e de energia, sendo muitas vezes estigmatizado como sendo um desvairado. Dessa forma, reforçamos nessa característica desse esteta por excelência, o estilista de si, apresentado por Foucault, que em alguns momentos também é apontado como irracional, o sujeito da desrazão, o louco.

Assim como o dandi e o gay, um outro exemplo de estilização do viver encontra-se na figura do louco. Em alguns momentos, Foucault vai relacionar esses modos de fazer da vida uma obra de arte com a loucura. Da mesma forma que o dândi no século XIX foi apontado como louco, o gay na contemporaneidade também recebe esse estigma. Mesmo assim, veremos a seguir, que aquilo que é classificado pelo modelo da sociedade ocidental como loucura, também pode ser um modo de estilização do viver. De modo geral, muito do que é classificado por essa sociedade excludente como loucura é uma atitude de resistência diante esse poderes que postulam fabricar sujeitos reprodutores de condutas normatizadas. O desvio dessas condutas é classificado de nocivo, desvairado, anormal, louco. Sendo assim, será apresentado a seguir, que no conceito de loucura ocidental há uma estética da existência.

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