Depois do enfraquecimento do cuidado de si no cristianismo, a modernidade se encarrega de acabar com ele. O fazer da vida uma obra de arte desaparece completamente na modernidade. Foucault, como vimos, atribui tal feito a Descartes por descaracterizar a filosofia como forma de vida e por ter lhe dado um caráter científico, com linguagem objetiva e técnica, própria para especialistas, desaparecendo, assim, o modelo filosófico antigo que servia de exercício para construção do sujeito ético.
Em alguns momentos, no entanto, Foucault se retrata com Descartes e com a modernidade, afirmando que essa descaracterização da filosofia antiga e do cuidado de si na construção da estética da existência já começara a desaparecer desde o mundo cristão. ‘‘É aí que, parece-me, o que chamei de ‘momento cartesiano’ encontra seu lugar e sentido, sem que isso signifique que é de Descartes que se trata, que foi exatamente ele o inventor, o primeiro a realizar tudo isto’’ (FOUCAULT, 2006c, p.22).
Mas, de todo modo, é na modernidade que se objetiva a busca de uma verdade incontestável, em que se desconsidera a formação do sujeito ético antigo, abrindo espaço à caracterização de um sujeito epistêmico e normativo. O racionalismo cartesiano leva, então, às últimas conseqüências um processo iniciado com o cristianismo.
Apesar de Descartes ter reativado o conhece-te a ti mesmo, esse conhecimento de si cartesiano não possui nenhum vínculo com o cuidado de si, tal como acontece na antiguidade. Assim, diz Foucault, ‘‘certamente, entre o gnôthi seautón socrático e o procedimento cartesiano, a distância é imensa’’ (FOUCAULT, 2006c, p.19). Apesar de Descartes ter tentado conhecer o sujeito a partir de meditações, o famoso cogito muito contribuiu para desqualificar o princípio do cuidado de si, excluindo-o do campo do pensamento filosófico moderno.
Na modernidade, a verdade passa a ser um conhecimento adquirido, mas essa abstração da verdade não se dá pelo conhecimento de si. Dessa forma, percebe-se que o cuidado de si desaparece e deixa de ser um preceito filosófico e moral.
Sendo assim, o mundo moderno e contemporâneo perde um fundamento moral que levava o indivíduo a se construir eticamente a partir de práticas de si autônomas. Foucault busca reatualizar esse cuidado a partir de estilos de vida. A intenção do autor não é fazer um resgate do mundo grego, pois, segundo o mesmo, reativar a estética da existência como ela era constituída na antiguidade não é possível. ‘‘Seria um contra-senso querer fundamentar a moral moderna na moral antiga’’ (FOUCAULT, 2006a, p.263). O que poderia haver de novidade na moral moderna seria o viver a vida estilizada, problematizada a partir da liberdade como acontecia no mundo grego. Essa construção de uma vida estilizada necessita de ousadia, pois ela parece subversiva, visto que não necessita de nenhum código ou preceito preestabelecido para ser construída. Dessa forma, é necessário que o indivíduo ouse se construir como uma obra de arte. A partir disso, entenderemos como essa tematização antiga foi assimilada pela filosofia de Foucault no momento em que ele propõe um estilo de vida ético que possa ser vivido na contemporaneidade.
Na primeira aula do curso A Hermenêutica do Sujeito, proferido por Foucault em 1978, a principal questão levantada refere-se ao próprio nascimento da filosofia. Partindo do estudo de uma nova possibilidade de interpretação do preceito délfico (gnôthi seautón ou conhece-te a ti mesmo), à sombra de um preceito mais abrangente, a saber, a "epiméleia heautoû" (cuidado de si), Foucault faz uma genealogia das relações entre sujeito e verdade. Apropriando-se do cuidado de si e usando-o como parâmetro, o gnôthi seautón é demonstrado como uma questão fundamental da filosofia, mas seu significado não teria o mesmo valor que podemos dar ao
conhece-te a ti mesmo, no sentido filosófico do termo. A concepção de que a filosofia não é algo
exclusivamente do campo cognitivo fica, assim, mais clara.
Segundo Foucault, o que estava prescrito nesta fórmula conhece-te a ti mesmo não era o conhecimento de si, nem como fundamento da moral, nem como princípio de uma relação com os deuses A filosofia seria, assim, antes de tudo, um modo ou estilo de vida mais brilhante, mais feliz e intenso. O pensamento filosófico serviria como trabalho agonístico criativo e terapêutico, diante do sofrimento, da angústia e da infelicidade presente na vida.
A razão pela qual a epiméleia heautoû foi desvalorizada na tradição filosófica será um dos alvos deste curso de Foucault e, para isso, ele fará um levantamento histórico, visitando perspectivas filosóficas que fugirão das interpretações tradicionais do ser como questão filosófica metafísica essencial, pois representam, de certa maneira, um contraponto à exaltação de um caráter cognitivo de tal preceito. Nesse sentido, o gnôthi seautón significaria que, no momento em que o indivíduo elabora questões ao oráculo, deve, por bem, examinar com cautela e honestidade em si mesmo as questões que teriam a propor, ou seja, o que, de fato, quereríamos saber. Trata-se, portanto, de reduzir ao máximo o número dessas questões e de não as colocar em demasia. O conhece-te a ti mesmo seria o preceito segundo o qual é preciso continuamente lembrar-se de que, afinal, é-se somente um mortal e não um deus, devendo-se, pois, não contar demais com a própria força. Ou seja, de modo geral, o conhecimento de si pressupõe um auto- exame, uma reflexão acerca das ações que adotamos no mundo. Ele consiste num esforço de vigilância que intensifica a imanência em si mesma. Isso porque conhecer-se não é se dividir em partes distinguíveis, nem fazer de si um ser inexpressivo, um objeto definível faticamente, que seria preciso descrever e estudar para se dar um sentido, pois o sujeito é mais amplo que o conhecimento, assim como a filosofia. Foucault pensa, assim, a filosofia vinculada às escolas, ou melhor dizendo, aos estilos de vida que caracterizaram os indivíduos que buscaram a compreensão de si na antiguidade clássica tardia – o cinismo, a ironia, o estoicismo, o epicurismo -, uma vez que seus ensinamentos possibilitam a herança prática das chamadas artes
da existência.
Na introdução do segundo volume da História da Sexualidade, O Uso dos prazeres, Foucault refere-se às artes da existência, como práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente fixam sua conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular, fazendo da vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Por isso, no capítulo que segue, pontuaremos essa possibilidade de ética a partir da reinvenção do sujeito que é artista de si mesmo. No próximo capítulo, avaliaremos, a partir de Foucault, a possibilidade de se vivenciar uma estética da
existência como ética possível na contemporaneidade, a partir da reinvenção do sujeito que é artista de si mesmo.