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A Teoria das Representações Sociais (TRS) surge na França, em 1961, através do psicólogo Serge Moscovici, que passou a desenvolver estudos no campo da Psicologia Social, voltados para o subjetivismo, dependentes da interpretação do pesquisador e baseados em métodos não habituais para a época4.

Em sua obra inaugural, La Psychanalyse, son image, son public (A psicanálise, sua imagem, seu público), contendo a matriz da teoria, Moscovici a define como “uma modalidade específica de conhecimento que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos”(p.26)36.

Para elaborar esta Teoria ainda em construção, Moscovici buscou os conceitos de Émile Durkheim no que diz respeito às representações coletivas e individuais, sendo a primeira considerada o marco conceitual para o desenvolvimento da Teoria das Representações Sociais27.

Para Dukheim, as representações coletivas têm sua origem na interação dos homens entre si e a natureza, numa sociedade capaz de elaborar e exprimir seus pensamentos. Elas são o resultado das diferenças e semelhanças experimentadas por um grupo ao longo do tempo, possuem uma independência relativa e são capazes de exercer pressão sobre a forma de atuação do grupo64.

A Teoria das Representações Sociais propunha a existência de duas formas diferentes de conhecimento e comunicação, conduzidos por propósitos diferentes, através dos universos consensual e científico. O universo consensual seria aquele formado na conversa informal, no cotidiano, ao passo que o universo científico se daria através de uma

linguagem própria e com uma certa hierarquia interna. E mesmo com propósitos diferentes, são eficazes e indispensáveis4.

Através de seu dinamismo, as Representações Sociais mostram-se, portanto, como uma forma de se conhecer uma sociedade frente a um montante de novas informações que chegam a todo instante, provocando mudanças constantes no pensar, falar e agir. Elas integram um instrumento capaz de analisar aspectos sociais, uma vez que reproduzem a realidade e mostram-se como forma de entender a relação dos indivíduos com seu cotidiano e de como atribuem novos sentidos as suas experiências.

Os estudos de Representações Sociais buscam analisar a produção do senso comum sobre temas que dizem respeito às relações entre pessoas ou grupos e sua influência sobre o objeto estudado.

As pesquisas qualitativas passam a ter a contribuição da Teoria das Representações Sociais, uma vez que esta teoria mostra-se responsável pelas opiniões formadas pelos grupos, sobre si mesmos e sobre os outros. Esta teoria tem como uma de suas funções a elaboração de condutas e a comunicação cotidiana entre os indivíduos, tornando possível o acesso ao universo simbólico e social do grupo em estudo.

Para Ferreira e Brum18, “estudos norteados pela teoria das representações sociais podem auxiliar profissionais da área da saúde na compreensão dos aspectos que moldam e influenciam o agir dos sujeitos e se expressam em suas vivências subjetivas e de grupo manifestadas cotidianamente”(p.13)

Estudá-la na área da saúde, e mais especificamente na Odontologia, constitui um avanço, considerando que, tradicionalmente, o profissional provido de formação técnica –

formação centrada na enfermidade, coloca-se como “dono do saber” e passa a perceber e tratar seu paciente apenas como uma boca enferma.

As ações profissionais dos Cirurgiões-Dentistas são fundamentadas pela elaboração de conceitos e de condutas apreendidas durante sua formação acadêmica e posteriormente durante cursos de pós-graduação, não sendo estes últimos obrigatórios à sua atuação profissional. Contudo, a elaboração e complexidade dessas condutas profissionais irão depender, em parte, do que é ensinado em sua formação profissional.

Vários autores têm se utilizado dessa técnica que revela os elementos integrantes da representação, sua organização e hierarquia para verificar as representações de seus objetos de estudo na Odontologia. Na seqüência, alguns estudos desenvolvidos no âmbito do Departamento de Odontologia da UFRN, através do Grupo de Estudos de Representações Sociais em Saúde (GERESAÚDE), que utilizaram a Teoria das Representações Sociais buscando revelar para a Odontologia algumas temáticas como a atenção à boca definida pelo senso comum17, a prática da atenção odontológica a gestantes15, o medo e a contaminação como propulsor da prática de biossegurança55 e os significados das perdas dentárias para a terceira idade48.

De acordo com Abric1, as Representações Sociais mostram-se fundamentais na dinâmica das relações sociais e práticas e para isso possuem quatro funções essenciais, sendo elas:

• Função de Saber – permitem compreender e explicar a realidade. Definem a

referência comum e através da comunicação social realizam as trocas, a transmissão e a difusão do saber “ingênuo”.

• Função Identitária – definem a identidade de um grupo e permitem sua proteção

nos processos de socialização, através do controle social exercido pela coletividade em cada um de seus membros.

• Função de Orientação – guiam os comportamentos e práticas.

• Função Justificadora – permitem a justificativa das tomadas de posição e

comportamentos.

A Teoria das Representações Sociais, também conhecida como a teoria do senso comum, tem orientado muitos estudos na área na saúde, buscando explicar comportamentos e significados de um determinado grupo, com relação a um dado objeto e em um certo momento3.

Estes estudos ajudam a compreender a construção da realidade através do saber socialmente elaborado, mas que se encontra apoiado em um saber prévio que, por sua vez, vem carregado de características socioculturais. E através desse saber prévio serão elaborados novos conceitos para aquilo que já é conhecido. Como num jogo de quebra- cabeças, as peças vão sendo encaixadas, até que se forme uma figura, palavra ou frase que possa dar um novo sentido àquele objeto.

As representações se constituem de um conjunto de informações, crenças, opiniões e atitudes em torno de objeto social. Estes elementos, uma vez organizados, estruturam-se em um sistema cognitivo1.

De acordo com Moreira e Morya34, “é indiscutível a importância da Teoria das Representações Sociais na análise de fenômenos sociais que permeiam, por exemplo, o

processo saúde/doença, por elas darem conta dos fenômenos coletivos e mais precisamente das regras que regem o pensamento social”.

O conhecimento dos profissionais, sobre suas próprias representações, pode significar um ganho qualitativo na atenção à população assistida, uma vez que este estudo possibilitará conhecer uma realidade que não é considerada nos modelos de planejamento e/ou educação em saúde.

Pensar a prática profissional do Cirurgião-Dentista no âmbito no Programa Saúde da Família não se encerra em questionar o modelo de assistência. O que se procura questionar é a maneira como os esses profissionais estão lidando com a transição deste modelo e os problemas sentidos no cotidiano de suas práticas.

2- OBJETIVOS

São objetivos deste trabalho:

• Apreender as representações sociais dos dentistas sobre o Programa Saúde da

Família, buscando:

Conhecer o que levou os Cirurgiões-Dentistas a se inserirem no PSF; Descrever as implicações da implantação deste programa no

cotidiano de suas práticas odontológicas;

Identificar os tipos de práticas estes profissionais estão realizando no

cotidiano do PSF;

3- METODOLOGIA

Em pesquisas que envolvem abordagem qualitativa, não são definidas as hipóteses, pois uma vez que se aprofunda a pesquisa, cresce sua complexidade. Para isso, o pesquisador deve manter-se receptivo às novas descobertas e aos novos elementos que possam surgir no curso de sua investigação, enfatizando as diversas maneiras de como a situação se apresenta e o contexto em que está situado.

De acordo com Trivinõs63, o tamanho da amostra deve ser determinado durante a realização da coleta dos dados (trabalho de campo), por meio da avaliação do pesquisador, após considerar esclarecido seu objeto de estudo.

Concordando com o autor acima, Minayo27 relata que esse tipo de pesquisa (qualitativa) não pode basear-se no critério numérico, para poder garantir sua representatividade. A amostragem boa é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões.

Este estudo do tipo etnográfico, foi realizado em cinco municípios do Estado do Rio Grande Norte.

Os aspectos teórico-metodológicos ora explorados fundamentam-se na Teoria das Representações Sociais (TRS), buscando enfatizar o universo representacional do Cirurgião-Dentista acerca do Programa Saúde da Família.

3.1 – Os sujeitos

Os sujeitos da pesquisa foram 26 Cirurgiões-Dentistas, inseridos nas equipes de saúde bucal do Programa Saúde da Família, nos municípios de Natal, Extremoz, São Gonçalo do Amarante, Parnamirim e Macaíba, todos situados no Estado do Rio Grande do

Norte e fazendo parte da “Grande Natal”, numa alusão à capital do Estado (Quadro 1). A coleta dos dados ocorreu no período de setembro a dezembro de 2004.

Quadro 1 – Distribuição dos Cirurgiões-Dentistas participantes do estudo, de

acordo com o município em que atuam. Natal/2004.

Município de atuação Número de profissionais

NATAL 12 MACAÍBA 04 SÃO GONÇALO 04 PARNAMIRIM 04 EXTREMOZ 02 TOTAL 26

A seleção destes profissionais deu-se através de consulta à Secretaria Estadual de Saúde, Núcleo de Saúde Bucal, das equipes cadastradas e implementadas nos referidos municípios até o mês de março, do ano de 2004.

O tempo de inserção nas Equipes de Saúde Bucal do Programa Saúde da Família serviu como critério de seleção dos profissionais participantes deste estudo, devendo este tempo ser superior a um ano, não importando se o profissional tinha como única esta atividade profissional ou se esta vinha a ser sua primeira experiência profissional.

No município de Natal, o número de profissionais escolhidos foi determinado pelo local de atuação, sendo escolhido o Distrito Norte por apresentar o maior número de ESB’s (19). No entanto, observa-se um número menor de profissionais inseridos no estudo. Isto se dá ao fato de que, cinco profissionais participaram do estudo piloto, uma encontrava-se sob licença maternidade e um outro mudou seu local de atuação, ficando assim 12 profissionais.

Nos municípios de Extremoz e Macaíba, foram inseridos no estudo a totalidade das equipes cujos profissionais atuavam há mais de um ano em equipes de saúde bucal, no PSF, sendo 2 e 4 profissionais respectivamente.

Devido a uma dificuldade de acesso aos profissionais ou a seus locais de trabalho, no município de Parnamirim e São Gonçalo do Amarante, procedeu-se a inserção de apenas 4 profissionais de cada município, todos eles com atuação superior há um ano em equipes de saúde bucal.

Antes da aplicação dos instrumentos, eram explicados os motivos da realização do mesmo e sua finalidade, ressaltando sua relevância para a Odontologia, bem como reforçados o caráter confidencial dos dados a serem coletados e seu completo anonimato, com uso exclusivo para a produção científica, conforme parecer do Comitê de Ética em Pesquisa (CONEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do qual o projeto desta pesquisa obteve aprovação (Anexo A). Após os devidos esclarecimentos, os profissionais pesquisados autorizavam sua participação através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Anexo B e C).

Previamente à pesquisa, foi realizado um estudo piloto com cinco profissionais inseridos no Programa Saúde da Família do município de Natal, com o objetivo de aprimorar os instrumentos da pesquisa. A execução do estudo piloto se deu durante a apresentação dos trabalhos finais do Curso de especialização em Saúde da Família, realizado no CEFOPE (Centro de Formação de Pessoal para os serviços de Saúde), durante o mês de setembro, de 2004.

Benzer Belgeler