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O secretariado constituído à época problematizava o seu fazer na perspectiva de tornar mais eficazes as suas ações. Esse movimento de reflexão, de acordo com as falas dos sujeitos, acontecia dentro de uma lógica em que se tomava a prática como objeto do pensamento. Talvez tenha sido esse processo que fez emergir a necessidade de formulação de um método para o Lições de Cidadania.

Durante a pesquisa observamos que nos diversos editais, desde o Programa Reconhecer (Anexo 1), do MEC, até os cadastros subsequentes do

Projeto junto à Pró-Reitoria de extensão da UFRN, que a seção reservada para a descrição da “Metodologia” do Lições de Cidadania havia sido reiteradamente preenchida com procedimentos adotados ao invés da composição de um método. Na fala dos sujeitos e nos documentos acessados, evidenciou-se o momento em que os estudantes formulam o primeiro modelo de método problematizado e ajustado apara atender às necessidades do fazer educativo do Lições de Cidadania.

Nossa posição de pesquisador, mas também de sujeito implicado, por haver vivenciado o Lições de Cidadania nesta exata época, nos põe num lugar privilegiado para junto aos documentos e saberes registrados, por meio das entrevistas livres conversacionais, observarmos e compreendermos os eventos daquele dado momento em que se urdiu um método.

Na composição do novo secretariado, no ano de 2007, três entre os sujeitos selecionados, partilhavam a condição de sua proveniência a partir de um mesmo movimento de juventude, estávamos entre esses três selecionados.

Conforme apresentamos no capítulo inicial desta dissertação, desde o ano de 1977, dentro da congregação religiosa dos Maristas havia sido criado na Colômbia um movimento de juventude denominado Renovação Marista, o REMAR.

Sintonizado com as tensões da igreja católica na América Latina evidenciadas anos antes, após o Concilio Vaticano II, e pela Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, situada na Cidade de Medellín, também na Colômbia, o REMAR surge apoiado em um método que partia obrigatoriamente da realidade, problematizava os caminhos possíveis, para em seguida iniciar sua ação no mundo. Esse método foi denominado “Ver – Julgar – Agir”.

Surgido na virada do século XX e estabelecido como método da Ação Católica, inspirou inúmeros movimentos e pastorais da Igreja Católica Apostólica Romana, mais recentemente se ampliou incorporando os elementos “Avaliar – Celebrar” no qual o primeiro parece apontar para a compreensão freireana de que “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra,

no trabalho, na ação-reflexão” (FREIRE, 2008, p. 90. Grifo nosso) e o segundo

cuja etimologia deriva do latim Celebrare, significando “honrar, fazer memória” se afirmou enquanto parte necessária de um processo pedagógico focado no

ser mais, fazendo memória ao que se viveu, o que foi bom e ao que não foi, mas que decerto se constituiu enquanto aprendizado.

No curso da pesquisa compreendemos que não era objeto do nosso estudo estabelecer as origens e formulações do referido método, posto que para o Lições de Cidadania, a referência do método era simplesmente a experiência vivenciada no REMAR, por parte de alguns dos seus secretários, que percebendo similaridades dos procedimentos das duas experiências educativas se propuseram a formular um método, a partir das práticas educativas e ações do Lições de Cidadania.

Hoje, compreendemos que essa similaridade está relacionada ao fato de os referenciais teóricos adotados pelo Projeto, obras de Paulo Freire, e “Ver – Julgar – Agir”, enquanto método de trabalho, se fundam, entre outras referencias, no Materialismo Histórico e Dialético formulado por Marx e Engels.

Contextualizado, o “Ver – Julgar – Agir – Avaliar – Celebrar” vivenciado no REMAR foi incorporado ao Lições de Cidadania de um modo próprio. Sobre o momento, dialogam Hélio, Jules e Lourival (2013):

Hélio: É... E aí tem a metodologia. [...] era aquele negócio, conhecer e despertar, que era algo muito parecido com o que a gente trabalhava no REMAR. A gente trabalhava no REMAR e, ah! agora sim, o início de tudo é o ver, julgar e agir, né? É o ver-julgar-agir.

Lourival: Massa.

Hélio: É. Foi a gente do REMAR. O ver-julgar-agir. Porque assim: a gente acabou fazendo... o que eu escrevi na época era o que a gente fazia. Tipo, não era a teoria.

Jules: A gente descreveu a prática.

Hélio: Descreveu a prática, que era o ver-julgar-agir, que a gente deu um outro nome: Conhecer... Agir...

Jules: Dialogar, porque a gente mudou. Porque o nosso "agir" a gente fez essa crítica que a gente não pode agir. A gente tem que agir junto com eles.

Hélio: Mas no artigo tá Agir, Avaliar e Celebrar. E aí eu acho que era pra ser mesmo ver-julgar-agir, e tal, porque assim, a gente tinha... a questão de usar o termo "julgar", a gente tinha receio de usar esses termos.

Jules: Porque a gente queria se desligar muito da ideia clássica de Direito. Da ideia clássica da Assistência Jurídica.

Lourival: O "agir" depois das reflexões que partiram daí, se substituiu por "construir", né.

Hélio: É, "construir", foi mesmo, "construir" e depois foi "dialogar". Foi desse jeito. Eu lembro que Matias tinha feito uma crítica, vocês tinham levantado também, e aí a gente foi mudando, foi mudando, e foi construindo. Agora foi descrevendo uma prática.

A fala dos sujeitos reforça nossa percepção de que o método incorporado veio para descrever a prática e não para pautar a ação (“o que eu

escrevi na época era o que a gente fazia. Tipo, não era a teoria”ν “A gente

descreveu a prática”). E mais que isso, a adoção do modelo para o método não se deu sem o devido debate e problematização dos sujeitos da época acerca dos elementos que estariam postos na composição do modelo do Lições de Cidadania. Não à toa, aquilo que originalmente no REMAR era o “Agir”, passou a ser no Lições “Construir” e depois, novamente problematizado, tornou-se “Dialogar” para estar plenamente coerente com a prática educativa do Projeto (“a gente fez essa crítica que a gente não pode agir. A gente tem que agir junto com eles”ν “τ ‘agir’ depois das reflexões que partiram daí, se substituiu por ‘construir’ν ‘É, ‘construir’, foi mesmo, ‘construir’ e depois foi ‘dialogar’”).

Descrevendo detalhadamente a proposta de método, encontramos em um artigo denominado “A extensão universitária popular: a aproximação do Curso de Direito com a realidade” publicado por ocasião da XVI edição do Seminário de Pesquisa do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, CCSA, da UFRN, de autoria de Hélio Bezerra e Natália Bonavides (2011) o seguinte trecho:

A metodologia da Extensão Universitária Popular fundamenta- se essencialmente em cinco momentos: Conhecer, Despertar, Dialogar, Avaliar e Celebrar. Tais momentos não são passos em separado, um momento após o outro; são entrelaçados para o melhor andamento do processo.

O primeiro momento é o Conhecer, em que os extensionistas- pesquisadores buscam ter um primeiro contato com a realidade para conhecê-la e dar inicio à criação de um vínculo de confiança com as pessoas. Para isso é necessária a sensibilidade para perceber as especificidades da localidade e, principalmente, humildade, que gera o respeito em relação ao espaço de vida. [...] Durante esse momento, uma prática muito importante para a Extensão Popular, através dos Encontros de

Cidadania, ser bem sucedida é escutar o que os sujeitos da localidade têm para relatar. O segundo momento é o Despertar, a consequência do primeiro, pois é conhecendo que despertamos para práticas educativas que realmente transformem a realidade dos sujeitos envolvidos. Aqui cabe destacar que os sujeitos são os estudantes e professores da universidade, como os moradores urbanos, acampados ou assentados rurais, detentos; todos envolvidos na prática educativa, despertando em comunhão para uma prática política libertadora a serviço de seus espaços.

O terceiro momento, o Dialogar, é a prática desse despertar, com a instrumentalização das soluções aplicadas agora na realidade, através de “aulas”, dos momentos de diálogo com a comunidade chamados “Encontros de Cidadania”. É o período em que ocorre a transformação do espaço de vida e dos sujeitos envolvidos, tendo capacidade de aprender, não apenas para uma adaptação, mas, sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a em comunhão. (FREIRE, 1996). Seguindo o tripé indissociável da educação universitária, consagrado no art. 207 da Constituição Federal, “o Dialogar” é o momento da extensão propriamente dita, com o objetivo de intensificar relações transformadoras entre a universidade e a sociedade, por meio de um processo educativo. O quarto momento é o Avaliar, quando é pensada e debatida a continuidade do trabalho e realizada uma análise dos erros e acertos para que, dessa forma, a extensão possa evoluir a cada vez que for aplicada. Também faz parte da avaliação a percepção das ações e articulações da própria comunidade em favor dos seus direitos, quando é posto em prática o que foi construído durante o processo formativo. E por fim, o quinto momento é o de Celebrar os êxitos junto com a comunidade; é quando os educadores – educandos, todos os sujeitos envolvidos, selam um vínculo, em virtude de tudo que foi vivenciado e transformado.

O artigo evidencia a importância do uso da escrita como instrumento poderoso de organização ou sistematização dos movimentos da vida. Pois, nesse artigo apresenta-se os cinco momentos e se evidencia como eles se materializam na execução das atividades do Lições.

No entanto, no curso da pesquisa constatamos que o método anunciado não se constituía em um elemento teórico presente na consciência dos extensionistas. Essa percepção decorre de quatro constatações fundamentais.

A primeira diz respeito ao fato de que o método ficou restrito aos textos dos projetos para concorrência em editais. Ele não foi tomado como um fundamento teórico que orientaria a prática dos extensionistas.

Outro aspecto constatado e que diminuiu a potência do método é o fato de que ele foi tomado pelos extensionistas como algo apenas a ser apresentado no Seminário de integração do Curso de Direito e em artigos científicos. Não se compreendia o método como um fundamento do Lições e, isso pode se evidenciar no fato de que ele não foi trabalhado na formação dos extensionistas que ingressavam no Projeto nem se constituiu em objeto de estudo do secretariado do Projeto.

Uma terceira constatação decorre da primeira e se materializa no desconhecimento da existência de um método por parte dos novos sujeitos que ao longo do tempo ingressaram no Lições. Os extensionistas novatos só acessavam o método, quando necessitavam ler os projetos anteriores para tomá-los como referencia para preenchimento de novos formulários de projetos, era nesse momento que eles deparavam-se com o método do Lições.

Por fim, a quarta constatação emergida no momento mesmo em que escrevíamos esse texto dissertativo e, enquanto ele nos atravessava, pensávamos que um método habita o sujeito e, talvez, por isso mesmo, é possível que os sujeitos implicados simplesmente não sentissem a necessidade ou a ausência de tal instrumento, ou ainda, é possível que quem mais necessitasse dessa sistematização eram aqueles que já se organizavam através desse método, ainda que sob outra roupagem.

Não obstante esses elementos, pensamos que o método, longe de ser uma formulação perdida, estava disponível àqueles que desejassem compreender um pouco mais da experiência educativa do Lições de Cidadania.

Essa reflexão sobre o processo de formulação do método para o Lições nos convidou a organizar os capítulos de nossa dissertação, seguindo os cinco momentos do método: “Ver – Julgar – Agir – Avaliar – Celebrar”.

Esse processo de produção do método no momento em que o Lições era renovado se deu no ano de 2010. Nesse tempo histórico, se instaura a terceira e última fase do Lições de Cidadania, cujo marco reside na alteração do seu nome. Ficava na história o Projeto Lições de Cidadania e afirmava-se o Programa de Educação Popular em Direitos Humanos – Lições de Cidadania.

3.3. O Programa de Educação Popular em Direitos Humanos - Lições de