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Términos e transições de carreira atlética também podem ser vivenciados experiências voluntárias, ainda que forças externas levem o atleta a tomar esta decisão precoce e forçosamente (COAKLEY, 1983). A experiência voluntária envolve, antes de tudo, uma aceitação do atleta/pós-atleta, bem como a sua participação ativa no processo de busca de recursos e enfrentamento das implicações que as mudanças trazem. Fatores involuntários que geram términos forçosos podem fazer com que o processo de retirada seja vivenciado de forma dolorosa, mas também podem se tornar, de acordo com a avaliação particular e recursos disponíveis para a transição, indicativos de que a hora de sair de cena chegou (MARKUNAS, 2012). A falta de motivação para continuar, o nível de estresse resultante da rotina de treinamento, os decréscimos de desempenho e o estabelecimento de outras prioridades de vida, são alguns dos fatores que atravessam a vida do atleta que elabora voluntariamente a saída deste papel (WEBB et al., 1998; WYLLEMAN, LAVALLEE & ALFERMANN, 1999; RUBIO, 2001; RUBIO & FERREIRA JUNIOR, 2012).

Coakley (1983) percebeu que o término voluntário da carreira atlética parece ser mais comum entre atletas universitários e amadores. Os primeiros, ao mesmo tempo em que

são confrontados pela chance mínima de ingresso e sucesso em uma carreira atlética profissional têm mais chances de se prepararem academicamente e assim explorarem outras possibilidades de carreira se por ventura tiverem seus empreendimentos no esporte frustrados. Assim, pressupõe-se que este grupo estaria mais apto a tomar decisões relacionadas à transição, pois dispõe de um repertório mais amplo de recursos para se inserirem em sociedade (PRICE, MORRISON & ARNOLD, 2010; RUBIO & FERREIRA JUNIOR, 2012). Uma das características da carreira atlética amadora, por sua vez, é o nível de preponderância, equivalente ou menor, que o papel de atleta tem em relação a outros papéis. O que possibilita com que o término de carreira atlética seja encarado como um processo mais natural e de reorganização de prioridades, em virtude das novas dimensões que a vida toma (RUBIO & FERREIRA JUNIOR, 2012). O fato de os atletas amadores não serem uma classe amplamente prestigiada, não ganharem altos salários e se manterem mais próximos da vida cotidiana, também contribuiria para que o processo de deixar este papel ocorra de forma mais suave (OGILVIE & TAYLOR, 1993; DRAHOTA & EITZEN, 1998; RUBIO &FERREIRA JUNIOR, 2012).

Segundo Rubio & Ferreira Junior (2012) a longevidade da carreira atlética e as experiências de conquista também se apresentam como elementos que sustentam comportamentos mais ativos e voluntários frente o processo de encerramento e transição de carreira atlética. O atleta de carreira longeva, por exemplo, sentindo que vivenciou o esporte em toda sua extensão e possibilidades, pode conceber o término como um fator de autorealização, desfecho positivo ou merecido descanso após uma longa e dura jornada. Transições voluntárias também são reflexos de estafa mental e física (RUBIO & FERREIRA JUNIOR, 2012). O corpo do atleta em processo de decréscimo de desempenho também pode ser um indicativo de que a hora de parar chegou (ANGELO, 2012).

Atletas que encerram voluntariamente a carreira também tendem considerar a vida pós-atleta de forma mais positiva; sofrem menos distúrbios psicológicos e adaptativos, se comparados aos atletas cujas retiradas ocorreram inexperada e forçosamente, e manifestam expectativas positivas de desempenho em outras áreas (PRICE, MORRISON & ARNOLD, 2010). Sinclair & Orlick (1993), Webb et al., (1998) e Rubio & Ferreira Junior, (2012) vão propor que os atletas que realizaram os objetivos que propuseram para si no esporte tendem vivenciar suas transições acompanhados por sentimentos de satisfação, tomando-a como referência de possibilidade de realização em outros contextos, tendo, por tanto, mais chances de se despedirem desse papel voluntariamente.

Durante a carreira, o atleta pode ser confrontado por questões essenciais e tensionantes. A primeira, diz respeito ao tempo e o nível de engajamento necessários para que possa alcançar seus objetivos no esporte (títulos, medalhas, dinheiro) e se estes objetivos fazem parte de seu conjunto de valores e concepções de conquista. A segunda, diz respeito aos papéis e interesses da juventude e vida adulta que vão se apresentando ao longo da carreira atlética, muitas vezes de forma concorrente, levando-o a pensar sobre a necessidade de mudanças, dentre as quais a saída do papel pode ser a primeira decisão dentro de um processo particular de reorganização de prioridades (ALISON & MEYER, 1988).

Torregrosa et al., (2004) em um estudo com atletas olímpicos espanhóis de diferentes épocas observaram que durante a fase de mais alto nível competitivo, esses não tinham uma imagem nítida a respeito do que seriam e fariam da vida pós-atleta, embora estivessem cientes de que inevitavelmente deixariam o esporte. Mas foi ainda duranteo alto nível competitivo que eles começaram a manifestar comportamentos antecipatórios de transição, baseados em referências mais concretos sobre o que significava deixar de ser atleta. Pesquisas sobre o encerramento e transição de carreira atlética não são conclusivas e carecem de mais investigações, principalmente a partir de abordagens interdisciplinas que compreendam o caráter paradoxal e ambivalente deste fenômeno. Um exemplo dos seus paradoxos é ilustrado no estudo de caso de Markunas (2012) que mostrou que fatores de interrupção forçosa da carreira atlética, embora sejam emocionalmente extressantes e difíceis de enfrentar, permitem com que o atleta visualize outras possibilidades de carreira. Em outras palavras, enquanto se recupera da lesão, o atleta pode ter a oportunidade de se voltar para questões essenciais como “quem é”, “o que espera do futuro” e como pretende construí-lo caso precisasse deixar precocemente a carreira atlética. Com mais tempo para ensaiar papéis alternativos, o atleta lesionado pode elaborar melhor a saída desse papel, fazendo de um evento traumático sua plataforma para novos horizontes de carreira. Importante ressaltar que embora a experiência de transição de carreira atlética possa ser gerida com sucesso por muitos atletas, muitos reclamam carecer de sistemas de suporte institucional, além de sentirem falta de um plano de previdência que reconheça financeiramente os anos de serviço prestados aos clubes e ao próprio país (SINCLAIR & ORLICK, 1993).

Segundo Webb et al., (1998) a tomada de decisão pelo término da carreira está relacionada a uma percepção subjetiva de controle sobre a implicação da mudança, bem como à disposição de recursos de enfrentamento da mesma. Isso não quer dizer que esse processo seja fácil ou que não careça de suporte institucional. A transição seria, portanto, um

desdobramento de um processo mais complexo envolvendo o tipo de identificação com com o papel (se unidimensional ou multidimencional) e recursos disponíveis.

Se a subsistência do trabalho do atleta está ancorada à produtividade contínua, à superação dos próprios limites e a manutenção de vitórias, o momento de parar pode se dar quando um destes pilares se rui A grande problemática desta abordagem encontra-se na dificuldade que um atleta, imerso em uma carreira esportiva, tem de se estender até outros interesses para construir uma identidade mais ampla, menos vulnerável às incertezas do esporte, mais próxima de situações cotidianas.Todo atleta que passa ou irá passar por essa fase deveria receber suporte, seja este de ordem informal (familiares, amigos, colegas de clube) ou formal (clube, governo, empresa, consultoria, previdência), visto que esse conjunto de recursos é tido como ponto de partida para experiências de mudança mais voluntárias e, consequentemente mais proveitosas.