• Sonuç bulunamadı

Como mencionado no item anterior, Pesqueira nasceu quase ao acaso, em decorrência de um caminho mais acessível que ligava o Litoral ao Sertão, através dos vales dos rios Ipojuca, Ipanema e Moxotó.

Antes da descoberta do caminho pelo sopé da serra de Ororubá, para se fazer a ligação entre a zona litorânea e o Sertão o trajeto era árduo e longo, era necessário dar uma grande volta pelos vales do Ipanema e São Francisco para ir, por exemplo, de Cimbres a Recife 59.

Com a utilização da fazenda ‘Poço do Pesqueiro’ como nova rota para o Sertão, o trajeto ficou mais rápido e menos sinuoso. O que não se podia imaginar é que, por causa desse novo percurso, estava por surgir uma localidade que se desenvolveria de forma fugaz, alicerçada no comércio gerado nas suas porteiras. Verifica-se, portanto, que dois fatores principais acarretaram a rápida evolução de Pesqueira como centro mercantil:

“1.º) a localização. Pesqueira ficava ao sopé da Ororubá, não havia necessidade de se subir a serra por caminhos puxados e penosos.

2.º) ali estava o caminho das boiadas: o ponto de intercepção entre a Capital e o Sertão entrecruzando-se com os caminhos da serra ao norte e de Garanhuns ao sul; e o pouso obrigatório para descanso, mercadejo ou escambo dos almocreves, de arraçoamento das alimárias, de transporte de cargas de toda sorte...” 60.

Antes mesmo de se tornar cidade, o povoado de Pesqueira já concentrava uma considerável atividade comercial, tornando-se um ponto para a troca de produtos, com uma variedade de mercadorias que iam desde produtos agrícolas, couros e peles a outros mais __________________________

59 SETTE, Hilton. Op. Cit., p. 42.

aprimorados trazidos de Recife, como tecidos, calçados, ferramentas, miudezas, etc. Como o povoado se tornou um local de confluência entre o litoral pernambucano e os sertões do São Francisco, passou a ser mais freqüentado e conhecido, o que gerou o seu rápido desenvolvimento.

Devido ao avanço do povoado de Pesqueira, Segundo Hilton Sette, “(...) os povoados de Cimbres, do Genipapo e até do próprio Brejo da Madre de Deus, embora continuassem aparentemente prósperos por mais alguns anos, tiveram a sua sentença de irremediável declínio decretada” 61.

Os viajantes e tropeiros que vinham ou iam em direção ao litoral, acostumaram-se a fazer suas paradas nos brejos úmidos da localidade de Pesqueira, pois lá recuperavam suas forças para as longas viagens. Alguns se hospedavam, outros apenas repousavam por algumas horas, enquanto os animais descansavam e eram reabastecidos. Como a fazenda localizava-se num brejo úmido, a água era farta e havia sempre plantações para suprir os arrieiros. Diz-se, ainda, que foi o espírito hospitaleiro dos donos da localidade o primeiro atrativo para tornar a fazenda ponto de parada para os viajantes.

Para Sette, foi a freqüência dessas visitas cada vez mais constantes feitas pelos tropeiros, que tornou um hábito descer das serras úmidas até a localidade, para a qual levavam seus produtos agrícolas e os trocavam por outras mercadorias com os viajantes e os caatingueiros locais. A troca era feita entre os mais diversos produtos como milho, café, feijão, mandioca, mamona, queijos, artefatos de couro, querosene, tecidos e outros tantos que supriam as necessidades de cada um e assim começou a se formar, naquele lugar, uma espécie de mercado livre 62.

________________________

61 SETTE, Hilton. Op. Cit. p. 45.

62 “A freqüência dessas visitas, dia a dia mais numerosas e demoradas, dos tropeiros em marcha, ora em demanda dos sertões,

ora em direção ao litoral, serviu de motivo a que os brejeiros se acostumassem a descer, de quando em quando, as “serras” úmidas trazendo os seus variados produtos agrícolas e os caatingueiros acorressem de toda parte levando os seus queijos e artefatos de couro, mercadorias que conseguiam trocar pelo pano de vestir, pelo querosene, pelos instrumentos de trabalho e por muitas outras coisas vindas do Recife, tão necessárias às atividades e à subsistência humana em “habitat” rural”. Ibidem, p. 50.

No final do século XIX Pesqueira tinha um movimento mercantil intenso para a época e por conta de sua boa localização, como cidade intermediária entre o Litoral e o Sertão, ocorreu um grande intercâmbio de mercadorias no seu centro urbano, mercadorias que vinham de várias regiões de Pernambuco e até de outros estados, como de Alagoas e da Paraíba.

Em 1880, como relatado, Pesqueira é elevada à categoria de cidade e como a 15ª cidade pernambucana já surgiu numa condição privilegiada, uma vez que se tornava uma das cidades mais conhecidas do interior, por sua atividade comercial.

No ano de fundação da cidade, em 20 de abril de 1880, Pesqueira tinha tão somente trezentas casas de pedra e cal, sem contar os casebres 63, número que rapidamente foi

sendo acrescido com o seu desenvolvimento. No decênio de 1880 a 1890, pode-se constatar que o intercâmbio comercial existente em Pesqueira, como perímetro mercantil, criou recursos e estímulo para que a cidade desenvolvesse outras áreas de interesse dos munícipes, como educação, cultura e entretenimento, aspectos sociais apenas encontrados nas cidades mais proeminentes e adiantadas do Estado.

Pesqueira, na década de 1880, já dispunha de qualificados e dedicados professores públicos, como os docentes Rufino Epifânio Rodrigues dos Santos e Úrsula Cizelina de Andrade Lima, que ministravam aulas no curso primário e o professor Frânclin Minervino Martins, no ensino de latim e francês. Uma importante realização ligada à educação, nesta década, foi a criação de uma sociedade intitulada de Biblioteca Popular de Pesqueira, idealizada pelo professor Rufino dos Santos e que tinha como objetivo precípuo ser uma associação de caráter educacional e beneficente 64.

________________________

63 MACIEL, José de Almeida. Op. Cit., p. 270. 64

A Biblioteca Popular de Pesqueira foi criada através de um estatuto que continha sessenta e seis artigos e da leitura deste estatuto percebe-se a grande preocupação de transmitir conhecimento e disseminar cultura na comunidade, como pode ser verificado em trechos transcritos de alguns artigos, cuja finalidade da Biblioteca era: “Instruir os sócios e o povo; cuidar do bem-estar dos sócios quando os seus lícitos e legítimos interesses o exigirem; promover a instrução por todos os meios, de conformidade com os presentes Estatutos; fornecer roupa e livros aos meninos pobres para freqüentarem as aulas públicas; promover o bem-estar dos sócios e o engrandecimento da Biblioteca”. Ibidem, p. 274.

Como disse o insigne jornalista pesqueirense José de Almeida Maciel, “uma boa iniciativa como que estimula outras”, então, logo após a abertura da biblioteca foi fundada, em 1883, por Tomás de Aquino Almeida Maciel, uma sociedade musical, sinônimo de progresso nas localidades interioranas. Por fim, a década ainda contava com as famosas e movimentadas corridas de prado, tendo sido construída em Pesqueira uma sociedade hípica, chamada de Prado Pesqueirense, considerada uma das mais bem organizadas do Estado e que atraía um grande número de freqüentadores.

Porém, o grande marco para o avanço do município se deu no início do século XX, cujo impulso comercial sobreveio com a chegada dos trilhos da linha férrea Great Western (Great Western of Brazil Railway Limited), que primeiro alcançou Caruaru e São Caetano em 1895, depois Tacaimbó em 1896, Belo Jardim e Sanharó em 1906 e, por fim, chegou a Pesqueira em 1907 65 e durante cinco anos não houve prolongamento das linhas.

Deste modo, a estação ferroviária de Pesqueira era a última parada para o Sertão e foi isso que estimulou o comércio da cidade naquele período, já que obrigatoriamente todos que iam ou vinham do Sertão pernambucano precisavam embarcar ou desembarcar em Pesqueira, fazendo do local um agitado ponto de convergência de pessoas e mercadorias.

Com a chegada da linha férrea, portanto, a cidade de Pesqueira, que era o principal entreposto comercial da região, fez-se ainda mais imponente e teve seu ritmo de crescimento acelerado 66. O trem, diariamente, trazia pessoas que em Pesqueira

desembarcavam para depois seguirem viagem aos seus destinos, assim como também outras tantas pegavam o transporte férreo em direção à capital e durante esse tempo de espera entre um trem e outro, transitavam pela cidade, compravam mercadorias, artigos de necessidade pessoal e até alguns presentes, nas várias lojas de miudezas, para mimosear os parentes e amigos na volta para casa, o que movimentava o centro comercial da cidade.

________________________

65

SETTE, Hilton. Op. Cit. p. 56.

66 “A condição de ponto terminal de linha ferroviária fez crescer enormemente o comércio local, tornando-o mercado onde os

produtores de regiões vizinhas e de grande parte do Sertão de Pernambuco e da Paraíba comercializavam seus produtos, ao mesmo tempo em que se abasteciam dos bens normais de consumo até de equipamentos de produção”. SANTA CRUZ, Pedro et al. Op. Cit., p. 34.

Esse vai-e-vem constante de pessoas dos mais variados lugares, principalmente trazidas pelo trem, fez com que o comércio da cidade fosse diversificando-se e aumentando suas transações econômicas. Até o número de pequenas hospedarias cresceu em virtude dos passageiros vindos do Alto Sertão que, em geral, alojavam-se nas estalagens apenas para pernoitar e depois seguirem viagem 67.

As negociações de compra e venda no ponto comercial da cidade incluíam as mais diversas mercadorias, como mamona, algodão, couros, peles, calçados, tecidos, alimentos em geral, ferragens, miudezas, chapéus, remédios, enfim, produtos variados e que movimentavam o centro urbano de Pesqueira, atraindo de outras localidades comerciantes, compradores, viajantes e espectadores.

A ferrovia, portanto, teve um papel crucial no desenvolvimento do município de Pesqueira, assim como no de outras cidades que souberam aproveitar o transporte férreo para o crescimento econômico. A linha férrea estadual seria um catalisador no processo das relações comerciais entre as regiões, funcionando como um elemento dinâmico da economia agrestina, incrementando a circulação de mercadorias e pessoas no mercado intra-regional 68.

A importância do comércio era tão significativa para a cidade, que até o aspecto físico de Pesqueira, ou seja, sua paisagem urbana, principiou-se na localização das casas de negócios. Pode-se constatar que o antigo bairro comercial, assim como as construções mais remotas, situa-se de forma retilínea no centro da cidade. A urbanização de Pesqueira, destarte, seguiu uma linha reta, como se fosse uma “longa espinha dorsal uniforme onde se encontram as casas comerciais e residenciais que dominam a sua paisagem urbana” 69.

________________________

67

“O comércio, como já ficou referido, cresceu em número e importância econômica das transações de compra e venda, refletindo-se isso no aspecto material, na variedade do sortimento e mesmo na quantidade de lojas e armazéns. Multiplicaram-se as pequenas hospedarias para os que chegavam do Alto Sertão com o objetivo de pegar o trem do Recife e vice versa”. SETTE, Hilton. Op. Cit. p. 57.

68

PATRIOTA, Fernando R. Barros. Industrialização do Caroá no Sertão de Pernambuco: Um Processo Interrompido. Recife: Dissertação de Mestrado, Depto. de História/UFPE, 1992, p. 16.

69 CAVALCANTI, Célia Maria de Lira. A Acumulação de Capital e a Industrialização em Pesqueira. Recife: Dissertação de

Para a época e em comparação a outras cidades, Pesqueira já possuía um número expressivo e diversificado de estabelecimentos comerciais, como demonstra o anuário comercial dos anos de 1902/3, conforme a tabela XI:

TABELA XI

Benzer Belgeler