Após uma breve contextualização histórica do início da industrialização no Brasil e em Pernambuco, finalizando com a evolução mercantil do Agreste, o presente trabalho prossegue direcionando-se, a partir de então, para o município de Pesqueira e para que o estudo se faça mais completo e fiel à abordagem histórico-econômica a que se propõe, torna-se fundamental uma reconstituição das origens e evolução da cidade de Pesqueira, que surgida no sopé da Serra de Ororubá, aos ditames da Vila de Cimbres, firmou-se cidade e se destacou no interior pernambucano.
Como é de amplo conhecimento histórico, a colonização brasileira limitou-se, por longo tempo, a povoar e a explorar apenas as áreas litorâneas, ficando o interior relegado ao isolamento e somente aos poucos foi sendo arduamente desbravado.
Isso se dera, sobretudo, no nordeste brasileiro, onde os atrativos eram pequenos em virtude da predominância de terras pouco férteis, ausência de grandes jazidas de minérios e pela hostilidade do próprio clima, já que a natureza não se apresentava mais rica e mais útil a qualquer exploração.
No Agreste pernambucano, especificamente, os sinais iniciais de colonização principiaram-se no século XVII. Na região agrestina as serras tiveram papel importante na formação dos primeiros grupos de habitantes, onde se destacavam como regiões de brejo, com relevos de cerca de mil metros de altitude, as serras do Brejo da Madre de Deus, do Acahy e de Ororubá.
Na serra de Ororubá, por força de sua uberdade, alguns silvícolas da tribo Ararobás que pertenciam à nação dos Tapuias, tida como a mais antiga do país, ali viviam
desde tempos mais remotos. Essa tribo dos Ararobás, contudo, foi invadida pelos Xucurús e Paratiós, que nessas mesmas terras, de clima mais úmido, desenvolveram uma agricultura de subsistência, o que posteriormente atraiu fazendeiros e boiadeiros para a região 33.
Os índios Xucurús e alguns Paratiós ocuparam as chapadas da Serra de Ororubá e eram seus únicos habitantes até mais da metade do século XVII, quando se deu de fato a colonização do interior da Capitania de Pernambuco. Assim, pode-se imaginar quão vasto território do Agreste e Sertão era despovoado.
Esses índios que habitavam a Ororubá vieram para a região agrestina fugindo da ocupação da Zona da Mata, pois temiam serem escravizados pelo avanço do plantio de cana de açúcar, cultura predominante dos interesses europeus. Com base numa análise feita por Darcy Ribeiro sobre os índios em Pernambuco, confirma-se o relato anterior de que grupos indígenas “(...) foram compelidos a abandonar as antigas aldeias, transformadas em vilas, e a acoitar-se mais longe, como os Xucurús, da serra de Urubá, em Pernambuco (...)” 34.
O caminho de fuga que os índios fizeram foi propositalmente o oposto dos caminhos utilizados pelos boiadeiros e com esse traçado chegaram pela Chapada da Borborema aos brejos úmidos da serra de Ororubá. Porém, há informação de que havia alguns Xucurús em locais mais afastados da região de Cimbres 35.
Os índios de Ororubá, cuja aldeia chamava-se Urubá, desciam a serra com suas lanças, flechas, puçás e timbós apenas para pescar nos poços que no sopé da serra abundavam de peixes e também para caçar, principalmente pássaros. A propósito, muito se divaga sobre o vocábulo Urubá: “segundo Alfredo de Carvalho, é corrutela de Urú-ibá, fruta do urú (gênero de aves galináceas ainda existentes na serra); também onomatopaico de várias perdizes pequenas. Ororobá na definição de Mário de Melo: palavra duvidosa, provavelmente cariri.
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33
Sobre os grupos indígenas de Pesqueira da serra de Ororubá há maiores informações em: SOUZA, Vânia R. Fialho de P.
As Fronteiras do Ser Xukuru. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1998.
34 in: Os Índios e a Civilização. Rio de Janeiro: Civilização Brasilerira, 1970, p. 56. 35 WILSON, Luís. Minha Cidade, Minha Saudade. Recife: s. ed., 1972, p. 66.
Sendo Tupi, pode provir de uru-ubá, o fruto do pássaro, provável corrutela de arara-ubá, fruto de arara” 36.
Com a expansão da monocultura da cana e o crescimento dos engenhos na Zona da Mata, os desbravadores, então, perceberam que já era o momento de adentrar na Capitania de Pernambuco em direção ao Agreste, avançando no território a fim de descobrir a fauna, a flora e os habitantes da região.
Enquanto os índios desfrutavam de sua liberdade e de um vasto território intocável no interior da Capitania, no litoral, mais precisamente na capital da província, travava-se uma luta política e territorial com as invasões e, posteriormente, expulsões dos estrangeiros franco-holandeses.
Com o retorno de Maurício de Nassau à Holanda, em 1644, o arguto João Fernandes Vieira, que antes era colaborador dos batavos, passa para o lado português e se torna líder na guerra contra os holandeses em Pernambuco. Seu interesse em derrotar os holandeses não possuía nenhum cunho patriótico, pelo contrário, almejava apenas se apossar de terras ainda intocáveis.
“Homem muito esperto, previdente, oportunista, João Fernandes Vieira, após alcançar as duas espetaculares vitórias sobre os holandeses no morro dos Guararapes, em 1649, trata de pedir ao rei de Portugal toda uma série de vantagens e concessões pessoais, movimentando seus requerimentos em Lisboa através de Gaspar Berenguer, seu procurador no reino. Assim, entre outras várias solicitações, destaca-se uma referente a dez léguas de terra a começar da última sesmaria da parte de Santo Antão para o interior, comprometendo-se a conquistá- las aos índios e povoá-las” 37.
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36
MACIEL, José de Almeida. Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres. V. 1. Recife: CEHM/FIAM, 1980, p. 113.
Em 1654 encerra-se o período de domínio holandês no Brasil e, três meses depois, o rei de Portugal D. João IV, em agradecimento à façanha dos colonos, faz uma doação de grande parte do Agreste pernambucano, na qual estava inclusa a Serra de Ororubá, ao mestre-de-campo João Fernandes Vieira, pelo seu feito nas grandes vitórias logradas durante a expulsão dos holandeses, tornando-o proprietário “da sesmaria de dez léguas de terra em redondo, a contar do último morador que se achasse para as partes de Santo Antão em Pernambuco” 38.
Em 04 de outubro de 1666, João Fernandes Vieira toma posse de suas terras e nelas assenta vaqueiros e gado, fundando naquela região agrestino-sertaneja várias fazendas de criação. Assim se inicia, oficialmente, a colonização daquela serrania.
A sesmaria de Ararobá, que seria posteriormente denominada de Cimbres, abarcava mais de vinte léguas de extensão, abrangendo uma base geográfica onde atualmente estão inseridos cerca de vinte municípios pernambucanos 39, entre os quais: Alagoinha,
Altinho, Arcoverde, Belo Jardim, Bonito, Buíque, Brejo da Madre de Deus, Custódia, Garanhuns, Inajá, Pedra, Pesqueira, Sanharó, São Bento do Una, São Caetano, Sertânia, Taquaritinga, Venturosa e Vertentes 40.
Muito embora a sesmaria de Ararobá despertasse o interesse dos primeiros colonizadores em conseguir hectares de terra na região, mostrava-se unânime a intenção de todos eles de conquistarem algumas terras na área das serras, visto que estas eram providas de água, possuíam um solo fértil para a agricultura, com abundância de frutos, e o clima era muito aprazível. Deste modo, “nos pedidos de doação de terras preocupavam-se os futuros sesmeiros com que suas sesmarias se estendessem até as serras, nos brejos, pois as pessoas que ficassem a tratar do gado, necessitavam de gêneros alimentícios para o próprio abastecimento” 41.
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38 Ibidem, p. 30. 39
MACIEL, José de Almeida. Op. Cit., p. 114.
40 GALINDO, Givanildo. Reminiscências de Um Pequeno Mundo. Pesqueira: s.ed, 1996, pp. 37-38. 41 ANDRADE, Manoel Correia de. A Pecuária no Agreste de Pernambuco. Recife: s. ed., 1961, p.56.
Com a intenção de cristianizar os silvícolas, aportaram na Aldeia de Urubá, com o consentimento do dono da sesmaria de Ararobá, os primeiros missionários catequizadores e o primeiro deles a subir a serrania da aldeia foi o pe. João Duarte do Sacramento, responsável pela fundação da aldeia indígena de Nossa Senhora das Montanhas ou aldeia de Ararobá, em 1669, que depois se tornaria Vila Cimbres e, mais à frente, faria parte do município de Pesqueira 42.
Como João Fernandes Vieira havia se tornado um dos homens mais ricos da colônia e não estava conseguindo administrar todos os seus negócios, decidiu vender boa parte de suas terras da enorme sesmaria agrestino-sertaneja ao tenente-coronel Manuel da Fonseca Rego e o restante deu como doação à Congregação de São Felipe Néri, que mais tarde conseguiu comprar de Fonseca Rego suas terras e as reuniu as outras propriedades de Ararobá. Assim, a congregação fundou sua missão no povoado chamado de Monte Alegre 43,
passando depois a ser denominado de Cimbres que, em 1692, foi fundada pelo bispo Dom Matias de Figueiredo e Melo, tornando-se a primeira paróquia do interior pernambucano.
Cimbres recebeu o honroso reconhecimento de Vila Nobre e Real e a Igreja de Nossa Senhora das Montanhas, que assim teria sido chamada por ter sido encontrada uma imagem de Nossa Senhora pelos silvícolas, sobre o tronco de uma craibeira, configurou-se como a primeira Matriz do Agreste.
De acordo com registros históricos, alguns importantes nomes da história nacional passaram por Ararobá. Em 1680, por exemplo, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, acompanhado de aproximadamente mil homens, teria atravessado a sesmaria de Ararobá, vindo do sertão do Rio Grande do Norte, através do Piancó, para combater os negros foragidos no Quilombo dos Palmares, assim como por lá também passou o revolucionário pernambucano Bernardo Vieira de Melo, que deixou residindo na serrania cento e sessenta e seis praças, inclusive seu filho, Antônio Vieira de Melo, que permaneceu em Ararobá até meados do século XVIII 44.
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42 SANTA CRUZ, Pedro et al. Op. Cit., pp. 31-32. 43 Ibidem, p. 32.
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O nome de Cimbres, embora para alguns filólogos signifique em dialeto indígena ‘lugar de ensino’, para os historiadores não tem relação com a linguagem indígena, pois foi um termo designado pelo governo português com a intenção de nacionalizar a colônia. Portugal havia determinado que os nomes indígenas dos povoados fossem substituídos por outros mais expressivos e comuns no Reino, alterando, portanto, a antiga aldeia Urubá por Cimbres, que já era o nome de uma freguesia existente em Portugal 45.
Antes de Cimbres se tornar sede de município, apenas cinco outras localidades a precederam na hierarquia civil de vilas oficializadas em Pernambuco: Igarassú, 1535; Olinda, 1537; Sirinhaém, 1627; Recife, 1709 e; Goiana, 1742 46. Leve-se em consideração que
estas povoações situavam-se no Litoral e Zona da Mata, o que demonstra a importância e tradição de Cimbres, por ser uma comunidade localizada no distante interior agrestino.
Em 03 de abril de 1762, Cimbres passou a ser considerada vila e sede do termo e a partir de então contava com um juiz ordinário, um diretor dos índios, o Senado da Câmara e cartórios. A Comarca de Cimbres exercia uma jurisdição tão importante quanto sua extensa área territorial, cuja atuação legal prolongava-se do agreste pernambucano às fronteiras do Sudeste.
A ascendência de Cimbres no interior da província era notória, principalmente pela atuação do Senado da Câmara, cujas sessões tratavam dos mais diversos assuntos, desde a imposição de multas e penas até pormenores como, por exemplo, o combate à sujeira, limpeza da vila, pureza das águas e higiene, como citado no trecho transcrito da ata da sessão de 09.08.1830, publicado no Jornal A Voz de Pesqueira em 15/08/1948:
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As várias designações utilizadas para descrever a mesma área gera, muitas vezes, uma grande confusão lingüística a respeito das origens de Pesqueira, por isso, fazem-se necessárias algumas considerações: a antiga aldeia dos índios Xucurús chamava-se Urubá, enquanto a serra onde situava-se a aldeia era denominada de Ararobá ou Ororobá. A aldeia indígena de Urubá passou a ser chamada pelos Jesuítas de povoação de Monte Alegre, posteriormente, o governo português determinou que fosse chamada de Cimbres. Hoje, Cimbres é um distrito de Pesqueira, a aldeia tornou-se reserva indígena Xukuru, com área de mais de 27 mil hectares demarcados pelo governo federal, e a serrania que envolve o Município de Pesqueira chama- se Ororubá.
46 CAVALCANTI, Bartolomeu. No Tacho, o Ponto Desandou – História de Pesqueira, de 1930 a 1950. Recife: Tese de
“Presidente Lourenço da Silva Cavalcanti. Comparecem os vereadores José Claudino Leite, João Florentino e padre Manuel Henrique. Aberta a sessão o presidente designou os trabalhos do dia: ofício do juiz de Paz da freguesia do Bréjo. Entrou em discussão o cuidado que deveria ter a Câmara de alguns objetos tendentes à limpeza desta vila e purêza das águas do tangue da mesma sobre o que assentou publicar por edital e postura seguinte, vedando toda lavagem de roupas, fatos, cavalos, couros cortidos ou deitar de môlho em cabêlo, e tudo quanto fôr imundo dentro do açude desta vila, com multa de 200 réis pela primeira vez e daí a dobrar segundo as reincidências, e aos indigentes 24 horas de prisão na fórma sobredita. (...)” 47.
Praticamente cinqüenta anos depois, em 1810, a vila de Cimbres, por resolução do Capitão-general Caetano Pinto de Miranda Montenegro, tornou-se sede da Comarca do Sertão de Pernambuco, ou seja, foi a terceira comarca criada na Capitania de Pernambuco, cuja jurisdição começava em Garanhuns e se estendia até os limites com Minas Gerais 48.
A supremacia interiorana da vila de Cimbres, contudo, começou a enfraquecer devido a dois acontecimentos relevantes: a criação da Comarca do Brejo da Madre de Deus, que reduziu a amplitude da Comarca de Cimbres e o surgimento de uma nova localidade no sopé da serra de Ororubá, a fazenda Poço do Pesqueiro, futura cidade de Pesqueira, que por sua fácil localização alterou o trajeto rumo ao Sertão.
Pelos idos de 1800, o Capitão-mor Antônio dos Santos Coelho da Silva, riquíssimo português que residia na fazenda Genipapo, provavelmente umas das maiores fortunas do interior pernambucano, concedeu que sua filha, Clara, casasse-se com o Capitão- mor Manoel José de Siqueira, dando como dote de casamento uma fazenda no sopé da serra de Ororubá, na qual ficavam os poços de pescaria que serviram, remotamente, como local de pesca dos índios Xucurús.
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47 MACIEL, José de Almeida. Op. Cit., p. 64. 48 Ibidem, p. 126.
O Capitão-mor Antônio dos Santos Coelho da Silva, sogro do fundador de Pesqueira, Manoel José de Siqueira, e avô de grandes personalidades da história pernambucana, como o Dr. Domingos de Souza Leão, 2º Barão de Vila-Bela e o célebre conselheiro Paes Barreto, residia na fazenda Genipapo, situada a vinte e quatro quilômetros da propriedade que dera a seu genro, vindoura Pesqueira 49. Antônio dos Santos Coelho, no início
do século XIX, concentrava um dos maiores patrimônios de Pernambuco, o que pode ser averiguado através da descrição de bens do seu espólio, cujo inventário é datado de 1822.
No inventário de Santos Coelho, verificou-se um elevado número de escravos, mais uma confirmação da afamada riqueza do de cujus, que possuía um total de quinhentos e dezesseis negros, distribuídos em suas diversas fazendas, como se observa na tabela abaixo.
TABELA X
ESCRAVOS PERTENCENTES A ANTÔNIO DOS SANTOS COELHO